O poeta corta a grama e o capim do seu pátio com facão. É que a erva está muito alta. Disse que prefere o mato à grama bem aparada porque os pássaros vêm comer as sementes. Essa é uma explicação tão bonita que a vizinhança, depois de ouvi-la, ficou ainda mais irritada.
A comunidade está indignada, apontando dedo com propriedade. Algo está fora do lugar. Caprichosa, exige pátios limpinhos, grama aparada. Ou seja: a grama tem que estar em forma de grama, não de capim. O capim é o capim da desordem. O capim é o cabelo despenteado da natureza. E ninguém quer natureza despenteada na porta de casa, exceto o poeta, que é obviamente comunista.
A coletividade tem olhos pra tudo, ora bolas! Não bastam as câmeras de segurança observando do alto dos postes, em cada esquina. Tem câmera, tem vizinho, tem cachorro que late pra tudo. É o Big Brother versão condomínio fechado, só que sem prêmio no final.
Flagraram um jovem casal mandando ver dentro de um carro, na sombra de uma árvore, uma e meia da tarde, numa rua sossegada. Sempre leio os comentários junto às postagens que rolam nas redes sociais. Não leio pra me informar. Leio pra me alimentar. É o meu fast food intelectual.
"A praia é responsável por tais fatos porque não dispõe de motéis com preços acessíveis pra essa juventude que anda com o sexo flamejante". O sexo flamejante. Parece nome de banda de rock dos anos 80. Ou de doença venérea descrita por um médico do século XIX.
"Criticar a juventude é pura inveja de quem, faz tempo, não sabe como é legal uma boa trepada". Este comentário, confesso, me tocou. Faz tempo que não sei como é legal uma boa trepada. Faz tempo que não sei como é uma trepada ruim. Faz tempo que não sei nem como é uma trepada mediana. Estou fora do mercado. Sou o desempregado do sexo.
Foram tantos os comentários, enfáticos, cortantes, alucinados. A internet é o lugar onde todo mundo é juiz, padre e comentarista de futebol ao mesmo tempo. E ninguém precisou fazer concurso pra isso.
Os cães de minha rua adoram circular no meio das pessoas, olhares esbanjando alegria e prazer, ainda mais quando ganham sobras de comida nuns pubs. Não sonham com terrenos, casas, lotes, chácaras, nem correm até as dunas pra baterem uma ou se masturbarem diante de crianças e senhoras, como o fazem alguns pervertidos - sim, de vez em quando eles aparecem por aqui. Os cães são mais civilizados que parte da espécie humana. Os cães, pelo menos, pedem licença antes de cheirar você.
O certo é que a comunidade está em polvorosa e exige soluções urgentes das autoridades. A comunidade adora exigir soluções urgentes. É o hobby favorito dela, depois de criar os problemas.
Dia desses, numa caminhada de uns onze quilômetros na praia, eu e minha musa decidimos investigar e "caçar" esses tarados que todo ano botam as manguinhas de fora. Pra viabilizar nosso plano, levantamos ferro todos os dias na academia. Levantar ferro, aos nossos anos, é um ato de fé. É acreditar que o corpo ainda responde aos comandos, mesmo quando o espelho sugere o contrário.
Disse a ela que no início deste século eu era bom de briga e me especializei em dar voadoras, atingindo a altura do peito de meus detratores. Meu amor, musa e escudeira, olhou-me de lado, num misto de riso e dúvida, e não se conteve:
- Desista da ideia, amoreco. Tu já não tem idade pra isso.
E acrescentou, com aquele sorriso que me derrota há trinta anos:
- Além do mais, tu nunca soube dar voadora. Tu dava cambalhota e caía de bunda. Eu lembro. Eu era a plateia.
Fiquei em silêncio. A voadora era, de fato, uma cambalhota. A altura do peito era a altura do meu próprio peito, quando eu caía sobre ele. O detentor da voadora era, na verdade, a gravidade. E eu, seu humilde discípulo.
Resolvemos, então, abandonar a caça aos tarados e ir tomar um chope. A academia já tinha sido suficiente punição pro corpo. E a praia, afinal, continua sossegada - não porque os pervertidos sumiram, mas porque a gente aprendeu a não olhar pra duna errada na hora errada.
O poeta, aliás, continua com o capim alto. E os pássaros continuam vindo. A comunidade continua indignada. E eu continuo casado com a única pessoa do mundo que viu minha voadora e não fugiu. O que prova que o amor, diferente da grama, não precisa de aparador. Só de testemunha.
(B. B. Palermo)
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