O ateu que frequenta centro espírita
O ateu que frequenta centro espírita é uma contradição ambulante - e eu me incluo nesse grupo. Além de não acreditar em nada, atribuo meus deslizes etílicos a entidades astutas. É conversa inútil, cerveja que evapora e uma névoa que embaralha as ideias. No dia seguinte, a ressaca me sufoca. Alguns chamam isso de espírito obsessor. Eu chamo de falta de vergonha.
Amoreco percebe e tem um radar emocional de dar inveja à NASA. Me deixa sofrer, só observando, na pose de “eu avisei”. Amo quando ela repete verdades óbvias que eu esqueço - culpa, claro, da tal entidade invisível.
Simpatizo com mundos paralelos. Sou ateu, mas fã da frase “en brujas no creo… pero que las hay, las hay”. Sou ateu e frequentador de centro espírita.
Nosso romance pega fogo quando ela diz:
- Senhor ranço… Te aquieta, senão a chinela vai cantar!
Depois me agarra, me derruba e me sufoca com acessórios que fariam espíritos cochicharem no além. Logo corta o barato:
- Sossega, rancinho. Amor não é só sexo. Vai ler teu livro.
Ah, a meia-idade… A gente quer quantidade antes que o corpo entre em recesso.
Dormir junto, então, é uma ciência exata que eu nunca aprendi. Minhas patinhas congelam no outono, enquanto ela dorme com um lençol, fervendo como caldeira. De conchinha, viro sauna humana.
E há os meus sonhos. Quando exagero na comilança, passo a noite jogando futebol. Ontem, sonhei que jogava contra adolescentes que me driblavam brincando. A cada humilhação, revidava com carrinho - e na cama isso virou chute e voadora. Amoreco acordou achando que eu estava tendo um treco ou um ataque de sinceridade.
Quando viu o lençol encharcado, achou que eu tinha virado o Santo Sudário.
Posso ser cético e ateu convicto. Mas quando a vida apronta, quando o amor perde a paciência… aí eu me pego sentado, humilde, tomando passes num centro espírita.
Ateu sim. Mas frequentador fiel. Porque, no fim das contas, ninguém é tão ateu assim quando precisa de ajuda para compreender o invisível - ainda mais se for o invisível que mora dentro da gente.
(B. B. Palermo)
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