Desenvoltura de bailarina, cabelos curtos num tom que rimou com os olhos, sem querer. Dança desde que o mundo é pequeno, fotografa o que vê e ainda pensa em salvar vidas. Medicina, quem sabe. Tem 16 anos e toda a paciência do universo pela frente.
Somos amigos desde que éramos só gente pequena fazendo careta. Ela se espeta no mundo com essa liberdade: a toda hora larga velhas escolhas e parte pra outra, leve como quem troca de roupa. Eu, invejoso, de cara feia de admiração.
Embora amigos, ela corou. Eu também. Faz parte, suponho, desses encontros de acaso que só acontecem em parada de ônibus, no centro, entre uma ida e outra.
Prefiro o tremor do transporte público ao conforto do carro. Me perco nos olhares alheios - e se não fosse ali, naquele ponto específico, nunca teria me perdido no olhar dela - da cor do mar num dia de ressaca.
Bons estudos, pais presentes, futuro promissor. E eu? Um coroa meio poeta, bebendo aos tragos dessas fontes cristalinas, afobado, agradecido. Tanta novidade, tanto susto - e logo o ônibus chegou, e logo nos despedimos. Depois, no silêncio, veio a dificuldade: será que falei rápido demais? Será que navegamos em gerações diferentes? Ou em mundos mesmo, paralelos, que só se tocam em pontos de ônibus?
Ela: "jovem e forte", sem saber o poder que carrega. No limiar da adolescência, a meio passo da vida que vem. Eu: o Palermo pedalando na subida, ofegante, da meia-idade.
Foi lindo. Não foi choque de realidade, foi choque de juventude, essa coisa que não se pede e não se devolve.
O anjinho não se estressa com doces nem frituras, não se resigna a meia dúzia de folhas de alface, nem conhece o gosto amargo dos adoçantes no café. O mundo se descortina diante dos teus olhos verdes - pensei, quando desci do ônibus. Mas não tive tempo, nem coragem, de dizer.
O poeta aqui perdeu o medo de tropeçar. De despencar em qualquer direção, inclusive no abismo. Só que agora, sabendo que ela existe, tão viva, o abismo virou fascínio.
Acho que ela mora a dois passos do paraíso. E eu, a dois passos de pedir outra passagem só pra ver se ela ainda está ali naqueles olhos da cor dum mar com ressaca.
(B. B. Palermo)
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