domingo, 11 de novembro de 2018

Laos: eu me preocupo com quem não lê - Fernanda Pandolfi


Deixa eu contar aqui: meu português não é bom. Não é. Sei pouco das regras. Crase? Odeio. Os porquês? Nenhum sentido. Concordância: bastante dificuldade. Esse texto que você lê agora está bonitinho porque a Gabriele Branco revisa ele para nós. Mexe aqui e ali e puxa minhas orelhas quando passo muito do limite. Mas aí você diz: ah, vá, conta outra. Como pode ter o português ruim e querer ser escritora? Como pode dizer que sabe nada e ter feito 23 acertos das 25 questões na prova de português da UFRGS? Lógica, meus amigos. A simples lógica. Quando aluna, eu não entendia como meus colegas podiam ter tanta dificuldade na matéria. Para mim, era evidente. Eu lia a frase, às vezes em voz alta, e entendia se fazia sentido ou não. Se encaixava. Interpretação, então? Puts, parecia zoeira. Só lia obviedades.
É um resultado da infância. Dos livros de pano que eu brincava na banheira ainda sem saber ler. Do “Uma História por Dia” que os meus pais liam todos os dias antes de eu dormir. Minha vó conta que por vezes, tarde da noite, ela cansada, tentava pular as páginas ou resumir o trecho do livro, mas não me enganava: “Tá errado, vó, volta!”. Era quase um jogral, tamanha minha ansiedade em entender as letras de uma vez por toda. Não fui prodígio, aprendi o bê-á-bá no tempo normal. E me agarrei às páginas que se abriam à minha frente. Às revistinhas da Turma da Mônica que chegavam mensalmente lá em casa e eu economizava para não devorar tudo na mesma tarde. Às coleções do Erico Verissimo, Monteiro Lobato e aos contos de fada que se empoleiravam na estante. E aí, numa crescente para Pedro Bandeira, Os Karas, a biblioteca da escola, Agatha Christie, Sidney Sheldon, e até as leituras obrigatórias de sala de aula – que à época eram chatas para caramba, mas eu encarava até o final, mesmo sem entender bulhufas (tchê, recomendem livros com temas que interessem aos pré-adolescentes). Foi assim que eu aprendi Português. Assimilei. Tipo os números de vocês.
Eu lia e via se o negócio era coerente ou não. As regras ficaram para depois.
Então vocês imaginam o meu choque ao me deparar com um país que ocupa a posição de número 18 dos lugares com menos acesso à literatura do mundo. O Laos. O dado atual mostra que pouco mais da metade da população vai à escola (61%) e, dessa parcela, a maioria só teve acesso aos livros didáticos ou textos entregues no colégio. Vamos calcular o quê? Menos de um quarto da sociedade pegou, cheirou, apreciou, folheou, dobrou uma orelha de burro para marcar uma página, sublinhou com caneta marca-texto, deixou para terminar o capítulo no outro dia. A experiência da literatura segue um desafio para o país. Livros são artigos raros, quanto mais livrarias e bibliotecas. Outra questão é pertinente: como consequência, quase não há autores na língua local. Quando os laosianos leem, recorrem à língua inglesa ou francesa. Ou seja, há também uma forte campanha em prol do ensino destes idiomas na região. Difícil.
Eu me preocupo com quem não lê. Não só pela questão do português, ou da gramática da língua que for. Livros são companhia, fuga, fantasia, miragem, poesia, amor, saudade, insights. Nestes seis meses na estrada, li uma média de um título a cada 10 dias. Se estou triste, então, mergulho de ponta-cabeça nos personagens, nas frases, naquele universo ali encadernado. Sou capaz de ficar horas presa no quarto do hotel, imersa, fechada, transportada. Quando terminei a saga de “A Amiga Genial”, de Elena Ferrante, no Camboja, senti que um pedaço meu tinha ficado preso naquelas páginas, fiquei sozinha. Que loucura, né? Aí que me refiro. Por isso me preocupo. Tenho a impressão de que quem não consegue se conectar a um livro tem dificuldade de viajar. Não se permite criar, entrar em devaneios, imaginar pessoas, cenários e contextos.
Livros dão ideias. Por isso foram queimados em diversos países enquanto na repressão ou ditadura. Propagam magia. Bruxaria, mesmo.
Tenho sorte, por exemplo, de ter criado um Harry Potter bem diferente de Daniel Radcliffe na minha mente. Ninguém precisou me induzir a visualizar o personagem. Eu consegui desenhar ele na minha imaginação, com a ajuda de J. K. Rowling, óbvio, bem antes do cinema. Sei de quem tenha aliviado a depressão atrás das letras e frases bem formuladas. Eu uso o meio como remédio contra a solidão, o tédio, a insônia, a falta de inspiração. Por isso temo pelas crianças do Laos e penso o quanto aquela vida dura de um lugar carente de tanto poderia ser aliviada, em partes, por um emaranhado de sílabas. Talvez seja ingenuidade minha, mas me parece um antídoto simples para o veneno da realidade.
E você aí, não lê porque sim. “Não gosto”. A gente só não gosta do que não entende. “Não tenho tempo”. Mas passa horas jogando Candy Crush. “Tenho dificuldade de concentração”. Troca o livro ou o ambiente, provavelmente, você não se identificou. “Não quero”. Ok, aí estamos conversando. Entendo que existam outras prioridades, outros caminhos e aquela preguiça de imaginar. Dá um trabalhão invocar a criatividade e colocar o pé para fora do quadrado, mais econômico assistir séries em série. Mas, vem cá, se sobrar um tempo, manda os teus livros empoeirados para L’Etranger Books and Tea: P.O Box 148, Luang Prabang, Laos, 06000, e dê a chance para uma população carente de sonhar.

Outras maneiras de ajudar o Laos a ler:

Big Brother Mouse: O projeto já publicou cerca de 30 livros, a maioria por crianças que são treinadas por professores voluntários. Qualquer doação é bem-vinda – você pode também “patrocinar” um livro.
The Language Project: Auxilia as crianças a aprender inglês e monta bibliotecas em escolas e templos para incentivar a literatura. A maneira de ajudar é doar milhas áreas para bombar a lista de livros do projeto no Amazon.com.
(Zero Hora/revista Donna, 10 e 11 de novembro de 2018)

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

A princesa e o pirata – Rachel de Queiroz



FOI só alguns dias depois do fatal piquenique em Paquetá que eles dois apareceram. A maré trouxe primeiro o corpo da moça, logo identificado por causa do maiô de sarongue, todo de flores amarelas. O dele apareceu mais tarde, a uns cem metros de distância. Coitado, nem então ficaram juntos. Identificar não o identificaram propriamente, que não dava para isso, tal o estrago feito pelos peixes. Mas se quase de par com o corpo dela outro corpo aparecia, tinha que ser o dele, pois não? No fim das contas, não se dera pela falta de mais ninguém, só daquele casal.

A primeira vez que a viu foi no baile da primavera, no seu clube de subúrbio. Estavam elegendo a rainha do mês de maio, ela corria na frente do páreo. Afinal, se rainha não saiu, por causa de uma dúzia de votos, saiu contudo princesa, teve seu trono de veludo ao lado do trono maior, também ganhou brinde e também foi coroada. Ele teve a honra de ser o seu par na hora da valsa real, que foi, como sempre, o Danúbio Azul. E quando a sentiu nos braços, apertou-a como coisa sua e lhe disse no ouvido:
- Pode você só ter chegado a princesa, e nem isso carecia de ser: para mim há de ser sempre uma rainha...
Ela porém o afastou de si, não zangada, mas dengosa, se ofendendo:
- Não atraca, seu pirata, que isto aqui não é cais do porto.
Talvez falasse assim, linguagem marítima, em homenagem à farda que ele vestia: a túnica cor de sangue, a calça branca engomada, e o casquete matador, posto de lado no cabelo repartido, com as fitinhas pretas tremulando no ar, aos rodopios da valsa. E nem o par da rainha, o presidente do clube, tinha um décimo sequer do airoso aprumo do par da princesa, - tudo de acordo com a ordenança militar: barriga para dentro, peito saliente e olhar terrível.

Com tudo isso, não foi dessa vez que a começou a amar e seu cativo se tornou, como se a ela pertencesse de tinta e papel.
Foi no outro dia em que estava sentado à toa no banco da praça e viu descendo do bonde um par de sapatos desses que chamam de ballet, e umas pernas de garrafa, e o joelho redondo, e a barra da saia estampada. Só então levantou os olhos, viu-lhe a face e o lenço do cabelo, viu os olhos e viu-lhe os brincos de arrecadas à portuguesa. E a boca tão pintada, que parecia uma flor de papel pregada no meio do rosto, e o pescoço delgado saindo do laço da gola, e a cinturinha fina apertada no cinto de oleado. Por fim, deixou de a olhar assim, pedaço por pedaço, reconhecendo aquela cintura onde pusera a mão, os olhos e o cabelo: fitou-a em conjunto e logo recordou quem era. Quem seria senão a princesa do mês de maio?
E ao reconhecê-la assim, foi como um cachorro de rua que encontra a dona e não quer mais se apartar dela. Chegou para perto e se entregou. Disse tudo, ofereceu tudo. Princesa tão perigosa há muitos anos não havia. Por ela diz-que dois malandros já se pegaram a navalha, um chofer se suicidou com formicida, um pai de família largou a família, três noivos deixaram as noivas, cinco estudantes sentaram na praça e sete funcionários públicos deram desfalque.
- E eu – que poderá fazer o triste de mim, princesa, que sou apenas um pobre naval apaixonado? Me matar não posso, porque do vosso amor já morri. Matar outros – mas antes que deles eu chegue perto, sei que o vosso olhar os matou. Sentar praça já sentei; dar desfalque – como seria, se a mim não confiam nada? Largar família – ai de mim, princesa, que me criei enjeitado, nunca tive esposa ou noiva; vós é que sereis minha gente e meus amores, pai e mãe que nunca tive, filhos, sobrinhos e netos! Princesa, deixe que eu amarre o cordãozinho do vosso sapato. Deixe que eu deite no chão para você pisar. Maltrata, princesa, maltrata, que estás maltratando o que é teu!
Assim falava o naval apaixonado. A princesa, se o escutava, fingia que estava longe. E a bem dizer fez tudo que ele mandava e depois fez muito mais: pisou, judiou, escarneceu, desprezou – embora só moralmente, com o sorriso desdenhoso e a palavra de pouco caso dita na ponta do beiço.
Como seu, só o aceitava para maltratar, com outros saía, com outros dançava. Ele porém não a largava, sempre a acompanhando, sempre a alguns passos no seu rastro, e se não o comparo com uma sombra é porque sombra não sofre e o pobre sofria muito.

Afinal sucedeu o piquenique em Paquetá. Nem uma vez ela o olhou durante a hora e meia da barca. Nem uma vez lhe falou entre embarque e desembarque, e o passeio de bicicleta e depois o banho de mar. Mas foi na hora do banho de mar que ele sumiu de repente e voltou minutos depois remando numa canoa. Passou bordejando por ela, que boiava na flor da água como uma alga amarela no seu maiô de cetim. Como se brincasse, ofereceu carona. E ela, num capricho, aceitou. Quase virou o bote ao subir nele. Ele ficou na popa onde estava e não a tocou sequer, procurando ajudar. Depois puxou pelo remo, e a pequena embarcação se escondeu por trás da Pedra da Moreninha.
O que se passou naquele barco só Deus saberá. Os companheiros foram dar pela falta dos dois quando desceram da barca da Cantareira. E assim mesmo pensaram que o par tinha se sumido de propósito no meio da multidão.
O homem do restaurante em Paquetá é que estranhou o seu bote aparecer emborcado. E como se disse no princípio, só depois de vários dias é que os peixes e a maré devolveram os dois banhistas.

(Do livro Quatro vozes. Editora Record.).

terça-feira, 6 de novembro de 2018

Nos tempos em que se tem opinião pra tudo


Arte do chá - Paulo Leminski

ainda ontem
convidei um amigo
para ficar em silêncio
comigo

ele veio
meio a esmo
praticamente não disse nada
e ficou por isso mesmo

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Flores, moedas, mortos e muito lixo


O bêbado do meu bairro mudou de estratégia
para conseguir algumas moedas para comprar cachaça.
Ontem trouxe uma planta para que eu cultivasse no quintal.
Era uma dessas flores, parecida com copo-de-leite.
Não cultivo flores, apenas algumas hortaliças.
Alcancei-lhe umas moedas e pedi que desse a planta a algum vizinho.
Hoje trouxe uma planta florida.
Deve ter arrancado do jardim de sua mãe.
Estava sem moedas, não abri a porta,
fiz de conta que não estava em casa.
A mãe frequenta a igreja regularmente e mantém as oferendas em dia.
Mães foram feitas para amar e sofrer.
Não é por acaso tantas orações e promessas.
Se ele esqueceu de botar a tampa no tubo do creme dental,
ela vai ao banheiro e o faz.
Nas semanas de abstinência devido ao uso do álcool,
e da insônia que bate à porta,
ela compartilha com o filho tarjas pretas e noites mal dormidas e
redobra visitas à igreja.
O filho, alto, seco, rosto sofrido, tem uns trinta anos e
aparenta ter uns sessenta.
Insetos do bairro alardeiam, mais indiferentes do que tristes,
que ele não passa desse ano.
Eles acreditam que o sujeito não deu certo nesse mundo.
Ao contrário, eles são os tais, com seu trabalho e esposa e amante e
novela e rotina cheia de crenças e pobre de novidades.

À tardinha abro a porta, vou à padaria buscar queijo e pães.
Havia uma planta no degrau da porta da frente.
Devo ser pouco espirituoso, mesmo assim um frio
atravessou-me por todos os quadrantes.
Percebi que as plantas que ele trouxe são as mesmas que parentes e
familiares e amigos levam para os mortos,
no feriado de Dois de Novembro.
O bêbado do bairro e sua mãe e o maluco que aqui escreve e
todos vocês circulamos pelas vias de um imenso formigueiro.
Não sei se os insetos que me rodeiam se perguntam sobre
quem estará presente daqui a alguns anos.
Como e o que estaremos fazendo?
Isso é o de menos.
O mais importante, para este inseto que vos fala,
é que a banana e a cebola e as peras e as batatas e o peito de frango e
o coxão de fora e a cerveja que bebo estão em promoção no Big mercado.
Enquanto o bêbado do bairro traz plantas para trocar por moedas para trocar por cachaça,
toda a biodiversidade que nos rodeia recebe nosso lixo diário.
Movimento desigual. Damos menos do que recebemos.
Quem sabe o sentido de nossas vidas, interagindo com a natureza,
seja produzir lixo, muito lixo.
Eis nossa missão número um.
E o álcool é mais uma válvula de escape para suportarmos o
fato de estarmos sufocados por esse lixo que produzimos.

(B. B. Palermo)

terça-feira, 30 de outubro de 2018

Desapega, Cadelão



Não tenho humor para pisotear as flores
das árvores deitadas na calçada.
Não suporto contemplar por muito tempo a bola de fogo
no entardecer do fim de outubro.
Não creio estar preparado para enfrentar a semana que avança
e o exame médico e o defeito no carro e a dor de ouvido e
a alegria e mau humor dos vizinhos.
Sem vontade de ouvir rock ou blues ou Debussy ou Beethoven.
O dia está quente e por isso não usarei máscara ou maquiagem.
Estacionei tempo demais nesse lugar.
Hora de desapegar e juntar umas coisas e seguir.
Rodeado de amigos, porém solitário,
não me preparei para isso.
Baby, decifra-me os sinais.
Você sempre diz que é hora de virar a página.
E repete, e repete, Não é uma questão de idade ou experiência.
E foi assim que você quase me convenceu a jogar na fogueira
toneladas de versos bem intencionados, mas pouco criativos.
No final das contas eu me contive, ou foi aquele medo.
Esteja à vontade para sempre repetir Desapega, Cadelão, desapega.
Eu não fico chateado, juro.
(B. B. Palermo)

Peixe vivo



sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Tão banal como uma folha em branco



O letreiro amarelado do bar
e os gritos vindos da mesa de sinuca chamam,
mas uma voz que vem de um resto de consciência
pede pra que volte pra casa.
Tenho medo de voltar.
Moradores do prédio vizinho rosnam,
e a imagem que me vem é uma faca
atravessando corpos na diagonal.
Garotas espalham orgias pela noite
e eu aqui melancólico.
Sei que tudo se reinicia
e sou livre e estou
rabiscando essas neuras.
Posso adotar um pet que me cuide,
posso adotar uma garota que me chame
para o café da manhã.
Livre, porém paralisado. Sim, sei que
posso fazer tantas coisas que ajudem a
suportar as armadilhas.
Pode ser um bom sinal o fato de achar engraçado
casaizinhos devorarem hambúrgeres gigantes.
Sei, sei, isso tudo é banal, inclusive a melancolia

de estar paralisado diante de uma folha em branco.
(B. B. Palermo)

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Caneladas e chutões



Dou uma passada pelas redes sociais e 
observo como está o jogo político.
Criaturas de todas as idades se digladiam à direita e à esquerda, 
a maioria fora de forma com relação às regras da argumentação, 
barrigudas, cansadas, amadoras.
Um festival de voadoras e caneladas e chutões pro alto.
Mas seguem jogando.
Sinto que é quase uma obrigação, 
como se o mundo fosse acabar amanhã.
As pessoas estão com raiva, 
inclusive alguns poetinhas.
Parodiando Bukowski, é a única coisa em que são bons.

(B. B. Palermo)

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Pode ser que sim, pode ser que não

Encontros aleatórios                                     
pode ser que sim
pode ser que não
algumas vezes é só beijo
outras vezes a viagem é infinita
e alegra-se um cadelão de alma suja.
Calma, meu brother,
Nenhum sentimento de culpa,
você é um solitário nessas ruas.
As estrelas apostam suas fichas em você.
Do alto, coringas e outras cartas em suas mangas,
você é um cara divertido aos olhos do firmamento.
Aprenda a comunicar-se na hora do rusch.
Seja simples e direto, mostre numa frase o que quer.
Às vezes ganhará, às vezes não.
Nada de romantismo exagerado, vê se aprende meu irmão.
Quando nada funcionar, relaxa e pensa noutra coisa.
Sussurros e gemidos e palavrões, use na dose certa,
ainda mais se um bebê dorme no quarto ao lado
e a porta está aberta.
Não desista do romantismo.
O beijo é muito importante.
Roçar a pele, sentir o cheiro,
não perder de vista o “Império dos sentidos”.
Ginástica sexual é muito pouco,
mas pode ser um bom começo.
Se ela perguntar
“O que você está fazendo?”,
“O que vai fazer daqui a pouco?”,
“Bebendo uma cerveja?”,
é porque ela quer.
Faça o seu melhor.

Se deixar para depois, babau.

(B. B. Palermo)               

sábado, 29 de setembro de 2018

Os movimentos do amor



Quando trouxer uma flor roubada,
não me devolvas uma coroa de espinhos, meu bem.
Mesmo rejeitado, eu tiro de letra,
porque intuo os movimentos do amor,
como disse Drummond:
João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.
Podes desdenhar, rir da minha cara,
contar pra todo mundo o quanto sou ridículo,
mas não esqueça que todos fingimos
que deciframos as vontades do amor.
Desejamos reter o amor e-ter-na-men-te.
Mas a vida segue. O tempo brinca
com nossos sentimentos,
ele executa as mesmas funções da diarista,
que varre e lava e limpa e passa...

(B. B. Palermo)

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Talvez o amor seja como um local de descanso


Experimente como se ganha um amor,
e como se perde um amor,
ouvindo boa música.
Você já experimentou a batida do berimbau?
Quando você se humilha e liga e liga e ela nem aí,
ouça de preferência um blues.
Amores perdidos e ganhos,
os que sequestraram nossas melhores energias,
devem ser lembrados ouvindo sinfonias
ou música erudita.
Não tem graça carregar um par de chifres
e suavizar a dor ouvindo som ruim.
Dor de corno requer bom gosto musical.
Não sofra demasiado se a paquera não deu certo,
ainda mais se a gata tem gosto de quinta.
É bom lembrar que você não é o cara,
ainda mais se não percebeu que teu gosto é ultrapassado.
Você precisa ter paciência
se quiser fisgar aquela garota incomum.
Pode ser chapada, bêbada ou mijada
mas, por favor, que tenha um bom gosto musical.
Você deve se livrar do tédio da unha bem feita,
do cabelo pintado,
de ser tão previsível como se vê por aí.
Evite os impulsos.
A moda passa,
vai e volta,
enquanto envelhecemos.
Fiquei melancólico quando soube que a gata esperta
não tem emprego nem carro,
mora num beco e cria o filho sozinha.
mas ela tem o que procuro numa mulher:                           
senso de justiça e bom ouvido musical.


(B. B. Palermo)

terça-feira, 25 de setembro de 2018

Rima com ão


Rima com ão:
ela é um bom partido
que consome toda libido
mas eu não passo de um chinelão.

(B. B. Palemo)

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Uma aquariana bipolar



Chegamos os três na boate, meus dois amigos pareciam os Três Porquinhos e eu estava pra Lobo Mau. Logo avistei, numa banquinho junto ao balcão, aquele cabelo e aquela pele morena. Várias gatinhas de minissaia, corpos na feira, e ela numa saia discreta. Nossas mãos se tocaram e um arrepio me percorreu, Meu Deus, encontrei minha alma gêmea. Alcancei-lhe dez reais e disse Escolha as músicas que você gosta e ela foi direto em Raul e Legião Urbana e começou a dançar e quando sentou abriu seu coração e eu escutei durante horas. Ergueu a saia e mostrou a tatuagem na coxa direita, uma Fênix que ia da virilha até perto do joelho e acho que isso foi a gota d’água. Cinco horas da manhã a conta disparou e o Beiço sabia que eu andava duro e então ele passou o cartão.
No carro, Dr. Biza anunciou que não podia voltar para casa, disse à sua companheira que havia viajado. Eles comentaram sobre o belo clima que experimentei com Lili e de imediato me disseram Seu frouxo, como você deixa escapar a oportunidade de fazer um sexo gostoso? Afinal, não é todo dia que o céu nos presenteia com tamanha química. Em vez de nos deixar em casa, Dr. Biza disse que iriamos atrás de uma garrafa d’água e de uns copos descartáveis. Nos dirigimos até um posto de combustíveis, um dos poucos que ainda estava aberto naquela hora. Diluiu dois sachês do Pó do amor nos três copos, brindamos a Eros e voltamos pra boate. Em minutos meu sexo acordou, depois de um tempo hibernando, e queria mostrar suas qualidades, mas já eram seis e pouco e ela precisava voltar pra casa e levar a filhinha ao colégio. O Pó do amor deixou meu voluntarioso endiabrado, ele latejava e protestava, queria libertar-se da cueca e então, horas depois, eu não parei de mandar mensagens apaixonadas e ela só rindo, rindo e curtindo.
No sábado ela veio à minha casa. Estava sóbrio e, por isso, temia me decepcionar, ela poderia não ser tudo aquilo. Assim que desceu do táxi, o cabelão e o salto alto me deixaram babando. Era tudo aquilo e muito mais. Yes, dessa vez não fui enganado pelo puto do Dioniso. Trazia na mão uma garrafa de vinho importado, dos bons, e falou o tempo todo com aquele vocabulário sofisticado e aqueles dentes e boca lindos e o seu cabelo me atraía feito imã. Meus olhos se iluminaram mais e mais. Pode ter sido pelo cabelo ou pelo timbre de sua voz ou aquela boca perfeita ou o lábio inferior generoso ou foi seu gosto musical ou seu vocabulário rico em expressões, quase sempre ausentes em garotas da noite.
Pediu que não a visse como prostituta, ela não era, ela estava, e eu disse Sim e então ela descreveu dúzias de traumas adolescentes e o custo que pagou por ser a negra mais linda entre primas e amigas e tias e outras garotas. Detalhes do estupro que sofreu de um tio, aos quinze anos, umedeceram meus olhos e me levaram a sugar várias latas de cerveja. Mamãe e titias, todas mulheres da noite, e eu pensei no destino e, que merda, parece que tudo se repete, e falou da personalidade explosiva e de tantos empregos que jogou fora. Cenas detalhadas de como chegava aos orgasmos e aí eu cada vez mais sacava que não ia rolar sexo naquela noite. Ela foi pela terceira vez no banheiro e disse que não iria trabalhar na boate porque estava meio alta, fez questão de mostrar todo o seu repertório, mesmo com vinte e poucos anos. Montada naquele corpão, veio com tudo e enroscou a língua úmida e quente na minha e pressionou seu sexo no meu e eu sussurrei Vou te lamber todinha, excitadíssima ela implorou Vamos, vamos pro quarto... Lambi e lambi e ela ergueu a voz Me beija, Cadelão escroto, me beija, daí veio por cima e quis me escravizar, rápido assumi o controle e passei a fazer uns movimentos vigorosos naquela posição que me torna o dono do mundo e murmurei Quem é o pai? Quem é o pai? Logo seus gemidos aumentaram e eu saquei que ela gostou das técnicas que aprendi ao colocar em prática manuais da vida longa que tive. Tudo rolou, rolou e foi bom. Cadelão estava fora de forma, mas é como andar de bicicleta, Cadelão não desaprendeu.
Dias depois emprestei-lhe uma grana pra fazer mercado e farmácia e na quinta-feira baixou um temporal que inundou seu barraco, sua cama estava sem os pés e ficou inutilizada e então consultei uns amigos pra ver quem poderia fazer uma doação.
De novo aquele medo de me apaixonar e assumir uma garota jovem, mãe de uma criança. É que ela é uma aquariana muito louca, uma bipolar, que intercala bom humor com gestos e sentimentos expansivos e ausência no mundo, como quem passa da bebedeira pra sobriedade ou do torpor do pó cheirado e curtido pra realidade deprimente do horas depois que aquilo passa. O pior é que ela quis me enquadrar. Sim, o maior motivo pra me afastar ocorreu depois que ela insistiu pra que eu frequentasse com ela, todos os domingos, a Igreja Evangélica Abominação À Vida Torta.

(B. B. Palermo)

sábado, 15 de setembro de 2018

Bárbara, meu amor



Bárbara, meu amor, eu não me importo que você goste de música sertaneja, nem me importo que você devore, num apetite absurdo, os lanches de mamãe.
Quando você vem do trabalho, quando você desce do carro, quando você atravessa a rua e vem pra mim, dispara meu coração. Mas você não vem pra mim, você vai pro fundo do bar e dá Oi, Benção mamãe, benção papai.
Eu peço outra cerveja, caneta e papel humilhados, apenas meus olhos se alegram.
Bárbara, você dá Oi, tudo bem?, como se quisesse me respeitar, mas sei que você vive me zoando.
Você anda distraída pelo bar. O canto do teu olho me observa... Não, não, não, isso é fruto da minha imaginação.
Você é sereia demais na praia que curto. Teu abraço é aeroporto pra Jumbo, e eu não passo de um vacilão.
Bárbara, posso te ensinar de tudo. Esportes, estética, filosofia e economia, mas não inflaciones meu coração.
Meu amor, eu não me importo que você não me queira. Eu só preciso te ver pra saber que você está bem.

(B. B. Palermo)

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Saco de pancadas



Preso a labirintos surreais, estou embriagado de ilusões.
Uma parte de mim é estatística, outra parte é mitologia.
Não me conformo, pois sinto nos ossos que a estatística, raio-x, atravessa meus órgãos feito ultrassom.
Algo resiste, não quantificável, um sensível bebedor.
As pesquisas conhecem uma fatia de mim, o rosto da vitrine, outdoors nas esquinas.
Os números me chamam pra dançar, mas os ritmos estonteiam. Dá vontade de vomitar.
No embalo da dança, socos bem direcionados me embretam, jabs de esquerda e de direita entram direto, golpes na linha da cintura e supercílios e rins mutilados.
Lutador vencido, aqui estou, saco de pancadas, jogado aos leões.

(B. B. Palermo)

terça-feira, 11 de setembro de 2018

Animalzinho assustado



Arredio, lembro que olhava para todos os lados, mas não sabia pra onde ir. Um animalzinho cercado por predadores. De sua aldeia distante, meu corpo berrava, enviava sinais, cãibras nas pernas, dedos trêmulos, suores noturnos, dores de barriga inexplicáveis, coração disparado.
Com o passar do tempo domei medos e deveres. Me afastei do mundo para sobreviver.
Também fui ovelha seguindo ordens, mas aos poucos recusei convites para ser um líder. 
Nas urnas periódicas simpatizo cada vez mais com teclas de brancos e nulos.
Quando crescer saberei o que fazer.

(B. B. Palermo)

domingo, 9 de setembro de 2018

Meus lugares comuns



“Sinto muito, anjo, a perda do teu pet. Mas a vida é feita de perdas e ganhos”. Escrevi-lhe esta mensagem porque sei que ela se diverte com meus lugares comuns.


(Teco, o poeta sonhador)

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Vai com tudo, James Bond

Não tenhas medo da paixão. Enfrente essas garotas, James Bond.

Tua Sharon Stone te aguarda, num silêncio carinhoso, pra te libertar das fantasias impublicáveis.
Como podes ter medo, se fazes repetidos planos, da vigília da noite ao frescor da manhã?
Pise fundo nas façanhas sentimentais, lubrifica teu coração.
Dizem que o amor vive da falta e da procura, mas sossega quando faz o bem.
Inspira-te nos santos, já que acreditas que devemos mudar o mundo.
Amigo, queres ter muito dinheiro, pagar pelos amores, pra descartá-los depois.
Tens medo do quê?
Pergunte à mamãe, pergunte ao Édipo, pergunte à terapeuta – aquela ninfeta!
Eu sei que ela sempre vai responder:
- É um mistério, é um mistério...

(Teco, o poeta sonhador)

Original

Aniversário, dois dias reunindo amigos, churrasco, bebida, muitos planos com meu amor, debates sobre o que fazer para salvar a humanidade. ...