quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

"Falando com os botões" - Lygia Bojunga

"Às vezes, numa noite de insônia, num embalo de rede, numa viagem de trem, eu gosto de dar linha pra minha memória. Só pra ficar vendo até onde é que ela vai. Aqui e ali dou um puxão na linha, pra ver se a memória volteia bonito pra mais e mais longe. E uma vez, num desses puxões, a minha memória chegou o mais longe que eu já consegui fazer ela voar: eu me vi aos quatro anos, sentada no chão, a minha mãe do lado, o costureiro também; e me escutei dizendo: 
— Tu ficas muito tempo sem falar. 
E ouvi ela respondendo: 
— Engano teu: eu estou falando.
Falando com quem?
— Com os meus botões. 
— Eu não ouvi.
— Quando a gente fala com botão, os outros não escutam.
Foi a primeira vez que eu me lembro de ter sintonizado nessa expressão que a minha mãe gostava muito: falar com os botões.
A resposta da minha mãe, quando eu disse que ela ficava muito tempo sem falar, me deixou meio perplexa. Não pelo fato dela falar com botão (ou com linha, ou com tesoura): tipo da coisa natural. O que eu achei extraordinário foi a minha mãe ficar assim, falando tanto tempo. Logo ela: uma mulher de tão pouca fala. A conclusão não demorou: se a minha mãe fica esse tempo todo batendo papo com os botões é porque o papo é ótimo! (Conclusão que logo emprestou aos botões uma qualidade mágica.) E, se minha mãe fala com eles, eu também vou falar, ué.
E falei.
E falei e falei.
Mas eu falava em voz alta: afinal de contas, falar era falar. E vivia à cata de novos interlocutores. No fundo mais fundo de tudo que é costureiro, em qualquer pacotinho que eu encontrava no meio de linha e de lã, lá estava eu fuçando, atrás de novos botões pra conversar. De quê? Ora, do casamento do botão de madeira, do nascimento do botão de madrepérola, do noivado do botão de metal, da doença e morte de um botão sem furo. E, já imitando o mundo adulto, que parecia achar muito natural a estranhíssima divisão adotada de alguns ricos para muitos pobres, eu também, lá no meu mundinho, já tinha os Botões Ricos (trabalhados em metal) e uma porção de Botões Pobres (de pano e de osso) pra conversar. 
Acho que um dia a minha mãe ficou intrigada de ver que eu não conversava com alfinete, nem com agulha, nem com linha, e então me perguntou:
— Por que que tu só falas com botão?
— Tu também, ué.
E só aí ela me explicou que aquela expressão significava falar com a gente mesma, pensar, meditar. E, outra vez querendo imitar a minha mãe, eu larguei a prática de conversar com os botões e me iniciei na prática de falar com os meus botões.
Até o fim da vida, a minha mãe se demorou nesses falatórios com ela mesma. Quando ela já estava muito doente, uma vez eu entrei no quarto dela e vi ela de olho fechado, sem se mexer. (Essa é uma das únicas cenas em que me lembro dela de mão parada.) O susto me pregou no chão. Mas lá pelas tantas ela abriu o olho, estudou minha cara, e a mão se mexeu, fazendo um gesto negativo. A voz confirmou o gesto:
— Ainda não, minha filha: eu só estava falando com os meus botões.
Foi a procura dos botões que me levou mais fundo nos costureiros que acompanhavam a minha mãe; foi de tanto a minha mão andar por lá, num convívio cada vez mais estreito com tesoura e linha, e com agulha e lã, que eu comecei a achar que trabalhar com a mão era uma coisa tão da vida feito comer e dormir: era bom.
Foi bom querer imitar a minha mãe nos trabalhos manuais e aprender que a mão é um instrumento único.
É bom."

BOJUNGA, Lygia. “Falando com os botões”. In: Feito à mão. Rio de Janeiro: Casa Lygia Bojunga, 2005, pp. 47-53


terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

ET AUAU



De qualquer ETnia, é senhor de todas as graças. Se não tem pedriguee, isso pouco importa. ET pintas brancas e pretas, ET de verde esperança. Às vezes dengoso e solto das patas. ET late pra mim e a menina, de patins, nem me olha. Meu olhar implora a seus olhos, tropeça no vazio e fica na fossa. Ela não precisa de patins e de ET pra ser cheia de graça. E eu não passo de um ETerno sonhador, sem AUAUtonomia e fingida alegria.


(TIRADAS do Teco, o poeta sonhador)

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Lero Lero - Cacaso

http://letras.mus.br/cacaso/687388/

Lero lero

Cacaso

Sou brasileiro de estatura mediana
Gosto muito de fulana mas sicrana é quem me quer
Porque no amor quem perde quase sempre ganha
Veja só que coisa estranha, saia dessa se puder
Não guardo mágoa, não blasfemo, não pondero
Não tolerolero lero devo nada pra ninguém
Sou descansado, minha vida eu levo a muque
Do batente pro batuque faço como me convém
Eu sou poeta e não nego a minha raça
Faço versos por pirraça e também por precisão
De pé quebrado, verso branco, rima rica
Negaceio, dou a dica, tenho a minha solução
Sou brasileiro, tatu-peba taturana
Bom de bola, ruim de grana, tabuada sei de cor
Quatro vez sete vinte e oito nove´s fora
Ou a onça me devora ou no fim vou rir melhor
Não entro em rifa, não adoço, não tempero
Não remarco, marco zero, se falei não volto atrás
Por onde passo deixo rastro, deixo fama
Desarrumo toda a trama, desacato Satanás
Sou brasileiro de estatura mediana
Gosto muito de fulana mas sicrana é quem me quer
Porque no amor quem perde quase sempre ganha
Veja só que coisa estranha, saia dessa se puder
Diz um ditado natural da minha terra
Bom cabrito é o que mais berra onde canta o sabiá
Desacredito no azar da minha sina
Tico-tico de rapina, ninguém leva o meu fubá

sábado, 31 de janeiro de 2015

Três pactos de morte - Paulo Henriques Britto



Como se fôssemos pássaros
voamos contra a vidraça.

Dançamos duas valsas sobre a mesa.
Roemos os ângulos dos móveis.

Copulamos em pleno voo, depois
nos atiramos na chama da vela.

E um cheiro forte de borracha queimada
nos acompanha até o paraíso. 


***
1. Antes que fôssemos mumificados por completo, você descobriu uma maneira de apodrecer tão depressa que fosse impossível até mesmo para o mais hábil mumificador do Alto Egito.
2. Nossos resíduos rolaram rio abaixo e foram vistos a trinta e cinco quilômetros do Delta, tentando desesperadamente dissolver-se na salmoura do mar.
3. Estado coloidal.

***
Embora não fôssemos nem um pouco
como duas gazelas se apascentando entre as açucenas,

nem muito menos como um rebanho de cabras
que descesse as colinas de Galaad,

nem por isso merecíamos ser confortados,
em vez de com bálsamos e maçãs,

com meio vidro de formicida cada um
num quarto de hotel barato em Cafarnaum.


(do livro Macau)

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Os filhos do sim - Heloisa Seixas



Este conto da Heloisa Seixas vai nos levar a uma reflexão sobre a questão da mudança de comportamento na relação pais e filhos nos últimos tempos (contemporâneos). Tempos pós-repressão. 

A mulher estava sentada lendo um livro, na sala, quando ouviu o grito da filha. Depois, um estrondo de porta batendo. Murmúrios, passos. E a mocinha apareceu na sala, com uma expressão terrível no rosto. Tinha acabado de se pesar na balança do banheiro. Engordara um quilo. “Um quilo!”, dizia, aos gritos, a ponto de a mãe pedir que baixasse a voz, por causa dos vizinhos.

E a menina saiu da sala, com o rosto amarrado. Pouco depois, entrou o filho. Suando, chegava da academia. Tinha, também, um ar atormentado. Entrou, cumprimentou a mãe e desapareceu a caminho do chuveiro, parecendo imensamente cansado. E a mulher ficou outra vez sozinha na sala, pensando. Fechou o livro e levantou-se, caminhando até a janela. Pensava no sofrimento dos jovens de hoje.

Filhos e filhas daqueles que fizeram a revolução da contracultura – dos hippies, loucos, guerrilheiros – esses jovens poucas vezes ouvem um NÃO na vida. É uma geração para a qual quase nada é proibido. Os pais de agora, que foram jovens nos anos loucos, têm enorme dificuldade em impor disciplina. Deixam os filhos fazer tudo. Chegar tarde, sair durante a semana, trancar-se no quarto e dormir com a namorada ou o namorado – tudo. 

Talvez isso tenha criado um vazio na vida desses rapazes e moças, refletiu a mulher, olhando as luzes da rua. Os jovens de hoje formam uma geração que pode tudo. Com acesso livre a todas as informações, têm, diante de si, enorme variedade de ofertas de consumo.... Biscoitos, por exemplo, pensou a mulher. No tempo dela, só havia dois ou três tipos de biscoito doce. Hoje, em qualquer lojinha de posto de gasolina, há prateleiras inteiras de biscoitos de todos os tipos, recheados ou não, com chocolate amargo ou de leite, com nozes ou passas, tudo. Biscoitos demais. Mas, para quê? Inútil paisagem. Não se pode comer! E quem proíbe? São eles mesmos, os jovens.

Eles mesmos inventam aquilo que não se pode fazer. Precisaram criar suas próprias impossibilidades – talvez pelo excesso de vezes em que ouviram um SIM dos pais. Porque o ser humano precisa do proibido. Então agora é proibido comer, é proibido não ter músculos, é proibido ser feio, é proibido envelhecer. O padrão de beleza vigente é irreal. Parece ter sido criado apenas para fazer sofrer – pois é inalcançável. Qualquer mocinha que não viva à base de alface e água – a não ser as que, por natureza, tenham a sorte de ser excessivamente magras – vai se olhar no espelho e chorar porque não tem aquele aspecto de campo de concentração que se vê nos anúncios de moda (incluindo os olhares, tão tristes). 

É essa a vida dos jovens, hoje – concluiu a mulher, dando de ombros. Coitados. São os filhos do sim.”

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Aves desejantes - Paulo Fensterseifer




Amigos, eis uma bonita (e valiosa) contribuição para pensarmos a relação dos humanos com os bichos. O poema foi escrito pelo professor Paulo Fensterseifer, e a ilustração é da professora Andreia Aparecida Czyzewski.


sábado, 24 de janeiro de 2015

Agostar de você



Por que fui cavar, cavar para desenterrar o sapo e beijar a princesa, se anjo não dá moleza? Sonhar com o primeiro beijo, num camping, praia ou passeio. Pra que tanto sofrer e penar, se comigo ela não quer ficar? Pesquisei todos os passos na internet, como ter lampejos para ganhar seu primeiro beijo. Anatomia, biologia e geografia. Mapeei no imaginário pescoço, bochecha, orelha, testei perfumes para ter pra mim sua alegria. Seus nãos são pura adrenalina que me jogam com vontade num bote em alto-mar. Se na primavera agostava só um pouco, no verão agosto muito mais. Embora agosto seja mês de cachorro louco, vou remar, remar até lá, pois é tri-agridoce te agostar!


(TIRADAS do Teco, o poeta sonhador)

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Realidade



Mãe e filho precoces. O pai desaparece. É fácil olhar do outro lado da rua e julgar a realidade que, nua, a nossos olhos se transveste. Estou no meio do povo e faço de conta que dou conta de toda a verdade. Meus olhos usam filtros, leis, mordaças, e são cruéis com a realidade. Ajusto, ajusto, até ficar satisfeito com os limites de minha compreensão. Também minha palavra foi forjada por duras ferramentas. A palavra que busco ao poema é outra – sempre - e foge, se distancia, como uma sombra. Ou dá o bote, como uma serpente.


segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Amor ou humor?



Em alguns momentos “anormais”, em que tudo foge do previsto, aquilo que gostaríamos que acontecesse, buscamos um consolo (ou desculpa). Para dirimir a frustração, dizemos: “Eu tive um pressentimento de que isso ia acontecer”. Nessas horas “rir é o melhor remédio”. Érico Veríssimo afirmou que “em certos momentos o que nos salva nem é o amor, é o humor”.
***
Um adolescente, aluno do Ensino Médio, me contou como faz para gabaritar as provas de Ensino Religioso. Dentre as alternativas para as questões, escolhe sempre respostas que agradam a professora, tais como: “Eu amo Jesus”. “Quando eu crescer, quero ter fé em Deus”. Nada de questionamentos existenciais, do tipo: “De onde vim?”, “Para onde vou?”. Ou perguntas mais radicais, tais como: “Se Deus nos ama, porque permite tanta violência e pobreza no mundo?” E acrescenta:
- Se eu disser o que penso, que é mais ou menos “Foda-se isso! Foda-se aquilo!”, ela vai me mandar sair da sala de aula e ir direto pra coordenação da escola.
Perguntei-lhe, então:
- Você fica angustiado e infeliz, por ter que dizer o que agrada à profe, e te garante passar de ano sem pegar exame?
- Não. Até que não sofro. Tanto é que estou aqui contando e rindo desse fato. Obter nota alta ou não numa disciplina não vai resolver minhas dúvidas sobre crença religiosa.
Aproveitando a deixa, falei-lhe da estreita relação entre liberdade de expressão e responsabilidade, e também de que não há sociedade e (óbvio) escola sem uma certa repressão. Daí a importância de abrirmos espaços para o humor; rir de determinadas situações, usando-as como válvulas de escape para nossas frustrações.
Além do humor, há a possibilidade da ironia. O que não podemos aceitar é a visão simplista de que no mundo existem apenas duas possibilidades: de que ou estamos certos ou estamos errados, e de que os outros, que pensam diferente de nós, são nossos inimigos.
Rir dessas situações. Sim. O que mais nos “salva” nessas horas é a ironia e o humor.
Tudo bem. Há momentos em que temos que escolher entre A ou B, em vez de ficar em cima do muro. Mas no exercício do pensamento, da reflexão, deve haver mais de duas possibilidades.
O Mais importante é não abrir mão da dúvida, de desconfiar de nossas verdades “cômodas”. O pensamento científico, por exemplo, progride porque os cientistas desconfiam, duvidam e testam suas teorias e conhecimentos.

***
A conversa que tive com o adolescente voltou à lembrança nestes dias, com o atentado ao jornal francês. Um dos temas, de novo, é “liberdade de expressão”. O que podemos falar publicamente, assumindo o risco de sermos escolhidos como inimigos dessa ou daquela ideologia – inclusive inimigos da “palavra de Deus” (ou inimigos dos que acreditam e agem “em nome” de determinada divindade).
Parece que caminhamos pra tudo quanto é lado, inclusive para trás. Mas o pior é que aqueles que têm certeza de qual é o verdadeiro caminho a seguir, que nos leva “para frente”, são os fanáticos, e esses são os mais perigosos à vida, pois matam em nome de “verdades” para eles absolutas.

Rindo ou chorando, considero que vivemos numa época em que os passos da humanidade, diferente do andar do caranguejo, são absolutamente imprevisíveis.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

TIRADAS...



Somos todos bichinhos de estimação, demarcando territórios e acenando das vitrines e das sacadas dos prédios: 
- Ei, estou aqui! Olhem pra mim!.

(TIRADAS do Teco, o poeta sonhador)

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Tirar o pé...



Quando confessou ao amigo de que cansou de sonhar, e de que agora vai ser mais realista, este respondeu-lhe:
- Pra caminhar tem que tirar o pé do chão!

domingo, 4 de janeiro de 2015

Esboço da teoria da pessoa normal


Estamos esboçando a teoria da pessoa normal. Quem quiser pode contribuir. 
Pessoa normal é aquela que cansou de ficar na crista da onda.
Pessoa normal é aquela que cansou de estar sempre na moda.
Pessoa normal é aquela que cansou de chegar sempre em primeiro.
Pessoa normal é aquela que cansou de competir como gato e rato.
Pessoa normal é aquela que cansou de ter a melhor selfie.
Pessoa normal é aquela que cansou de ter algumas dúzias de calçados e guarda-roupa lotado.
Pessoa normal é aquela que tá a fim de compartilhar:
- os espaços públicos de lazer...
- o respeito e cuidado dos idosos e dos bichos abandonados...
- ...

Agora, amigos, deixo para vocês sugerirem ações e comportamentos que nos  caracterizam como pessoas normais...

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Novela - Elias José






A vaca amarela
ganhou uma rosa amarela
e uma declaração de amor
de um boi voador,
louquinho por ela.

A vaca amarela
sorriu, jogou beijo
e ficou mais bela.
O boi voador deu a ela
uma aliança de noivado.

Marcaram o casamento,
montaram uma casa.
O boi voador prometeu
não voar mais.

Na despedida de solteiro,
o boi voador resolveu voar
só um pouquinho...

Só que voou, voou,
e até hoje não voltou
.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Janela sobre o medo - Eduardo Galeano


Agora compreendo por que tanto barulho, tantos fogos, na virada do ano. Para Eduardo Galeano, "o medo do silêncio atordoa as ruas". E diz mais:
"O medo ameaça:
Se você amar, vai pegar aids.
Se fumar, vai ter câncer.
Se respirar, vai se contaminar.
Se beber, vai ter acidentes.
Se comer, vai ter colesterol.
Se falar, vai perder o emprego.
Se caminhar, vai ter violência.
Se pensar, vai ter angústia.
Se duvidar, vai ter loucura.
Se sentir, vai ter solidão."

(Do livro, As palavras andantes)

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Cada qual com sua quimera - Baudelaire

Até que ponto nossas felicitações de "Feliz Ano Novo!", muita "saúde e paz", "sucesso", etc., não são repetições do mesmo (de todo ano), lugares comuns que disfarçam uma vida escrava da rotina, sem emoção e criatividade? O texto abaixo, poema em prosa repleto de metáforas, provoca nossa reflexão sobre o que fazemos e buscamos em nossa vida - sendo que, sai ano, entra ano, até que ensaiamos alguns questionamentos sobre a nossa condição humana, e também sobre se há e qual seria o nosso "destino"...

CADA QUAL COM SUA QUIMERA

Sob um grande céu cinzento, numa grande planície poeirenta, sem caminhos, sem gramados, sem uma urtiga, encontrei vários homens que andavam curvados.

Cada um deles carregava nas costas uma enorme Quimera1, tão pesada quanto um saco de farinha ou de carvão, ou os apetrechos de um soldado da infantaria romana.

Mas a monstruosa besta não era um peso inerte; pelo contrário, envolvia e oprimia o homem com seus músculos elásticos e possantes; grampeava-se com suas duas vastas garras no peito de sua montaria; e sua cabeça fabulosa sobressaía acima da fronte do homem, como um daqueles capacetes horríveis com os quais os antigos guerreiros esperavam acirrar o terror inimigo.

Interroguei um desses homens, e perguntei-lhe aonde iam assim. Respondeu-me que de nada sabia, nem ele, nem os outros, mas que evidentemente iam a algum lugar, já que eram levados por uma invencível necessidade de andar.

Coisa curiosa de se notar: nenhum dos viajantes parecia irritado com a besta feroz pendurada em seu pescoço e colada em suas costas; dir-se-ia que a considerava como fazendo parte de si mesmo. Todos esses rostos cansados e sérios não demonstravam desespero; sob o céu, com os pés mergulhados na poeira de um solo tão desolado quanto este céu, eles caminhavam com fisionomia resignada daqueles que estão condenados a ter sempre esperança.

E o cortejo passou a meu lado e afundou na atmosfera do horizonte, no lugar em que a superfície arredondada do planeta se esquiva à curiosidade do olhar humano.

E, durante alguns instantes, teimei em querer compreender esse mistério; mas em seguida a irresistível indiferença se abateu sobre mim, e me deixou mais duramente oprimido do que eles próprios por suas esmagadoras Quimeras.


1 - QUIMERA- A Quimera, na mitologia grega, era um monstro que cuspia fogo, dotado de cabeça e peito de leão, tronco de cabra e cauda de dragão.

BAUDELAIRE, Charles. "Cada qual com sua Quimera" in: Pequenos Poemas em Prosa (O Spleen de Paris). São Paulo: Hedra, 2009. p. 47

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Teu olhar


Borboleta tem a lâmpada
asa delta tem o sol
abro a janela
ganho o mundo
quando tenho o teu olhar
- teu olhar é meu farol!

(Tiradas do Teco, o poeta sonhador)

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Meditação transcendental - David Lynch



Disseram-lhe: "A verdadeira felicidade não está lá fora. A verdadeira felicidade está aqui dentro. Mas não lhe explicaram onde está o 'aqui dentro', nem como chegar lá".

sábado, 20 de dezembro de 2014

Baixa o som, bucéfalo!



Quanto a esses sujeitos que circulam pelas cidades, com o volume do som do carro a mil, Mario Quintana cita o velho filósofo Schopenhauer: "A soma de barulho que uma pessoa pode suportar está na razão inversa de sua capacidade mental".

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Pessoas-fantasmas



Segundo Mario Quintana, hoje em dia é difícil encontrarmos "as pessoas presentes", por causa da TV, rádio, celular e internet. Vivemos, sempre e sempre, "em comunicação com uns distantes fantasmas". O problema agora "não são os fantasmas do outro mundo, mas sim os fantasmas deste mundo!" (M. Q. Caderno H).

domingo, 14 de dezembro de 2014

No tempo das cavernas




No tempo das cavernas uivos e guinchos davam conta das palavras. Cavalo da chuva ninguém tirava. Não havia freezers bichos embalsamados e açougues. Era dos sentidos, nada era embutido. Todos reinavam e não havia cativeiros. Nem sempre o grande comia o pequeno. Quem podia mais fugia menos. Não havia correntes e prisões-canis de alguns metros quadrados. Hoje a anatomia do açougue esquarteja o sonho do boi. Congelamos sentimentos e somos escravos do tempo. Me espanta o ritmo do caranguejo. Meu ritmo mais ousado é andar para os lados. Nunca vi bicho psicopata. Bicho não mata por prazer. Bicho não se alegra ao ver outro bicho sofrer.



(TIRADAS do Teco, o poeta sonhador)


domingo, 7 de dezembro de 2014

Caprichos & relaxos - Paulo Leminski


a árvore é um poema
não está ali
para que valha a pena

está lá
ao vento porque trema
ao sol porque crema
à lua porque diadema

está apenas

domingo, 30 de novembro de 2014

Pediram-me para cuidar...


Pediram-me para cuidar do planeta, admirar as estrelas e o sistema solar. Garimpar tesouros no céu e - com meu verso - cantar as harmonias do universo. Cuidar de tantas espécies em extinção, mesmo que essa bola azulada, orbitando na imensidão, permaneça por muito tempo depois que eu for. De que vale tanto esforço se nem sei cuidar de mim? De que adianta cuidar de tudo se me apavora a previsão do futuro? Cuidar das abelhas, cuidar das cigarras, rezar pelos golfinhos e os caracóis. Cuidar do Polo Norte  morando no Polo Sul. O lixo atômico se espalhou, dizem que sou culpado. O poeta necessita escutar os seres, seus olhares, imagens e palavras... De que valem tantos brados, se não consigo desenhar no poema os meus gritos engasgados?

(TIRADAS do Teco, o poeta sonhador)



domingo, 23 de novembro de 2014

Saudade - L. F. Verissimo

Ai que saudade...
do tijolinho de banana
do meu Autorama
do Cinerama
do Mario Quintana
e da Petrobras pré-lama.

(Da série "Poesia numa hora dessas?")

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Deus e os sabiás


“No princípio, antes que qualquer coisa existisse,
antes que houvesse o Universo,
o que havia era poesia.
Deus era poesia.
A poesia era Deus.
Deus e a poesia eram a mesma coisa.
e Deus criou as estrelas para, com elas,
escrever seus poemas nos céus...”
(Rubem Alves. IN: Prólogo do Evangelho de João, paráfrase)

Logo pela manhã espio sabiás no ninho, junto de casa. À noite, felinos circularam pelos arredores. Com insônia, escrevi páginas e páginas incompreensíveis, com medo de que o instinto selvagem desses gatos despertasse.
Nem preciso cultivar minhocas e outras comidinhas para alimentar esses pequenos seres que aqui fizeram seu habitat. Aprecio vê-los crescerem no quintal do meu olhar. Todo o dia observo curioso, responsável, como faz um bom padrinho. Logo aprenderão a voar, e ganharão o céu, e então os acompanharei, colado ao chão, tendo apenas o recurso do voo raso do imaginário.
Senhoras, de olhares duros como feras, cabelos longos e muitas certezas a respeito do sentido da vida e da morte, vêm até minha casa para me convencer a adorar Deus, no interior da igreja. Agradeço. Não precisa tanto sacrifício. Tenho o sol e o ar que respiro, um coração e seus canais no compasso da vida, dançando a mesma valsa do universo.
Todo dia Deus vem me visitar.
Mostra-se nas singelas cenas que provocam meus sentidos. Uma das cenas, hoje, foi a da mãe colocando comidinhas na boca de seus filhotes, no ninho. Desconfio que Deus, na sua pureza e simplicidade, é uma criança poeta.
Como os amigos que não vejo há tempos, por ter simplesmente me afastado, sinto a falta de Deus quando estou enrolado até o pescoço com migalhas, como o ciúme, a inveja, a arrogância e o ódio. Mas Deus não se apresenta para me julgar. Afasta-me da insignificância ao me deixar de frente com a beleza da vida, a qual ELE é.
É difícil libertar-se da catequização. Do medo de um Deus severo, que desde a infância cortava as asas e aprisionava. Temente a esse Deus, deixei de ser criança poeta, desconfiando da vida ao redor. Saíam de cena as coisas belas, simples, como o nascer e o pôr-do-sol, ou a água límpida da fonte, lambiscada com a concha das mãos.
O Deus ensinado desempenha o papel de pai protetor. Nas estórias contadas, ele afugenta os demônios, protegendo-nos de criaturas ameaçadoras que poderão nos sequestrar do aconchego do útero familiar.
Mas o Deus da catequese é um Deus pouco poético. Em vez de enriquecer nosso imaginário, nos encheu de medo. Em vez de colorir nosso coração, nos embruteceu.
Não faz nenhuma diferença Jesus ter sido casado ou não. Ter filhos ou não. Não muda nada saber se os escritos bíblicos são história com H, de fatos que realmente aconteceram, ou se são estórias – relatos míticos, lendas e fábulas.
Da mesma maneira, de pouco adianta engarrafar Deus e seu filho nessa ou naquela religião, se não captamos sua presença nos singelos (e belos) acontecimentos cotidianos.
Deus é criança. Deus brinca conosco. E “os que brincam são incapazes de fazer maldade”. Aqui, Rubem Alves cita Alberto Caeiro, heterônomo de Fernando Pessoa:

Num meio dia de fim de primavera
Tive um sonho como uma fotografia
Vi Jesus Cristo descer à terra,
Tornado outra vez menino.

Tinha fugido do céu.
No céu era tudo falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
Hoje vive na minha aldeia comigo.

A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as cousas,
Aponta-me todas as cousas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.



Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural,
Ele é o divino que sorri e que brinca.

Ao fim do dia eu conto-lhe histórias das cousas só dos homens
E ele sorri, porque tudo é incrível.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer.

Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate as palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.

Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu no colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.

sábado, 15 de novembro de 2014

Walt Whitman




Alguém pedindo para ver a alma?
Veja sua própria forma e seu semblante,
pessoas, bichos, plantas,
os rios de águas correntes,
as pedras e as areias,
tudo retém os júbilos do espírito
e os libera a seguir...

Quero fazer poemas das coisas materiais
pois imagino que esses hão de ser
os poemas de mais espiritualidade,
e farei poemas do meu corpo e do que há de
                                                                  [mortal,
pois acredito que eles me trarão os poemas
da alma e da imortalidade.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Par perfeito



Foi ela quem o recebeu. Mas, em vez de ela abrir seu coração, antes abriu o seu. Atrevida, deu palpites, como se tivesse a chave dos seus enigmas. Cartomante? Amiga? Amante?
Sozinho há algum tempo, queria muito impressionar. Incrível como a lógica se inverteu. No início, frustrou-se: ela foi pouco amante e muito falante. Mas tinha um jeito galante de falar, roubando toda a sua atenção.
Olhou demoradamente seus lindos olhos azuis (que por sinal estavam bem vermelhos devido à noite mal dormida) e exclamou:
- Que lindos olhos!
E emendou:
- Nossa, como eles são tristes!
Ficou matutando: será que seus olhos são tristes porque realmente são, ou porque ela assim viu? Lembrou de uma frase do Rubem Alves: “O paraíso mora dentro dos olhos”. E Angelus Silesius: “Quem não tem o paraíso dentro jamais o encontrará fora”. Claro que desconfiou da ousadia dela em falar assim de sua pessoa.
Então ela quis que ele falasse por que seus lindos olhos eram tão tristes.
Inventou. Disse que sofreu muito na infância. Mamãe abandonou, a ele e a seus irmãozinhos.
Ela se contorceu no sofá, e ele continuou:
- Mamãe era esquizofrênica. Tinha muito ciúme do meu pai, e esquecia de cuidar de nós. Tinha vergonha dela. Não queria que ela fosse na escola falar com meus professores e diretores. Queria que minha mãe fosse igual à mãe de meus colegas, em vez de usar aquelas roupas exóticas quando saía de casa.
Foi então que ela o abraçou, acariciou e disse:
- Meu anjo, alguma coisa sufoca o teu peito. Sinto que você sofre da influência negativa de algo ou de alguém.
Ficou matutando. Mas que atrevimento! No primeiro encontro, e já sente pena dele? Depois dessa, afundou no sofá, e delirou:
- É que eu tenho um amigo que vive pegando no meu pé!
- Mas como?
- Ele diz pra todo mundo que tenho uns trejeitos. Ele até me imita, diante dos amigos.
- Afaste-se dele, querido! Ignore! Ele é um falso amigo, e tem muita energia negativa, que faz muito mal a você! Por isso teu coração anda tão aflito.
Seu nome era Luli 2341. Criou o perfil num site de relacionamentos porque foi na conversa de uma amiga, que disse que uma outra sua amiga conheceu sua alma gêmea num desses sites. Estão juntos há mais de dez anos. Parece que nasceram um para o outro! Como esses sites de namoro cruzam dados, como profissão, gostos, filhos, signos, etc., a probabilidade de você encontrar sua alma gêmea é bem maior - disse ela.
Ao traçar o perfil, adicionou umas fotos sugerindo um leve ar de sensualidade. Dois dias depois uma garota mandou uma mensagem, dizendo que tinha gostado dele, e que tinham muita coisa em comum, etc. e tal. Chamava-se Dorinha 4321, e morava numa cidade próxima.
No item profissão, aparecia administradora rural. No caminho, no ônibus, ele sonhava com os mil hectares que ela arrendava. Uma bela casa, imóveis, um escritório cheio de livros, um clima perfeito para baixar a inspiração e, finalmente, escrever um grande romance.  Imaginava-se dirigindo uma Hilux 4x4, zerinho, roupa de cowboy, e não se importava de ouvir sertanejo universitário. Seria seu guarda-costas (como no filme), seu conselheiro, seu amante. Sonhava pescar todas as tardinhas no rio que corta aquelas terras que a vista não alcança.
Se antes ela parecia psicanalista, agora estava mais para cartomante. Acendia incensos, para combinar com os DVDs que ouvia: Bruno & Marrone, Reginaldo Manzoti, Fábio Melo. O diabo é que ela não lidava direito com o controle remoto, e a música ficava a toda.
Como ela era rica, premeditou uma estratégia para conquistá-la de vez. Iria impressioná-la com sua bagagem cultural - sim, agora seria o cara mais culto da cidade. Viajariam pelo mundo, visitariam museus, aprenderiam outras línguas, conheceriam o maior número de praias possíveis. Mostraria para ela bons filmes e também a introduziria à MPB, ao jazz, blues. Comentaria as tirinhas da Mafalda, falaria de Capitu e de madame Bovary. Apresentaria a ela o mundo da literatura, da poesia e da ficção científica. Mas, aqui, ele fui um reles ingênuo: foi ela quem o impressionou com seu jeito decidido de lidar com a metafísica e o sobrenatural – com a vida e a morte, e os seus mistérios.
Essa viagem toda faiscava na sua cabeça quando ela o sacudiu, ao dizer que tinha poderes mediúnicos. Psicografou várias vezes. E falou de montão sobre a vida dos espíritos. Dos menos aos mais evoluídos. Ia perguntar como era o dele, e se ela sabia de quem era reencarnado. Claro que curtiu ouvir isso. Quer ser escritor, imagina só ela psicografar a obra ditada por um grande espírito genial.
Foi então que ela colocou a mão no seu peito, acreditando desatar os nós que o oprimiam. Enredado, desabafou. Inventou outra história. Como se umas fantasias que tinha se realizaram de verdade. Não chegava a ser incesto ou algo monstruoso. Era apenas a inveja que tinha do seu irmão, com sua namorada maravilhosa, que ele chamava de fofa (e que de fofa não tinha nada). Falou de uma longa história de traição, etc. etc. Foi lembrando da história de Shakespeare, Hamlet, do tio que mata o pai pra ficar com sua mãe. De novo inventou de sua mãe, da depressão pós-parto, não o deixou mamar no peito, e de que até hoje é inseguro e tem um sentimento de rejeição.
Ela o abraçou demoradamente e começou a lhe ensinar a “arte do desapego”. Citou evangelhos, Paulo Coelho, Augusto Cury, tudo para que ele começasse a se libertar dos pecados que pesavam no peito.
- Essa culpa – ela disse – faz muito mal, se a gente carregar pela vida afora.
Quase cedeu às lágrimas, mas aguentou no osso do peito, macho que era.
Caro leitor, nessas alturas você deve estar perguntando: “E daí, o cara encontrou seu par perfeito, ou não?”.
Desconfio de que a maioria dos perfis nesses sites são ou exagerados (as pessoas dizem que têm mais qualidades do que defeitos), ou camuflam informações. Elas se descrevem do jeito como se imaginam como gostariam de ser - quase perfeitos.
Uma (boa) parte do que falamos e acreditamos sobre nós é invenção. E continuamos inventando também nas redes sociais. Mas isso não é nenhum pecado. Por que não transformar tudo isso em poesia, literatura, enfim, em algo que se pareça com uma obra de arte?
Responda você, meu amigo: descobrimos nosso par perfeito quando a pedimos em namoro e a pessoa diz sim? Ela se torna o amor de nossa vida depois que “rachamos” pela primeira vez a conta no restaurante? Ela é meu par perfeito porque tenho vontade de dizer “gosto de você”? Ou quando tenho vontade de apresentar a pessoa fofa como “minha namorada” em vez de “minha amiga”? (desconfio que isso é muita vontade para pouca realidade).
São muitos os riscos de o namoro não dar certo. Talvez a única certeza é aquela do poeta Vinicius de Morais, quando diz sobre o amor: “Que seja infinito enquanto dure”. O amor perfeito vai durar o tempo que as pessoas ainda tiverem vontade de se ver. Ok. Ele a pediu em namoro, e ela disse sim.

Mas o próximo encontro o preocupa. Se ela continua a acreditar que tem a chave que abre o cofre dos seus sentimentos, não sabe como vai inventar tantas histórias para responder às perguntas dela, e deixá-la feliz.

domingo, 9 de novembro de 2014

William Blake - citado por Rubem Alves



Este poema relata o que acontece quando deixamos de ser crianças e nos tornamos adultos. Pode-se dizer que é uma outra versão para o "fruto proibido no paraíso".

Fui andar pelo Jardim do Amor,

e o que eu vi não era o que eu esperava:
vi uma capela erguida no lugar
onde antes, no gramado, as crianças
                                           [brincavam.

Seu portão fechado estava

e nele escrito: Interditado.
Para o jardim do amor corri então
onde antes tantas flores se abriam.
Mas encontrei, ao invés das flores,
                                       [sepulturas,
e lápides frias espalhadas.
Sacerdotes em vestes negras vigiavam
e com espinhos os risos e alegrias proibiam.

(Do livro de Rubem Alves Perguntaram-me se acredito em Deus.)

Original

Aniversário, dois dias reunindo amigos, churrasco, bebida, muitos planos com meu amor, debates sobre o que fazer para salvar a humanidade. ...