quinta-feira, 29 de julho de 2010
PAUSA - Mário Quintana
Armando Romanelli, Dom Quixote. 1994
No texto abaixo, Mário Quintana nos leva a refletir sobre a poesia. Ler e escrever poesia não é uma perda de tempo? Qual a sua utilidade?
Conhecendo a grandeza da obra do poeta, toda a sua vida dedicada à poesia, sabemos que ela (e todas as artes) não é inútil.
Claro que a poesia hoje, mergulhada numa cultura unidimensional e utilitarista, acaba sendo amada por poucos.
Mas não vamos esquecer, desde a mitologia antiga, que o homem é complexo, e não unilateral (enquanto esfera racional - o Homo Sapiens).
Nós somos, ao mesmo tempo, sábios e loucos (sapiens e demens); faber e ludens (trabalhador e lúdico); economicus e consumans (econômico e consumista); prosaicus e poeticus (prosaico e poético).
Nietzche, no século XIX, retomou dois mitos gregos, o deus Apolo e o deus Dioniso, para enfatizar essa totalidade da dimensão humana. Apolo é o deus da razão. Dioniso é o "outro" (ou contraponto) da razão, e representa a alegria, a espontaneidade, enfim, a poesia. Um complementa o outro.
Nos últimos séculos, com o grande salto da ciência e da técnica, o homem ganhou em racionalidade, mas parece que perdeu em afetividade.
Por isso que lutamos para aumentar o espaço da leitura e da escrita, seja nas escolas, seja nos lares, sejam crianças, jovens e velhos.
Acreditamos que com a poesia, a literatura e a arte como um todo, ganharemos em amizade, solidariedade, imaginação e fantasia.
Assim, avançaremos na direção da harmonia e da paz, e não em direção da guerra.
PAUSA - MÁRIO QUINTANA
Quando pouso os óculos sobre a mesa para uma pausa na leitura de coisas feitas, ou na feitura de minhas próprias coisas, surprendo-me a indagar com que se parecem os óculos sobre a mesa.
Com algum inseto de grandes olhos e negras e longas pernas ou antenas?
Com algum ciclista tombado?
Não, nada disso me contenta ainda. Com que se parecem mesmo?
E sinto que, enquanto eu não puder captar a sua implícita imagem-poema, a inquietação perdurará.
E, enquanto o meu Sancho Pança, cheio de si e de senso comum, declara ao meu Dom Quixote que uns óculos sobre a mesa, além de parecerem apenas uns óculos sobre a mesa, são, de fato, um par de óculos sobre a mesa, fico a pensar qual dos dois - Dom Quixote ou Sancho - vive uma vida mais intensa e portanto mais verdadeira...
E paira no ar o eterno mistério dessa necessidade da recriação das coisas em imagens, para terem mais vida, e da vida em poesia, para ser mais vivida.
Esse enigma, eu o passo a ti, pobre leitor.
E agora?
Por enquanto, ante a atual insolubilidade da coisa, só me resta citar o terrível dilema de Stechetti:
"Io sonno un poeta o sonno un imbecile?"
Alternativa, aliás, extensiva ao leitor de poesia...
A verdade é que a minha atroz função não é resolver e sim propor enigmas, fazer o leitor pensar, e não pensar por ele.
E daí?
- Mas o melhor - pondera-me, com a sua voz pausada, o meu Sancho Pança -, o melhor é repor depressa os óculos no nariz.
Do livro A vaca e o hipogrifo.
quarta-feira, 28 de julho de 2010
NÃO PROCUREIS QUALQUER NEXO NAQUILO - Jorge de Lima
Não procureis qualquer nexo naquilo
que os poetas pronunciam acordados
pois eles vivem no âmbito intranquilo
em que se agitam seres ignorados.
No meio de desertos habitados
só eles é que entendem o sigilo
dos que no mundo vivem sem asilo
parecendo com eles renegados.
Eles possuem, porém, milhões de antenas
distribuídas por todos os seus poros
aonde aportam do mundo suas penas.
São os que gritam quando tudo cala,
são os que vibram de si estranhos coros
para a fala de Deus que é sua fala.
que os poetas pronunciam acordados
pois eles vivem no âmbito intranquilo
em que se agitam seres ignorados.
No meio de desertos habitados
só eles é que entendem o sigilo
dos que no mundo vivem sem asilo
parecendo com eles renegados.
Eles possuem, porém, milhões de antenas
distribuídas por todos os seus poros
aonde aportam do mundo suas penas.
São os que gritam quando tudo cala,
são os que vibram de si estranhos coros
para a fala de Deus que é sua fala.
terça-feira, 27 de julho de 2010
UFA!
Amigos leitores. Quantos dias sem fazer postagens!
Vocês já tinham visto alguém sequestrar um blog?
Pois é. O pobre do Teco ficou refém de um psicopata! Deus do céu.
Ingênuo, sempre achei que isso só acontecia nos filmes.
Não é que a criatura se apossou da senha, criu outra e, além de não permitir que eu fizesse postagens, decidiu alterar a imagem que aparece junto ao autor?
Pois é. Mostrei ao meu filho, e aproveitei para lhe explicar o que é e como age um psicopata.
É. Como não podia postar textos aqui, e conhecendo bem a criatura e suas "brechas", acabei me atualizando sobre essa doença mental - a psicopatia.
Mas o pior de tudo - além da personalidade com tal perfil - é o conflito sexual. Não foi por acaso que a imagem que a criatura postou aqui tinha o apelo à questão sexual.
Então, vocês estão avisados. Se aparecerem imagens estranhas, é porque o psicopata da net está em ação.
Vamos todos rezar para que a normalidade reapareça.
E que eu possa me inspirar já amanhã, para postar aqui. Abraço a todos.
Vocês já tinham visto alguém sequestrar um blog?
Pois é. O pobre do Teco ficou refém de um psicopata! Deus do céu.
Ingênuo, sempre achei que isso só acontecia nos filmes.
Não é que a criatura se apossou da senha, criu outra e, além de não permitir que eu fizesse postagens, decidiu alterar a imagem que aparece junto ao autor?
Pois é. Mostrei ao meu filho, e aproveitei para lhe explicar o que é e como age um psicopata.
É. Como não podia postar textos aqui, e conhecendo bem a criatura e suas "brechas", acabei me atualizando sobre essa doença mental - a psicopatia.
Mas o pior de tudo - além da personalidade com tal perfil - é o conflito sexual. Não foi por acaso que a imagem que a criatura postou aqui tinha o apelo à questão sexual.
Então, vocês estão avisados. Se aparecerem imagens estranhas, é porque o psicopata da net está em ação.
Vamos todos rezar para que a normalidade reapareça.
E que eu possa me inspirar já amanhã, para postar aqui. Abraço a todos.
segunda-feira, 5 de julho de 2010
TRINTA ANOS SEM VINICIUS - Moacyr Scliar
Esta sexta-feira, 9 de julho, assinala um melancólico aniversário: há 30 anos morria Vinicius de Moraes, uma das figuras mais marcantes da cultura brasileira, um talentoso poeta (ou poetinha, como, modestamente, se denominava) e compositor. Carioca, Vinicius teve uma vida movimentada e sob muitos aspectos pitoresca. Era, para começar, um boêmio inveterado, apreciador do uísque, e grande conquistador: casou-se nada menos que nove vezes e teve inúmeros casos. Viveu numa época de grande agitação política, mas sua atuação nessa área foi, às vezes, desconcertante: começou como integralista, a versão cabocla do fascismo europeu, que enganou a ele e a muitos outros: Dom Hélder Câmara, Santiago Dantas, Adonias Filho, José Lins do Rego. Depois tornou-se um esquerdista, mas moderado. De profissão, era diplomata, mas, de novo, não muito atuante; o porteiro de uma das embaixadas onde atuou resumia assim o seu expediente: De manhã não trabalha, de tarde não vem. Em vez de servir no Uruguai, para onde estava designado, ficou no Rio, apresentando-se em botecos, o que deu ensejo à ditadura para cassá-lo. Como poeta, Vinicius certamente não teria meios de ganhar a vida; mas cedo descobriu que poderia colocar seu talento na música, tornando-se parceiro de grande compositores: Toquinho, Baden Powell, João Gilberto, Chico Buarque e Carlos Lyra e, sobretudo, Tom Jobim, com quem compôs Se Todos Fossem Iguais A Você, A Felicidade, Chega de Saudade, Eu Sei Que Vou Te Amar, Insensatez, e, claro, Garota de Ipanema.
Ninguém duvida de que esta canção é um símbolo do Brasil. A Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos lista-a entre as 50 principais obras musicais de todos os tempos, e é conhecida em todo o mundo, inclusive pela famosa gravação com Frank Sinatra. Para isso concorreram vários fatores. Em primeiro lugar, o ano em que foi composta, 1962, marcou o auge da bossa nova, importante movimento musical. Depois, era Rio de Janeiro, cidade que deixara de ser capital, mas que continuava sendo o centro artístico e cultural do país. Aliás, Garota de Ipanema tem muitas afinidades com o vibrante Cidade Maravilhosa, da qual é o lado lírico, brejeiro. Porém, mais que Rio, era Ipanema, o bairro mais sofisticado do país, o equivalente brasileiro do Village em Nova York, da Rive Gauche em Paris, de Bloomsbury em Londres. E mais que Ipanema era a garota, a beleza brasileira celebrada de maneira eloquente. Foi inspirada em Helô Pinheiro, uma bela moça que, a caminho da praia, costumava passar pelo Bar Veloso (hoje Bar Garota de Ipanema), onde Vinicius e Tom Jobim faziam ponto.
A letra inicial, logo abandonada, era um tanto depressiva e não muito brilhante: Vinha cansado de tudo/ De tantos caminhos/ Tão sem poesia/ Tão sem passarinhos/ Com medo da vida/ Com medo de amar... E aí, a grande ideia: em vez de queixumes, de lamentos, a vibrante celebração: Olha que coisa mais linda mais cheia de graça/ É ela a menina que vem e que passa/ Num doce balanço a caminho do mar/ Moça de corpo dourado do sol de Ipanema/ O seu balançado é mais que um poema/ É a coisa mais linda que eu já vi passar...
Helô Pinheiro deixou de ser garota, e procurou outros caminhos, que não o do mar. Casou (mais de uma vez), tornou-se apresentadora de tevê, empresária e dona de uma cadeia de lojas chamada, claro, Garota de Ipanema - a expressão também figura em destaque em seu blog. Ah, sim, e continua uma bela mulher.
Sua história enseja uma curiosa questão: serão platônicas as grandes paixões? Será que nascem, não na cama, mas na mesa de um bar, brotando do coração de alguém a olhar uma menina que vem e que passa, num doce balanço, a caminho do mar? Uma indagação que o grande Vinicius deixou sem resposta.
Zero Hora, 4 de julho de 2010
sábado, 3 de julho de 2010
O DINOSSAURO QUEBRA-MOLAS
Numa quinta-feira, primeiro de julho de 1993, no Jornal da Manhã de Ijuí/ RS, eu escrevi a história abaixo. É que foi instalado um quebra-molas em frente à casa que eu morava. Ele resistiu durante alguns anos... O tal "dinossauro" foi desativado e despromovido, até esses dias... Eis que ele agora está de volta. Parece que tudo continua igual: os tempos não se modernizaram... Vamos à crônica escrita em 01/07/1993.
Ali está o dinossauro, adormecido, com suas costas ossudas, acalmando a agressividade do trânsito. Instalado numa rua bastante movimentada, cumpre a digna função de disciplinar motoristas apressados. Não fosse a sua presença, oxalá quantos atropelamentos não poderiam ocorrer.
De costas aos acontecimentos, aparenta dormir. É óbvio que espera o momento certo para dar o bote e derrubar um motoqueiro distraído. Ele é um vulcão em férias. Pelo menos é o que diz meu amigo Chiquinho. Pergunta ele de onde veio esta novidade moderna.
Foram os funcionários da prefeitura que o trouxeram. Uma equipe completa, especializada neste tipo de bicho. Veio o homem com a pá, o motorista do caminhão com o asfalto... Veio um jovem maquinista, com o "vibrador". Parecia ser o líder da equipe, pois quando chegou sua vez de "domar" o milenar bicho, todos do grupo se concentraram em sua volta, respeitosos. Era um time completo, com suplentes, técnicos e tudo mais. Com estabilidade no emprego, e conscientes de sua missão útil à comunidade.
Neste dia cinzento e frio, o trânsito passou devagar. Todos olharam o "acalmossauro" vir ao mundo. As pegadas gravadas no asfalto indicam que a paisagem hurbana não será mais a mesma. Os motoristas serão obrigados a fazer manobras bruscas. Aceleradas, freadas e palavrões ocorrem juntos num mesmo dia. Tudo por causa do colosso.
Em minha insônia, às cinco da manhã, imagino o motorista do caminhão que se aproxima do dinossauro, freando com cuidado, olhando respeitoso, fazendo uma "primeira" e seguindo em frente. Pobre ser humano, sei que nada o obriga a saber que a poucos metros mora um "bucéfalo", que às vezes acorda com tanto barulho.
Nesta época de intenso merchandsing, meu vizinho ilustre nem de longe pode competir com o filme do Spielberg e o que vem com ele. Enquanto amanhã as lojas estarão repletas de dinossauros de brinquedo, continuo com meu amigo frio e cruel, acordando-me todas as manhãs, na hora do "pique".
Apesar de sua função pedagógica, não consigo entender por que este "tranquilossauro" educa onde mora tanta gente, e não em lugar mais sossegado.
quinta-feira, 1 de julho de 2010
VUVUZELEIROS
Hoje, olho com desconfiança o nascer e o pôr do sol. É que não sei até que ponto são reais aqueles tons avermelhados.
Talvez sejam devaneios meus prestar atenção no emigrar de raios que o sol grava nas nuvens, com seus tons e cores itinerantes.
Será que acontece o mesmo com a romaria de palavras que usamos, ou que ofertam a nossos ouvidos, ou que plantamos nos ouvidos dos outros?
São tantas pretensas verdades, formatadas e/ou deformadas, que eu chego a perdoar as vuvuzelas agitadas nos estádios da África.
Em todas as esquinas, vuvuzeladores, da política ao 1,99, fazem de tudo para serem notados.
As vuvuzelas opiniões, sem se importar com nossos ouvidos, buzinam a toda hora e, pelas caracteristicas dos vuvuzeladores, vão buzinar cada vez mais.
É tanto buzinaço sem critério, motivado pelo binômio torcer/secar, que se torna impensável imaginar o prazer, beleza e fruição.
Vamos ter um pouco de cautela com nossa "vuvuzela-discurso", e muito mais com nossa torcida vuvuzelante, e seu barulho irracional, das arquibancadas da vida, senão corremos o risco de sairmos com bola e tudo pela linha de fundo.
Acho que muitos têm pressa para marcar os gols e vencer o jogo. Mas são tantos os interesses em jogo, que fica difícil demarcar vencedores e vencidos.
Diante disso, em que nossa empreitada vuvuzelante pode ajudar?
Talvez tudo não passe de romantismo de um Teco poeta ingênuo, comparar os ruídos de pessoas com seus "instrumentos", com a mudança das cores no céu, do amanhecer ao anoitecer.
Eles devem ter significados ocultos, tantos mistérios, para muito além do que minha vã percepção pode captar.
terça-feira, 29 de junho de 2010
NATAL - Fernando Pessoa
Nasce um deus. Outros morrem. A Verdade
Nem veio nem se foi: o Erro mudou.
Temos agora uma outra Eternidade,
E era sempre melhor o que passou.
Cega, a Ciência a inútil gleba lavra.
Louca, a Fé vive o sonho do seu culto.
Um novo deus é só uma palavra.
Não procures nem creias: tudo é oculto.
sexta-feira, 25 de junho de 2010
A ARTE DE SER FELIZ - Cecília Meireles
Houve um tempo em que minha janela se abria sobre uma cidade que parecia ser feita de giz. Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto. Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde, e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas. Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse. E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.
Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor. Outras vezes encontro nuvens espessas. Avisto crianças que vão para a escola. Pardais que pulam pelo muro. Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais. Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar. Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega. Ás vezes, um galo canta. Às vezes, um avião passa. Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino. E eu me sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas, e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.
DESPERTAR
Quando ela mordeu
seu lábio inferior
eu acordei.
Eu não sei
se nossos desejos
flutuam impacientes
no espaço infinito
ou se fruem
na fornalha
que os separa
em alguns centímetros.
Aconteceu o óbvio:
trocamos olhares
e-mails e telefone
mas não tocamos
os lábios.
seu lábio inferior
eu acordei.
Eu não sei
se nossos desejos
flutuam impacientes
no espaço infinito
ou se fruem
na fornalha
que os separa
em alguns centímetros.
Aconteceu o óbvio:
trocamos olhares
e-mails e telefone
mas não tocamos
os lábios.
terça-feira, 22 de junho de 2010
O ROBÔ - Luis Fernando Veríssimo
Tenho contado esta história para meus alunos de sétima, oitava e ensino médio. É mais uma daquelas narrativas do Veríssimo que misturam humor com ironia. Uma daquelas histórias que gostaríamos de ter escrito. Que dizemos, depois de a ter lido: "Como não pensei nisso antes?"
Um dia ele chegou em casa com um robô. O robô era baixinho, redondo e andava sobre rodinhas. A mulher achou engraçado, mas sentiu uma ponta de apreensão. Para que um robô em casa?
- Olhe só - disse o marido. E, dirigindo-se ao robô, disse: - Seis!
O robô foi até o quarto do casal e de lá trouxe os chinelos do homem e a sua suéter de ficar em casa. Voltou para o quarto levando o paletó, a gravata e os sapatos.
- Mas isso é fantástico - disse a mulher, sem muita animação.
- Ele está programado para só obedecer à minha voz - explicou o homem.
Estava tão entusiasmado com o seu robô que a mulher decidiu não lembrar a ele que naquele dia eles faziam dez anos de casados. Ele continuou:
- É um código. De acordo com o número que eu digo, ele sabe exatamente o que fazer.
- Sim.
- Os números vão de 1 a 100 e obedecem a uma sequencia que corresponde, mais ou menos, à importância relativa das tarefas. Entendeu?
- Entendi.
Se ela não tivesse dito nada, seria a mesma coisa, porque o homem não a escutava. Olhava para o robô como um dia, dez anos antes, olhara para ela. Pelo menos ela ficou sabendo que, numa escala de 1 a 100, os chinelos que lhe trazia todos os dias quando ele entrava em casa correspondiam a 6.
Depois do jantar, quando ela começou a limpar a mesa, ele a deteve com um gesto. Disse para o robô:
- Sessenta e um!
O robô rapidamente tirou os pratos da mesa, botou tudo dentro da máquina de lavar pratos, ligou a máquina e voltou para aguardar novas instruções.
Mais tarde, quando o marido disse: "Que tal um joguinho de cartas?", ela levantou-se, alegremente, para pegar o baralho. Logo descobriu que o marido falava com o robô.
- Dezoito!
O robô correu na frente dela, pegou o baralho, pegou o bloco de papel e um lápis, arrumou a mesa para o jogo e ficou esperando. Ele sentou-se para jogar cartas com o robô. Ela perguntou:
- Posso jogar também?
- Este jogo é só para dois - disse o marido. - Você pode ir se deitar, se quiser.
- Você não vai querer mais nada?
- O que eu precisar o robô pega.
Do quarto, ela ficou ouvindo o marido dizer, a intervalos, "vinte e seis" ou "trinta e um", e o ruído do robô, na cozinha, pegando cerveja, salgadinhos, etc.
Tomou uma decisão.
Levantou-se e foi até a sala. De camisola.
- Querido...
- Você não estava dormindo?
- Não.
- Nós fizemos muito barulho?
- Não.
- Então o que é?
- Tem uma coisa que eu faço que esse robô não faz.
- O quê?
- Uma coisa de que você gosta muito.
- Você quer dizer...
- Arrã - sorriu ela.
- É o que você pensa - disse ele. E, para o robô: - Um!
Aí o robô correu até a cozinha e começou a reunir os ingredientes para fazer uma musse de chocolate.
Grupos feministas a apoiaram ruidosamente durante o julgamento, com toda a razão.
Do livro A mãe de Freud, Círculo do livro.
segunda-feira, 21 de junho de 2010
CENÁRIOS
A maquete dos sonhos
prendeu meu olhar.
Cenários se suscedem
e meus olhos
nem conseguem piscar
ou desviar sua direção.
Quando vem o medo
e implora pra recuar
a maquete sussurra horizontes
que moram juntinhos
do meu coração.
Aí, dá uma vontade
de construir praças árvores
cheiros que a chuva traz
tudo o que um dia vi
e toquei com as mãos.
prendeu meu olhar.
Cenários se suscedem
e meus olhos
nem conseguem piscar
ou desviar sua direção.
Quando vem o medo
e implora pra recuar
a maquete sussurra horizontes
que moram juntinhos
do meu coração.
Aí, dá uma vontade
de construir praças árvores
cheiros que a chuva traz
tudo o que um dia vi
e toquei com as mãos.
sexta-feira, 18 de junho de 2010
SEGREDO Henriqueta Lisboa
Andorinha no fio
escutou um segredo.
Foi à torre da igreja,
cochichou com o sino.
E o sino bem alto:
delém-dem
delém-dem
delém-dem
dem-dem!
Toda a cidade
ficou sabendo.
escutou um segredo.
Foi à torre da igreja,
cochichou com o sino.
E o sino bem alto:
delém-dem
delém-dem
delém-dem
dem-dem!
Toda a cidade
ficou sabendo.
quinta-feira, 17 de junho de 2010
FRANKSTEIN
A menina tem
a boca
nas orelhas
não é pela lua
não é pelo sol
é que a menina passeia
com seu frankstein
O rabo é um toco
e o troço
diz pouco
au, au, au
diz pouco
ai, ai, ai...
frankstein não vive
amarrado
não é solto das patas
não tem pedigree
não é vira-latas
só diz au, au, au
quando a menina vem
só diz ai, ai, ai
quando a menina vai.
terça-feira, 15 de junho de 2010
QUERIA QUE EXISTISSE... - Tatiana Belinky
Esta história, creio, traz preciosos argumentos que ajudarão a justificar a necessidade dos livros e da leitura na vida das crianças. "Criança necessita tanto do 'sobrenatural' como do 'mágico' e do 'fantástico'". Dizem o mesmo os psicanalistas Diana Corso e Mário Corso, no livro Fadas no divã.
O que vou contar aconteceu quando o protagonista deste “causo” estava em plena época dos “por quês” e “pra quês”: quatro anos de idade. Uma idade em que as cabecinhas infantis funcionam à toda, observando e indagando e tentando decifrar o complicado e misterioso mundo que as rodeia. Um mundo complicado e misterioso, mas também fascinante, e às vezes mesmo assustador. Mas vamos ao “causo em causa”.
Andrezinho nasceu de um casamento “misto”, de um casal oriundo de religiões diferentes, e seus pais, um tanto intelectualizados e agnósticos, não se preocuparam em ensinar-lhe qualquer coisa sobre religião. Achavam que, à medida que os filhos fossem crescendo e amadurecendo, acabariam por encontrar e escolher o seu próprio caminho. E que, por enquanto, bastava educá-los numa linha ética e humanista, de amor, solidariedade, tolerância e respeito – por si mesmo e pelo próximo.
Foi na hora do almoço. Sentado à mesa, com os pais e o irmão maior, Andrezinho não participava da animada conversa familiar. Como sempre, quando ficava pensativo, ele enrolava no dedinho indicador a mecha de cabelo macio que lhe caía da testa, os grandes olhos negros, tão parecidos com os do pai, perdidos na distância. Até que por fim, já na sobremesa, o menino soltou um suspiro tão profundo, que todos se voltaram para ele.
- O que foi, André? – Perguntou a mãe, que nunca o chamava de Andrezinho, porque ele não gostava de diminutivos, a ponto de chamar uma escrivaninha de escrivana e uma galinha de gala...
A resposta veio sem titubear:
- Ah... eu gostaria que existisse Deus!
Surpresa geral: ninguém – pelo menos ninguém da família – nunca lhe falou nesse assunto, nunca disse que Deus existia ou deixava de existir. Quando muito, ele deve ter ouvido em casa – porque ainda nem ia à escola – exclamações do tipo “Ai, meu Deus”, “Se Deus quiser”, “Graças a Deus”, “Deus me livre”, essas coisas. E agora, aquele sentido suspiro!
- Mas... por que você diz isso? – pergunta a mãe, carinhosamente, após brevíssima hesitação.
- Porque, se existe Deus, eu ia pedir-lhe uma coisa.
Os pais se entreolharam: o que será que falta a este menino, “onde foi que erramos”? E a mamãe, jovem e inexperiente, pra não dizer bobinha, pergunta:
- Mas o que é que você iria pedir a Deus, que o papai e a mamãe não te podem dar?
E imediatamente, pela expressão do rosto do filhote, mesmo antes de ouvir a resposta, percebe que a sua pergunta foi no mínimo ingênua, ou mesmo tola. Porque a resposta veio pronta, em tom entre admirado e reprovador:
- Ah, mãe! Se existisse Deus, eu ia pedir a Ele para existir Papai Noel!
Ninguém riu. E não era caso de rir, mesmo.O Andrezinho acabava de nos dar uma grande lição, uma “aula magistral”, numa só curta frase. E a lição era: criança necessita do “sobrenatural” como do “mágico” e do “fantástico”.
“Tadinho” do André – quatro aninhos e já tão sem “ilusões”. As lindas ilusões e fantasias dos contos de fadas, das poesias, de todas essas coisas bonitas e muito, muito importantes para a criança. “A fantasia é o hormônio da alma”, disse o famoso escritor e pensador Ortega y Gasset, “sem a qual a alma se resseca e morre...”.
Mas não se preocupem: o Andrezinho superou esse ceticismo, e foi, ele mesmo, um formoso sonhador e poeta na vida.
Do livro Bidínsula e outros retalhos. Editora Atual, coleção Conte outra vez. 1990.
MERA DIVERSÃO
Em quais de nossas atividades diárias nos divertimos? Na vida profissional, por exemplo, há alguma possibilidade disso acontecer?
Misturar pitadas de diversão na competição diária, como o leite no café (mesmo que seja em pó), é uma extravagância, ou quase uma necessidade?
Chamou-me a atenção o comentário do narrador da corrida de Fórmula Um, no último domingo: o piloto divertiu-se um bocado ao fazer manobras em que estavam implicados dois outros pilotos, mais velozes do que ele, e que buscavam ultrapassá-lo - já que brigavam pelas primeiras posições.
Nessas corridas, até os centésimos de segundo são importantes. É o tempo domado pela tecnologia. Esta tem sua margem de erro cada vez menor. As manobras, as decisões, neste curto espaço de tempo, são mecânicas (mecanizadas) ao máximo. Quem bom que, apesar disso tudo, o piloto divertiu-se.
Parece-me que a diversão é vista por nós como simples, sem importância, hoje em dia. Talvez por ter sido diluída pelos atropelamentos da vida que levamos.
Considero que abrir clarões para a diversão, em meio à selva da mecanicidade diária, é como vislumbrar um oásis no deserto.
A diversão a que me refiro pode ser chamada de lúdica e/ou estética.
Não é passatempo ou entretenimento, como boa parte do que assistimos na TV, ou vemos na internet.
Mas acima de tudo, essas brechas lúdicas só têm valor se causarem algum efeito em cada um de nós. Se nos despertarem para algo que ainda não percebíamos. Efeitos que funcionam à maneira de sacudidelas, e nos acordam para outras dimensões do existir, opostas à mecanicidade e superficialidade de nosso pensar e agir, seja individual ou junto com os outros.
Misturar pitadas de diversão na competição diária, como o leite no café (mesmo que seja em pó), é uma extravagância, ou quase uma necessidade?
Chamou-me a atenção o comentário do narrador da corrida de Fórmula Um, no último domingo: o piloto divertiu-se um bocado ao fazer manobras em que estavam implicados dois outros pilotos, mais velozes do que ele, e que buscavam ultrapassá-lo - já que brigavam pelas primeiras posições.
Nessas corridas, até os centésimos de segundo são importantes. É o tempo domado pela tecnologia. Esta tem sua margem de erro cada vez menor. As manobras, as decisões, neste curto espaço de tempo, são mecânicas (mecanizadas) ao máximo. Quem bom que, apesar disso tudo, o piloto divertiu-se.
Parece-me que a diversão é vista por nós como simples, sem importância, hoje em dia. Talvez por ter sido diluída pelos atropelamentos da vida que levamos.
Considero que abrir clarões para a diversão, em meio à selva da mecanicidade diária, é como vislumbrar um oásis no deserto.
A diversão a que me refiro pode ser chamada de lúdica e/ou estética.
Não é passatempo ou entretenimento, como boa parte do que assistimos na TV, ou vemos na internet.
Mas acima de tudo, essas brechas lúdicas só têm valor se causarem algum efeito em cada um de nós. Se nos despertarem para algo que ainda não percebíamos. Efeitos que funcionam à maneira de sacudidelas, e nos acordam para outras dimensões do existir, opostas à mecanicidade e superficialidade de nosso pensar e agir, seja individual ou junto com os outros.
quarta-feira, 9 de junho de 2010
OFICINAS LITERÁRIAS EM PANAMBI/RS
Na terça-feira à tarde (08/06) e quarta-feira pela manhã e pela tarde (09/06) desenvolvemos oficinas literárias nas escolas municipais do município de Panambi. Visitamos as escolas E.M.E.F. Conrado Doeth e E.M.E.F. Bom Pastor.
Nas oficinas, partimos da importância da leitura como instigadora de nossa imaginação, possibilitando criar/inventar e, assim, desfrutarmos o direito da AUTORIA.
Após a declamação de um poema, ou da contação de uma história, enfatizamos para as crianças os elementos fundamentais que autores se fazem valer, tais como a surpresa no desfecho da história, ou uso criativo de imagens, etc.
Os poemas tornam-se mais atraentes se declamados em voz alta, se repetidos, memorizados, lidos para os outros. Prestando atenção, é claro, ao ritmo e à musicalidade.
Resta-nos agradecer neste blog o apoio do colega e amigo Ezequiel Paula dos Santos, pelos contatos, pela articulação das oficinas junto às escolas, enfim, pelo seu engajamento em questões ligadas à cultura e ao conhecimento.
Da mesma maneira, às direções das escolas, coordenações e ao grupo de profes que estiveram ligadas direta ou indiretamente à motivação dos alunos, para que estes se aproximem cada vez mais dos livros e da leitura.
Já estamos com saudades dos amigos (profes e alunos) que fizemos em Panambi. Basta um aceno, e voltaremos correndo para lá.
As atividades deram-se de maneira interativa, com as crianças de terceira, quarta, quinta, sexta, sétima e oitava séries. Os alunos haviam lido, com antecedência junto com suas professoras, os livros "Teco, o poeta sonhador, em: os mistérios do porão" e "Teco... em: segredos do coração".
Nas oficinas, partimos da importância da leitura como instigadora de nossa imaginação, possibilitando criar/inventar e, assim, desfrutarmos o direito da AUTORIA.
Após a declamação de um poema, ou da contação de uma história, enfatizamos para as crianças os elementos fundamentais que autores se fazem valer, tais como a surpresa no desfecho da história, ou uso criativo de imagens, etc.
Os poemas tornam-se mais atraentes se declamados em voz alta, se repetidos, memorizados, lidos para os outros. Prestando atenção, é claro, ao ritmo e à musicalidade.
Resta-nos agradecer neste blog o apoio do colega e amigo Ezequiel Paula dos Santos, pelos contatos, pela articulação das oficinas junto às escolas, enfim, pelo seu engajamento em questões ligadas à cultura e ao conhecimento.
Da mesma maneira, às direções das escolas, coordenações e ao grupo de profes que estiveram ligadas direta ou indiretamente à motivação dos alunos, para que estes se aproximem cada vez mais dos livros e da leitura.
Já estamos com saudades dos amigos (profes e alunos) que fizemos em Panambi. Basta um aceno, e voltaremos correndo para lá.
domingo, 6 de junho de 2010
ENCONTRO COM BANDEIRA - Affonso Romano de Sant'Anna
NÃO VAMOS ATROPELAR O BOM GOSTO
Texto literário é aquele que sobrevive ao passar do tempo. Não é descartável dias depois, é, no mínimo, reutilizável. Pode/deve ser reescrito, lapidado, como o artista faz com sua obra.
O que acontece, cada vez mais, principalmente com o velocidade da internet, é o apelo para espalhar pelo mundo nossa "obra". Mas aí estamos enredados mais ao narcisismo e à vontade de "aparecer", do que à necessidade de fazer balançar a sociedade com nossa literatura.
Com essa pressa e presos ao desejo de que olhem para nós, "vejam como tenho idéias brilhantes", ficamos atolados à superfície, e pouco tocamos/alcançamos os conceitos e imagens, que tornam possível pensar e sentir a beleza.
Antes de semearmos nossa "obra" no mundo, deveríamos dar-lhe um tempo para germinar, acostumar-se com as condições ambientais, para que de fato seja fértil. Aguardar alguns dias para então relê-la e perguntar: vai para o lixo? É descartável? Reutilizável? Como pode ser melhorada?
O pior é que a maioria de nós, escritores de província, está convencido de que escreve bem. Claro, nossos familiares e amigos, mesmo tendo ressalvas e algum conhecimento da coisa, quase sempre vão nos elogiar.
Acima de tudo, não quero que meu texto suscite, ou o amor, ou o ódio, mas que possibilite, minimamente, uma abertura para a reflexão.
Genial, entre outras coisas da crônica abaixo, é a afirmação de Sant'Anna de que "aos 17 anos (...) não entendia por que Bandeira ou Drummond levavam cinco anos para publicar um livrinho com quarenta e tantos poeminhas."
Vejam como a pressa caminha na direção contrária da "boa" poesia/literatura.
Eu tinha uns 17 anos. E Manuel Bandeira era, então, considerado o maior poeta do país. E com 17 anos é não só desculpável, mas aconselhável que as pessoas façam a catarse de seus sentimentos em forma de versos. Os reincidentes, é claro, continuam vida afora e podem pelos versos chegar à poesia.
Morando numa cidade do interior, eu olhava o Rio de Janeiro onde resplandecia a glória literária de alguns mitos daquela época. Então fiz como muito adolescente faz: juntei os meus versos, saí com eles debaixo do braço fui mostrá-los a Bandeira e Drummond.
Toda vez que, hoje em dia, algum poeta iniciante me procura, me lembro do que se passou comigo em relação a Manuel Bandeira. Para alguns tenho narrado o fato como algo, talvez, pedagógico. Se todo autor quer ver sua obra lida e divulgada, o jovem tem uma ansiedade específica. Ele não dispõe de editoras, e, ainda ninguém, precisa do aval do outro para se entender. E espera que o outro lhe abra o caminho e reconheça seu talento.
Ser jovem é muito dificultoso.
O fato foi que meu irmão Carlos, no Rio, conseguiu um encontro nosso com Bandeira. E um dia desembarco nesta cidade pela primeira vez vendo o mar, pela primeira vez cara a cara com os poetões da época.
Encurtarei a estória. De repente, estou subindo num elevador ali na Av. Beira-Mar, onde morava Bandeira. Eu havia trazido um livro com centenas de poemas, que um amigo encadernou. Naquela época escrevia muito, trezentos e tantos poemas por ano. E não entendia por que Bandeira ou Drumond levavam cinco anos para publicar um livrinho com quarenta e tantos poeminhas. A necessidade de escrever era tal, que dormia com papel e lápis ao lado da cama ou, às vezes, com a própria máquina de escrever. Assim, quando a poesia baixava nos lençóis adolescentes, bastava pôr os braços para fora e registrar. E assim podia dormir aliviado.
Mas o poeta havia pedido aos intermediários que eu fizesse uma seleção dos textos. O que era justo. E Bandeira tinha sempre uma exigência: o estreante deveria trazer algum poema com rima e métrica, um soneto, por exemplo. Era uma maneira de ver se o candidato havia feito opção pelo verso livre por incompetência ou por conhecimento de causa.
Abriu-se a porta do apartamento. Eu nunca tinha estado em apartamento de escritor. A rigor não posso nem garantir se havia visto algum escritor de verdade assim tão perto. E não estava em condições emocionais de reparar em nada. Fingia uma tensa naturalidade mineira. O irmão mais velho ali ao lado para garantir.
A conversa foi curta. Tudo não deve ter passado de dez a quinze minutos. Lembro que Bandeira estava preparando um café ou chá e nos ofereceu. Havia uma outra pessoa, um vulto cinza por ali, com o qual conversava quando chegamos. Bandeira se levantava de vez em quando para pegar uma coisa ou outra. E tossia. Tossia talvez já profissionalmente, como tuberculoso convicto.
Lá pelas tantas, ele disse: pode deixar aí os seus versos. Não precisa deixar todos, escolha os melhores. Vou ler. Se não forem bons, eu digo, hein?!
– Claro, é isso que eu quero – respondi juvenilmente, certo de que ele ia acabar gostando.
Voltei para Juiz de Fora. Acho que não esperava que o poeta respondesse.Um dia chega uma carta. Envelope fino, papel de seda, umas dez linhas. Começava assim: “Achei muito ruins os teus versos”. A seguir citava uns três poemas melhores e os versos finais do “Poema aos poemas que ainda não foram escritos”. Oh! Gratificação! ele copiara com sua letra aqueles versos: “saber que os poemas que ainda não foram escritos/ virão como o parente longínquo,/como a noite/ e como a morte”.
Não fiquei triste ou chocado com sua crítica sincera. Olhei as bananeiras do quintal vizinho com um certo suspiro esperançoso. Levantei-me, saí andando pela casa, com um ar de parvo feliz. Eu havia feito quatro versos que agradaram ao poeta grande.
A poesia, então, era possível.
SANT’ANNA, Affonso Romano de. Porta de colégio e outras crônicas. 3 ed. São Paulo: Ática, 2000.
quinta-feira, 3 de junho de 2010
RECEITA contra dor de amor - Roseana Murray
arte de Miró
com todos os seus barcos a vela
chore o céu e suas estrelas
os seus mistérios o seu silêncio
chore um equilibrista caminhado
sobre a face de um poema
chore o sol e a lua
a chuva e o vento
para que uma nova semente
entre pela janela adentro
do livro Receitas de olhar.
terça-feira, 1 de junho de 2010
EXPERIÊNCIA - Luis Fernando Veríssimo
Nesta história nos deparamos com a intertextualidade. Todos assistimos ao filme Dr. Frankstein, em suas diferentes versões. Nos filmes há uma dose de terror e a necessidade de reflexões filosóficas, tais como: quem tem o direito de gerar a vida? Quais os limites ético-morais para a ação do homem?
Veríssimo retoma o tema do filme, que é a "criação" de um ser em laboratório, um "monstro", feito pelo próprio homem. Mas o andamento da história, e as consequências de tais façanhas, tomam um rumo diferente ao dos filmes. Ah, e os personagens da história (bem-humorada) do Veríssimo são três simpáticos loucos, mais engraçados até do que a criatura por eles criada.
Antes do contar a história para os alunos na escola, não havia me dado conta da relação com Frankstein. Os alunos de quinta série do Ensino Fundamental me chamaram a atenção para isso.
Em vez de um, são três os cientistas loucos. Mesmo trabalhando em conjunto durante anos, os três têm dificuldades em terminar sua obra: um homem criado no laboratório, com os restos de outros homens. Resta-lhes pouco tempo. Os camponeses estão subindo na direção do castelo, com seus archotes, para linchá-los.
Uma descarga elétrica percorre o corpo da Criatura estendida sobre a mesa. É a centésima descarga que ele recebe. Mas desta vez a criatura desperta. Abre os olhos. Estica os braços. Estica as pernas.
- Ela vive! - Exclama o primeiro cientista louco.
- deu certo! - Grita o segundo.
- Levanta-te e anda! - Ordena o terceiro.
Lentamente, a criatura começa a se erguer. Senta na mesa. Olha para os seus criadores. Um olho é castanho e o outro é azul. Tudo bem, não se pode pensar em tudo. O importante é que a Criatura está viva. Finalmente, a Criatura está viva e funciona!
A Criatura desce da mesa, dá um passo. Cai. É cercada pelos três cientistas. O que houve?
- Já vi tudo - diz o primeiro cientista, o mais gordo. - Ela tem duas pernas esquerdas. Quem era o encarregado das pernas?
- Eu - confessa o segundo cientista, o de bigode. - Errei, pronto. Mas os braços também estão errados e braço não era comigo.
- Peguei dois braços direitos de propósito - defende-se o terceiro cientista, o de óculos grossos. - Assim ela seria ambidestra e...
- Está bem, está bem. Não podemos perder tempo. Vamos substituir uma perna por um braço, e vice-versa.
- Mas aí ela fica renga.
- Na hora de bater palmas, vai cair no chão.
- No futebol, quando dominar com a direita, vai ser mão.
- Vocês deviam ter pensado nisso antes! Me ajudem a botá-la de novo na mesa. Rápido, que os camponeses já estão na porta.
A criatura é recolocada sobre a mesa. Começa a operação.
- Bisturi.
- Está aqui.
- Ai! Olha aí, me cortou...
- Desculpe.
- Pinça.
- Eu estou pensando. É que...
- "Pensa" não, Pinça!
Os reimplantes são completados. A Criatura, mesmo renga, pode andar. Mas agora a sua cabeça, inexplicavelmente, está ao contrário.
Os camponeses já estão dentro do castelo. Forçam a porta do laboratório.
- Temos que recorrer a toda a nossa engenhosidade, saber e talento - diz o cientista mais gordo.
- Para fazer a criatura funcionar?
- Não. Para dar uma explicação aos camponeses. Afinal, há anos que eles se sacrificam pelas nossas experiências. Nos deram suas economias e seus órgãos. E só o que temos para lhes mostrar é este monstro.
Os camponeses invadem o laboratório e avançam sobre os três cientistas loucos. O mais gordo os detém com um sorriso, no entanto.
- Parem! Nós não somos os culpados.
- Então quem é?
- Bem. Em 1973 teve a crise do petróleo e...
*
Na carruagem, a quilômetros do castelo, o segundo cientista louco pergunta para o primeiro:
- O que é que a crise do petróleo teve a ver com o fracasso da nossa Criatura?
- Nada. Mas, até eles se darem conta, estaremos na fronteira.
Veríssimo retoma o tema do filme, que é a "criação" de um ser em laboratório, um "monstro", feito pelo próprio homem. Mas o andamento da história, e as consequências de tais façanhas, tomam um rumo diferente ao dos filmes. Ah, e os personagens da história (bem-humorada) do Veríssimo são três simpáticos loucos, mais engraçados até do que a criatura por eles criada.
Antes do contar a história para os alunos na escola, não havia me dado conta da relação com Frankstein. Os alunos de quinta série do Ensino Fundamental me chamaram a atenção para isso.
Em vez de um, são três os cientistas loucos. Mesmo trabalhando em conjunto durante anos, os três têm dificuldades em terminar sua obra: um homem criado no laboratório, com os restos de outros homens. Resta-lhes pouco tempo. Os camponeses estão subindo na direção do castelo, com seus archotes, para linchá-los.
Uma descarga elétrica percorre o corpo da Criatura estendida sobre a mesa. É a centésima descarga que ele recebe. Mas desta vez a criatura desperta. Abre os olhos. Estica os braços. Estica as pernas.
- Ela vive! - Exclama o primeiro cientista louco.
- deu certo! - Grita o segundo.
- Levanta-te e anda! - Ordena o terceiro.
Lentamente, a criatura começa a se erguer. Senta na mesa. Olha para os seus criadores. Um olho é castanho e o outro é azul. Tudo bem, não se pode pensar em tudo. O importante é que a Criatura está viva. Finalmente, a Criatura está viva e funciona!
A Criatura desce da mesa, dá um passo. Cai. É cercada pelos três cientistas. O que houve?
- Já vi tudo - diz o primeiro cientista, o mais gordo. - Ela tem duas pernas esquerdas. Quem era o encarregado das pernas?
- Eu - confessa o segundo cientista, o de bigode. - Errei, pronto. Mas os braços também estão errados e braço não era comigo.
- Peguei dois braços direitos de propósito - defende-se o terceiro cientista, o de óculos grossos. - Assim ela seria ambidestra e...
- Está bem, está bem. Não podemos perder tempo. Vamos substituir uma perna por um braço, e vice-versa.
- Mas aí ela fica renga.
- Na hora de bater palmas, vai cair no chão.
- No futebol, quando dominar com a direita, vai ser mão.
- Vocês deviam ter pensado nisso antes! Me ajudem a botá-la de novo na mesa. Rápido, que os camponeses já estão na porta.
A criatura é recolocada sobre a mesa. Começa a operação.
- Bisturi.
- Está aqui.
- Ai! Olha aí, me cortou...
- Desculpe.
- Pinça.
- Eu estou pensando. É que...
- "Pensa" não, Pinça!
Os reimplantes são completados. A Criatura, mesmo renga, pode andar. Mas agora a sua cabeça, inexplicavelmente, está ao contrário.
Os camponeses já estão dentro do castelo. Forçam a porta do laboratório.
- Temos que recorrer a toda a nossa engenhosidade, saber e talento - diz o cientista mais gordo.
- Para fazer a criatura funcionar?
- Não. Para dar uma explicação aos camponeses. Afinal, há anos que eles se sacrificam pelas nossas experiências. Nos deram suas economias e seus órgãos. E só o que temos para lhes mostrar é este monstro.
Os camponeses invadem o laboratório e avançam sobre os três cientistas loucos. O mais gordo os detém com um sorriso, no entanto.
- Parem! Nós não somos os culpados.
- Então quem é?
- Bem. Em 1973 teve a crise do petróleo e...
*
Na carruagem, a quilômetros do castelo, o segundo cientista louco pergunta para o primeiro:
- O que é que a crise do petróleo teve a ver com o fracasso da nossa Criatura?
- Nada. Mas, até eles se darem conta, estaremos na fronteira.
domingo, 30 de maio de 2010
TOMBO - Maria Dinorah
A rua ri
de meu tombo.
Henrique
ri que se rola.
João se rola de rir.
levanto
meio sem jeito
e rio
riso sem graça,
enquanto
de tanto riso
se sacode toda a praça!
de meu tombo.
Henrique
ri que se rola.
João se rola de rir.
levanto
meio sem jeito
e rio
riso sem graça,
enquanto
de tanto riso
se sacode toda a praça!
sexta-feira, 28 de maio de 2010
"Chatear" e "encher" - Paulo Mendes Campos
Contei esta história nesta semana na escola. Descobri que algumas profes, em outras escolas (públicas), haviam teatralizado com seus alunos do Ensino Médio. O livro que garimpei na biblioteca é da década de oitenta, da coleção Para gostar de ler, da Editora Ática. Saudosismo à parte, esta coleção de fato nos levou a gostar de ler, e hoje continua a despertar na gurizada o gosto pela leitura. Não tem como negar: com muito amor pelos livros, e com o olhar atento ao nosso redor, podemos despertar muitíssimo as crianças e os jovens para a descoberta dos livros e da leitura.
Um amigo meu me ensina a diferença entre "chatear" e "encher".
Chatear é assim: você telefona para um escritório qualquer na cidade.
- Alô! Quer me chamar por favor o Valdemar?
- Aqui não tem nenhum Valdemar.
Daí a alguns minutos você liga de novo:
- O Valdemar, por obséquio.
- Cavalheiro, aqui não trabalha nenhum Valdemar.
- Mas não é do número tal?
- É, mas aqui nunca teve nenhum Valdemar.
Mais cinco minutos, você liga o mesmo número:
- Por favor, o Valdemar já chegou?
- Vê se te manca, palhaço. Já não lhe disse que o diabo desse Valdemar nunca trabalhou aqui?
- Mas ele mesmo me disse que trabalhava aí.
- Não chateia.
Daí a dez minutos, liga de novo.
- Escute uma coisa! O Valdemar não deixou pelo menos um recado?
O outro desta vez esquece a presença da datilógrafa e diz coisas impublicáveis.
Até aqui é chatear. Para encher, espere passar mais dez minutos, faça nova ligação:
- Alô! Quem fala? Quem fala aqui é o Valdemar. Alguém telefonou para mim?
quinta-feira, 27 de maio de 2010
COMEÇAR DE NOVO
Queria trocar o ranger de dentes
da escada rolante dos compromissos
pela harpa e suas cordas dedilháves
que acalmam os ouvidos.
Abolir os roncos
de lábios sedentos
raspando a lata de refri
com a flauta de um canudinho.
Queria libertar-me
dos toques de celulares
que atropelam as horas
como um sino
e espantar a cacofonia
das conversas diárias
como estrondo
de terremoto
imprevisto.
Gostaria de reaprender a ouvir
como se fosse a primeira vez
e como se fosse pra nunca mais.
Beber gole após gole
novos acordes
e notas musicais.
da escada rolante dos compromissos
pela harpa e suas cordas dedilháves
que acalmam os ouvidos.
Abolir os roncos
de lábios sedentos
raspando a lata de refri
com a flauta de um canudinho.
Queria libertar-me
dos toques de celulares
que atropelam as horas
como um sino
e espantar a cacofonia
das conversas diárias
como estrondo
de terremoto
imprevisto.
Gostaria de reaprender a ouvir
como se fosse a primeira vez
e como se fosse pra nunca mais.
Beber gole após gole
novos acordes
e notas musicais.
terça-feira, 25 de maio de 2010
A MORTE DA TARTARUGA - Millôr Fernandes
O menininho foi ao quintal e voltou chorando: a tartaruga tinha morrido. A mãe foi ao quintal com ele, mexeu na tartaruga com um pau (tinha nojo daquele bicho) e constatou que a tartaruga tinha morrido mesmo. Diante da confirmação da mãe, o garoto pôs-se a chorar ainda com mais força. A mãe a princípio ficou penalizada, mas logo começou a ficar aborrecida com o choro do menino. "Cuidado, senão você acorda o seu pai". Mas o menino não se conformava. Pegou a tartaruga no colo e pôs-se a acariciar-lhe o casco duro. A mãe disse que comprava outra, mas ele respondeu que não queria, queria aquela, viva! A mãe lhe prometeu um carrinho, um velocípede, lhe prometeu uma surra, mas o pobre menino parecia estar mesmo profundamente abalado com a morte do seu animalzinho de estimação.
Afinal, com tanto choro, o pai acordou lá dentro, e veio, estremunhado, ver de que se tratava. O menino mostrou-lhe a tartaruga morta. A mãe disse - "Está aí assim há meia hora, chorando que nem maluco. Não sei mais o que fazer. Já lhe prometi tudo mas ele continua berrando desse jeito". O pai examinou a situação e propôs: - "Olha, Henriquinho. Se a tartaruga está morta, não adianta mesmo você chorar. Deixa ela aí e vem cá com o papai". O garoto depôs cuidadosamente a tartaruga junto do tanque e seguiu o pai, pela mão. O pai sentou-se na poltrona, botou garoto no colo e disse: - "Eu sei que você sente muito a morte da tartaruguinha. Eu também gostava muito dela. Mas nós vamos fazer para ela um grande funeral". (Empregou de propósito a palavra difícil). O menino parou imediatamente de chorar. "que é funeral?" O pai lhe explicou que era um enterro. "Olha, nós vamos à rua, compramos uma caixa bem bonita, bastante balas, bombons, doces e voltamos para casa. Depois botamos a tartaruga na caixa em cima da mesa da cozinha e rodeamos de velinhas de aniversário. Aí convidamos os meninos da vizinhança, acendemos as velinhas, cantamos o "Happy Birth-Day-To-You"pra tartaruguinha morta e você assopra as velas. Depois pegamos a caixa, abrimos um buraco no fundo do quintal, enterramos a tartaruguinha e botamos uma pedra em cima com o nome dela e o dia em que ela morreu. Isso é que é funeral! Vamos fazer isso?" O garotinho estava com outra cara. "Vamos papai, vamos! A tartaruguinha vai ficar contente lá no céu, não vai? Olha, eu vou apanhar ela". Saiu correndo. Enquanto o pai se vestia, ouviu um grito no quintal. "Papai, papai, vem cá, ela está viva!" O pai correu pro quintal e constatou que era verdade. A tartaruga estava andando de novo, normalmente. "Que bom, hein?" - disse - "Ela está viva! Não vamos ter que fazer o funeral!" "Vamos sim papai" disse o menino ansioso, pegando uma pedra bem grande - "Eu mato ela!"...
Afinal, com tanto choro, o pai acordou lá dentro, e veio, estremunhado, ver de que se tratava. O menino mostrou-lhe a tartaruga morta. A mãe disse - "Está aí assim há meia hora, chorando que nem maluco. Não sei mais o que fazer. Já lhe prometi tudo mas ele continua berrando desse jeito". O pai examinou a situação e propôs: - "Olha, Henriquinho. Se a tartaruga está morta, não adianta mesmo você chorar. Deixa ela aí e vem cá com o papai". O garoto depôs cuidadosamente a tartaruga junto do tanque e seguiu o pai, pela mão. O pai sentou-se na poltrona, botou garoto no colo e disse: - "Eu sei que você sente muito a morte da tartaruguinha. Eu também gostava muito dela. Mas nós vamos fazer para ela um grande funeral". (Empregou de propósito a palavra difícil). O menino parou imediatamente de chorar. "que é funeral?" O pai lhe explicou que era um enterro. "Olha, nós vamos à rua, compramos uma caixa bem bonita, bastante balas, bombons, doces e voltamos para casa. Depois botamos a tartaruga na caixa em cima da mesa da cozinha e rodeamos de velinhas de aniversário. Aí convidamos os meninos da vizinhança, acendemos as velinhas, cantamos o "Happy Birth-Day-To-You"pra tartaruguinha morta e você assopra as velas. Depois pegamos a caixa, abrimos um buraco no fundo do quintal, enterramos a tartaruguinha e botamos uma pedra em cima com o nome dela e o dia em que ela morreu. Isso é que é funeral! Vamos fazer isso?" O garotinho estava com outra cara. "Vamos papai, vamos! A tartaruguinha vai ficar contente lá no céu, não vai? Olha, eu vou apanhar ela". Saiu correndo. Enquanto o pai se vestia, ouviu um grito no quintal. "Papai, papai, vem cá, ela está viva!" O pai correu pro quintal e constatou que era verdade. A tartaruga estava andando de novo, normalmente. "Que bom, hein?" - disse - "Ela está viva! Não vamos ter que fazer o funeral!" "Vamos sim papai" disse o menino ansioso, pegando uma pedra bem grande - "Eu mato ela!"...
domingo, 23 de maio de 2010
FLORES E BORBOLETAS
À noite
desligo o celular
e os outros laços
que me prendem
à vida real.
Desejo que a memória
não me abandone
se algum pesadelo me raptar.
Mesmo que a noite insinue vários perigos
faço viagens a lugares desconhecidos.
O melhor de tudo é despertar
com flores e borboletas
para poder cruzar
a barreira dos sonhos.
Elas vão me aquecer
quando a solidão
for de doer.
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Aniversário, dois dias reunindo amigos, churrasco, bebida, muitos planos com meu amor, debates sobre o que fazer para salvar a humanidade. ...
-
Uma luz colorida baixou. pensei: é hoje! Um sinal, talvez, de que pertenço a um mundo melhor, onde ninguém morre antes da hora, as criança...
-
O rato Roque roque, roque Rói o queijo roque, roque Rói a cama roque, roque O pé da mesa roque, roque Rói o pão roque, roque O c...
















