terça-feira, 24 de setembro de 2013

A quem tiver carro - Fernando Sabino





O carro começou a ratear. Levei-o ao Pepe, ali na oficina da Rua Francisco Otaviano:
    - Pepe, o carro está rateando.
    Pepe piscou um olho:
    - Entupimento na tubulação. Só pode ser.
    Deixei o carro lá. À tarde fui buscar.
    - Eu não dizia? Defeito na bomba de gasolina.
    - Você dizia entupimento na tubulação.
    - Botei um diafragma novo, mudei as válvulas. Estendeu-me a conta: de meter medo. Mas paguei.
    - O carro não vai me deixar na mão? Tenho de fazer uma viagem.
    - Pode ir sem susto, que agora está o fino.
    Fui sem susto, a caminho de Itaquatiara. O fino! Nem bem chegara a Tribobó o carro engasgou, tossiu e morreu. Sorte a minha: mesmo em frente ao letreiro de "Gastão, o Eletricista".
    - Que diafragma coisa nenhuma, quem lhe disse isso? - e Gastão, o Eletricista, um mulatão sorridente que consegui retirar das entranhas de um caminhão, ficou olhando o carro, mãos na cintura:
    - O senhor mexeu na bomba à toa: é o dínamo que está esquentando.
    Molhou uma flanela e envolveu o dínamo carinhosamente, como a uma criança.
    - Se tornar a falhar é só molhar o bichinho. Vai por mim, que aqui no Tribobó quem entende disso sou eu.
    Nem no Tribobó: o carro não pegava de jeito nenhum.
    - Então esse dínamo já deu o prego, tem de trocar por outro. Não pega de jeito nenhum.
    Para desmenti-lo, o motor subitamente começou a funcionar.
    - Vai morrer de novo - augurou ele, - e voltou a aninhar-se no seu caminhão.
    Resolvi regressar a Niterói. À entrada da cidade a profecia do capadócio se realizou: morreu de novo. Um chofer de caminhão me recomendou o mecânico Mundial, especialista em carburadores - ali mesmo, a dois quarteirões. Fui até lá e em pouco voltava seguido do Mundial, um velho compenetrado arrastando a perna e as idéias:
    - Pelo jeito, é o carburador.
    Olhou o interior do carro, deu uma risadinha irônica:
    - É lógico que não pega! O dínamo está molhado!
    Enxugou o dínamo com uma estopa: o carro pegou.
    - Eu se fosse o senhor mandava fazer uma limpeza nesse carburador - insistiu ainda. - Vamos até lá na oficina...
    Preferi ir embora. Perguntei quanto era.
    - O senhor paga quanto quiser.
    Já que eu insistia, houve por bem cobrar-me quanto ele quis.
    Cheguei ao Rio e fui direto ao Haroldo, no Leblon, que me haviam dito ser um monstro no assunto:
    - Carburador? - e o Haroldo não quis saber de conversa. - Isso é o platinado, vai por mim.
    Cutucou o platinado com um ferrinho. Fui-me embora e o carro continuava se arrastando aos solavancos.
    - O platinado está bom - me disse o Lourival, lá da Gávea. - Mas alguém andou mexendo aqui, o condensador não dá mais nada. O senhor tem de mudar o condensador.
    Mudou o condensador e disse que não cobrava nada pelo serviço. Só pelo condensador.
    No dia seguinte o carro se recusou a sair da garagem.
    - Não é o diafragma, não é o carburador, não é o dínamo, não é o platinado, não é o condensador - queixei-me, deitando erudição na roda de amigos. Todos procuravam confortar-me:
    - Então só pode ser a distribuição. O meu estava assim...
    
- Você já examinou a entrada de ar?
    - Para mim você está com vela suja.
    E recomendavam mecânicos de sua preferência:
    - Tem uma oficina ali na rua Bambina, de um velho amigo meu.
    - Lá em São Cristóvão, procure o Borracha, diga que fui eu que mandei.
    - O Urubu, ali do “Posto 6”, dá logo um jeito nisso.
    Não procurei o Urubu, nem o Borracha, nem o Zé Pára-Lama, nem o Caolho dos Arcos, nem o Manquitola do Rio Comprido, nem o Manivela de Voluntários, nem o Belzebu dos Infernos, esqueci o automóvel e fui dormir. (.......).
    Mas pela manhã me lembrei de um curso que se anuncia aconselhando: "Aprenda a sujar as mãos para não limpar o bolso". Resolvi candidatar-me - e quem tiver ouvidos para ouvir, ouça, quem tiver carro para guiar, entenda. Fui à garagem, abri o capô, e fiquei a olhar intensamente o motor do carro, fria e silenciosa esfinge que me desafiava com seu mistério: decifra-me, ou devoro-te. Havia um fio solto, coloquei-o no lugar que me pareceu adequado. Mas não podia ser tão simples...
    Era. Desde então, o carro passou a funcionar perfeitamente...

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

NÂGETTS OU NUGÉTES?


A primavera começa a dar o ar da graça e a cidade, mesmo entupida de carros e, talvez por isso, com os nervos à flor da pele, fica mais colorida.  Além das flores, temos as vitrines e a variedade de anúncios espalhados pela cidade. Há uma linguagem urbana bem sortida, com uma mistura de português e inglês que, tenho a impressão, quer me humilhar.
Dia desses vi numa loja esses anúncios e tive a sensação de que era convidado a estudar inglês. Me senti também um chinelão, afinal, quando poderei ter um “office de executivo” e uma “home Studio e home black”?
Respiro fundo e constato: como ando por fora! Imagina o mico se, numa roda de amigos, eu errar a pronúncia desses termos em inglês, que estão na boca de todo mundo. E o pior, não domino nem um terço da gramática de minha língua.
Sei, sou um casmurro ao achar estranha a babel de expressões gritantes nas fachadas das lojas. Não sei bem o que me pertence. Só sei que sou convidado (ou empurrado) a entrar nessa onda, ou moda, ou tendência...
Henfil, no livro “A volta do Fradim” (de 1992), conta a história do personagem  Baixim que recebe um índio, enviado pela FUNAI, para ser integrado à civilização. Para começar o processo educativo do índio, diz Baixim:
“Pra você se integrar, vai ter primeiro que aprender a falar português! Preste atenção...”.  Então Baixim descreve um jovem, que passa por perto:
“Aquilo ali é um playboy com um blue-jeans, T-shirts, óculos Ray-ban, Hollywood king-size filtro, ronsonchiclettes e tênis reebok!”
E, diante de uma TV:
“A TV mostra um tape, agora um replay, um slide, um slogan, um jingle...”
Depois:
“Ali naquele shopping Center tem uma drug-store onde a gang dark bem cool pede hot-dog com ketchup ou então um big Mac bebe coca-cola ou Pepsi, Milk-shake, ice cream soda, ou mesmo wiskion de the rocks...”
E Baixim dá o seguinte conselho ao índio “iniciante”:
“Quando você tiver mais know how e um big background, vai tirar Xerox, mandar telex e, se tiver cash, jogar no open market ou no over night. Um dia entras numa joint venture e faz um holding...”
E, dirigindo-se ao seu aluno:
“Compreende?”
Ao que esse, prontamente,  responde:
“Yes, i do!”
Com relação a essa “culinária lingüística”, sei que não preparo grandes pratos. Apenas um miojo ou um sopa pronta de supermercado. Quanto aos nuggets, aprendi sua pronúncia correta num barzinho de esquina. Um sujeito, meio alto por causa de algumas cevas, pediu à garçonete (que por acaso era a gerente do estabelecimento) para que trouxesse o cardápio. Percorreu com os olhos a lista de opções e acabou pedindo um “nugétes”. Prontamente foi corrigido pela dona: “É nâgetts, senhor.  NÂGTTES!”
Aí, o sujeito pergunta: “De que é feito esse nugétes?”
Ao que a moça respondeu: “Nâgetts é  um misto de chikens com...”
Aí o freguês se saiu com essa:
“Faz assim, como não tô com pressa, me traz uma porção de galeto com polenta!”.

Eu, pelo que me toca, decidi entregar os pontos. De agora em diante, em vez de contar histórias, vou fazer stand up.

sábado, 14 de setembro de 2013

Dalton estava hibernando


Decidi criar um pseudônimo. Anotei na agenda algumas de suas características. Óbvio, para não me repetir, dei-lhe mais qualidades do que defeitos. Dalton Naseton - este é seu nome provisório -  não coloca em primeiro plano bens materiais, nem se preocupa em agradar os outros. Prefere ter opinião própria. É um sujeito insatisfeito com a vida agitada que vivemos. Chegou a confidenciar a alguns amigos que sonha viver uma vida simples, afastado dessa zoeira urbana. Diz que está mais do que na hora de nos reaproximarmos do ambiente natural, visando uma harmonia, por menor que seja, com a natureza. Outra qualidade do Dalton é a sua consciência de que pode e deve fazer algo, mesmo com seus textos, para dar exemplo e melhorar o mundo em que vivemos.
Imprudente, mencionei esse desejo para alguns amigos e eles, na mesma hora, criticaram, até zombaram...  “Medroso, preguiçoso... não dá conta nem de si mesmo e ainda quer criar Outro para falar o que tem medo de dizer em público!?” Tiranos, me compararam aos deputados lá de Brasília, que usam do voto secreto para escamotear seus conchavos anti-éticos.
Contra-argumentei dizendo que, manuseando os fantoches de um personagem, eu poderia me expressar de maneira muito mais solta, no caso, escrever, liberto da minha e também da censura dos outros.
Um dos amigos foi demasiado cruel: “O quê? Preguiçoso como você é, ainda quer duplicar o teu trabalho?” E, definitivo: “Seja você mesmo, não coloca mais uma máscara nessa tua cara de pau, e escreva algo interessante pra nós!”
Dei-lhe razão. Se eu queria escrever umas coisas legais, por que necessitava da carapuça de um nome desconhecido, em vez de enfrentar a crítica de cara limpa? Sim. Ninguém vai entender (e meus amigos demonstraram isso) essa nóia de criar um Robin Hood verbal, meu justiceiro. Seria perda de tempo explicar que Dalton seria um super-herói, e sua palavra agiria coma bala de borracha no coração dos maus, e um brinquedo nas mãos  dos bons e das crianças.
Quem me dera que Dalton fosse igual a uma estátua viva, tentando nos acordar para outros sentidos do cotidiano, sem nos importarmos com quem se esconde por trás do personagem...
Aqui estamos, eu e o Dalton, olhando em volta, escutando a natureza anunciar a primavera, sonhadores, e tentando compreender por que algumas pessoas são tão cruéis conosco. Decidimos não ligar para as tagarelices dos outros, nem seguirmos suas verdades. Agora, escutamos o silêncio.
Nesses anos todos, Dalton esteve hibernando? Precisava esperar tanto para se manifestar? Hoje ele me faz companhia quando caminho pela cidade. Sobre a critica dos amigos, prefere silenciar. Respeito sua decisão. Afinal, como disse Gibran K. Gibran, “a verdade de outra pessoa não está no que ela te revela, mas naquilo que não pode revelar-te. Portanto, se quiseres compreendê-la, não escutes o que ela diz, mas, antes, o que não diz”.

Mudei de ideia. Agora, em vez de escutar a voz de um outro, mesmo que seja minha própria invenção (ficcional), vou tentar escutar a mim mesmo, minha consciência. Mas isso é doloroso. Meu tribunal interior, percebo, é muito mais tirano do que meus amigos!

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Acordar


Tudo anda tenso na pátria amada, salve salve. Não me obriguem a fazer a crônica dessas águas agitadas, meio insensatas, dada a nossa história, a antiga e a de agora. Venho para quebrar o ritmo, parar com a correria, erguer a cabeça e pedir um minuto de silêncio, para ouvir grilos, sabiás, goteiras e cachoeiras. Guerras, tragedias, conflitos, bombas, cansei do crepúsculo e aurora que não vê o nascer e o pôr do sol. Suave, suave é minha opinião. Não estou nem aí pra verdade, sua razão veio tarde, trocou de lugar com o vento, o riso, o silêncio e o contra-senso. Tudo anda tenso na pátria amada. Em meio ao trânsito, buzinas e freadas, ouço a sirene da ambulância sem rumo no final de tarde. Calma. Serenidade nessa hora. Talvez o bicho não seja tão frágil. E sobreviva. Pode, quem sabe, acordar e dar o bote. Ou dar o fora.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

As vantagens de ser invisível - FILME



Acho que, se um dia eu tiver filhos e eles ficarem perturbados, não vou dizer a eles que as pessoas passam fome na China nem nada assim, porque isso não mudaria o fato de que eles estão transtornados. E mesmo que alguém esteja muito pior, isso não muda em nada o fato de que você tem o que você tem. É bom e mau.
...

Eu sei que tudo isso serão apenas histórias algum dia. E nossas fotos se tornarão velhas fotografias. E todos nós nos tornaremos mãe ou pai de alguém. Mas agora, exatamente agora, esses momentos não são histórias. Está acontecendo. Eu posso ver. E nesse momento, eu juro, nós somos infinitos.

...

É muito mais fácil não saber das coisas de vez em quando.
...
É duro ver um amigo sofrendo tanto. Especialmente quando você nada pode fazer, a não ser ‘estar lá’. Queria fazer com que ele parasse de sofrer, mas não posso. Então eu só o acompanho aonde quer que ele queira ir para me mostrar seu mundo.
...
Não pode colocar a vida das pessoas à frente da sua.
...
As coisas mudam e os amigos se vão, mas a vida não pára para ninguém.
...
Quando estava indo para casa, só conseguia pensar na palavra 'especial'. E pensei que a última pessoa que me disse isso foi tia Helen. Foi muito bom ter ouvido isso novamente. Porque eu acho que todos nós nos esquecemos ás vezes. E eu acho que todo mundo é especial á sua própria maneira. É o que eu penso.
...
Sei que sou quieto, e que devo falar mais, mas se soubesse as coisas que passaram pela minha cabeça, você saberia o que significou de verdade.
...
Sempre acho que um livro é meu favorito até eu ler outro.
Eu sinto o Infinito.
...

-Por que as pessoas boas escolhem as pessoas erradas? 
-A gente aceita o amor que acha que merece.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Antielegia eterea - Carlos Nejar




Na medida em que caem

os frutos, caem os homens,

caem as folhas, o sol cai

para o alto com as estrelas.

E eu, como um tronco

envelhecendo, vou ficando

oco por dentro e começo

a ser ocupado pelos passarinhos.

Começo a ser passarinho

no tronco. Até que o musgo

no céu me torne eterno.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Adote um poeta

 


Adote um poeta mesmo que seja pra guiar pela mão como bicho de estimação. Poodle, shitzu, pequinês, vira-latas. Asseado, perfumado, Don Juan das calçadas. Poeta galanteador, você sabe minha pouca intimidade com coleira, focinheira e roupinha do time do coração. Alimente a minha coragem pra entender as maluquices do mundo em suas viagens. Adote um poeta, meu algodão-doce, pra conduzir pela mão, como se Don Juan fosse...

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Palestra sobre prática de leitura nas escolas



A SMED de Ijuí promoveu palestra com o professor e escritor Américo Piovesan na última terça-feira, 13, para os mediadores de leitura das escolas da rede municipal. A atividade fez parte do programa Todos pela Leitura, que visa a incentivar a prática da leitura nas escolas.
Primeiramente foi o abordado o tema da infância nos nossos dias. “Constata-se que essa, em boa medida, está sendo substituída pelo universo corporativo dos adultos, o qual é perpassado pela competição e individualismo. As crianças são submetidas à rotina adulta, com uma excessiva carga de atividades. O tempo da infância necessita ser o do lúdico e da imaginação. Ao abrir mão desse tempo, e das vivências nele envolvidas, estaremos sonegando das crianças uma formação mais humanizada. Isso leva a uma defasagem na sua formação ética, o que implica conseqüências quanto ao futuro, que é o de buscar um mundo melhor”, diz o escritor.
Um segundo tema debatido diz respeito ao papel do mediador de leitura. Para o escritor é fundamental que esse exercite sua sensibilidade e empatia, no sentido de ouvir o outro - no caso, as crianças e jovens das escolas. Empatia significa o esforço de se colocar no lugar do outro, e fazer pontes, para aproximar as gerações, tendo como elo de ligação os livros e a leitura. O mediador necessita diversificar seu repertório de histórias prestando atenção nas demandas dos alunos, tão diversificadas quantas são as faixas etárias.
Num terceiro momento, para sublinhar a importância das histórias, o palestrante enfatizou que necessitamos apostar na palavra viva - ou seja, de que um livro pode entrar na vida de uma pessoa a ponto de levá-la a mudar sua forma de pensar e de viver. A partir da psicanálise, que afirma que um dos objetivos das palavras como instrumento terapêutico é o de "diminuir o peso que cada um carrega" (Abrão Slavutski, Zero Hora de julho de 2013), vemos que as histórias que lemos possibilitam alcançarmos alguma leveza, isto é, suporta a vida pesada, com suas perdas, frustrações, privações.
 Para finalizar, Américo Piovesan procurou relacionar o poeta Vinicius de Morais à necessidade de formar leitores visando a um mundo melhor. Além da contribuição do grande poeta para popularizar a poesia através da música, o mesmo, com o espírito sensível (humanista) de sua obra, serve de contraponto à nossa sociedade pautada pelo individualismo, competição, vazio existencial, e onde os negócios perpassam boa parte das relações entre as pessoas.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Grilado


Tua música
não é hip hop nem rock
regae foxtrot ou rap.
Tua música é estado de graça.

Se meu coração
parece um vulcão,
como posso querer
que se abram flores
em minhas mãos?

Minha aura 
Frankenstein
num vermelho incerto
acusa o golpe
quando passas
por perto.

De que modas preciso
de piercings e brincos
alegres e doloridos
para te encantar?

Minha vontade
é invadir teu território
e fazer  a loucura
de cantar o meu amor
pra todo mundo ouvir
do décimo primeiro andar.

Quem sabe eu mude
minha estratégia:
invista numa TV 
celular internet crediário
e carregue sempre comigo
códigos e senhas
gramática e dicionário.

Sei, no apagar das luzes,
somos pouca coisa
quase um “Eu, etiqueta”
como disse o poeta.
No final da festa
não sou grande coisa
e, tudo quanto é coisa,
me locupleta!

Anote e (a)guarde:
ainda não tenho idade
pra cair em desgraça.
Com tua presença
afundo na fossa
sem identidade reputação 
nem nome limpo na praça!

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Areia e espuma - Gibran Khalil Gibran




Somente uma vez fiquei mudo: quando alguém me perguntou: "Quem és tu?"

***
A verdade de outra pessoa não está no que ela te revela, mas naquilo que não pode revelar-te.
Portanto, se quiseres compreendê-la, não escutes o que ela diz, mas, antes, o que não diz.

sábado, 3 de agosto de 2013

QUE TAL, POETA? - Jorge Costa Melo


Neste universo
de amores tão dispersos
o poeta se agarra a seus versos
e vai seguindo um caminho.

Talvez lhe faltem carinhos
talvez se sinta sozinho...

Mas, poeta, 
que tal uma namorada?
dessas bem assanhadas,
despudorada, atrevida
que te mostre um recomeço
que te revire do avesso
e te devolva pra vida!!

Não é uma boa pedida?

terça-feira, 30 de julho de 2013

Sonho de Ícaro - Biafra



Voar, voar
Subir, subir
Ir por onde for
Descer até o céu cair
Ou mudar de cor
Anjos de gás
Asas de ilusão
E um sonho audaz
Feito um balão...
No ar, no ar
Eu sou assim
Brilho do farol
Além do mais
Amargo fim
Simplesmente sol...
Rock do bom
Ou quem sabe jaz
Som sobre som
Bem mais, bem mais...
O que sai de mim
Vem do prazer
De querer sentir
O que eu não posso ter
O que faz de mim
Ser o que sou
É gostar de ir
Por onde, ninguém for...
Do alto coração
Mais alto coração...
Viver, viver
E não fingir
Esconder no olhar
Pedir não mais
Que permitir
Jogos de azar
Fauno lunar
Sombras no porão
E um show vulgar
Todo verão...
Fugir meu bem
Pra ser feliz
Só no pólo sul
Não vou mudar
Do meu país
Nem vestir azul...
Faça o sinal
Cante uma canção
Sentimental
Em qualquer tom...
Repetir o amor
Já satisfaz
Dentro do bombom
Há um licor a mais
Ir até que um dia
Chegue enfim
Em que o sol derreta
A cera até o fim...
Do alto, coração
Mais alto, coração...
Faça o sinal
Cante uma canção
Sentimental
Em qualquer tom...
Repetir o amor
Já satisfaz
Dentro do bombom
Há um licor a mais
Ir até que um dia
Chegue enfim
Em que o sol derreta
A cera até o fim...
Do alto, o coração
Mais alto, o coração...(2x)


http://www.vagalume.com.br/byafra/sonho-de-icaro.html

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Playboy


Fico vidrado
no celular.
Você não liga
ninguém me liga
quando estou só.

Mansamente
mãos descobrem os segredos 
de uma outra geografia.

Atravesso o espelho
viro do avesso
para que não roubes
o meu sossego.

Meus ouvidos 
se postam
bem abertos
para ouvir as sereias
que cantam por perto.

Lábios e mãos entrelaçadas
serpentes a dançar
até o ponteiro do coração
disparar.

É o momento fatal
de virar a página
e imaginar
você sibilar
em ebulição:
"Vem depressa, 
meu garotão!"

Um dia você vai experimentar
essa aventura meio sozinha
meio estranha de namorar.
um jeito sexy de ser
playboy.


sexta-feira, 19 de julho de 2013

Dúvidas - Carlos Queiroz Telles


Às vezes 
 eu sinto que ela quer.
                                       Outras vezes
                                       eu acho que não.

                                        Ah, como grita
                                        o meu peito...
                                        Cala a boca,
                                        coração!

                                         Ela não pode
                                         desconfiar que
                                         este vai ser 
                                         o meu primeiro...
                                         Sufoco de vergonha
                                         e de falta de jeito.
                                         E agora, meu Deus?
                                         O que é que eu faço
                                         com as mãos?

                                          Às vezes 
                                          eu sinto que ela quer.
                                          Outras vezes 
                                          eu acho que não.

                                          Beijo ou não beijo...
                                          eis a questão.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Mala

Mala meu lado mais mala vilhoso virou mala mal maleável meticulosa milagrosa milimetricamente mala miserável mala excesso de bagagem supérflua de inutilidade pública esquecida nos achados & perdidos sem alças vazia e cheia de esperança de me preencher assim que te encontrar.

terça-feira, 9 de julho de 2013

Medida provisória


Primeiros goles de cerveja
o gosto é amargo
eu soco soco
até descer.

A cabeça turbinada
zonza alucinada
pergunta o que será 
de mim sem você.

Prometo abraçar a natureza
dar ao povo educação e muita arte
muita saúde e pão na mesa
levar o amor pra toda parte.

Temo que a paixão corrupta
faça a cabeça do meu ser
para que venda a minha alma
só pra poder te corromper.

Meu novo projeto decreto
não será debatido no plenário
socado será medida provisória:
fazer decolar a nossa história!


quarta-feira, 3 de julho de 2013

Poema tirado de uma notícia de jornal - Manuel Bandeira


João Gostoso era carregador de feira livre e morava no morro da Babilônia num barracão sem número
Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro
Bebeu
Cantou
Dançou
Depois se atirou na lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

É urgente, preciso falar...


É urgente.
Preciso falar
qualquer coisa
agora.
A espera
pelo fim do inverno
o re-começo da primavera,
que seja.
Dos projetos da hora
que me chamem pra dançar,
que seja.
Sonhos individuais
sonhos coletivos
meu lado comum, incomum,
adolescente, adulto, criança,
que seja.
Tentativas
acertos e erros
previstos e imprevistos
lembrados por uma amiga
na combustão mais sincera
de sua mais recente bebedeira.
Quero falar qualquer coisa, agora.
Para qualquer mente, ouvido
ou consciência virtual,
que seja.
O silêncio me incomoda.

Maria pintada de praia - Dalton Trevisan


GRANDALHÃO, voz retumbante, é adorado pelos filhos. João não vive bem com Maria ambiciosa, quer enfeitar a casa de brincos e tetéias. Ele ganha pouco, mal pode com os gastos mínimos. Economiza um dinheirinho, lá se foi com a asma do guri, um dente de ouro da mulher. Ela não menos trabalhadeira: faz todo o serviço, engoma a roupinha dos meninos, costura as camisas do marido. Inconformada porém da sorte, humilhando o homem na presença da sogra.

Para não discutir ele apanha o chapéu, bate a porta, bebe no boteco. Um dos pequenos lhe agarra a ponta do paletó:

— Não vá, pai. Por favor, paizinho.

Comove-se de ser chamado Paizinho. Relutante, volta-se para a fulana: em cada olho um grito castanho de ódio.

— O paizinho vai dar uma volta.

Tão grande e forte, embriaga-se fácil com alguns cálices. Estado lastimável, atropelando as palavras, é o palhaço do botequim. E, pior que tudo, sente-se desgraçado, quer o conchego do corpo gostoso da mulher.

Mais discutem, mais ele bebe e falta dinheiro em casa. Maria se emboneca, muito pintada e gasta pelos trabalhos caseiros. Desespero de João e escândalo das famílias, a pobre senhora, feia e nariguda, canta no tanque e diante do espelho as mil marchinhas de carnaval. Os filhos largados na rua, ocupada em depilar sobrancelha e encurtar a saia — no braço o riso de pulseiras baratas.

Com uma vizinha de má fama inscreve-se no programa de calouro:

— Sou artista exclusiva — ufana-se, com sotaque pernóstico. — A féria é gorda!

Aos colegas de rádio oferece salgadinhos e cerveja. João escapole pelos fundos, envergonhado da barba por fazer. Volta bêbado e Maria tranca a porta do quarto, obrigado a dormir no sofá da sala. Noite de inverno, o filho mais velho, ao escutá-lo gemer, traz um cobertor:

— Durma, paizinho.

A cada sucesso de Maria — o quinto prêmio da marchinha, o retrato no jornal, a carta com pedido de autógrafo:

— Ela ainda recebe uma vaia — é o comentário de João. - Com uma boa vaia ela aprende!

Ó não — essa aí quem é de cabelo oxigenado? Acompanhada a casa, horas mortas, pelo parceiro de vida artística. Ora o cantor de tangos, ora o mágico de ciências ocultas. Demora-se aos beijos na porta e as mães proíbem as crianças de brincar com os dois meninos. João sabe que é o fim — dona casada que tinge o cabelo não é séria. Vai dormir no puxado da lenha, encolhido na enxerga imunda, a garrafa na mão.

Dois dias fechado (assusta-lhe a própria força e jamais bate nos filhos), urra palavrão e desfere murro na parede. Maria faz as malas e, sem que os pequenos se despeçam de João, muda-se para casa dos pais.

Lá deixa os meninos e amiga-se com um pianista de clube noturno. Mais uma bailarina, que obriga os clientes a beber. O pianista, vicioso e tísico, toma-lhe o dinheiro e, se a féria não é gorda, ainda apanha.

Cansada de surra, volta à casa dos pais. Então a velha sai em busca de João e sugere as pazes.

— Ela que fique onde está. Não quero Maria, nem pintada de prata.

Despedido da fábrica por embriaguez, sobrevive com biscates. Ao vestir o paletó, da manga surge uma cobra e, aos berros, lança-o no fogo. Aranha cabeluda morde-lhe a nuca; inútil esmagá-la com o sapato, de uma nascem duas e três — enrodilha-se medroso a um canto e esconde nos joelhos a cabeça.

Domingo recebe a visita dos filhos, enviados pela sogra. Divertem-se no Passeio Público a espiar os macaquinhos. O pai compra amendoim e pipoca, que os três mordiscam deliciados. Afasta-se de mansinho e, atrás de uma árvore, empina a garrafa saliente no bolso traseiro da calça — as mãos cessam de tremer. Os meninos desviam os olhos: sapato furado, calça rasgada, paletó sem botão. Alisando a mão gigantesca:

— Não, paizinho. Não beba mais, pai.

Lágrimas correm pelo narigão de cogumelo encarnado. Despede-se com sorriso sem dentes. Na esquina gorgoleja a cachaça até a última gota.

Em delírio na sarjeta, recolhido três vezes ao hospício. A crise medonha da desintoxicação, solto quinze dias mais tarde. Mal cruza o portão, entra no primeiro boteco.

Maria cai nos braços do mágico de ciências ocultas e, proibida de cantar com voz tão horrorosa, consola-se no tanque de roupa. Nem o amante nem os velhos querem saber dos piás, internados no asilo de órfãos.

Cada um aprende seu ofício e, no último domingo do mês, com permissão da freira, vão bem penteadinhos à casa do pai. Ainda deitado, curte a ressaca; com alguns goles sente-se melhor. Os pequenos varrem a casa, acendem o fogo, olhinho irritado pela fumaça. No almoço apresentam café com pão e salame rosa. Sentado na cama, o pai contenta-se em vê-los comer. Sorri em paz, um deles enxuga-lhe o suor frio da testa. Sem coragem de abandoná-lo, os filhos a seu lado durante a noite: fala bobagem, treme da cabeça aos pés, bolhas de escuma espirram no canto da boca.

Os meninos adormecem, ouvindo o ronco feio do afogado. O maior acorda no meio da noite, vai espiar o pai em sossego, olho branco. Fala com ele, não se mexe. Tem medo e chama o irmão:

— O paizinho morreu.

Sem chorar, encolhidos na beira da cama, à escuta dos pardais da manhã.



Texto extraído do livro “20 Contos Menores”, Editora Record – Rio de Janeiro, 1979, pág. 43.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Tinha uma pedra no meu poema



Tinha uma pedra no meu poema
no meu poema tinha uma pedra
jamais esquecerei esse sufoco
nas pupilas de minha vida tão dilatada
tinha uma pedra no meu poema
no meu poema tinha uma pedra.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Pôquer interminável I - Luis Fernando Verissimo



Cinco jogadores em volta de uma mesa. Muita fumaça. Toca a campainha da porta. Um dos jogadores começa a se levantar.
        Jogador 1 - Onde é que você vai? Ninguém sai.
Os outros - Ninguém sai. Ninguem sai.
        jogador 2 - Bateram na porta. Eu vou abrir.
        Jogador 1 - A sua mulher não pode abrir?
        Jogador 2 - A minha mulher saiu de casa. Levou os filhos e foi pra casa da mãe dela.
        Jogador 1 - Sua mulher abandonou você só por causa de um joguinho de pôquer?
jogador 2 - E que nós estamos jogando há duas semanas.
jogador 1 - E dai?
Jogador 2 - Ela disse: "Ou os seus amigos saem, ou eu saio".
jogador 1 - Ninguém sai.
        Os outros - Ninguém sai. Ninguem sai.
        (A campainha toca outra vez. O dono da casa vai abrir, sob
o olhar de suspeita dos outros. É um garoto. O garoto se dirige ao
Jogador 1).
        Garoto - A mãe mandou perguntar se o senhor vai voltar
para casa.
Jogador 1 - Quem é a sua mãe?
Garoto - Ué. A minha mãe é a sua mulher.
        Jogador 1 - Ah. Aquela. Diz que agora eu não posso sair.
Os outros - Ninguém sai. Ninguém sai.
        Garoto - Eu trouxe uma merenda para o senhor.
        jogador 3 - Epa. O golpe do sanduíche. Mostra!
        Jogador 4 - Vê se não tem uma seqüência dentro.
        jogador 1 - Não tem nada. Só mortadela.
        Garoto - A mamãe também mandou pedir dinheiro.
        (todos os jogadores cobrem as suas fichas.)
        Todos - Ninguém dá. Ninguém dá.
        Jogador 1 - Diz pra sua mãe que eu estou com um four de ases na mão. Como ninguém vai ser louco de querer ver, esta mesa é minha e nós estamos ricos.
        Jogador 2- Se você tem four de ases então tem sete ases no baralho, porque eu tenho trinca.
        Jogador 1 - Diz pra sua mãe que o cachorrão falhou.
        (toca o telefone. O dono da casa se levanta para atender.)
        Jogador 3 - Mas o quê? Não se joga mais? Ninguém sai.
        Os outros - Ninguém sai. Ninguém sai.
        (Apesar dos protestos, o dono da casa vai atender o telefone. Volta.)


jogador 2 - Era a mulher do Ramiro dizendo que o nené já vai nascer.
Jogador 4 - O Meu filho vai nascer. Tenho que ir lá.
        Jogador 6 - Ninguém sai.
Os outros - Ninguém sai. Ninguém sai.
        Jogador 4 - Mas é o meu filho.
        Jogador 3 - Você vai pro batizado. Quem é que joga?

Original

Aniversário, dois dias reunindo amigos, churrasco, bebida, muitos planos com meu amor, debates sobre o que fazer para salvar a humanidade. ...