terça-feira, 26 de julho de 2016

Por que as pessoas falam tanto? - Eliane Brum


Uma vez passei dez dias num retiro de meditação vipassana, no interior do Rio de Janeiro, para fazer uma reportagem para a Época. Havia muitas regras. Uma delas era o silêncio. Por dez dias era proibido falar. Também devíamos evitar olhar para as outras pessoas. O objetivo era silenciar a mente até que não houvesse nenhum ruído também dentro de nós. Foi uma experiência fantástica, que me mudou para sempre. Nunca antes estive tão em mim. E nunca depois voltei a estar.
O silêncio e um progressivo mergulho interno, em vez de me alienar do mundo, me conectaram a ele de um modo até então inédito para mim. Eu sentia cada segundo, por que eles demoravam a passar. Percebia o vento e as nuances das cores do céu e das folhas das árvores em detalhes. Olhava, cheirava, ouvia e tocava o mundo como se tudo fosse novo. Cada centímetro de terra era capaz de me ocupar por minutos. Sem palavras, a realidade me alcançava com mais força. Finalmente eu não apenas compreendia, mas vivia a poesia de Alberto Caeiro: “Sinto-me nascido a cada momento para a eterna novidade do mundo”.
Antes que alguém tenha ideias, experimentei tudo isso sem nenhuma droga. Nenhuma mesmo. Não podíamos tomar álcool, fumar ou ingerir qualquer medicamento, nem mesmo aspirina. Minha droga era a lucidez. Naqueles dez dias, ouvi com mais clareza a mim mesma. E passei a escutar melhor o mundo em que vivia. Senti que finalmente estava no mundo. Eu era.
No décimo dia, voltamos a falar. O retiro acabaria no dia seguinte e precisávamos nos preparar para retornar a uma realidade cotidiana de ruídos e demandas excessivas. Lembro que eu não queria falar. Fiquei assustada quando todo mundo começou a falar ao mesmo tempo. Percebi que a maioria do que se dizia nunca deveria ter sido dito. Sobrava.
Uma parte eram fofocas que haviam sido guardadas por dias. E que poderiam ter ficado impronunciadas para sempre. Percebi, principalmente, que depois de dez dias de silêncio muitas de nós não queriam ouvir. Só falar. Poucas eram aquelas que realmente desejavam escutar a experiência da outra, a voz da outra. A maioria só queria contar da sua. Não tinham sentido falta de outras vozes, apenas do som da sua. Dez dias de silêncio não tinham sido suficientes para acabar com nossa surdez à voz alheia.
A reportagem foi publicada, com o título de “O inimigo sou eu”. Eu segui, guardando em parte o que aprendi lá. E tenho sentido falta daqueles dez dias de silêncio, agora que aumenta em níveis quase insuportáveis a poluição sonora dentro e fora de mim.
Acho que nunca escutamos tão pouco. E talvez por isso nunca fomos tão solitários. Quando faço palestras sobre reportagem, os estudantes de jornalismo costumam perguntar o que devem fazer para se tornarem bons repórteres. Minha resposta é sempre a mesma: escutem. Acredito que mais importante do que saber perguntar é saber escutar a resposta. Não apenas para ser um bom jornalista, mas para ser uma boa pessoa. Escutar é mais do que ouvir. Como repórter e como gente esforço-me para ser uma boa “escutadeira”.
É a escuta que nos leva ao mundo. E é a escuta que nos leva ao outro. Quando não escutamos, nos tornamos solitários, mesmo que estejamos no meio de uma festa, falando sem parar para um monte de gente. Condenamo-nos não à solidão necessária para elaborar a vida, mas à solidão que massacra, por que não faz conexão com nada. Não escutamos nem somos escutados. Somos planetas fechados em si mesmos. Suspeito que essa é uma época de tantos solitários em grande parte pela dificuldade de escutar.
Basta observar. As pessoas não querem escutar, só querem falar. Depois de muita observação, classifiquei cinco tipos básicos de surdos. Há aqueles que só falam e pronto. Emendam um assunto no outro. Fico prestando atenção para detectar quando respiram e não consigo. Acho que inventaram um jeito de falar sem respirar. E ganhariam mais dinheiro se entrassem em algum concurso de tempo sem oxigênio embaixo d’água. Aí, pelo menos, ficariam quietas.
Existem aqueles que falam e falam e, de repente, percebem que deveriam perguntar alguma coisa a você, por educação. Perguntam. Mas quando você está abrindo a boca para responder, já enveredaram para mais algum aspecto sobre o único tema fascinante que conhecem: eles mesmos.
Há aqueles que fingem ouvir o que você está dizendo. Você consegue responder. Mas, quando coloca o primeiro ponto final, percebe que não escutaram uma palavra. De imediato, eles retomam do ponto em que haviam parado. E não há nenhuma conexão entre o que você acabou de dizer e o que eles começaram a falar.
Existem aqueles que ouvem o que você diz, mas apenas para mostrar em seguida que já haviam pensado nisso ou que sabem mais do que você, o que é só mais um jeito de não escutar.
Há ainda os que só ouvem o que você está dizendo para rapidamente reagir. Enquanto você fala, eles estão vasculhando o cérebro em busca de argumentos para demolir os seus e vencer a discussão. Gostam de ganhar. Para eles, qualquer conversa é um jogo em que devem sempre sair vitoriosos. E o outro, de preferência, massacrado. Só conhecem uma verdade, a sua. E não aprendem nada, por acreditarem que ninguém está à altura de lhes ensinar algo.
É claro que há um mix das várias espécies de surdos. E devem existir outras modalidades que você deve ter detectado, e eu não. O fato é que vivemos num mundo de surdos sem deficiência auditiva. E uma boa parte deles se queixa de solidão.
É um mundo de faladores compulsivos o nosso. Compulsivos e auto-referentes. Não conheço estatísticas sobre isso, mas eu chutaria, por baixo, que mais da metade das pessoas só falam sobre si mesmas. Seu mundo torna-se, portanto, muito restrito. E muito chato. Por mais fascinantes que possamos ser, não é o suficiente para preencher o assunto de uma vida inteira.
Num ótimo artigo, intitulado Escutatória, o escritor Rubem Alves diz: “Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular”.
Quando não escutamos o mundo do outro, não aprendemos nada. Acontece com o chefe que não consegue escutar de verdade o que seu subordinado tem a dizer. A priori ele já sabe – e já sabe mais. Assim como acontece com a mulher que não consegue escutar o companheiro. Ou o amigo que não é capaz de escutar você. E vice-versa.
Tornamo-nos muito sozinhos no gesto de não escutar. Em Revolutionary Road (Sam Mendes, 2008), traduzido para as telas de cinema do Brasil como “Foi apenas um sonho”, a cena final é a síntese dessa relação simbiótica entre surdez e solidão. Não a surdez causada pela deficiência auditiva, mas essa outra de que falamos, esta que é mais triste por ser escolha. Quem viu, não esqueceu. Quem não viu, pode pegar o dvd em qualquer locadora. Essa cena final vale por alguns milhares de palavras.
Sempre pensei muito sobre por que as pessoas falam tanto – e por que têm tanta dificuldade de escutar. Qual é a ameaça contida no silêncio? O que temem tanto ouvir se calarem a sua voz por um momento? Por que precisamos preencher nosso mundo – inclusive o interior – com tantos ruídos?
Acho que cada um de nós poderia parar alguns minutos e fazer a si mesmo estas perguntas.
Percebo também que há uma pressão para que nos tornemos falantes. Ser falante supostamente seria uma vantagem no mundo, especialmente no mundo do trabalho. Mesmo que você não diga nada de novo, mesmo que você repita o que o chefe disse com outras palavras. Mas falar, qualquer coisa, é marcar presença, é uma tentativa de garantir-se necessário. E ser quieto, calado, é visto como um tipo invisível de deficiência. Como se lhe faltasse algo, palavras. Mas será que as palavras estão ali, nessa falação desenfreada? Ou melhor, será que quem fala está realmente naquele discurso? Tenho dúvidas.
Por qualquer caminho que se possa pensar, me parece que o silêncio soa ameaçador. Em parte, pelo que ele pode dizer sobre nós. Enchemos nossa vida de barulho, da mesma forma que atulhamos nossos dias de tarefas, com medo do vazio. Tarefas em uma agenda cheia constituem outro tipo de ruído. E o vazio também é uma forma de silêncio.
Em rasgos de intolerância, achava que os falantes compulsivos eram apenas muito chatos e muito egocêntricos. Que as pessoas não escutavam – o silêncio e o outro – por prepotência. Mas acredito que é bem mais complicado que isso.
Há dois livros muito interessantes que pensam sobre a escuta. A Hermenêutica do Sujeito, de Michel Foucault (Martins Fontes), e Como Ouvir (Martins Fontes), um livrinho pequeno e precioso de Plutarco. Eles mostram que escutar é se arriscar ao novo, ao desconhecido. Na audição, mais do que em qualquer outro sentido, a alma encontra-se passiva em relação ao mundo exterior e exposta a todos os acontecimentos que dele lhe advêm e que podem surpreendê-la. Ao ouvir, nos arriscamos a sermos surpreendidos e abalados pelo que ouvimos, muito mais do que por qualquer objeto que possa nos ser apresentado pela visão e pelo tato.
Faz muito sentido. As pessoas não escutam porque escutar é se arriscar. É se abrir para a possibilidade do espanto. Escancarar-se para o mundo do outro – e também para o outro de si mesmo.
Escutar é talvez a capacidade mais fascinante do humano, por que nos dá a possibilidade de conexão. Não há conhecimento nem aprendizado sem escuta real. Fechar-se à escuta é condenar-se à solidão, é bater a porta ao novo, ao inesperado.
Escutar é também um profundo ato de amor. Em todas as suas encarnações. Amor de amigos, de pais e de filhos, de amantes. Nesse mundo em que o sexo está tão banalizado, como me disse um amigo, escutar o homem ou mulher que se ama pode ser um ato muito erótico. Quem sabe a gente não experimenta?
Escutar de verdade implica despir-se de todos os seus preconceitos, de suas verdades de pedra, de suas tantas certezas, para se colocar no lugar do outro. Seja o filho, o pai, o amigo, o amante. E até o chefe ou o subordinado. O que ele realmente está me dizendo?
Observe algumas conversas entre casais, famílias. Cada um está paralisado em suas certezas, convicto de sua visão de mundo. Não entendo por que se espantam que ao final não exista encontro, só mais desencontro. Quem só tem certezas não dialoga. Não precisa. Conversas são para quem duvida de suas certezas, para quem realmente está aberto para ouvir – e não para fingir que ouve. Diálogos honestos têm mais pontos de interrogação que pontos finais. E “não sei” é sempre uma boa resposta.
Escutar de verdade é se entregar. É esvaziar-se para se deixar preencher pelo mundo do outro. E vice-versa. Nesta troca, aprendemos, nos transformamos, exercemos esse ato purificador da reinvenção constante. E, o melhor de tudo, alcançamos o outro. Acredite: não há nada mais extraordinário do que alcançar um outro ser humano. Se conseguirmos essa proeza em uma vida, já terá valido a pena.
Escutar é fazer a intersecção dos mundos. Conectar-se ao mundo do outro com toda a generosidade do mundo que é você. Algo que mesmo deficientes auditivos são capazes de fazer.

(Texto de Eliane Brum | Via: Revista Época)

sábado, 16 de julho de 2016

Pés gelados de insônia


Não ligue pras fofocas sobre o lindo broto que você gamou. Depois de um alucinante encontro por aí, comadres e compadres fizeram estragos na tua reputação, como chuva de pedra no verão.
Do poleiro, bípedes espalharam más notícias. Toda novidade foi bem vinda para maldizer o amor.
Alguns segredos foram despertados e, em vez de chinelão, você agora é Don Juan.
As navalhas dessas línguas fazem cambalear sem ter bebido.
Delirar sem ter febre.
Pés gelados de insônia em noites breves.


(Tiradas do Teco, o poeta sonhador)

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Cadência da gatinha


A gatinha entrou no bar com a elegância de quem sabe provocar. O salto alto fez por merecer a cadência do bumbum. Um ir e vir nem linear nem militar, um eclipse de quem sabe o que quer. Ou não... (Vou manter a surpresa só pra poder imaginar). Um, dois... Um, dois... Um, dois... O poeta finalmente descobriu que há compasso no tesão.


(Tiradas do Teco, o poeta sonhador)

quarta-feira, 13 de julho de 2016

José - Drummond


Bela contribuição da MPB para a poesia brasileira...


Poema do Menino Jesus - Alberto Caeiro


Alberto Caeiro, heterônomo de Fernando Pessoa, busca com sua poesia uma visão original da natureza, sem o véu da linguagem (sem se apoiar no sobrenatural ou no místico). Para o poeta, "pensar é estar doente dos olhos"; e "conhecer é nunca ter visto pela primeira vez".


Memórias do subsolo - Fiódor Dostoiévski


Literatura totalmente filosófica. Nele está a visão de mundo do autor. Quando Nietzsche localizou Memórias do subsolo numa livraria, ele vibrou. Sua filosofia também está contida neste livro.



segunda-feira, 11 de julho de 2016


Acho que Fernando Pessoa sacou o que todos nós, num dia qualquer, vamos sentir.

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.


Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...


Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,


Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?


Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?



Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.


domingo, 10 de julho de 2016

Na fila do banco


Observo as testas franzidas, olhares tristes e apreensivos, na fila do banco. Mesmo que resultem angustiadas, as pessoas precisam se ocupar. Ter dívidas, negócios complicados, sonhos adiados.
Se tiverem muito tempo para o ócio, para ler e pensar, definharão no tédio, perguntarão pelo sentido da vida. Talvez, então, acenda a luz da desconfiança, de que não há um sentido. Se assim for, é bem provável que disparem as estatísticas de suicídios.
Mantenha o povo ocupado. Noventa por cento com muito trabalho e pouco salário.
Desperte na massa o desejo de alimentar alguns sonhos. Apresente a ela astrólogos, padres e pastores, pensadores de autoajuda. De acordo com o sábio mercado, neste mundo tudo pode ser vendido. Como num afago ou aperto de mão, parecendo fazer um favor, ofereça ao rebanho fartos pacotes, programas e produtos.
A publicidade deve bater nas mesmas teclas: “Não desista dos sonhos!” a cada ano adiados, do prêmio na loteria, do troféu do clube de futebol favorito, de um Ano Novo feliz. De que, com sangue, suor e lágrimas cada um vai chegar lá.

Quando presto atenção nas testas franzidas e nas carinhas tristes na fila do banco, tenho vontade de chorar. Ou, talvez, isto seja sinal de que preciso identificar meu rebanho e me ocupar.


(Tiradas do Teco, o poeta sonhador)

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Esqueça a tocha, pense no poeta


Depois de algumas taças de vinho barato, versos embalam minha cabeça e acordam deus Baco. 
Igual a vocês, também não me safo. 
Gostaria de ser exibido e bajulado como a Tocha Olímpica. 
Ser motivo de tantos elogios, manchetes e cliques, e circular a cada quatro anos pelas esquinas enfeitadas do planeta. 
Ela jamais voltará ao país, ao menos enquanto estivermos vivos. 
O cometa Halley retorna, mais ou menos,  a cada setenta e cinco anos. 
A Tocha, talvez, demore muito mais. 
Então, curta, vibre, se ela passou perto de você.
Mas é tanto tempo de TV, espaço no jornal, tanta repetição das histórias desse Olimpo, que o poeta prefere se retirar...  
Um ímã existencial atrai meu olhar para mendigos, refugiados, favelas e suas mazelas, órfãos nos abrigos e animais abandonados. 
O poeta não perdeu sua memória, por isso engole as lágrimas durante o show. 
Boa parte da humanidade perambula, cega, muda e surda. A vida esperneia pra se fazer notar. 
Muitos isso poderiam ser aquilo. 
Transforme água em vinho e salve o poeta. 
Faça um milagre. 
Ou peça pra ele se refugiar. 
Nada de flaches e manchetes, fotos e vídeos. 
Deixe-o viver sua arte mais sublime: vomitar.

(Tiradas do Teco, o poeta sonhador)

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Escravos da realidade


Queria um amor que transbordasse.
Amor para acalmar a secura dessas fontes.
Apressado, mergulhei em amores de água rasa
ridículos, como cartas de amor pessoanas.
O amor veio de uma outra melodia.
Alucinado, esse amor rasante me fez escrever,
depois de muitos anos, breves livros de poesia.
O amor roubou meu tempo
tamanha a vontade de eternidade.
Porém, a necessidade do "eu te amo"
deixou-nos escravos da realidade.

domingo, 19 de junho de 2016

Forever



Dizem que o boom da vida
é ter rodas esportivas
e passear a todo som.
Mas a top realidade
anda frágil de amor.

Não acredito no forever
porém há séculos estacionei 
no teu olhar.

Óvnis estão chegando 
e sua verdade é um mistério,
não sei se vamos nos dar bem.

Parece haver harmonia 
em vários sóis
e iremos de cá pra lá
como vamos a um jardim.

A ficção científica é real
mas não consigo viajar
nesse futuro redentor.

Gabaritei astronomia
devorei ufologia
e na minha biologia
flor é semente e flor.

Na retina do meu olho
a paixão botou ferrolho
e não consigo escapar
desse sonho milenar
de que você é meu amor!


(Tiradas do Teco, o poeta sonhador)

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Dar de ombros


Já estava sem sede
e a vida não é só balada
mesmo tarde se entende
que sofrer não leva a nada.

Em vez de cair na rede
vá nadar em outras águas
com o tempo você aprende
a escutar sem dar palavra.

Apenas um dar de ombros
um dane-se foda-se
e mais nada!


(Tiradas do Teco, o poeta sonhador)

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Albert Camus


Um adolescente me perguntou sobre Camus. O "cara" foi citado numa música de uma banda que ele gosta. O jovem não sabia a pronúncia... "Se escreve 'Camus'?". Disse-lhe que a pronúncia é em francês, "Cami". Contei um pouco do que sabia desse grande escritor, inclusive uma das suas frases mais citadas... 


Status



domingo, 12 de junho de 2016

A doida fez poesia


Cada passo com o salto alto, com a bíblia na mão direita erguida, a doida foi  poeta e não sabia.
Às vezes não sei que faço. Às vezes você não sabe o que faz. Nem a velhinha, o aposentado, no caixa eletrônico necessitando ajuda para sacar o pouco dinheiro, às vezes não sabem o que fazem. Nem para onde devem ir. Às vezes saímos em busca da multidão e não queremos encontrar ninguém. Às vezes queremos um palco, olhares e ouvidos sintonizados, como aquela doida na sexta-feira de tarde.
A doida subiu no palanque da praça, diante do prédio da prefeitura e dos carros e pessoas que circulavam. Fez um discurso. Compreendi alguns fragmentos: “Chegará o dia...” “Lembrai-vos dele...”. Usava um vestido longo, coberto por uma capa colorida e calçava salto alto. Daí a pouco partiu em direção à avenida, a mão direita erguendo um livro, que parecia ser a bíblia. Agora cantava e sua voz fazia bem aos ouvidos.
Aguardava minha hora no dentista e a performance dessa mulher, de uns trinta e poucos anos, chamou-me a atenção. 
Será que isso tem algo a ver com a poesia? Considerei que sim, pois ambas fogem dos clichês cotidianos. A poesia não faz o que costumeiramente fazemos, que é enquadrar uma cena como essa, definindo-a como normal ou anormal. Talvez a poesia (e a literatura) sejam primas-irmãs da loucura.
Enquanto a mulher descia pela avenida cantando e com a mão direita segurando tal livro, diante de uma farmácia um senhor e uma vendedora comentavam:
- Coitada, saiu do prumo.
- É. Tá fora do ponto.
Ao chegar em casa, zonzo com a cena que presenciara, perguntei a alguns poetas sobre o que é a poesia. Para maiakówsky, a poesia “é uma viagem ao desconhecido”.  Bem, pensei, faz sentido. Enquanto a doida viaja com naturalidade pelo mundo dos mistérios, convicta da sua e da nossa redenção, a poesia se espanta ao ver isso e, com versos, pinta imagens de tal momento. Podemos dizer que a poesia sente-se em casa quando a realidade gera espanto, isto é, deixa de ser previsível.
Goethe diz que a poesia “fala do infalável”. Sendo assim, penso que tanto a doida quanto o poeta arriscam-se a mergulhar nas águas escuras e profundas do mar da linguagem e da realidade.
Para Fernando Pessoa, a poesia é “um fingimento, deveras”. Poxa, será que a doida não é doida coisa nenhuma?  Poderia estar fazendo uma performance teatral. Bom, de qualquer maneira tal fingimento produz maior espanto, assombro, do que a vida “normal”, mecanicamente planejada.
Se eu encarar tudo como sendo normal, creio que jamais serei poeta.

Para finalizar, diz Garcia Lorca que poesia é “lo impossible hecho possible”. Então é isso. Tanto a louca quanto o poeta vivem daquele acontecer (cotidiano) que sai do prumo ou do ponto. E se todos nós muitas vezes não sabemos o que fazemos, o mero espanto convida-nos a ser poetas.

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Emoticons


Não quis ser indireto com ela. Não sei usar truques. Falei do mau tempo e que no meu reino as condições climáticas são imprevisíveis. Tentei obter pelo menos um Oi na conversa no facebook. Como seu silêncio me oprimia, escrevi Desculpe. Alguns segundos depois visualizei sua resposta. Um sinal positivo.
Ela é que foi direta, poeta. O mundo pipoca emoticons e você ainda vive tagarela. Quem se vira com suas emoções, economiza palavras.
Poeta, você não tem o direito de pensar que ela tem uma tristeza nervosa. E o mundo significa emoticons, só você não vê. E muitas garotas se atrapalham num oceano de emoções e não verbalizam aquela insegurança latente. Sossega, poeta, ela deve estar pensando Como anda solitário esse projeto de adulto infantil.
Ela não se tocou que o que senti podia ser amor. E amor, hoje em dia, significa tanto. Mas não delire. Você devaneia porque ficou frustrado. Enquanto esperava um coraçãozinho vermelho apaixonado, ela clicou no emoticon positivo.
Enganos acontecem todo os dias. Você se convenceu de que os poetas, bem como a fauna e a flora, estão em extinção. Ridículo. Você apenas não suportou a sinceridade de um emoticon.


(Tiradas do Teco, o poeta sonhador)

sábado, 4 de junho de 2016

Mantra


Penso nela e tenho uma puta coceira no nariz. A música salta na mente quando respiro devagar. Entoo um mantra e ela começa a desfilar. Respiro fundo relaxo e brotam peitos e bunda de lutadora de Muay thai. Estou perdido é certo por onde vou ela vai. Expia atrás das gôndolas do supermercado com lábios de batom exagerado a me chupar. Sou prisioneiro de um ciclo vital. Mais punheta mais insônia e sua bunda a desfilar. Respiro fundo relaxo e o mantra é Vem! Vem! Vem! Morro de vergonha por ser escravo dessas ideias num frio sábado de manhã. Enquanto isso a humanidade transpira velhos ideais. O marido penetra a esposa que não consegue gozar. Sua mente elabora a lista do supermercado e o presente que vai comprar pro aniversário do afilhado. Preciso arejar meu quarto botar as coisas no lugar. Aprisionar as masturbações e começar a meditar. Mostrar pra todo mundo que sou um cara feliz e que já deixei pra trás a coceira no nariz. É tanta ideia que surge até poderia ser poeta inovador. Mas hoje estou paralisado debaixo do cobertor. A comunidade me censura porque digo palavrão. Mas não consigo ser igual padre num domingo de manhã. Não sou comerciante prefeito ou vereador. Sou apenas xexelento aprendiz de sonhador.


(Tiradas do Teco, o poeta sonhador) 

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Do lado de cá


Caminhei pelas ruas da cidade e cães estressados me xingaram atrás de altas grades. As cercas elétricas e os jardins cinzentos derrubam meus sonhos e esvaziam pensamentos. A betoneira da construção em frente me sacode no entardecer: preciso encontrar o que fazer quando crescer!
Em todas as ruas da cidade, cães raivosos me perseguem atrás de altas grades. Eles do lado de lá, eu do lado de cá. Do lado de fora não sei quem está.
Meus olhos e mente não mais se iludem: eu e todos os cães da cidade perdemos a alma e a dignidade!

Depois que decidir o que fazer quando crescer e agradar todo mundo – ser médico, administrador ou advogado – acatarei a vida com maior paciência, quando acabar essa adolescência.

(Tiradas do Teco, o poeta sonhador)

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Morre, diabo!


Diz um amigo:
Meu calvário 
foi
não ir pro seminário
masturbar de manhã cedo
ter muitas paixonites e amigos
e crescer longe 
dos livros.

Desse amigo 
sou o avesso:
quase sempre endiabrado
palidamente vermelho
fazendo caretas 
diante do espelho.

(Tiradas do Teco, o poeta sonhador) 

terça-feira, 31 de maio de 2016

Havia no ar um clima


Havia no ar um clima
de rebeldia 
e de saudade
do bom humor
de uma neblina densa
que dá lugar ao sol

um clima 
de miragem
vai dedetizar
as traças
da politicagem

a vergonha na cara
deu lugar a um clima
de apertos de mão
e rima

um clima de impaciência
com a foda malandragem
clima de quem quer fazer 
do cotidiano
necessária 
reciclagem.

(Tiradas do Teco, o poeta sonhador)

domingo, 29 de maio de 2016

Compartilhar


Não vou compartilhar 
o tédio da política
quero compartilhar o bom senso 
e a paciência com humanos e natureza
mesmo doidinhos 
pavorosos
amáveis 
alopradinhos 
como eu
compartilhar o respeito às flores e árvores
ar e água
minha falta de sono
quando ele é solicitado

compartilhar o teu carinho 
que mais parece massagem
compartilhar teu selinho 
disfarçado de selfie ousada
compartilhar a dignidade de quem desfruta a vida e
é tolerado por ela
compartilhar tua sensibilidade 
como quem sente e beija uma flor

quero compartilhar contigo 
a experiência 
mais universal 
do amor.

(Tiradas do Teco, o poeta sonhador)

Flash da conjuntura nacional - Vinicius de Morais


Ensaio sobre a cegueira - José Saramago



sexta-feira, 20 de maio de 2016

Hell's Angels - Márcia Denser

Os olhos têm aquela expressão vazada de maldade inocente, de suprema condescendência, como dos ídolos talhados em ouro e prata à luz das tochas, indiferentes às cerimônias e ao borbulhar das paixões e sacrifícios humanos; a macia pele do rosto de dezenove anos incompletos transparece e crepita, mas não se deixa tocar e, se o faz, o seu tato é de borracha ou vinil, porque os jovens de dezenove anos incompletos são pequenas monstruosidades portadoras do aleijão psíquico, faltando pedaços como um ombro para se chorar, um olhar atento, o gesto brusco no vácuo do antebraço consolador; os lábios congelados na frase de Peter Pan "eu sou a juventude eterna!”, a mão perpetuamente brandindo a estocada final na passagem do tempo. Um adolescente é sempre monstruoso porque desumano, assim como um deus, assim como um anjo, assim como você, Robi.

Eu o conheci precisamente no dia que completava trinta anos, dirigindo amargurada meu automóvel para o analista. Pensava: o Superman também tem trinta anos — mas o fato é que ele não existe, eu sim, e muito passageiramente, pelo visto. Fisgava-me freqüentemente refletindo sobre a minha transitoriedade e a imutabilidade da natureza. Esse mesmo céu, esse mesmo crepúsculo, essa mesma intensidade de tons avermelhados e laranja que contemplei aos quinze anos, estão agora testemunhando meus trinta, inalterados, imperturbáveis, tão odiosamente imutáveis, mas, se ter consciência disso é o preço da mortalidade, eu prefiro pagá-lo a permanecer nesse estado bestialício de eternidade inanimada como as areias, os corvos, o crepúsculo, as montanhas e o mais.

O que não deixa de ser putamente injusto, prosseguia pensando, quando o ronco de uma motocicleta ao lado do automóvel sobrepujou a música em FM como também os pensamentos acima descritos, além de todo o resto, o que acabou por irritar-me. Havia esquecido que deixara o vestido levantar exibindo as coxas, daí Robi, o motoqueiro, aparecer na minha janela, caninos pingando sangue.

Por segundos, foi como se estivesse me vendo lá fora, do outro lado da juventude, há dez, doze anos atrás, o sorriso entre tímido e malicioso, olhos irrequietos, inseguros, lábios naturalmente úmidos, cabelos emaranhados e elétricos como filamentos de cobre molhado e, Deus meu, que beleza!

Quando desviei o rosto tinha envelhecido o suficiente a ponto de fixar os olhos embaçados nos ponteiros luminosos mas, empurrando a dor para baixo, sete palmos no inconsciente, senti só irritação pela intromissão do rapazinho que perturbava meus pensamentos, minha solidão, minha maturidade, espiando, sem mais nem menos, para dentro do carro, com a mesma sem cerimônia que um bebê escondido debaixo da mesa, espiaria as calcinhas das senhoras.

Devo acrescentar que, dentro de um automóvel, sinto-me tão absolutamente só e segura como no ventre materno e, além do mais, não havia notado as coxas. A bem da verdade, fiz tudo para livrar-me dele, mas o destino conspirou:

Destino I: Motoca seguiu-me até vaga da zona azul e, após observar divertido cerca de dezoito manobras humilhantes e mal sucedidas, ofereceu-se para estacionar o automóvel de madame.

Destino II: Acertou na primeira (não que fosse muito bom, ruim sou eu, especialmente se observada por crianças. Elas me põem nervosa). 

Destino III: Obrigada / Você tem telefone? / Não me importa nem um pouco deixar que os homens fa . . . / Estou sem lápis / Mas quantos anos você tem? / Oitenta e cinco. Tem caneta? / Não saberia exatamente o que fazer com você/ (Risinho pilantra, procura pedaço de papel na carteira) / 62-3145. Tchau, tenho hora no médico / Médico? / Analista / Pra que o psiquiatra, garota? / Analista / ? Analista / Demora pra explicar / Eu telefono / Então telefona / Meu nome é Robi / Wood? / O quê? / O meu é Diana. Tchau.

O tempo fluiu (como sempre) . Passaram-se duas semanas. Não paro em casa, mas o garoto tinha um faro diabólico. Sempre me pegava nos intervalos da muda de roupa, banho, jantar e outra escapada. Enquanto isso eu: a) estava sendo perseguida por um cineasta maldito; b) batia cartas comerciais; c) fazia um tratamento dentário intensivo; d) chateava-me com os amigos no bar; e) ou seja, merdava.

Certa tarde, final de expediente no escritório, eis Robi que surge ao lado da minha escrivaninha: vamos sair? Caninos pingando sangue. Sem saber como, ele vencera as estruturas de aço da burocracia e, munido de crachás, credenciais de apoio e um sorriso tentador, me apanhara sobre uma IBM, dois diretores afoitos e quarenta e cinco atentos funcionários entrincheirados na vastidão do expediente. Como se eu não tivesse coisa melhor a fazer no mundo que sair com ele. E não mesmo. Para mim a situação se afiguraria esmagadora, mas Robi era um caçador nato. De toda uma vasta multidão de admiradores, ele se destacara surpreendendo-me na minha própria cidadela. Ele, Robi, o motoqueiro. Era incrível.

— Sente-se, sorri divertida, já termino essa carta. Mas meus dedos tremiam. Cruzar ou não as pernas? Dirigir-me como agora ao meu chefe? E se ele dirigir-se a mim? Teria forças psicológicas para proceder aos processos e pareceres? Então era assim que eu sobrevivia? Aquele garoto de jeans, blusão de couro e botas de montaria, sentado displicente numa das poltronas da sala de espera, transformara-se no meu inquisidor, meu juiz de alçada, meu anjo vermelho, Lúcifer, o decaído, piscando de sua torre flamejante, reduzindo a cinzas e ao ridículo aquele santuário simétrico da burocracia. E não tinha consciência disso. Tanto melhor. Consciência tenho eu, por isso as coisas dão no que dão. Ficam mal paradas. A evidente oposição do garoto ao ambiente produzia-se como um fenômeno natural. Bastaria que ele (ou nós) acordássemos para que o encanto fosse desfeito. E as oposições são tão tentadoras, tão novela das oito, que eu já andava ansiando por uma paixão lamacenta. Na verdade, estava me atirando dentro dela. Com maiô executivo e tudo.

Saímos. No meu carro porque a moto estava quebrada. A princípio eu o fitava como se estivesse observando um formigueiro: com curiosidade cientifica, ócio e nenhuma emoção. Puro divertimento. Dentes um tanto amarelados (feitos de doce de leite, desses com vaquinha no rótulo); olhos que jamais se fixavam no interlocutor, uma aflição mal disfarçada pelo paradeiro que dar às mãos, o crânio ligeiramente achatado, mas ao contrário do achatamento produzido pelo fórceps, bebê Robi parecia ter sido retirado da mamãe com uma forminha de tostex, Deus me perdoe, mas era só um defeitinho à toa; um belo nariz e um bom corte de cabelo, em camadas. Como James Dean, comparei mentalmente. Mas só mentalmente, não verbalizaria a comparação. Talvez ele não conhecesse James Dean. Talvez me achasse velha demais ao compará-lo a alguém antigo como James Dean. Imagino o que pensaria se exumasse coisas como George Raft ou Johnny Weismüller, tango, Tarzã, bolero e Gilda!

Mudando um pouco de assunto, estávamos num bar. Eu bebia vodca com suco de laranja, ele coca-cola. O problema não era propriamente a bebida, mas sim a falta de grana, explicou. A gente acostuma a não beber e também não fumar, vive-se de hamburgers e chiclete, é isso. Classe média alta paulistana, Robi estudava bastante, o colégio era um bocado puxado, tinha papai, mamãe, uma governanta romena (babá neném) e só pensava em duas coisas: garotas e moto. E isso quer dizer que não pensava. Devaneava. Flutuava. Flanava. Fluía. Ele simplesmente existia! A frase de Nelson Rodrigues "toda mulher devia amar um menino de 17 anos" furou-me o ventre e atingiu em cheio o, digamos, coração. Depois havia lido numa revista feminina que o homem atinge sua potência máxima dos 13 aos 22 anos. Robi, com 19, estava na faixa. Ótimo. O problema nessa idade é que se pensa tanto em sexo que na hora de fazer quedamo-nos psicologicamente impotentes, em pânico. A realidade  é tão besta comparada à fantasia, àquele ser esplendido que julgamos ser. Dos 13 aos 22 anos fazemos portanto muita ginástica. Física e mental. Mas nunca em sincronia, eis a questão. Nunca estamos onde devíamos estar, nunca estamos em parte alguma. A eterna dicotomia corpo e alma. E falando em dicotomia, a razão dos meus devaneios, no momento, fazia observações, aliás muito interessantes, sobre a sua (dele) conceituação de bem e mal. Para ele não existia. Porque, veja, garota, o que é legal pra mim pode não ser pra você, tudo é relativo, aquele mendigo fodido ali na esquina pode estar muito mais numa boa que nós aqui bebendo, meu pai se acha muito certo quando dá esmolas ou vai à porcaria duma missa, mas o mendigo pega a grana e vai comprar cachaça e o padre vai gastar o dinheiro nas corridas de cavalo e todo mundo então fica muito feliz pensando estar certo, era só não pensar porra nenhuma ou até cometer um crime que ia ter um sujeito feliz, sei lá, vai que o cadáver tivesse inimigos ou você própria morresse de tesão por sangue, tudo é um jogo, garota, o cara dança se não souber jogar; quer dizer, dança como meu pai, puta babaca, ou o padre viciado ou o mendigo da esquina... Menos você Robi, pensei, julgando-os todos. Arquivando-os, classificando-os para poder controlá-los, dominá-los senão você se perde na floresta e começa a chorar de medo, neném. Fazendo voltar o filme do tempo, vi-me a mim própria dizendo aquelas s coisas. Com aquele mesmo ar de rarefeito desprezo: Mas, o coração é um. caçador solitário, sentenciei emocionada, Carson MacCullers tinha razão, e Flanery 0'Connor e todas essas irlandesas e irlandeses passionais, e até Faulkner, Scott Fitzgerald, inclusive você Robi, que nada sabe de nada, também com seu tacape envenenado.

Estávamos na época do Natal. Natal de 1976, amaldiçoado Natal fodido, mais precisamente no dia 22 de dezembro, sexta-feira, e Robi tinha um problema: a irmãzinha de quatro anos, faltava comprar o presente dela. Ele descobrira que Gugui (Maria Augusta) lhe daria umas luvas bacanérrimas de moto, tinham custado uma grana, garotinha genial a Gugui, ele precisava retribuir, saca? Não sabia com quê.

Uma boneca, sugeri irrefletidamente. Ele fez cara de "não dá pra inventar um presente mais criativo?" Fosse então por isso, comecei a defender veementemente a ideia: porque uma boneca voltou a ser um presente criativo, porque é o sonho de toda garotinha, porque hoje em dia tem bonecas geniais, porque era um presente que a Gugui não esqueceria, porque eu ajudaria a escolher e porque e porque. E perguntei quanto ele tinha porque, além de tudo, uma boneca custa uma nota preta. Robi espiou a carteira: uma quina e dois duques. Setecentos, somei e traduzi mentalmente, deve dar.

Mas a tal boneca custou duas quinas que eu tive de ajudar a pagar. Enquanto ele pegava o dinheiro, meio sem jeito, eu argumentava:

- Fica como um presente meu para a Gugui. Sem ela saber, claro. Papai Noel é invisível. E depois, até que eu gostaria de ter uma irmãzinha só pra dar um presente como esse...

Ele me olhou como quem diz "não faz média. Paga e pronto". O.K. Robi; neném, vou ser clara. Para falar a verdade não ligo a mínima pra dinheiro, mas esta noite eu acho que tenho de suborná-lo. A você e à sua juventude. Pensava tudo isso enquanto ele guiava sem destino (a boneca no banco de trás), perdidos no trânsito pesado daquela cidade cheia de luzes, vozes arranhando alto-falantes, sinos transistorizados de Belém, reflexos dourados, homens-sanduíche, lixo, gritos de crianças ensandecidas pela Noite Feliz.

E agora? O olhar dele desceu agudo, filhote de falcão da campina, sobre minhas pernas cruzadas. Senti-me desconfortável. Sugeri comermos. Ele disse está bem e eu olhei bem firme para frente. Não queria ver aqueles olhos, não queria ver aquele rosto, não queria ver aquela expressão especialmente perversa, infantilmente perversa, não queria me sentir velha demais, o outro lado do espelho desse rosto cuja expressão também já fora minha, e sabia que ele pressentia haver algo errado comigo, essa minha pretensa segurança, pretensa maturidade, um vago movimento de mendicância, e que, por exemplo, nem ao menos eu gostava de mim, senão não prosseguiria por tempos imemoriais caçando aves implumes na orla do pântano. Se não estivesse ferida, estaria voando.

Fomos a uma cantina italiana. Ou melhor, eu o levei a uma cantina italiana. Garçons amigos, contas penduradas, etc. A luz avermelhada das velas incidindo sobre o xadrez vermelhinho das toalhas e lambendo-lhe o rosto, Robi ficava com uma expressão solene, de coroinha. Mas não era bem assim, principezinho do ritual de iniciação. Ajeitei-me na cadeira, pedi mais vinho, segurei sua mão debaixo da mesa (ele não admitia demonstrações em público), apalpei suas pernas musculosas debaixo do grosso índigo blue, pedi-lhe para afastar as coxas, mergulhei a mão com segurança, fechei os olhos e pensei: Meu Deus. Retirei a mão, voltei ao vinho. Robi continuava sério, olhando além da janela, além dos queijos, dos salames, dos presuntos que oscilavam sobre sua cabeça. Como quem acompanha o vôo de uma mosca, foi descendo a vista e perguntou o que está olhando? Eu disse nada / me deixa encabulado / porque? / fica me olhando assim / assim como? — mordi os lábios, não confessar nunca! Nada. Não quer mais vinho? Estendeu o copo, enchi, sorrimos. Não gostaria de ir para outro lugar? Os olhos negros baixos no prato foram levantando lentamente, emergindo da sombra com macia ironia, mas o foco não subiu além dos meus lábios. bem. Apague a vela, neném.

Sensivelmente alterada, informei-lhe que guiaria o automóvel. Não disse nada. Sentou ao meu lado num silêncio noturno de animal confiante. As ruas que percorremos estão na minha lembrança como um longo corredor recheado de espessa nebulosa cinza-chumbo varrida por vento escuro. De esquina em esquina, clarões e colares de luzes assaltavam a mente enevoada, mas, nem por isso, desviei-me do trajeto impresso em meu cérebro como uma fita gravada, alheia ao álcool, aos impulsos, à minha dor.

Bati a porta do carro. Robi, do outro lado, hesitava, olhando o pacote, retângulo negro de estrelinhas prateadas sobre o banco traseiro. É só uma boneca, ninguém vai roubar, ela tem destinatário. Encarou-me magoado — "é só uma boneca" — mas eu já não estava pensando mais nisso.

0 quarto tinha um espelho redondo sobre a cama, e foi nele que eu e Robi nos vimos pela primeira vez. Aparentemente não havia nenhuma diferença: uma mulher de estatura média, cabelos castanhos sobre os ombros, rosto oval e pálido. Um homem, também de estatura mediana, cabelos, etc. Nada. Nenhum indício do buraco negro, o corte no tempo. Robi respirou fundo e agarrou-me por trás, grudando-se ao longo do corpo. Eu disse calma e ele me jogou no colchão como uma bola de pingue-pongue. Oscilei umas duas vezes, o colchão gemeu dolorosamente. Deitou sobre mim, tentando desabotoar-me. Está perdendo tempo, eu disse levantando e me despindo. Cabeça pousada nas mãos, Robi sorria, preparando-se para assistir. Muito esperto. Despi-me rapidamente e fiquei olhando bem na cara dele. Pronto, eu disse, agora você. Desviou o rosto. Com a mão esquerda foi tirando o blusão, a direita apagou a luz do teto, permanecendo apenas o foco avermelhado do abajur. Estava deitada, fumando, quando sua massa rija desabou sobre mim. Procurei seus lábios mas ele disse não, estou resfriado. Então esperei. Você gosta assim? perguntou ajeitando-me de bruços. Abraçava-me com palmas e dedos gelados, comprimindo minhas costelas, machucando-as, em vez de acariciá-las. A coisa funciona só da cintura para baixo, como um vibrador elétrico, mas é bom, pensei, deixando-me penetrar rijamente pelas costas, usando, por assim dizer, só uma parte do meu corpo, como se o resto estivesse paralisado, ou morto, como se aqui ninguém suportasse um dramático relacionamento frontal, com beijos, orifícios, acidentes e cicatrizes, com um rosto, um nome, uma biografia. 0 prazer é bom, pensei, costuma ser forte, mesmo assim... Espiei Robi e seu desempenho: cabelos grudados na testa molhada, uma das sobrancelhas arqueadas de perversidade, lábios entreabertos para respirar, braços esticados, mantendo-me firmemente afastada de seu corpo para ver melhor. 0 que me chateia ?esse distanciamento crítico, parece estar consertando a moto — essa máquina de prazer — está olhando a coisa funcionar, como seu próprio coração a bater fora do corpo, as engrenagens da máquina molhadas de suor e gosma orgânica, mais lento, mais acelerado, mais lento, agora rápido, acelere, mais rápido, mais rápido. Pronto. Terminou. Ouvi Robi ofegar. Continuei de costas. Estendi o braço e peguei um cigarro. A respiração agora era regular, pesada. Virei-me para olhá-lo: havia algo de comovedor — sempre há algo de comovedor — num jovem adormecido. Ficam tão desamparados. Braços estirados de sonâmbulo (os mesmos que me empurravam, potentes, há quinze minutos), mãos como dois pássaros gêmeos, aninhados, desvalidos, o sexo recolhido no meio das pernas, envolto em espumas de marés mortas, os músculos faciais desabados, descompostos, oferecendo-se e negando-se ao mesmo tempo, supremamente, a qualquer contato humano, fosse um soco ou um beijo, esse rosto inumano das crianças e dos deuses, esse destruidor florido por sobre quem paira agora essa atmosfera verde de piscina lunar salgada, esse vapor ardente e mortal, bafo primordial de mundos e canteiros de estrelas, de sentimentos em estado gasoso, sóis e planetas.

Bem, pensei, é tarde. Vesti-me rapidamente, em silêncio. Fechei a porta sem ruído. Desci. O saguão deserto. Ao entrar no automóvel,vi o pacote no banco de trás. Essa agora, pensei. Carreguei essa boneca tempo demais, as juntas dos dedos me doem, o barbante áspero imprimiu marcas profundas, roxas, em cruz, nas palmas feridas, o seu peso é insuportável. Reunindo minhas últimas forças, consegui tirá-la do carro e levá-la até a portaria do hotel. Um empregado sonolento atendeu-me:

— É para o rapaz do 35. Acorde-o às seis e quarenta e entregue o presente. Com votos de Feliz Natal, pensei. Virei as costas e saí.

Guiando de volta para casa, eu me intrigava porque havia mandado o sujeito acordá-lo às seis a quarenta, porque especificamente seis e quarenta? Anoto mentalmente: perguntar ao analista.


(Do livro Os cem melhores contos brasileiros do século. Seleção de Ítalo Moriconi. Editora Objetiva).

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Neuras

Noite de tempestade. Possuído, já de madrugada, liguei pra ela. No outro dia ela rugiu: “Por que me ligou naquela hora?”. Sem ideia do ocorrido, limitei-me a responder: “Não me lembro. Bebi todas. Desculpe”. Consciente dos desmandos do meu eu mais profundo, de tudo o que ele apronta quando estou fragilizado, horas depois enviei-lhe esta mensagem: “Te liguei sem querer... querendo”.
Tinha esperança de que isto faria algum efeito em seu coração. Rolou silêncio. Indiferença. Então percebi que sou o único que precisa de um ombro pra chorar. Inocente, me amarrei em quem não tem ombro pra dar.
Passaram-se dois, três dias, e tudo foi silêncio. Já acostumado com tantas cusparadas afetivas, narrei o episódio pra alguns amigos, e eles riram. “Pobre poeta”. “Agora você está no ponto de literatura. Em quantidade e coisa que presta”. Estaremos aguardando”.
Assim que a noite cai, respiro fundo. Finalmente meu eu poético emparedou o outro eu, pai de tantas neuras. Por alguns dias tudo estará sob controle. Escreverei um best seller, se depender da sua aura. Óbvio.  Sempre haverá o risco da velha tempestade.

(Tiradas do Teco, o poeta sonhador)


segunda-feira, 16 de maio de 2016

Encontrei no senhor Google


Vendo nosso país navegar nas águas do incerto presente, rumo a um melancólico futuro, busquei algum consolo no grande poeta e cronista Paulo Mendes Campos. 

 “Um choro explica toda a minha vida,/ a que vivi e a que senti, ouvida/ relembra meu futuro entrelaçado/ no Rio presente/ mas passado,/ jarras ansiosas nas janelas/ até que novas flores morem nelas,/ bondes unindo o triste ao paraíso/ de um abraço, de um sorriso,/ tranças que se destrançam por um nada /se um anjo pula corda na calçada/ namorados dançando o ritual/ do fogo na moldura do portal...”

Original

Aniversário, dois dias reunindo amigos, churrasco, bebida, muitos planos com meu amor, debates sobre o que fazer para salvar a humanidade. ...