sexta-feira, 22 de março de 2013

Passeio - Fernando Sabino


 - Aonde vamos, papai?         

  Seguiam devagar, de mãos dadas, em direção ao túnel. Ele olhou em redor, desorientado.          
   - Dar um passeio...
Vamos passar pelo túnel – resolveu.
 – A pé, você já passou pelo túnel a pé?           
  - Não – disse a menina, extasiada. Num passeio com o pai, tudo era motivo de prazer
– A gente pode?            
 - Pode. Tem um lugar do lado que é para a gente passar.             
- De que é feito o túnel, papai?          
   De que era feito o túnel? Essa era uma pergunta meio tola. Tinha oito anos e parecia inteligente... O túnel era um buraco na montanha, não era feito de nada.           
  - Ah...            
 De repente, porém, ela o surpreendeu:      
  - Túnel deprime muito a gente.             
- Deprime? Com quem você aprendeu isso?            
 - Com mamãe: nós duas andamos muito deprimidas.         
    Positivamente, a mulher deveria ter mais cuidado com o que falava. O que seria daquela menina, sem ela perto, para... para.          
   - E por que vocês andam deprimidas?             
- Não sei: acho que é porque não temos vontade de comer:            
 Era preciso falar – e falar com jeito, sem escandalizar a menina, assustá-la para a vida. Não dê motivo fútil – era o que recomendavam. O que uma menina de oito anos entenderia por motivo fútil?           
  - Aonde nós vamos, papai?          
   Saíram do túnel. O melhor era procurar um lugar calmo, sossegado. Uma confeitaria, talvez.            
 - Você quer tomar um sorvete?          
   - Mamãe disse que está muito frio.            
 - Não tem importância – disse ele apressadamente:
 - Vamos tomar um sorvete.            
 Satisfeitos ambos com a resolução, entraram num ônibus e saltaram à porta da confeitaria. Ela se deteve junto à vitrine:         
    - Olha, papai, que bonito.             Era uma horrorosa caixa de bombons em forma de coração.             
- Dou de presente, você quer? – e puxou-a pelo braço, em direção á entrada. Dar-lhe-ia tudo que quisesse, como a comprar sua simpatia para o que tinha a dizer.           
  Mamãe falou que não posso comer bombom senão não janto.          
  Hoje você pode, sim.         
    A mãe também estava exagerando, oprimindo a menina. Não tinha nada de mais comer um bombom de vez em quando. E aquele dia não era um dia comum – pensou sem perceber que violentava as regras intransigentes de educação da filha que ele próprio firmara e que a mulher agora não fazia senão obedecer. Oprimido a menina. Nós duas andamos muito deprimidas.         
    Pessoas entravam e saíam da confeitaria, movimentada àquela hora da tarde. Moças e rapazes esperavam mesa, conversando em grupos, alguns olharam aquele homem tímido, meio curvado, que entrava com uma menina pela mão. Sentiu-se constrangido no ambiente elegante da confeitaria, sentiu-se velho entre aqueles rapazes de suéter e aquelas moças de calça comprida, como rapazes. Em dez anos a filha estaria assim. Dez anos passam de pressa. Dez anos haviam passado.           
  - Aqui tem sorvete também. Não está bom?           
  A menina sacudiu a cabeça, submissa:         
    - Lá na frente era melhor..     
        Lá na frente não tem lugar.          
   - Mas aqui não tem bombom.             
- Ah, me esqueci de sua caixa de bombons! Espere aí que vou buscar.             Sentou-se a uma das mesas e ordenou ao garçom:             
- Traga um sorvete para esta menina, Que sorvete você quer, minha filha? De coco? Chocolate?         
    - Milk shake – disse ela, com displicência, o garçom logo a entendeu. O pai olhou-a espantado:            
 - Que é que você pediu?             
- Milk shake. Venho aqui sempre com a mamãe e ela pedi milk shake.           
  - Então espera aí direitinho que vou buscar seus bombons, volto já.           
  Passou à outra parte da confeitaria, dirigiu-se ao balcão:       
      - Quero aquela caixa de bombons que está ali na vitrine, aquela feia, em forma de coração.      
       De longe avistou a filha, perninhas dependuradas, a chupar o canudo do refresco, olhos vagos, distraídos, inconstantes – os olhos da mãe.           
  - Demorei? – e sentou-se ao lado dela.            
 - Fiquei com medo de você ir embora.           
  - Então eu ia fazer uma coisa dessas, minha filha, ir embora?          
   A menina apontou a mesa com os olhos, sem abandonar a palha do refresco:           
  - Pedi um milk shake para você.          
   Ele se ajeitou na cadeira e acendeu um cigarro. Chegara o momento – como começar?         
 - Você sentiu saudade do papai?        
- Não, porque demorou pouco. Comprou?    
  - Comprei, olha aqui – e exibiu-lhe o embrulho.      
 - Vou levar para mamãe – resolveu ela, subitamente inspirada.
– Pode?            
 - Pode – e ele passou a mão pelo rosto, desconcertado.
 – Um presente para ela.           
  - Meu, não: seu – fez a menina, como a experimentá-lo. Não respondeu. Ela voltara a chupar o canudo de palha, agora soprava para dentro do copo, fazendo espuma no refresco.        
  - Eu pergunto se você sentiu saudade de mim não foi agora não, foi quando estive viajando.      
 - Você esteve viajando mesmo?            
 Meu Deus, como começar? Era preciso começar, já se fazia tarde, o refresco se acabava, em pouco tinha de levá-la de volta para a mãe. Estivera viajando sim, por que haveria de mentir?            
 - E chegou assim, sem mala, sem nada?             
- É porque eu cheguei... Isto é... Olha aqui. Toma este outro também, papai não está com vontade – e passou-lhe o copo.             
- Assim não janto e mamãe zanga – disse ela, indecisa, a boca a meio caminho do segundo refresco.             
- Não tem importância. Diga que fui eu.            
 Não tinha importância – o importante era dizer, contar tudo, escandalizar, violentar a inocência da menina. Assim recomendavam todos hoje em dia: as crianças devem saber de tudo, porque senão inventam por conta própria, e é pior. O que não é capaz de inventar uma criança? Antigamente na escola, entre as amigas, a criança se sentia a única, mas hoje em dia podia-se dizer que era a regra, tantos casais separados! E sacudiam a cabeça, convictos: sobretudo não de motivos fútil.             - Escuta, minha filha, você é uma mocinha, já deve saber das coisas.            
 Voltava à formula da mocinha. Agora era continuar, custasse o que custasse. Daria tudo para não viver jamais aquele instante. Pensou se não era bom tomar antes um conhaque.           
  - Estive viajando sim, mas não é por isso que não estou morando mais com você. Agora, por exemplo, já cheguei e não vou dormir lá em casa.           
  - Onde é que você vai dormir?             
- Noutro lugar – respondeu ele, evasivo: não pensava em dizer onde estava morando, ela poderia querer ir com ele.             
- E quem é que vai dormir com a mamãe?             
A pergunta apanhou-o desprevenido, sentiu-se jogado de súbito naquela atmosfera de ansiedade que precedera a separação.             
- Me diga uma coisa, filhinha – ele não resistia, e se inclinava, ansioso, sobre a mesa, segurando a mão da filha:
- Você disse que vem sempre aqui com sua mãe... Sozinha? Não vem ninguém mais com vocês?             A menina limitou-se a negar com a cabeça, sempre tomando o refresco.             
- E lá em casa? Tem ido alguém visitar mamãe?             
Desta vez ela sacudiu a cabeça afirmativamente.             
- Quem?            
 Desgarrou os lábios da palha já amassada para responder:             
- Vovó.             
Ele chamou o garçom e pediu um conhaque. Voltou a acomodar-se na cadeira, perturbado. Não interessava! Tudo acabado para sempre. Agora restava contar para filha:             
- Sabe, filhinha, você já é uma... Bem, isso eu já disse. Quero dizer o seguinte: você sabe que papai gosta muito de sua mãe...             
Antes de mais nada, deixar bem a mãe: era também o que aconselhavam. Tomou de uma só vez o conhaque e prosseguiu:             
- Sua mãe é muito boa, sabe? Muito boa mesmo, gosta muito de você, você deve ser obediente e boazinha para ela.             Não, não era isso. Precisava dizer logo, ou não diria nunca:            
 - Papai gosta dele e ela do papai. Mas acontece sabe?, que ela é muito diferente do papai, gosta de uma coisa, papai de outra...             
Motivo fútil. O que não seria motivo fútil?             
- Bem, eu e sua mãe gostamos muito um do outro mas eu andava muito cansado, trabalhando o dia todo, sua mãe muito nervosa, nós vivíamos discutindo... brigando...             
- Se gostam, por que é que brigam?             
Foi a única vez que a menina o interrompeu. Dali por diante ficou calada, olhando para outro lado, e ele prosseguiu como pôde, dizendo: ela não tinha amiguinha no colégio? Não gostavam uma da outra? e de vez em quando não brigavam? Pois então? Com eles também era assim. E para viver junto era preciso não brigar nunca, era preciso ser muito bom um para o outro, era preciso...             
- Minha filha, você não está me escutando.             
- Estou sim, papai...             
A menina terminara o refresco e agora riscava distraidamente a mesa coma palha umedecida.             
- Que é que estou dizendo?             
Ela voltou-se para ele:             
- Está dizendo que você e mamãe vão se separar.             
Ele respirou fundo, num misto de angústia e alivio:             
- Mas vou visitar vocês sempre...             
- Eu se.            
 - Posso levar você para passear.             
-Sei.             
-Posso... Posso...             
Ela se levantou, puxando-o pela mão:             
- Papai, me leva embora que já está ficando tarde.             
- Minha filha – disse ele, confuso e comovido, e não resistiu, tomou-a no colo, abraçou-a com força, enquanto lágrimas lhe enchiam os olhos. Quis falar e as palavras se prenderam num engasgo. Um casal sentado ao fundo da confeitaria, mãos dadas sobre a mesa, voltou-se curiosamente para vê-lo. Ele depositou a menina no chão, sem que ela oferecesse resistência. Chamou o garçom, pagou, reteve a filha:            
 - Olha, você está esquecendo os bombons.            
 Saíram, e a menina o conduzia pela mão, como a um cego.    

quarta-feira, 20 de março de 2013

Piratinha


Piratinha, permita-me piratear tua vontade de viver.
O gesto de heroína, Piratinha, essa sede de alegria.
Deixe-me piratear o teu sorriso e roubar o novo dia.
Piratear a esperança no olhar, amor que embeleza e atravessa portas e e janelas.
Deixe-me piratear teu faz-de-conta, humor e fantasia.
Deixe-me roubar de volta o que - para ficarmos grandes - abandonamos um dia.
Piratinha, tenha pena de nós, marmanjos, que vivemos com pressa, dor no corpo e consciência, por causa dos negócios e das contas.
Deixe-me piratear o vento no rosto, viver o instante, sem o dever do novo dia.
Deixe-me piratear tua presença e liberdade, teu olhar que nos mostra o que realmente interessa.
Piratinha, nossos pés se acostumaram a ficar presos no mesmo chão. Cabeça, ombros, tudo se curva, são nossos medos que se apossaram de nós.
Felizes e infelizes, sem querer e querendo, vamos criando raízes e nos prendendo.
Piratinha, andamos perdidos. Vivos, temos medo do abismo, e muitas vezes nos assustamos com os caminhos que escolhemos.
Deixe-me piratear o susto, o espanto, mais do que um bocejo, um espreguiçamento.
Você é nosso canto, enquanto ainda sentimos o sopro do sol e do vento. 
Com carinho e amor, do Teco, o poeta sonhador. 


segunda-feira, 18 de março de 2013

Lua adversa - Cecília Meireles


Tenho fases, como a lua 
Fases de andar escondida, 
fases de vir para a rua... 
Perdição da minha vida! 
Perdição da vida minha! 
Tenho fases de ser tua, 
tenho outras de ser sozinha. 

Fases que vão e vêm, 
no secreto calendário 
que um astrólogo arbitrário 
inventou para meu uso. 

E roda a melancolia 
seu interminável fuso! 
Não me encontro com ninguém 
(tenho fases como a lua...) 
No dia de alguém ser meu 
não é dia de eu ser sua... 
E, quando chega esse dia, 
o outro desapareceu...

sexta-feira, 15 de março de 2013

Tic tac




Deise quer um anel para crescer.
Ela quer noivar como gente grande.
Sara quer todo o mundo
dentro do ângulo de sua visão.
A minha letra é miudinha,
nada do que eu lhe digo é palavrão.
Sei, ela me pede uma letra grande
para despertar seu coração.
Fred tem urgência para se apaixonar.
Fred não crê em amor temporão.
Observo a correria
com  a poesia do Vinicius
na minha mão.
(Tic tac tic tac...)
A mecânica do mundo
indiferente a tudo
simplesmente disparou.

terça-feira, 12 de março de 2013

Fome


"Eu não quero faca nem queijo, 
eu quero é fome" (Adélia Prado).

Não basta me apressar, se estou distante do paraíso.
Não basta querer vencer, se amanhece e fico triste.
Não basta entardecer, para ganhar o teu sorriso.
Não basta me encolher, se quero amor e auto-estima.
Não basta te encontrar, se não partilho esse teu ritmo.
Não basta te intuir, se eu não sei como fazer.
Não basta me contemplar, se eu não quero passar em branco.
Não basta me maquiar, se eu não quero levar um tombo.

A lua veio me seduzir, mas me empolguei e errei o pulo.
O sol veio me iluminar, mas eu surfei e caí no mundo.

Não basta inventar um nome,
se eu não tenho a tua fome!

sexta-feira, 8 de março de 2013

Profundamente - Manuel Bandeira




Quando ontem adormeci
Na noite de São João
Havia alegria e rumor
Estrondos de bombas luzes de Bengala
Vozes, cantigas e risos
Ao pé das fogueiras acesas.

No meio da noite despertei
Não ouvi mais vozes nem risos
Apenas balões
Passavam, errantes

Silenciosamente
Apenas de vez em quando
O ruído de um bonde
Cortava o silêncio
Como um túnel.
Onde estavam os que há pouco
Dançavam
Cantavam
E riam
Ao pé das fogueiras acesas?

— Estavam todos dormindo
Estavam todos deitados
Dormindo
Profundamente.

***
Quando eu tinha seis anos
Não pude ver o fim da festa de São João
Porque adormeci

Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos eles?

— Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente.

quarta-feira, 6 de março de 2013

Poesia numa idade dessas?

Super-herói
não saio de dentro da TV
para emocionar você.
(Basta me encontrar
em qualquer lugar).
Não uso efeitos especiais
                             jamais
não impressiono com cenas impossíveis
                                               surreais
dispenso a ajuda do computador
minha performance usa a
                      imaginação.
De especial
só basta o jeito
de me apresentar:
de maneira
tragimágica
tragimímica
tragicômica.

segunda-feira, 4 de março de 2013

Pensando com o corpo


Quando pensamos, não esprememos apenas o suco do conhecimento, armazenado em nosso cérebro. O corpo também quer embarcar nessa aventura.
Nosso corpo mostra, para quem está por perto, o esforço que fazemos para verbalizar o que sentimos.
Conheci um sujeito que não gesticulava.  Falava, falava, seja da vida, ou de mulher, e batia forçosamente os dois pés.
Tem também outro cara que, quando ajustava e nos fuzilava com a sua verdade - num constante diz e desdiz - cerrava o punho e coçava o nariz.
Os casos não param por aí: Zé diz e contradiz, dos amores que conquistou, acariciando a aliança do dedo da mão.
Conheço uma gata sarada (ai de nós, coitados) que dialoga com as comidinhas que traz do mercado. Os frios, refris e enlatados são os seus versos cifrados.
No facebook, Z diz (e mostra) que conquistou lindas garotas e até curtiu uma sereia. Só que ninguém sabe, atrás do monitor, no seu cantinho solitário e abafado, ele expia sua culpa beliscando a orelha.(Lugar comum:  a fera atira pra tudo quanto é lado, e não atira pra lugar nenhum!).
Se o tempo ameaça chuva, X se encolhe infeliz, e pensa com a cicatriz.
Antenor, quando o assunto é futebol, se contorce em pesadelos, e pensa com os pinos (que latejam) no tornozelo.
No piloto automático, Y não pensa e não se espanta. Tudo o que faz é repetir o mantra: se eu voltar a beber, ai de mim, eu boto pra perder, o peso que perdi!
tanta gente pensa que pensa. Pensa com o copo colado à mão.
Pensa com as piruetas da fumaça do cigarro. 
Pensa com seu engasgo.
Pensa com seu catarro.
Quando saio pra balada, visto uma camisa apertada, e uma ideia logo me intriga:droga de vida, nada me resta senão apalpar e amolar minha barriga!

sábado, 2 de março de 2013

cruza com os bichos


Tenho cruza com os bichos,
meu ouvido é de cão:
qualquer moto-serra
betoneira ou cortador de grama
fico melancólico
e corro pra debaixo da cama!

sexta-feira, 1 de março de 2013

Andorinha - Manuel Bandeira


Andorinha lá fora está dizendo:
- "Passei o dia à toa, à toa!"

Andorinha, andorinha, minha cantiga é mais triste!
Passei a vida à toa, à toa...

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

matinê


"Coisa mais triste quando, ao recordar um amor, a gente tenta lembrar: qual era a nossa música? E não havia". (Martha Medeiros)

Nas últimas músicas da matinê, aos domingos à tarde, é que eu procurava minha paixão adolescente para dançar.
mas quase sempre ela já tinha par.
Quando esperava por mim, minha timidez dava um jeito de estragar tudo.
Eu vacilava, ía e não ía, e logo  a música (perfeita) acabava.
As últimas músicas eram românticas, "lentas", imagino que para aproximar os corpos...
Sentir, em toda a sua extensão, o calor da paixão... E ficar a semana imaginando...
Nesse faz de conta, o amor era perfeito.
Alcançávamos o paraíso, e a duração era do tamanho da eternidade.
Mas na hora de colocar o amor em prática, conseguíamos estragar tudo!
cresci e fui me ajustando, e sendo ajustado, pelo lado prático da vida. 
Era uma necessidade.
 Tudo funcionava, mal ou bem: agendas, horários, cobranças.
Ajusta daqui, conserta (e concerta) dali, ganhamos alguma experiência, e até alguma sabedoria.
Mas as dores de amores continuam as mesmas.
E quando ouço aquelas músicas, cúmplices da minha paixão, volto a ser guri, um poeta sonhador.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Bendita - Fabrício Carpinejar



Palavra tem sentimento, muda o destino do casal. Um termo errado nos precipita ao desterro, o termo certo nos conduz ao paraíso. Falar não é um detalhe para as mulheres que nasceram para ouvir. É trocar um adjetivo, que renovamos o alvará do amor. Não podemos, homens, nos dar ao luxo da preguiça. A sedução é trabalho diário e incansável. Cultive o dicionário, colecione vocábulos, sente na gramática.
 
Não diga que ela é autoritária, diga que ela é uma liderança.
 
Não diga que ela é indiscreta, diga que ela é curiosa.
 
Não diga que ela mente, diga que ela possui uma imaginação poderosa.
 
Não diga que ela é estourada, diga que ela é corajosa.
 
Não diga que ela é atrapalhada, diga que ela é perfeccionista.
 
Não diga que ela é irritante, diga que ela é persistente.
 
Não diga que ela é consumista, diga que ela sabe escolher.
 
Não diga que ela é manipuladora, diga que ela é decidida.
 
Não diga que ela é dramática, diga que ela é emotiva.
 
Não diga que ela é vulgar, diga que ela ama a simplicidade.
 
Não diga que ela é imprudente, diga que ela é ousada.
 
Não diga que ela é ciumenta, diga que ela é interessada.
 
Não diga que ela é medrosa, diga que ela é sensível.
 
Não diga que ela cozinha mal, diga que sua comida é rústica.
 
Não diga que ela exagerou ao cortar o cabelo, diga que ela transpira independência.
 
Não diga que ela grita, diga que todos precisam ouvi-la.
 
Não diga que ela é agressiva, diga que ela é lutadora.
 
Não diga que ela é orgulhosa, diga que ela tem personalidade.
 
Não diga que ela é possessiva, diga que ela é cuidadosa.
 
Não diga que ela é mimada, diga que ela é uma princesa.
 
Não diga que ela não tem razão, diga que sua opinião é importante.
 
Não diga que ela sempre se atrasa, diga que admira sua calma.
 
Não diga que ela é confusa, diga que ela é misteriosa.
 
Não diga que ela é ambiciosa, diga que ela é sonhadora.
 
Não diga que ela entendeu errado, diga que você explicou muito rápido.
 
Não diga que ela é fofoqueira, diga que ela é bem informada.
 
Não diga que ela é obcecada, diga que ela não desiste.
 
Não diga que ela é maníaca, diga que ela é organizada.
 
Não diga que ela é gorda, nem tente encontrar um sinônimo, apenas não diga.

(Zero Hora, 26/02/2013)

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Se eu fosse um padre



Numa época repleta de tragédias, sabemos que as religiões e a espiritualidade são muito importantes para nos confortar. Como seria difícil os pais enterrarem seus filhos, sem a ajuda da fé...
Por outro lado, vemos a proliferação de igrejas, não apenas de concreto, nas vilas de nossas cidades, mas também nos canais de televisão. Sabemos que tudo isso, em boa medida, não passa de um grande "negócio".
Trago aqui o que pensa o poeta, Mario Quintana, a respeito de Deus. Sem deixar de lembrar que ele brinca com as palavras, inventa e, também, vê Deus como um inventor - certamente bem-humorado, em vez de autoritário e castigador.



Se eu fosse um padre, eu, nos meus sermões,
não falaria em Deus nem no Pecado
— muito menos no Anjo Rebelado
e os encantos das suas seduções,

não citaria santos e profetas:
nada das suas celestiais promessas
ou das suas terríveis maldições...
Se eu fosse um padre eu citaria os poetas,

Rezaria seus versos, os mais belos,
desses que desde a infância me embalaram
e quem me dera que alguns fossem meus!

Porque a poesia purifica a alma
...e um belo poema — ainda que de Deus se aparte —
um belo poema sempre leva a Deus!

O mundo anda muito sério, cheio de "verdades" e dogmáticos que se autoproclamam donos da verdade. É que usam o nome de Deus, e de Jesus", com  a pretensão (falaciosa) de serem o seu porta-voz.
Está em falta, cada vez mais,  a imaginação, a criatividade, o faz de conta - que é muito peculiar  na infância.
O que aconteceu com a gente, para renunciarmos às surpresas (e belezas) da arte, da poesia e da vida?
Acho tudo isso uma renúncia à própria vida!

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Jogo de palavras - Tulio Milman

Um guri de 14 anos foi ao futebol e não voltou. Aconteceu na Bolívia.
Um guri de 14 anos foi atingido no olho por um sinalizador.
E morreu.
Sentido figurado: essa areia movediça que é, ao mesmo tempo, refúgio e inferno. Ninguém aguenta uma vida literal, onde a distância entre cada palavra e seu significado se resume a uma linha reta. Mas tem hora e lugar para tudo.
Bando de loucos.
Só um louco aponta um sinalizador para uma arquibancada cheia de gente. E loucos, em bando, podem tudo. Porque são loucos. Porque ser louco é bacana. Porque só os loucos fazem parte do bando.
Jogadores, cartolas, jornalistas. Todos reproduzimos e induzimos, olhos vidrados, aos gritos: "Bando de loucos".
Batalha, exército, guerra, inimigo, morte súbita, guerreiro, matador. Termos que deveriam ser banidos para sempre do futebol. Porque a fronteira entre o literal e o figurado se apaga em um ecossistema contaminado pela paixão. É lindo morrer de amor. Na poesia. É lindo matar a saudade. Com um abraço. Num estádio de futebol lotado, ninguém está autorizado a matar. Ou morrer.
Sobe a placa: sai inimigo, entra adversário. Sai matador, entra artilheiro.
O maior jogador de todos os tempos se chama Pelé. Só. Duas sílabas que inspiram sorrisos, magia, poesia. E tem o gol do raio de sol, a folha-seca, a bicicleta, o balãozinho.
Não sei em que momento o futebol se transformou em guerra. Mas sei exatamente em que momento deveríamos depor as armas.
E esse momento já passou faz tempo.

Zero Hora de 23/02/2013 - Informe Especial - Tulio Milman

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Babysol


Como é bom ir dormir
agarradinho ao lençol
que esticou toda a tarde
espreguiçadinho ao sol
viu tudo o que passava
igualzinho a um farol
e de noite me acolheu
com seu cheirinho babysol!

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

De luto




Canção de um dia de vento - Mario Quintana





O vento vinha ventando
pelas cortinas de tule.

As mãos da menina morta
estão varadas de luz.
No colo, juntos, refulgem
coração, âncora e cruz.

Nunca a água foi tão pura...
Quem a teria abençoado?
Nunca o pão de cada dia
teve um gosto mais sagrado.

E o vento vinha ventando
pelas cortinas de tule...

Menos um lugar na mesa,
mais um nome na oração,
da que consigo levara
cruz, âncora e coração

(E o vento vinha ventando...)

Daquela de cujas penas
Só os anjos saberão!

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Esses cães...

"A verdade é que os bichos, quando imitam as pessoas, perdem toda a dignidade"
(Mario Quintana).

Esses cães que passeiam
por festas e bares
são jovens amantes 
reencarnados
ou são Ets espiões 
fantasiados
que buscam ensinamentos
sobre nossas danças de 
acasalamento.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Saudade animal


Às vezes na minha rua
passa uma música
mais linda do que 
a do caminhão do gás.
É o tropt tropt
cadenciado
dos pisantes dos cavalos...
Nessas horas bate 
uma saudade animal
dos tempos de guri
quando ouvia 
a banda municipal!

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Receita de espantar a tristeza - Roseana Muray



Faça uma careta
e mande a tristeza
pra longe pro outro lado
do mar ou da lua

vá para o meio da rua
e plante bananeira
faça alguma besteira

depois estique os braços
apanhe a primeira estrela
e procure o melhor amigo
para um longo e apertado abraço.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Bomba de gasolina

Na bomba de gasolina
abasteço e corro como louco
verdadeiro animal alado
pra logo voltar e fitar
seu olhar molhado.

Antes, 
minhas idas e vindas
                    diárias
se conformavam
com as chegadas e partidas
do ônibus da rodoviária.

Agora,
eu me perfumo
e abandono a sina de ermitão
só pra chamar sua atenção!

Como ela não tem nada com isso,
ensaio algumas danças
com as asas do pavão
e sonho meu destino
com a barby que se insinua
debaixo do macacão!

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Quarta-feira de cinzas


O morto

Eu estava dormindo e me acordaram
e me encontrei, assim, num mundo estranho e
                                                            louco...
E quando eu começava a compreendê-lo
um pouco,
já eram horas de dormir de novo!
(Mário Quintana).

A gurizada
bebe e urina
à noite no salão
na esquina
jorrando seu rim
num rio Potiribu.
O rio vai matar a nossa sede
de água pura destilada,
pois é o nosso destino
viver de vida reciclada.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Carnaval


Não suporto a ideia de ser moralista
mas que nenhuma dessas gatas
que bebe todas no carnaval
me apareça grávida amanhã!

Pelo amor de Deus
saibam que do short apertado
cochas bronzeadas
seios estalados
e um rebolado insinuante
repleto de tchan, tchan, tchan
vai acabar em sexo
e algumas gatas barrigudas 
amanhã de manhã...

Hoje não há tristeza
posso rir sem faz de conta
mandar a realidade pro espaço
e seguir o bloco da paixão
mas não deixo que a realidade 
perca de vista 
suas mentiras e verdades
e os tesouros perdidos 
                 da liberade.

É que debaixo de minha cama
tem um bando de ex-amores
que perturbam quem me ama
"E debaixo dessa escrita
tem sangue em vez de tinta
e alguém calado que grita" 
(Affonso Romano de Sant'anna).

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

O carnaval do símbolo - Celso Gutfreind



Não entendia o gosto de meu filho pelo WWE. E meu filho reclamava de minha indiferença. Lembro que ele dizia que essas lutas são de faz-de-conta, e de que sempre os personagens contam uma história. A partir de então, passei a assistir com ele e, no começo, me sentia um pouco sem graça... Agora eu leio este texto do Celso Gutfreind, poeta e psiquiatra, e percebo que o guri tinha razão, e de que tudo faz sentido...

No ano passado, o Ted Boy Marino morreu. Acusei o golpe. Ele foi meu ídolo nos anos 60. Deu-me o direito de ir dormir mais tarde. Eu sonhava acordado com inimigos imaginários. Ele foi o meu primeiro Dom Quixote. Nas lutas do telecatch, eu sorria quando o Ted vencia. E chorava se ele perdia, mas felizmente era raro. Desabei quando “quebraram” o seu braço. Pedi para engessarem o meu também. Eu o imitava dia e noite. Eu e toda a torcida do Flamengo, do Grêmio, do Inter.

Hoje seria como o UFC, com Anderson Silva. Mas não era. Tinha uma diferença. As lutas livres faziam um faz de conta, um “como se”. Até o menino de cinco anos sabia que não eram de verdade. Adultos e crianças, fingíamos juntos. O UFC não põe aspas para quebrar braços, machucar pernas, arrancar pedaços da orelha.

São anos de surra no símbolo. Na brincadeira. Na possibilidade de imaginar. A realidade vem sendo imposta direta demais. Há excesso de videogame e falta de convivência. Lutamos contra o desconhecido; ele pulsa com violência, dentro de nós. Seria mortal, caso não tivesse a festa de consertar. Mas o conserto depende de estar com o outro. Fingindo, brincando, fazendo de conta. Tocando. Da ilusão surge a criatividade. E fica, realmente, mais vivo.

O Mario Quintana falou disso, com poesia. Para ele, o ritmo é salvador. A pele entre o eu e o mundo, entre nós e as coisas. Feita com literatura, mas também com dança, música, cinema, esporte, trabalho. Com encontro. Somos, no fundo, salvos pelo teatro. Somos, no fundo, salvos pelo outro. Caso contrário, a solidão nocauteia com o soco da morte crua e verdadeira, que nos habita desde o nascimento.

O ritual das lutas sabia iludir até que nos sentíssemos prontos para lutar de fato, ou seja, metaforicamente. Crianças encontravam adultos capazes de organizar um espetáculo que representava a violência, mas não era a violência. O UFC cria pouca pele, não cava muito espaço.

Ainda não sei o que farei com a falta do Ted Boy Marino, mas aprendi a esperar. A descansar no símbolo e ficar triste à vontade sem que a realidade venha quebrar o braço, machucar a perna, danificar o cérebro. E, sobretudo, matar o coração.

Acho que vou contá-la, achar um ouvinte, estar junto até que a dor passe para eu poder ficar sozinho novamente. Atado à morte do Ted, há um fio comprido de mortos, do cão à irmã. Dos amigos de Porto Alegre a Santa Maria. Não posso deletá-los simplesmente. Sem ombro onde se apoiar, sem ter com quem falar, não haveria como sobreviver.

O faz de conta acompanhado ensinou a viver de verdade. A morrer, talvez. A prosseguir e, como se espantou o Quintana, vir à tona de todos os naufrágios. 


Zero Hora, 09/02/2013

Original

Aniversário, dois dias reunindo amigos, churrasco, bebida, muitos planos com meu amor, debates sobre o que fazer para salvar a humanidade. ...