quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Quarta-feira de cinzas


O morto

Eu estava dormindo e me acordaram
e me encontrei, assim, num mundo estranho e
                                                            louco...
E quando eu começava a compreendê-lo
um pouco,
já eram horas de dormir de novo!
(Mário Quintana).

A gurizada
bebe e urina
à noite no salão
na esquina
jorrando seu rim
num rio Potiribu.
O rio vai matar a nossa sede
de água pura destilada,
pois é o nosso destino
viver de vida reciclada.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Carnaval


Não suporto a ideia de ser moralista
mas que nenhuma dessas gatas
que bebe todas no carnaval
me apareça grávida amanhã!

Pelo amor de Deus
saibam que do short apertado
cochas bronzeadas
seios estalados
e um rebolado insinuante
repleto de tchan, tchan, tchan
vai acabar em sexo
e algumas gatas barrigudas 
amanhã de manhã...

Hoje não há tristeza
posso rir sem faz de conta
mandar a realidade pro espaço
e seguir o bloco da paixão
mas não deixo que a realidade 
perca de vista 
suas mentiras e verdades
e os tesouros perdidos 
                 da liberade.

É que debaixo de minha cama
tem um bando de ex-amores
que perturbam quem me ama
"E debaixo dessa escrita
tem sangue em vez de tinta
e alguém calado que grita" 
(Affonso Romano de Sant'anna).

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

O carnaval do símbolo - Celso Gutfreind



Não entendia o gosto de meu filho pelo WWE. E meu filho reclamava de minha indiferença. Lembro que ele dizia que essas lutas são de faz-de-conta, e de que sempre os personagens contam uma história. A partir de então, passei a assistir com ele e, no começo, me sentia um pouco sem graça... Agora eu leio este texto do Celso Gutfreind, poeta e psiquiatra, e percebo que o guri tinha razão, e de que tudo faz sentido...

No ano passado, o Ted Boy Marino morreu. Acusei o golpe. Ele foi meu ídolo nos anos 60. Deu-me o direito de ir dormir mais tarde. Eu sonhava acordado com inimigos imaginários. Ele foi o meu primeiro Dom Quixote. Nas lutas do telecatch, eu sorria quando o Ted vencia. E chorava se ele perdia, mas felizmente era raro. Desabei quando “quebraram” o seu braço. Pedi para engessarem o meu também. Eu o imitava dia e noite. Eu e toda a torcida do Flamengo, do Grêmio, do Inter.

Hoje seria como o UFC, com Anderson Silva. Mas não era. Tinha uma diferença. As lutas livres faziam um faz de conta, um “como se”. Até o menino de cinco anos sabia que não eram de verdade. Adultos e crianças, fingíamos juntos. O UFC não põe aspas para quebrar braços, machucar pernas, arrancar pedaços da orelha.

São anos de surra no símbolo. Na brincadeira. Na possibilidade de imaginar. A realidade vem sendo imposta direta demais. Há excesso de videogame e falta de convivência. Lutamos contra o desconhecido; ele pulsa com violência, dentro de nós. Seria mortal, caso não tivesse a festa de consertar. Mas o conserto depende de estar com o outro. Fingindo, brincando, fazendo de conta. Tocando. Da ilusão surge a criatividade. E fica, realmente, mais vivo.

O Mario Quintana falou disso, com poesia. Para ele, o ritmo é salvador. A pele entre o eu e o mundo, entre nós e as coisas. Feita com literatura, mas também com dança, música, cinema, esporte, trabalho. Com encontro. Somos, no fundo, salvos pelo teatro. Somos, no fundo, salvos pelo outro. Caso contrário, a solidão nocauteia com o soco da morte crua e verdadeira, que nos habita desde o nascimento.

O ritual das lutas sabia iludir até que nos sentíssemos prontos para lutar de fato, ou seja, metaforicamente. Crianças encontravam adultos capazes de organizar um espetáculo que representava a violência, mas não era a violência. O UFC cria pouca pele, não cava muito espaço.

Ainda não sei o que farei com a falta do Ted Boy Marino, mas aprendi a esperar. A descansar no símbolo e ficar triste à vontade sem que a realidade venha quebrar o braço, machucar a perna, danificar o cérebro. E, sobretudo, matar o coração.

Acho que vou contá-la, achar um ouvinte, estar junto até que a dor passe para eu poder ficar sozinho novamente. Atado à morte do Ted, há um fio comprido de mortos, do cão à irmã. Dos amigos de Porto Alegre a Santa Maria. Não posso deletá-los simplesmente. Sem ombro onde se apoiar, sem ter com quem falar, não haveria como sobreviver.

O faz de conta acompanhado ensinou a viver de verdade. A morrer, talvez. A prosseguir e, como se espantou o Quintana, vir à tona de todos os naufrágios. 


Zero Hora, 09/02/2013

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

O maluco do bairro

Para que a paranoia
de correr pra ser feliz
se tenho um enluarado
início de abril
e um amigo maluco
que namora a verdade
e vive por um triz?
Que preferiu 
divorciar-se
do prozac
enfermeira e psiquiatra
e casar-se com a cachaça
diária e sistemática?
E não é que o amalucado
é chefe de uma matilha 
de cães adotados
vigias do meu bairro?
Será que o maluco sou eu
que acha tudo isso engraçado??

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Quem precisa de regras de etiqueta? - Cintia Moscovich


Nesse último domingo, 3 de fevereiro, em sua coluna na revista Donna, Celia Ribeiro conta que uma leitora enviou um e-mail discordando de um comentário feito em edição passada, segundo o qual seria invasivo tomar a iniciativa de beijar uma pessoa pública. Para a leitora, não é errado que fãs desconhecidas beijem e abracem atrizes, porque, segundo argumenta, tais pessoas dependem de seu público. Diz mais: que imagina que Celia viva “rigidamente” pautada pelas regras de etiqueta e que “seria bem mais feliz se não o fizesse”.

Ao ler o texto, me veio uma sensação de estranhamento muito grande. Primeiro, porque acho de última se pendurar no pescoço de um estranho, famoso ou não – ainda mais com aqueles gritinhos e fotos de celular. Segundo, porque até as pedras da rua sabem que Celia Ribeiro é nossa maior referência em se tratando do convívio em sociedade, sempre defendendo que as regras de etiqueta são meios de respeitar o próximo e de com ele viver em harmonia. Terceiro, porque achei de uma grosseria sem tamanho a observação de que Celia “seria bem mais feliz” se deixasse de, presumivelmente, “seguir rigidamente” a etiqueta – como se a leitora soubesse de que maneira vive ou deixa de viver a jornalista.

Com o devido respeito, mas essa mensagem da leitora é um legítimo exemplar do sem-noção total, triste produto da inversão de valores que temos vivido. Partindo de um anonimato absoluto, na tentativa de conseguir um mínimo de atenção, as pessoas se veem no direito de emitir juízos de valor e de prescrever receitas de felicidade que mais são desaforo do que legítima preocupação com o outro.

Nesta época em que todos se expõem todo o tempo e no qual as pessoas se julgam felizes porque podem sair beijando atrizes, o complicador das relações é todo mundo ter opiniões formadíssimas sobre todas as coisas, superficiais e raivosas o suficiente para se afinar com a cartilha do politicamente correto. É um tal de falar sem conhecimento de causa, de ser contra sem saber o contrário, de não gostar sem ter sequer provado, situações que são tão legítimas e boas quanto um maestro de orquestra só saber música de ouvido. 


Para agravar a situação, nas redes sociais os disparates são compartilhados milhares de vezes e em meio segundo já se tem consenso universal. Não bastasse seguir o fluxo sem nem olhar para o lado (ah, a vocação de manada!) e dizer amém para palpites os mais abobados possíveis, parece que há também um desprezo pela forma máxima de autoridade, que é aquela conquistada pela via do estudo, da experiência e da sensibilidade, como o caso exposto acima. O tempo me demonstrou que boas maneiras não são futilidade, que a alma se sente bem com um pouquinho de civilização e que beijos e abraços devem ser guardados para os íntimos.

Zero Hora, quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Preciso me apaixonar


Preciso me apaixonar
para começar outros
noventa minutos
de pulsão rolando,
sem minuto de silêncio
e homenagens ao amor
que evaporou.

Sei, no primeiro 
                   tempo
noventa por cento
será por conta
da imaginação...

Sei, não devo prever a morte
desse amor agora, antes de
entrar em campo, sem ter
acabado a fase 
do deslumbramento.

Sei, será difícil conter-me
da vontade fugitiva
toda vez que eu pensar
no castigo que terei
da dor e do rancor
de toda falta de amor
de alguma Diva.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

KISS - Carlos Silveira


Às vezes, o simples viver é um ato de coragem (Sêneca).

As asas de cinza
abrem o ventre do
beijo aterrador.

A plenos pulmões
as línguas escaldantes
expõem seus artifícios.

O absurdo leva o silêncio
de galho em galho e a 
saída de emergência
cai no abismo.

A balada é segura: as
rotas de fuga iluminam
os necrotérios e quem
mente mais chora menos.

Os sonhos cremados
beijam o imponderável norte
e a razão invertebrada semeia o 
nada, a dor e a morte.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Ano passado eu morri...


Nesta semana, com tanta gente morrendo - parece-me de uma lógica absurda, se podemos falar de lógica - ando cantarolando, no silêncio de minhas emoções dilaceradas, uns versos do Belchior:
"Ano passado eu morri, mas nesse ano eu não morro!...".
Nem presto atenção ao sentido disso tudo. Me esforço para escrever algo, para tentar organizar um pouco os pensamentos, atordoados por essas "quase férias" estranhas.

***

Olho esses rostos jovens nos outdoors, repletos de beleza e promessas de vida, e não consigo deixar de associar com as espiadas dos pais às fotos dos filhos que se foram, na tragédia de Santa Maria.
Olhares serenos, abertos às tantas possibilidades do que poderiam ser no futuro... 
Nessa hora é impossível fugir da crença de que a vida é cheia de mistérios... E também de que seria bom demais a certeza de que as almas transmigram, retornam, como disse o grande filósofo Platão. Nada melhor do que ter outras oportunidades de recomeçar (re-viver), e se tornar melhor e melhor...
Os contrapontos se repetem: há o imprevisível, ou há o destino? Tudo é novidade, ou tudo é repetição?

***

A vida continua... e um elogio vale demais. 
Ela falou, na fila de espera do banco: 
- Parabéns pelo seu trabalho. 
Iluminou-se meu dia, ainda mais que a senhora foi secretária de educação do município durante muitos anos.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Pôr-do-sol em Palmas





Deu vontade de escrever uma crônica. O assunto parece óbvio: como se encontrar numa cidade que você não conhece. Assim que eu tiver uma folga (um dia revelo o que ando fazendo por aqui) vou trazer umas linhas sobre acontecimentos engraçados que vivenciei. Não desistam do blog. Creio que até o final do mês eu retorno.

sábado, 5 de janeiro de 2013

Mais um lance

Parece que a vida repete e repete os mesmos lances.
Demorei pra perceber que sou o sujeito da coisa que acontece
me enrola e embola tudo ao meu redor.
Me faço pequeno, coitadinho, formatado, 
para responder assim, assim, aos estímulos de alegria e dor...
Quero uma imagem arco-íris pôr-do-sol
garota tatuada da cabeça aos pés
passeando com seu cão...
Uma batida de carros na esquina
velhinha atropelada ciclista degolado
pelo cerol da pipa bandido agonizando no chão...
A vida repete e repete os mesmos lances
e eu sou sujeito dorminhoco distraído
seguindo o mesmo tranco...

Se ela me ouvisse, eu diria:
- Ainda vamos rir
de nossos lances ridículos
basta dar um tempo ao tempo
e olhar pra trás sem mágoa
e ranços...

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Algo aconteceu hoje


Li tanta coisa, hoje.
Tratados de filosofia, compêndios de educação, jornais e as noticias oficiais do feriadão. Trinta e poucas mortes no trânsito (só no RS), uns oito afogamentos, homicídios, quebra nos recordes de calor...
Acho, li plugado no piloto automático. Porque nada me acordou do cotidiano previsível.
O que chamou a atenção, mesmo, foi vê-la cavalgando na avenida, alheia ao trânsito psicodélico do fim de tarde, alheia à bobeira desse poeta sonhador.
Montada em seu cavalo, acompanhada por outro garanhão (seria o mais experiente, o "treinador"?), presenteou-me com uma cena inesquecível: à visão que tive dos três animais, eu somei o som percursivo de dez patas e três ancas desfilarem na avenida.

Não teve jeito. Lembrei da música abaixo, que deixo aqui pra vocês.

Entrando no M'bororé - Os Serranos


Lá vem o Vitor solito
Entrando no M'bororé
E um cusco brasino ao tranco
Na sombra de um pangaré
Chapéu grande, lenço negro
Jeitão calmo de quem chega
Na tarde em tons de aquarela
Lembra um quadro do Berega
Um flerte troteando alerta
Num upa se nega pra os lados
E uma perdiz se degola
No último fio do alambrado
Apeia na cruz da estrada
E o seu olhar se enfumaça
Saca o sombreiro em silêncio
Por respeito à sua raça
Refrão:
Lá vem o Rio Grande à cavalo
Entrando no M'bororé
Lá vem o Rio Grande à cavalo
Que bonito que ele é
Procura a volta do pingo
E alço o corpo sem receio
Enquanto uma borboleta
Senta na perna do freio
Até enterte o cristão
Que se cruza campo a fora
Mirar a garça matreira
Com seu pala cor de aurora
Pois lá num rancho de leiva
Que ele ergueu com seu suor
Fica um sonho por metade
De quem vive sem amor
Num suave bater de asas
Cruzam bandos em alarde
E as garças e o Vitor somem
Lá na lonjura da tarde

http://letras.mus.br/os-serranos/209278/

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

A vida é um teatro


Sério ou engraçado
a vida é um teatro
          improvisado

no palco
escolho palavras
que despertem
teus ouvidos

A coragem vacila
quando o eco da minha voz
ricocheteia os tímpanos

meu espelho,
o eco,
sem cerimônia insiste:
- Quem és? Quem és?

Nessas horas
eu fujo do palco
e abraço os amigos!

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Bebedouro



Bastou um segundo
para eu encontrar
a dona do mundo
lindamentemenina
distraída
na tarde quente
de sexta

o bebedouro foi
acariciado
beijado
a goles 
compassados

sugou a seiva
e nem notou o mico
de eu tropeçar ao vê-la!

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Rocky Balboa


 Assisto Rocky Balboa
embarco em seu drama
                             dramão
                             dramim

o mocinho apanha apanha
e passa sua dor pra mim
eu jogo sempre com ele
pra me redimir no fim
                     e ser feliz...

dá pra ser feliz assim?

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Ensaio



O choro da criança
à tardinha
anuncia o ensaio
da orquestra
dos passarinhos...
Tanta gritaria
deu em nada:
fiquei triste
minha tarde
restou
desafinada!

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Geleia geral

 
De tanto ela 
se tornar irreal
cresci feito balão
depois eu sumi 
             pra todo
e nenhum lugar...

Até onde eu sei
de abelha operária
quis ser-meu-rei...
mas-me-entornei
zangão de colmeia
dividido no brete
que demarca 
            o sonho
do mundo real.

a  ta    lho   da
         ba  a  men  te

                        escalei
sacadas e janelas
para me lambuzar
               com o mel
do seu beijo fatal!

Os arquitetos

 
Perdemos o grande O. Niemeyer, mas ganhamos sua obra, a qual permanece. Ainda jovem, nosso arquiteto abandonou o ângulo reto em favor das curvas. É o que constatamos em muitos aspectos de sua obra.

Vejam onde o joão-de-barro fez sua obra...
Niemeyer e o pássaro, os dois em perfeita harmonia com a natureza!


quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Não basta...


Não basta me alegrar, se estou distante do paraíso
não basta tudo vencer, se amanhece e fico triste
não basta aparecer, se quero ganhar o teu sorriso
não basta me esconder, se quero amor e auto-estima
não basta te conhecer, se não acompanho esse teu ritmo
não basta te desejar, se eu não sei como fazer
não basta me repetir, se eu não quero passar em branco
não basta me esconder, se eu não quero levar um tombo...

A lua veio me seduzir, mas me empolguei e errei o pulo!
O sol veio me consolar, mas eu surfei e caí no mundo!

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

O trabalho e o lavrador - Sérgio Capparelli



O que disse o pão ao padeiro?

Antes do pão, eu fui farinha,
farinha que o moinho moía
debaixo do olhar do moleiro.

O que disse a farinha ao moleiro?

Um dia eu fui grão de trigo
que o lavrador ia colhendo
e empilhando no celeiro.

O que disse o grão ao lavrador?

Antes do trigo, fui semente,
que tuas mãos semearam
até que me fizesse em flor.

O que disse o lavrador às suas mãos?

Com vocês, lavro essa terra,
semeio o trigo, colho o grão,
moo a farinha e faço pão.

E a isso tudo eu chamo trabalho.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Coração selvagem - David Coimbra



Não sei por que não escrevi nada ainda sobre o Belchior, já que ele marcou tanto minha adolescência, com suas belas canções. Para tentar pagar um pouco essa dívida, vai a seguir essa bela crônica do David Coimbra.


Esse senhor de basto bigode que zanzou feito um fantasma por Porto Alegre dias atrás, Belchior, esse senhor estranho é um símbolo. Belchior é uma estátua viva à juventude, à inconformidade, à contestação reflexiva e, também, à imaturidade.
Você pode aprender muito, se conhecer Belchior, se prestar atenção no que ele escreveu e no que ele se transformou. Belchior foi um poeta inexcedível. Repare neste verso:

“Meu bem, guarde uma frase pra mim dentro da sua canção.
Esconda um beijo pra mim sob as dobras do blusão”.

Não é uma bela imagem, o beijo que ela leva escondido nas dobras do blusão?
Em outro poema, Belchior tomou emprestada a verve de Olavo Bilac:

“Ora, direis, ouvir estrelas! Certo perdeste o senso. Eu vos direi, no entanto: enquanto houver espaço, corpo, tempo e algum modo de dizer não, eu canto”.

Bonito.
Mas o importante de Belchior não é a beleza das suas composições. O importante é quando ele confessa que a sua alucinação é suportar o dia a dia. É a alucinação de todos, certo, mas Belchior não está exagerando sobre si mesmo. Em outra canção ele diz a um parceiro:

“Se você vier me perguntar por onde andei
No tempo em que você sonhava,
De olhos abertos lhe direi:
Amigo, eu me desesperava”.

Ele se desesperava com o dia a dia, ele se desesperava ao perceber que a juventude do seu coração era perversa, uma juventude que só entendia o que era cruel, o que era paixão, porque assim é a juventude.
Belchior sabia que a felicidade é uma arma quente, mas isso não lhe serviu de consolo. A fama, o sucesso e o dinheiro não foram suficientes para aplacar a dor existencial de Belchior. Ele não se conformou. Prova-o o seu futuro, que o futuro dele está acontecendo hoje. Prova-o esse ser humano enigmático que vaga pelo sul do continente meio que sem rumo, hospedando-se em hotéis sem ter dinheiro para pagá-los, doce e arredio ao mesmo tempo, parecendo ora aflito, ora sereno, sendo hoje o que foi sempre.
Belchior ficou congelado nos anos 70. Jamais saiu de sua própria juventude e, suponho, jamais sairá. Em uma de suas grandes composições há uma frase que diz tudo sobre ele, uma frase que resume o que é o coração selvagem de quem começa a se conhecer:

“Ainda sou estudante da vida que eu quero dar”.

É isso. Belchior sabia que a vida de uma pessoa é dada a outras pessoas. Mas que vida ele queria dar? Para quem? Essas eram as perguntas que o inquietavam, e que inquietam a quem quer que pense. Olhando para o Belchior pálido de hoje fico pensando se ele, enfim, descobriu as respostas.

* Texto publicado na Zero Hora desta sexta-feira, 30 de novembro.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Pulsantes - Martha Medeiros


Assisti à peça Vermelho, encenada pelo extraordinário Antonio Fagundes e por seu filho Bruno, que conta uma parte da vida do pintor Mark Rothko, expoente do expressionismo abstrato nos anos 50 e 60. O texto é tão bom, que saí do teatro com a cabeça fervendo. 

Vontade de escrever sobre o dilema entre o que é artístico e o que é comercial, sobre as diferentes maneiras de vermos a mesma coisa, sobre a função da arte abstrata (que nunca me comoveu, mas à qual a partir da peça passei a dar outro valor) e sobre a desproteção das obras quando expostas (Mark Rothko era hiperexigente quanto à luz das galerias, assim como quanto à distância que o visitante deveria ficar da tela, e por quanto tempo esse visitante deveria observá-la até ser atingido emocionalmente... enfim, um chato, esse Rothko, mas fascinava). 

No entanto, como não sou conhecedora de pintura, resolvi destacar aqui um outro aspecto da montagem, que diz respeito não só a artistas plásticos, mas a todos os que lidam com criação. Pensando bem, até com os que não lidam. 

Muitos entre nós ainda acreditam que trabalho e prazer são duas coisas distintas que não se misturam. O dia, em tese, é dividido em três terços: oito horas trabalhando, oito horas aproveitando a vida (até parece: e as filas? e o trânsito?) e oito horas dormindo. Cada coisa no seu devido lugar. Apenas os artistas teriam a liberdade de subverter essa ordem. 

Pois o mundo mudou. O trabalho está deixando de ser aquela atividade burocrática e rígida cuja finalidade era ganhar dinheiro e nada mais. Queremos extrair prazer do nosso ofício, seja ele técnico, artístico, formal, informal. O conceito de estabilidade perdeu força, as hierarquias já não impressionam. 

A meta, hoje, é aproveitar as novas tecnologias e as oportunidades que elas oferecem. Atuar de forma mais flexível, autônoma e motivada. Trocar o “chegar lá” pelo “ser feliz agora”. Ou seja, amar o trabalho do mesmo jeito que se ama ir ao cinema, pegar uma praia e sair com os amigos. 

Rothko respirava trabalho, e considerava que estava igualmente trabalhando quando lia Dostoievski, quando filosofava, quando caminhava pelas ruas, quando amava, quando dormia, quando conversava. Defendia a vida como matéria-prima da inspiração, sem regrar-se pelo horário comercial. Não se dava folga – ou folgava o tempo inteiro, depende do ponto de vista. Quando não estava pintando, estava alimentando sua sensibilidade, sem a qual nenhuma pintura existiria. 

Nos anos 50, só mesmo um artista poderia viver essa fusão na prática. Depois que cruzamos o ano 2000, porém, é uma tendência que só cresce, em todas as áreas profissionais, nas que existem e, principalmente, nas que estão sendo inventadas. 

Como pintor, Mark Rothko valeu-se de uma vasta cartela de cores, mas expressou-se magistralmente em vermelho – na verdade, ele viveu em vermelho. Paixão, sangue, vinho, pimenta, calor, sedução. Ele sabia que essa era a cor que pulsava. E segue moderno, pois, como ele, são os pulsantes que estão fazendo a diferença.


Zero Hora, 28/11/2012

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Ou eles, ou nós!


Acendi a luz de casa e um vulto me trouxe de volta à superfície da realidade: um pequeno rato (pequeno camundongo seria redundância?) passou a mil pelo corredor, como um Fórmula Um!
A primeira coisa que me veio à cabeça, foi: "Ou ele, ou eu!" E a seguinte imagem se formou em minha mente cansada: "Cuidado, leptospirose!"
Lembrei imediatamente onde guardo o veneno, que não usava já a algum tempo... E é claro que ele comeu todo o alimento granulado... Pobres animais, não têm nenhum poder diante da racionalidade e soberania humanas!
Pobre rato! Pobre? Será? Apenas ele é um coitado diante dos fatos? Pois é, ele morreu pela boca. Aiaiai... Eu, astuto animal racional, elimino o bicho que suponho me faça mal, seduzindo-o com comida envenenada.
Mas, não é o que faço todos os dias, me matar ao me alimentar, seja com fast-food, seja com a farta opção de frutas e hortaliças impregnadas de agrotóxicos?...
Será que toda  a rede de produção/distribuição/consumo de alimentos não pensa assim: "Ou eles, ou nós!"?


***

Ontem a RBS TV mostrou alguns gremistas fazendo uma caminhada desde Uruguiana até POA para a inauguração da Arena, em dezembro. Tudo normal, não fosse a audácia de um torcedor do Inter, de também participar da caminhada. Vi a imagem na TV e levei um alegre susto. O gesto de colocar a amizade acima da rivalidade e paixão, pelo time do coração, só pode ser bem-vinda.
Legal a ideia de não exclusão do rival pois, em vez de se render à seguinte fórmula, "Ou eles, ou nós!", faz valer a outra fórmula: "Eles e nós!".
Pequenos (grandes) acenos como esses nos convidam à reflexão. Permitem pensar sobre o senso comum (hegemônico) da rivalidade, da corneta, etc. Não vamos nos deixar seduzir pelo apartheid, seja cultural, étnico, econômico, ou no futebol.
Figura diferente, a desse colorado! Não ligou para o pensamento de manada, o da unanimidade, que não suporta conviver com quem pensa e age diferente. 

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Pulsar

 
No seu pulsar maluco, a cidade me expulsa. 
Só que nesse pulsar do inferno, de pneus rangendo e freios sem governo, eu consigo ver um carinho, no toque dos dedos, no beijo dos apaixonados.
No pulsar do oleo diesel, do caminhão matraqueando, eu sinto meu amor distante pulsar apaixonada, na declaração do torpedo...
Seu amor me tira do sério, um tornado em meu quintal, um gato, um cão abandonado, a indagar sinceridade.
No pulsar que estou vendo, nem tudo são negócios, férias, décimo terceiro... Tudo são ensaios, às vezes de braços cruzados, ou de passos desencontrados.
Na dança bufante do ônibus, no seu ir e vir, a cada fim de noite a brisa vem tudo acalmar. E ganho sem reclamar horas e horas de insônia, para não parar de pensar...
Esse meu coração não escapa do pulsar de rodas, freadas, subidas e decidas pra acelerar...
Vejo-me jogado no meio do jogo. O tudo, o nada, um Deus, um estorvo, uma aposta, um sonho.

Ranzinha

 
A  ranzinha estava ali
falando pelos tubos
rindo de mim nas conexões...
e eu, indeciso como sempre,
sonhado em meus gargalos,
estraçalhando corações...

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Aiaiai


Fu-ra-fu-ra-fu-ra-dei-ra
bebê chora uiva cão
minha rua sal-ta-e-gri-ta
sai de perto vem dra-gão!
de algum lugar
a mons-tra-bro-ta
mas ela passa...
e nem-me-no-ta?!
ai-ai-ai...

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

O que passou, passou? - Paulo Leminski



Antigamente, se morria.
1907, digamos, aquilo sim
é que era morrer.
Morria gente todo dia,
e morria com muito prazer,
já que todo mundo sabia
que o Juízo, afinal, viria
e todo o mundo ia renascer.
Morria-se praticamente de tudo.
De doença, de parto, de tosse.
E ainda se morria de amor,
como se amar morte fosse.
Pra morrer, bastava um susto,
um lenço no vento, um suspiro e pronto,
lá se ia nosso defunto
para a terra dos pés juntos.
Dia de anos, casamento, batizado,
morrer era um tipo de festa,
uma das coisas da vida,
como ser ou não ser convidado.
O escândalo era de praxe.
Mas os danos eram pequenos.
Descansou. Partiu. Deus o tenha.
Sempre alguém tinha uma frase
que deixava aquilo mais ou menos.
Tinha coisas que matavam na certa.
Pepino com leite, vento encanado,
praga de velha e amor mal curado.
Tinha coisas que têm que morrer,
tinha coisas que têm que matar.
A honra, a terra e o sangue
mandou muita gente praquele lugar.
Que mais podia um velho fazer,
nos idos de 1916,
a não ser pegar pneumonia,
e virar fotografia?
Ningém vivia pra sempre.
Afinal, a vida é um upa.
Não deu pra ir mais além.
Quem mandou não ser devoto
de Santo Inácio de Acapulco,
Menino Jesus de Praga?
O diabo anda solto.
Aqui se faz, aqui se paga.
Almoçou e fez a barba,
tomou banho e foi no vento.
Agora, vamos ao testamento.
Hoje, a morte está difícil.
Tem recursos, tem asilos, tem remédios.
Agora, a morte tem limites.
E, em caso de necessidade,
a ciência da eternidade
inventou a crônica.
Hoje, sim, pessoal, a vida é crônica.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Feira do livro de Ijuí e Cidadania


Programete Papo cidadão 05/11/2012- Américo Piovesan


http://www.cidadaniaparatodos.com/publicacao-430-Programete_Papo_cidadao_05_11_2012-_Americo_Piovesan.fire

Espaço Literário - E. M. F. Tomé de Souza


Neste ano o Espaço Literário contou também com a presença do professor Américo Piovesan, escritor e patrono da Feira do Livro.


A Escola Municipal fundamental Tomé de Souza, realizou no dia 1؟ de novembro o 3º Espaço Literário que é um momento de encontro com a literatura, o qual tem como objetivo incentivar os alunos à leitura.
A culminância deste evento aconteceu através da apresentação e sistematização de algumas leituras realizadas durante o ano letivo com alunos de Pré a 8ª série.
Houve grande envolvimento tanto dos professores quanto dos alunos que enceram histórias, poesias e músicas.
Neste ano o Espaço Literário contou também com a presença do professor Américo Piovesan, escritor e patrono da Feira do Livro.
O escritor contou histórias e recitou poesias aos alunos do quinto a oitava série, em sua fala destacando sempre a importância da Leitura.
http://www.ijui.com/noticias/educacao/41772-escola-tome-de-souza-realiza-3o-espaco-literario

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Aniversário, dois dias reunindo amigos, churrasco, bebida, muitos planos com meu amor, debates sobre o que fazer para salvar a humanidade. ...