Meu caro poeta,
Por um lado foi bom que me tivesses pedido resposta urgente, senão eu jamais escreveria sobre o assunto desta, pois não possuo o dom discursivo e expositivo, vindo daí a dificuldade que sempre tive de escrever em prosa. A prosa não tem margens, nunca se sabe quando, como e onde parar. O poema, não; descreve uma parábola tracada pelo próprio impulso (ritmo); é que nem um grito. Todo poema é, para mim, uma interjeição ampliada; algo de instintivo, carregado de emoção. Com isso não quero dizer que o poema seja uma descarga emotiva, como o fariam os românticos. Deve, sim, trazer uma carga emocional, uma espécie de radioatividade, cuja duração só o tempo dirá. Por isso há versos de Camões que nos abalam tanto até hoje e há versos de hoje que os pósteros lerão com aquela cara com que lemos os de Filinto Elísio. Aliás, a posteridade é muito comprida: me dá sono. Escrever com o olho na posteridade é tão absurdo como escreveres para os súditos de Ramsés II, ou para o próprio Ramsés, se fores palaciano. Quanto a escrever para os contemporâneos, está muito bem, mas como é que vais saber quem são os teus contemporâneos? A única contemporaneidade que existe é a da contingência política e social, porque estamos mergulhados nela, mas isto compete melhor aos discursivos e expositivos, aos oradores e catedráticos. Que sobra então para a poesia? - perguntarás. E eu te respondo que sobras tu. Achas pouco? Não me refiro à tua pessoa, refiro-me ao teu eu, que transcende os teus limites pessoais, mergulhando no humano. O Profeta diz a todos: "eu vos trago a verdade", enquanto o poeta, mais humildemente, se limita a dizer a cada um: "eu te trago a minha verdade." E o poeta, quanto mais individual, mais universal, pois cada homem, qualquer que seja o condicionamento do meio e e da época, só vem a compreender e amar o que é essencialmente humano. Embora, eu que o diga, seja tão difícil ser assim autêntico. Às vezes assalta-me o terror de que todos os meus poemas sejam apócrifos!
Meu poeta, se estas linhas estão te aborrecendo é porque és poeta mesmo. Modéstia à parte, as disgressões sobre poesia sempre me causaram tédio e perplexidade. A culpa é tua, que me pediste conselho e me colocas na insustentável situação em que me vejo quando essas meninas dos colégios vêm (por inocência ou maldade dos professores) fazer pesquisas com perguntas assim: "O que é poesia? Por que se tornou poeta? Como escreve os seus poemas?" A poesia é dessas coisas que a gente faz mas não diz.
A poesia é um fato consumado, não se discute; perguntas-me, no entanto, que orientação de trabalho seguir e que poetas deves ler. Eu tinha vontade de ser um grande poeta para te dizer como é que eles fazem. Só te posso dizer o que eu faço. Não sei como vem um poema. Às vezes uma palavra, uma frase ouvida, uma repentina imagem que me ocorre em qualquer parte, nas ocasiões mais insólitas. A esta imagem respondem outras. Por vezes uma rima até ajuda, com o inesperado da sua associação. (Em vez de associações de idéias, associações de imagem; creio ter sido esta a verdadeira conquista da poesia moderna.) Não lhes oponho trancas nem barreiras. Vai tudo para o papel. Guardo o papel, até que um dia o releio, já esquecido de tudo (a falta de memória é uma bênção nestes casos). Vem logo o trabalho de corte, pois noto logo o que estava demais ou o que era falso. Coisas que pareciam tão bonitinhas, mas que eram puro enfeite, coisas que eram puro desenvolvimento lógico (um poema não é um teorema) tudo isso eu deito abaixo, até ficar o essencial, isto é, o poema. Um poema tanto mais belo é quanto mais parecido for com o cavalo. Por não ter nada de mais nem nada de menos é que o cavalo é o mais belo ser da Criação.
Como vês, para isso é preciso uma luta constante. A minha está durando a vida inteira. O desfecho é sempre incerto. Sinto-me capaz de fazer um poema tão bom ou tão ruinzinho como aos 17 anos. Há na Bíblia uma passagem que não sei que sentido lhe darão os teólogos; é quando Jacob entra em luta com um anjo e lhe diz: "Eu não te largarei até que me abençoes". Pois bem, haverá coisa melhor para indicar a luta do poeta com o poema? Não me perguntes, porém, a técninca dessa luta sagrada ou sacrílega. Cada poeta tem de descobrir, lutando, os seus próprios recursos. Só te digo que deves desconfiar dos truques da moda, que, quando muito, podem enganar o público e trazer-te uma efêmera popularidade.
Em todo caso, bem sabes que existe a métrica. Eu tive a vantagem de nascer numa época em que só se podia poetar dentro dos moldes clássicos. Era preciso ajustar as palavras naqueles moldes, obedecer àquelas rimas. Uma bela ginástica, meu poeta, que muitos de hoje acham ingenuamente desnecessária. Mas, da mesma forma que a gente primeiro aprendia nos cadernos de caligrafia para depois, com o tempo, adquirir uma letra própria, espelho grafológico da sua individualidade, eu na verdade te digo que só tem capacidade e moral para criar um ritmo livre quem for capaz de escrever um soneto clássico. Verás com o tempo que cada poema, aliás, impõe sua forma; uns, as canções, já vêm dançando, com as rimas de mãos dadas, outros, os dionisíacos (ou histriônicos, como queiras) até parecem aqualoucos. E um conselho, afinal: não cortes demais (um poema não é um esquema); eu próprio que tanto te recomendei a contenção, às vezes me distendo, me largo num poema que vai lá seguindo com os detritos, como um rio de enchente, e que me faz bem, porque o espreguiçamento é também uma ginástica. Desculpa se tudo isso é uma coisa óbvia; mas para muitos, que tu conheces, ainda não é; mostra-lhes, pois, estas linhas.
Agora, que poetas deves ler? Simplesmente os poetas de que gostares e eles assim te ajudarão a compreender-te, em vez de tu a eles. São os únicos que te convêm, pois cada um só gosta de quem se parece consigo. Já escrevi, e repito: o que chamam de influência poética é apenas confluência. Já li poetas de renome universal e, mais grave ainda, de renome nacional, e que no entanto me deixaram indiferente. De quem a culpa? De ninguém. É que não eram da minha família.
Enfim, meu poeta, trabalhe, trabalhe em seus versos e em você mesmo e apareça-me daqui a vinte anos. Combinado?
Do livro Caderno H
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quarta-feira, 29 de março de 2017
Carta - Mario Quintana
Conto de dezembro (final) - Paulo Mendes Campos
Desci a escada correndo e entrei na sala de visitas, onde deviam estar os presentes. Nada havia que me lembrasse o banditismo sobre os sapatos. Aí encontrei apenas um jacaré verde, com quatro rodas, que abria a bocarra vermelha quando puxado por um cordão; uma prata novinha de dois mil réis; um caderno com lapiseira; um par de meias de algodão; nozes, castanhas, uma caixinha de passas americanas, duas maçãs embrulhadas em papel de seda. Meti a prata no bolso, espalhei o resto com um chute e corri de novo a meu quarto para buscar o bodoque.
Na rua, já encontrei alguns dos meus companheiros uniformizados de bandidos. De puro pudor, não aceitei emprestado o revólver que o Zeca me ofereceu. Quando até o Duduca apareceu de chapéu de couro e cartucheira, meu despeito foi tanto que dei início ali mesmo aos trabalhos do dia: parti com uma bodocada as vidraças fronteiras da casa de Dona Donana. Nem eu mesmo esperava meu gesto e tivemos de correr para a copa da mangueira.
Assisti, como magoado e desdenhoso espectador, às provações a que se submeteram os componentes da quadrilha: apagar um fósforo com a mão, comer pimenta-malagueta, riscar o pulso com caco de vidro até correr sangue, levar picada de formiga, receber dois tapas na cara sem reclamar. Presenciei tudo roído de inveja.
Desceram da mangueira e saíram em expedição, eu os seguindo a certa distância, com o ar de quem não quer nada, embora não me impedissem de reunir-me ao bando, mesmo sem vestimenta de vaqueiro fora-da-lei. Bandido marginal, franco-atirador, ia eu tomando iniciativas próprias, fazendo o bando correr da repressão quando eles menos esperavam. Minhas pedras partiram vidraças, telhas, feriram galinhas, gatos, cachorros. Quando o Professor Fulgêncio passou na direção da igreja, vimos que levantou a bengala de longe, mal deu com a nossa turma. Esperei que chegasse bem perto, a uma proximidade jamais ousada antes, e proferi o grito fatal: Jaburu! Despencou-se em cima de nós, bigodes frementes, acertando uma bengalada nas pernas do Alfeu. Depois conseguiu agarrar Duduca, que, esperneando como um demônio, pretendia arrancar-lhe os bigodes. Voltamos ameaçadores, mas cautelosos, ordenando ao professor que largasse o menino. Como vociferasse que não o largaria coisa nenhuma, e tentasse dar uma palmada em Duduca, carimbei as pernas do velho com uma bodocada à queima-roupa. Com um grito de dor e ódio, Jaburu soltou o Duduca.
Damos a volta ao quarteirão, pulamos o muro e nos escondemos na chácara de seu Antenor, que nos odiava ainda mais que o professor Jaburu. Ainda há pouco tempo tinha pegado a turma toda no alto duma jabuticabeira, imobilizando-nos lá em cima com o cano da espingarda (tiro de sal ou de chumbo, a dúvida nos dividia). Quando descêramos a qualquer risco, ele tinha conseguido agarrar o Zeca, mantendo-o preso no porão escuro durante a tarde inteira. Juramos vingança, é claro.
Àquela hora da ardente manhã de dezembro, a chácara tinha a tranquilidade madura do paraíso reencontrado. Comemos de todos os frutos proibidos. Carlão tinha uma pontaria mágica. Quando uma fruta repontava alta demais, permitia que cada um de nós jogasse três pedras escolhidas, mão livre ou bodoque. Sentava-se no chão, songamonga, e esperava. Se a fruta continuasse no galho, erguia-se, magro, torto, recurvo, mocorongo, dava uma corridinha desengonçada, o braço traçava um semicírculo sem elegância, a pedra entrava em trajetória sem firmeza, como se fosse lançada por mão de menina: pois essa pedra chocha ia infalivelmente partir o cabinho, e a fruta descia até as mãos de Carlão; jamais deixou manga ou caju se esborrachar no chão.
Vagando pela chácara, encontramos com alegria, no galho mais baixo de uma pitangueira, o filho de seu Antenor. Nôzinho abriu para nós uns olhos arregalados. Lula o puxou pela perna até o chão e ele quis gritar, mas não pôde, porque a palma da mão de Portuga o amordaçou com violência. Quando a gente se achava em maioria não batia em ninguém: era a lei dos bandidos. Mas a lei não impedia que tirássemos a calça de Nôzinho e o arrastasse até o tanque dos patos, onde o lançamos espetacularmente depois de três galeios. Já estávamos transpondo o muro com uma agilidade de anjos quando ouvimos os tiros da espingarda de seu Antenor. Sal ou chumbo?
Na rua, depois de mexer com Bigodinho de Arame (só para ouvir em resposta os incomensuráveis palavrões do bêbado), resolvemos ir nadar na Lagoinha. Duduca e Alfeu foram obrigados a voltar, pois não sabiam pegar cavalo no pasto e galopar em pêlo.
Quando me aproximei de casa, pouco antes da hora do almoço, vi o portão cheio de gente. Fiz meia volta, dobrei a esquina, pulei o muro e subi na jaqueira do vizinho, onde se podia ver parte da reunião sem ser visto. Distingui seu Antenor, o Professor Jaburu, Dona Donana, as irmãs Viegas, a mãe de Duduca, o italiano Sapateiro, seu Afonso Alfaiate, e uma coorte de meninos curiosos. Agitando o guarda-chuva/guarda-sol na frente de todos, vovó dizia:
- Vocês não tem respeito pelo dia de Natal, gente?! Vocês não sabem, seus ignorantes, que o Menino Jesus roubou frutas, quebrou vidraças, fez o diabo?! E tem mais! Meu neto, fiquem vocês sabendo, é um anjo! Hoje é o dia dos inocentes e quem mandou degolar os inocentes foi Herodes! E chega, viu! Arre!
Dando as costas ao grupo estupefato, ela entrou em casa. Lá de cima, pela primeira vez, vi na cara amarrada de vovó um mal disfarçado sorriso.
(Do livro Cisne de feltro - crônicas autobiográficas. Civilização Brasileira)
terça-feira, 28 de março de 2017
Muito mais não querer
Não quero ter a pressa do
motoboy.
Não quero suportar a raiva ao
saber da traição.
Não quero a lucidez do doente
terminal na véspera da revelação.
Não quero estar no lugar da
pomba no instante do pulo do gato.
Não quero ser pombo nem gato.
Nem porco, ovelha ou galinha.
Respeito os bichos porque não
sou bicho.
Não quero ter a resignação do
trabalhador.
Não quero ter a certeza do
torcedor.
Não quero pensar na morte.
"Não é que eu tenha medo
de morrer.
Só não quero estar lá quando
isso acontecer" (Woody Allen)
(TIRADAS do Teco, o poeta
sonhador)
domingo, 26 de março de 2017
Conto de dezembro - Paulo Mendes Campos
Às cinco horas estávamos todos acomodados na mangueira do quintal do Fausto, menos Duduca, que, não podendo subir sozinho, ficou embaixo, esperando uma ideia. Duduca ainda não tinha seis anos, e estávamos exatamente resolvendo se ele poderia fazer parte do grupo. Decidimos não: ele era uma criança. Chorando e implorando, Duduca começou a prometer que seria um bom bandido. Duros, não voltamos atrás. Com uma velocidade que nos surpreendeu, começou a catar pedras no chão e a demonstrar que era um bandido sincero e de boa pontaria. Erguendo-se e abrindo um claro na ramagem, Lula ameaçou esborrachar-lhe na cabeça uma portentosa manga-rosa. Duduca, parando de atirar, sorriu mais lindo que o Menino Jesus. Voltamos a conversar, quando um grito dele nos anunciou, já a uma certa distância, que ia contar tudo para Dona Sofia, mãe de Fausto. A imensa manga-rosa pegou-lhe bem no meio das costas, provocando um gemido fundo e revoltado.
- Vem, sobe, seu porcariazinho.
Portuga estendeu-lhe um pé, pelo qual Duduca se elevou ao primeiro galho da árvore, daí grimpando célere para o mais alto da copa, empoleirando-se eufórico, como se nada tivesse acontecido, sobre um ramo que aguentaria pouco mais que o peso de um passarinho.
Se nossas intenções eram confusas, nosso plano era claro. Naquele ano pediríamos todos coisas iguais a Papai Noel: revólveres, cartucheiras, chapéus de couro, esporas, botas, camisas xadrez. Íamos formar a nossa quadrilha. Papai Noel é o pai da gente, seus bobos, resmungou Duduca lá em cima, com desprezo. Foi um alívio. Se ele acreditasse em Papai Noel, tudo poderia sair errado. Se os nossos pais soubessem que o bando todo estava pedindo equipamento de guerra, não duvidariam de que alguma coisa grave iria acontecer no quarteirão.
Descemos da mangueira quando já era escuro e, entre o tinir de panelas de alumínio, as primeiras vozes maternas chamavam os filhos para jantar. Essas vozes chamavam assim todas as noites, uma, duas, três, dez, vinte vezes, e nunca as mães sabiam onde estávamos, mas sempre as ouvíamos, mesmo a distâncias incríveis, como se ondas nos ligassem a todos os pontos do bairro na noite embalsamada. Éramos oito pestes sadias: Lula, Zeca, Fausto, Alfeu, Portuga, Carlão, eu e Duduca. Naquela noite oito cartas foram elaboradas, passadas a limpo e enviadas ao céu.
Na véspera de natal, pouco antes da ceia, vovó chegou da fazenda. Chegou como sempre chegava, sem avisar, como um pé-de-vento. Vovó me fascinava, mas eu tinha vergonha de enquadrá-la como minha avó, pois não se parecia nada com qualquer outra das avós que conhecia, pessoalmente, de vista ou de ouvir contar. Nunca me trouxe balas, nem me deu dinheiro, nem passou a mão pela minha cabeça. Era magra e de preto como o guarda-chuva/guarda-sol que transportava como se fosse um porrete.
As avós dos outros falavam manso e pouco; a minha falava alto, em torrente. As avós dos outros não diziam palavrões; a minha, se fosse preciso, chamava as coisas pelos nomes mais feios. Mamãe me disse que vovó não tinha papas na língua. Sem saber o que era isso e sem coragem de perguntar, achei que vovó sofria de um defeito grave, o mesmo defeito de que eu e meus companheiros sofríamos: nós não tínhamos papas na língua, possivelmente uns freiozinhos que prendem a língua das pessoas que vão dizer um palavrão. Além disso, as avós dos outros não brigavam na rua; a minha brigava. E, principalmente, as avós dos outros não davam tiros; a minha dava. Nunca vi, mas tinha ouvido as histórias em que vovó manejava garruchas, espingardas e o famoso guarda-chuva. Diziam que era muito politiqueira e não levava desaforo pra casa. Diziam ainda que dava meia boiada para entrar na briga e a outra metade para não sair dela. Até num vigário ela descera o famoso guarda-sol. No final de tudo, sobrecarregando minha confusão, costumava dizer, com um sorriso inteligente, que vovó era uma santa, que mulher boa no fundo estava ali, que criatura mais honrada e justiceira estava para nascer. Quando, para meu espanto, ela partia para a missa todas as manhãs, eu tinha a impressão, pela cara amarrada e pela pressa do passo, que ia à igreja brigar com Deus. Ou pelo menos com o representante de Deus.
A presença de vovó significava que naquele Natal ninguém falaria nada: ela falaria tudo. E foi isso mesmo, ela falou sem parar, de pastos, partos, ladroagens, bandalheiras, rixas, prefeitos ordinários, vereadores lambões, mulheres sem vergonha na cara, homens que não aguentavam uma gata pelo rabo. Às vezes, tomando fôlego, fazia uma pergunta qualquer a meu pai ou a um dos meus tios, mas, antes de receber a resposta, com o retorno da respiração, prosseguia na descompostura universal. Eu já morria de fome e desespero, quando, esgotada, vovó ordenou que servissem a ceia e nos mandou rezar em voz alta nove ave-marias. Exagerada em tudo. Dormi no tapete pouco depois de comer, mas amanheci em minha cama.
(Do livro Cisne de feltro - crônicas autobiográficas. Ed. Civilização Brasileira)
sábado, 25 de março de 2017
Uma catraca em meu caminho
Houve um tempo em que
atropelava, como se fosse ambulância no trânsito.
Driblava ordens, espantava de
letra caras feias.
As barreiras eram leves, nada
de pedras no caminho, como no poema de Drummond.
Naquele tempo competições eram
brinquedos, a vida não deprimia se não passasse de ano.
Lembro. Sim.
O dia era mais claro, o frio
mais frio, o quente mais quente. Sabores deixavam uma saudade de lamber os
dedos.
O milagre, como tudo que se
comia e bebia, era mais natural.
Houve um tempo em que a terra
era fixa, o sol era um amigo obediente que não perdia a hora, e pouco se falava
de câncer e tal...
Um tempo em que pedia com
inocência, sem pagar dízimo e culpas, e, se não recebia, a vida continuava, sem
magoar a esta pessoa nem a Deus.
Hoje sinto-me gordo de
informações e verdadezinhas.
Ando com a paciência intoxicada pelo olhar e opinião
dos outros.
Se não forçar o olho, não
passarei de mais uma catraca, mente e corpo controlados.
Ilustrações do site http://rebloggy.com/post/amor-desenho-arte-carinho-liberdade-tracando-catraca-amor-livre/88045577805
(Tiradas do Teco, o poeta sonhador)
sexta-feira, 24 de março de 2017
FRIO - João Antônio
O menino tinha só dez anos.
Quase meia hora andando. No começo pensou num bonde. Mas lembrou-se do embrulhinho branco e benfeito que trazia, afastou a ideia como se estivesse fazendo uma coisa errada. (Nos bondes, àquela hora da noite, poderiam roubá-lo, sem que percebesse; e depois?… Que é que diria a Paraná?) Andando. Paraná mandara-lhe não ficar observando as vitrinas, os prédios, as coisas. Como fazia nos dias comuns. Ia firme e esforçando-se para não pensar em nada, nem olhar muito para nada.
— Olho vivo — como dizia Paraná.
Devagar, muita atenção nos autos, na travessia das ruas. Ele ia pelas beiradas. Quando em quando, assomava um guarda nas esquinas. O seu coraçãozinho se apertava. Na estação da Sorocabana perguntou as horas a uma mulher. Sempre ficam mulheres vagabundeando por ali, à noite. Pelo jardim, pelos escuros da Alameda Cleveland. Ela lhe deu, ele seguiu. Ignorava a exatidão de seus cálculos, mas provavelmente faltava mais ou menos uma hora para chegar. Os bondes passavam.
***
Paraná havia chegado com afobação. Nem tirou o chapéu, nem nada. O menino dormia. Chegou-se: — Nêgo… nêgo!
O menino não queria. Paraná puxou a manta. — Paraná! Que foi? — acordou chateado.
O homem suado na testa. Barbado. Só explicou que precisava dele. Levar um embrulho às Perdizes. Muito importante. O menino se arrumou fora do colchão furado, meteu o tênis.
— Embrulho? Pra quem?
Paraná fez uma coisa que nunca fizera e que ele não entendeu bem. Fê-lo ficar de pé, pousou-lhe as mãos nos ombrinhos. Sentado na beira da cama. Disse bem devagar.
Ele tinha que ir às Perdizes, encontrar-se lá com Paraná. E não podia perder o embrulhinho. Perguntou-lhe se conhecia uma avenida grande que desce a igreja das Perdizes. Sim. Ele deveria descê-la, três quarteirões. Sim. Tomar cuidado com os guardas. Sim. Lá encontraria um ferro-velho. Sim. Pularia o muro.
— Lembra? Aquela viração do Diogo? Pois. Mudou de dono.
Pulasse o muro e esperasse Paraná aparecer. Havia cama, escondida no barracãozinho de zinco. Se não viesse, ele que dormisse. E acordasse cedo para os donos do ferro-velho não perceberem que a gente dormira lá. Se Paraná não aparecesse deveria ir para o Largo da Barra Funda, lá na casa de Nora. Logo pela manhã.
— O embrulho é sagrado, tá ouvindo?
Paraná apalpou-o, examinou-lhe a roupinha imunda de graxa de sapato. Tirou-lhe o tênis, cortou dois pedaços de jornal e enfiou-os dentro. Embrulhou uma manta verde. Meteu a mão no bolso, deu-lhe duas de dez. Os olhos brilharam:
— Se vira com elas. Olha, se eu não baixar lá…
— Ué, por quê? — o menino interrompeu.
— Nada. O embrulho é nosso, se guenta. Se manca.
Que o abrisse, mas escondesse. Nem Nora poderia mexer. E que se virasse lá na Pompeia, engraxando. O menino teve um estremecimento. Será que os guardas iriam agarrar Paraná? Ouvira contar que a cana é lugar ruim, escuro, onde se apanha muito. Contudo, Paraná era muito vivo, saía-se bem de qualquer galho. Sossegou. Depois, resolveu perguntar se ele apareceria mesmo.
Paraná fez não ouvir. Falou do muro do ferro-velho. Era alto e difícil. Tomasse cuidado. Abriu a porta imunda:
— Se arranca. Se vira de acordo, tá? Olho vivo no embrulho.
E depois, lembrando-se:
— Mora, tá frio.
Passou-lhe o embrulho da manta. O menino sentiu as notas no bolso do casacão. Coçou o pixaim:
— Puxa, como é de noite. Tchau.
Paraná respondeu com a mão no ar. O menino meteu o embrulhinho branco entre o suspensório e a camisa. Só ficou o embrulho da manta na mão.
Andou.
***
Pequeno, feio, preto, magrelo. Mas Paraná havia-lhe mostrado todas as virações de um moleque. Por isso ele o adorava. Pena que não saísse da sinuca e da casa daquela Nora, lá na Barra Funda. Tirante o quê, Paraná era branco, ensinara-lhe engraxar, tomar conta de carro, lavar carro, se virar vendendo canudo e coisas dentro da cesta de taquara. E até ver horas. O que ele não entendia eram aqueles relógios que ficam nas estações e nas igrejas — têm números diferentes, atrapalhados. Como os outros, homens e mulheres, podem ver as horas naquelas porcarias?
Paraná era cobra lá no fim da Rua João Teodoro, no porão onde os dois moravam. Dono da briga. Quando ganhava muito dinheiro se embriagava. Não era bebedeira chata, não. Como a do seu Rubião ou a do Aníbal alfaiate.
— Nêgo, hoje você não engraxa.
Compravam pizza e ficavam os dois. Paraná bebia muita cerveja e falava, falava. No quarto. Falava. O menino se ajeitava no caixãozinho de sabão e gostava de ouvir. Coisas saíam da boca do homem: perdi tanto, ganhei, eu saí de casa moleque, briguei, perdi tanto, meu pai era assim, eu tinha um irmão, bote fé, hoje na sinuca eu sou um cobra. Horas, horas. O menino ouvia, depois tirava a roupa de Paraná. Cada um na sua cama. Luz acesa. Um falava, outro ouvia. Já tarde, com muita cerveja na cabeça, é que Paraná se alterava:
— Se algum te põe a mão… se abre! Qu’eu ajusto ele.
Paraná às vezes mostrava mesmo a tipos bestas o que era a vida.
O menino sabia que Paraná topava o jeito dele. E nunca lhe havia tirado dinheiro.
Só por último é que ele passava os dias fora, girando. Era aquela tal Nora e era a sinuca. A sinuca, então… Paraná entrava pelas noites, varava madrugada, em volta da mesa. Voltava quebrado, voltava que voltava verde, se estirava na cama, dormia quase um dia, e não queria que o menino o acordasse.
Só por último é que andava com fulanos bem vestidos, pastas bonitas debaixo do braço. Mãos finas, anéis, sapatos brilhando. Provavelmente seriam sujeitos importantes, cobras de outros cantos. O menino nunca se metera a perguntar quem fossem, porque davam-lhe grojas1 muito grandes, à toa, à toa. Era só levar um recado, buscar um maço de cigarros… Os homens escorregavam uma de cinco, uma de dez. Uma sopa. Ademais, Paraná não gostava de curioso. Mas eram diferentes de Paraná, e o menino não os topava muito...
Frio, por João Antonio.
Projeto hipermidiático sobre conto "Frio" de João Antonio.
Participou de eventos e recebeu prêmios em diversas categorias de design digital.
https://www.behance.net/gallery/4517059/Frio-por-Joao-Antonio
quinta-feira, 23 de março de 2017
Os músicos - Rubem Fonseca
Faz calor. Os grandes espelhos da parede vieram da Europa no fundo do porão; cristal puro. “Tua avó fez risinhos e boquinhas, namorou dentro desse espelho”. Respondo: “minha avó nunca viu esse espelho, ela veio noutro porão”. Nesse instante chegam os músicos, três: piano, violino, bateria; o mais moço, o pianista tem quarenta anos, mas é também o mais triste, um rosto de quem vai perder as últimas esperanças, ainda tem um restinho mas sabe que vai perdê-las num dia de calor tocando os Contos dos Bosques de Viena, enquanto lá embaixo as pessoas comem bebem suam sem ao menos por um instante levantar os olhos para o balcão onde ele trabalha com os outros dois: Stein, no violino – cinquenta e seis anos, meio século atrás: espancado com uma vara fina, trancado no banheiro, privado de comida “nem que eu morra você vai ser um grande concertista” e quando Sara, sua mãe, morreu, ele tocou Strauss no restaurante com o coração cheio de alegria – Elpídio na bateria, cinquenta anos, mulato, coloca um lenço no pescoço para proteger o colarinho, o gerente não gosta, mas ele não pode mudar de camisa todos os dias, tem oito filhos, se fosse rico - “fazia filho na mulher dos outros, mas sou pobre e faço na minha mesmo” - e todos começam, não exatamente ao mesmo tempo, a tocar a valsa da Viúva Alegre. Na mesa ao lado está o sujeito que é casado com a Miss Brasil. Todas as mesas estão ocupadas. Os garçons passam apressados carregando pratos e travessas. No ar, um grande burburinho.
Rubem Fonseca
Lúcia McCartney, 1967
quarta-feira, 22 de março de 2017
Notas de um Cadelão
Enquanto para alguns é
terrível, para outros é incrível tornar-se coroa. É que muitos ficamos babando
quando somos atendidos com simpatia pela Caixa do banco. Flutuamos radiantes,
pois nos disseram "meu amor" e "querido". Ah, e o grand finale...
para compensar a conta estourada, ganhamos de brinde uma piscadinha!
(Diário de B. B. Palermo)
terça-feira, 14 de março de 2017
segunda-feira, 13 de março de 2017
Notas de um Cadelão
Perto de onde moro abriu uma
loja de roupas de moda íntima. À noite sua vitrine luminosa chama a atenção dos
que por ali passam. À tardinha, dezenas de garotas diminuem o passo para
contemplar e desejar sutiãs e calcinhas. Do outro lado do espelho há um
mundo que desperta o imaginário. Do bar mais próximo observo e me convenço de
que isso revela muito de nossa cultura. Li esses dias que a ciência médica
investe cinco vezes mais em pesquisas de terapias de embelezamento e de
deficiências eréteis do que em prevenção da doença de Alzheimer. Não importa
com que cabeça chegaremos à velhice. O mais importante é o desempenho do
corpo aqui e agora. Para a ciência médica a serviço do lucro, o que vale é os velhinhos terem muita disposição e uma puta ereção. Não faz mal se no
dia seguinte não lembrarem com quem transaram.
(Diário de B. B. Palermo)
sábado, 11 de março de 2017
Somos amadores e carentes... de poesia
Meu poema não reivindica
amores frustrados. Não humaniza estrelas e endeusa a lua cheia. O poema se
engraçou com o novo bar repleto de chinelões mal-encarados, putas e carinhas
drogados que se apavoram com o passado e se embebedam para suportar o amanhã.
O amor magoado proíbe que o
poema sangre que a metáfora lateje e a febre goze. É uma temporada de tempo
abafado, raiva a zero grau.
Mágoas de amor se engraçam no
escândalo e submissão, no homicídio e suicídio raivosos. Só depois se tornam
poemas.
Fazer poesia para se
purificar de amores mal-amados é roubar o emprego do analista.
Mas Cadelão - diz uma Ninfa
enluarada e esperta - o mundo está carente de poetas. Não critiques os
enamorados, os que despertaram e vivem de paixões, e também os que gangrenam
suas dores insuportáveis, não deboches por se dedicarem à poesia. Afinal, são
tão poucos os sensíveis neste mundo frio e cruel.
Sim, garota esperta, você tem
razão. Mario Quintana também o disse:
"Eu acho que todos
deveriam fazer versos. Ainda que saiam maus, não tem importância. É preferível,
para a alma humana, fazer maus versos do que fazer nenhum. O exercício da arte
poética representaria, no caso, como que um esforço de auto-superação. É fato
consabido que esse refinamento de estilo acaba trazendo necessariamente o
refinamento da alma. Sim, todos devem fazer versos. Contanto que não venham
mostrar-me" (Caderno H).
(Diário de B. B. Palermo)
sexta-feira, 10 de março de 2017
segunda-feira, 6 de março de 2017
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017
NOTAS DE UM CADELÃO
Estava no centro da cidade e cruzei por duas garotas cujas
camisetas estampavam o nome CÉLINE. Será que elas leram o grande livro dele,
"Viagem ao fim da noite"? Ou pelo menos ouviram falar desse grande
escritor, a época que viveu, sua escolhas na política (apoiou o anti-semitismo),
a desgraça de ter caído no esquecimento na última parte de sua vida... Talvez
as peculiaridades, e também a visão de mundo, desses gênios signifique nada
para grande parte das gerações atuais. Será que teriam razão em bradar que não
têm nada a ver com histórias, artes e ideias de gerações passadas? Ah, esqueci
de dizer: as estampas das camisetas eram bem bonitas!
OBS.: acabei de consultar o Google e percebi meu erro: as
estampas não têm nada a ver com o escritor Louis-Férdinand Céline, mas sim com
outra marca. Foi mal.
Já que estamos nessa, vou trazer aqui algumas frases... do
escritor:
“Quando não se tem imaginação, morrer é pouca coisa, quando
se tem, morrer é demasiado.”
“A maior parte das pessoas morre apenas no último momento;
outras começam a morrer e a ocupar-se da morte vinte anos antes, e às vezes até
mais. São os infelizes da terra.”
“Confiar nos homens é já deixar-se matar um pouco.”
(Diário de B. B. Palermo)
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017
Menos chocolate, Baby
Sim, estou preocupado com as queixas das garotas a respeito
desses caras insensíveis que só querem ficar, presos ao seu orgasmo e prazer
animal, fugindo de compromissos mais sérios. Também me sinto de coração
partido, Baby, apesar de admitir que o meu coração, como o desses caras, é
de galináceo. Mas não escrevo textos românticos para agradar, e até
enganar, numa linguagem açucarada. Minha ilha não tem apenas paisagens deslumbrantes.
Se a primeira imagem é de praia paradisíaca, no subsolo alastra-se o esgoto, que
destroça corações e mentes.
Sim, se escrevesse bem poderia ser lido por multidões, publicando
auto-ajuda. Mas não seria sincero, estaria em contradição com o que passa no íntimo.
Seria hipócrita se espalhasse aos quatro ventos (como o faz
a multidão, nas redes sociais, por exemplo) o que é certo e errado, e endeusasse o
"certo", quando no meu eu mais profundo agitam-se desejos e fantasias
impublicáveis de tramas e traições, de banquetes e surubas.
Sou contraditório. Mas quem não é? Na primeira parte do dia,
nas manhãs tranquilas, desejo abraçar todo mundo. Mas, compreendam-me, é impossível
passar o dia todo em serena voltagem. E isso, vejam bem, que me afastei das páginas policiais e políticas dos jornais, sites, rádio e TV.
Hora de buscar um pouco de glicose.
Chocolate.
Hora de buscar um pouco de glicose.
Chocolate.
Compreendam-me, não consigo suportar muitas horas do dia
cantando em silêncio ou a plenos pulmões as mais românticas canções. Agitam-se pensamentos
obscuros, energizados pela ira e a inveja.
Não, Baby. Nossa mente racional é apenas uma fatia do bolo.
Depois de uma bebida, pílulas e outras drogas, teu verbo arromba as grades, como
se fossem gaiolas de alumínio. E então, naturalmente, transformo-me num
cafetão irado e você numa bela ninfeta super star do happy hour.
(Diário de B. B. Palermo)
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017
Eichmann em Jerusalém - Hannah Arendt
LEITURA DA SEMANA
SINOPSE
Sequestrado num subúrbio de Buenos Aires por um comando israelense, Adolf Eichmann é levado para Jerusalém, para o que deveria ser o maior julgamento de um carrasco nazista depois do tribunal de Nuremberg. Mas o curso do processo produz um efeito discrepante - no lugar do monstro impenitente por que todos esperavam, vê-se um funcionário mediano, um arrivista medíocre, incapaz de refletir sobre seus atos ou de fugir aos clichês burocráticos.É justamente aí que o olhar lúcido de Hannah Arendt descobre o 'coração das trevas', a ameaça maior às sociedades democráticas - a confluência de capacidade destrutiva e burocratização da vida pública, expressa no famoso conceito de 'banalidade do mal'. Numa mescla de jornalismo político e reflexão filosófica, Arendt toca em todos os temas que vêm à baila sempre que um novo morticínio vem abalar os lugares-comuns da política e da diplomacia.
RESENHA
A máquina burocrática do mal
A filósofa Hannah Arendt pôde acompanhar o julgamento de um dos mais famosos nazistas em Israel e analisa nessa obra o que viu e ouviu. Ela começa fazendo uma pequena biografia de Eichmann, e o descreve como um aluno medíocre em seus tempos de escola e que não conseguiu terminar os seus estudos, e estava destinado em um emprego sem perspectivas de futuro. Por causa disso, quando Eichmann teve a oportunidade de entrar para uma unidade da SS ficou muito feliz. Primeiramente foi designado para reunir informações a respeito da maçonaria, mas o trabalho não foi adiante. Foi então mandado para a parte que cuidava dos assuntos judaicos. Passou então a estudar o sionismo e a manter contato com autoridades judaicas sionistas. Eichmann passou a admirar os sionistas porque os considerava idealistas, ao contrário dos assimilacionistas e dos judeus ortodoxos, a quem desprezava. Passou a trabalhar então no centro de emigração dos judeus austríacos, onde sentiu-se bem.
Foram pensadas algumas alternativas para a questão judaica, como a expulsão, a concentração e,por fim, a solução final: assassinato. Eichmann nesse período assistiu à morte de alguns judeus na câmara de gás e por fuzilamento, mas nunca abandonou o seu posto. Arendt nota que o exército nazista nunca ameaçou de morte alguém que tivesse se recusado a participar de tais eventos, por causa disso Eichmann não tinha como se desculpar. O programa de extermínio dos judeus havia sido inspirado pelo projeto de eutanásia de 1939, no qual cerca de 50 mil doentes mentais e outros inválidos haviam sido executados na câmara de gás. Na época, esse programa havia sido denunciado pelo arcebispo Von Galen. O programa foi então extinto, mas Von Galen infelizmente iria apoiar a invasão da Rússia pelos exércitos alemães, e isso iria custar a vida de 20 milhões de soviéticos.
Arendt escreve então sobre o pastor Heinrich Grüber, que foi convocado pelo tribunal e parecia ser uma grande testemunha para descrever a personalidade de Eichmann. O resultado foi decepcionante. A descrição do pastor Grüber sobre Eichmann foi errônea e, mais, quando confrontado pelo tribunal se havia alertado o réu que suas atitudes( do réu) eram criminosas, disse que nunca o fez porque considerava os atos como mais significativos do que as palavras. O próprio Eichmann negou que alguém em qualquer oportunidade tivesse dito para ele que o que ele fazia estava errado. Algumas páginas adiante Eichmann disse que agia de acordo com a noção Kantiana de dever. Ou seja, aja como se sua vontade possa se tornar a lei universal. Arendt defende Kant, e o fato foi que Eichmann distorceu o argumento e considerou sempre que a vontade do Führer deveria ser a lei universal.
A história sobre o comportamento das diversas nações europeias e suas reações à ordem nazista de extraditar os judeus para os campos de extermínio revela a grandeza de duas nações, segundo Arendt: a Dinamarca e a Itália. Nesses países a maioria da população judaica conseguiu sobreviver e seus governos opuseram-se às ordens de Berlim.
***
A tragédia que se abateu sobre os judeus, e o fato de que pela primeira vez desde o tempo dos romanos os judeus poderem julgar eles próprios crimes contra seu povo, e a visão de que aquele julgamento serviria como base para que crimes como esse nunca mais acontecessem, tudo isso esteve presente no julgamento de Eichmann. Arendt percebeu que ele seria condenado à morte desde o princípio. A grande tarefa do tribunal era como mostrar ao réu suas responsabilidades e não permitir que ele se defendesse alegando ser apenas uma peça em uma complicada máquina burocrática, além de ser um cidadão que respeitava as hierarquias e ordens de seu governo. No fim, o mais importante é como definir responsabilidades individuais em crimes cometidos pelo Estado. Foi isso que esteve em julgamento em Jerusalém.
https://felipepimenta.com/2013/03/10/resenha-de-eichmann-em-jerusalem-de-hannah-arendt/
quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017
Pedaços de um caderno manchado de vinho - Charles Bukowski
LEITURA DA SEMANA - Passagens do livro
“Bêbado outra vez num quarto do tamanho de um pacote de biscoitos, sonhando com Shelley e juventude, barbudo, um filho da puta desempregado com uma carteira cheia de bilhetes premiados tão impossíveis de reembolsar quanto os ossos de Shakespeare. Todos odiamos poemas de comiseração e lamúrias de um pobre sofredor – um bom homem pode vencer qualquer parada e saudar a prosperidade (assim nos disseram), mas quantos homens de valor você consegue apanhar num jarro hermeticamente fechado? E quantos poetas de qualidade você consegue encontrar na IBM ou roncando sob os lençóis de uma prostituta de cinqüenta dólares? Mais homens de valor morreram pela poesia do que todos os seus campos de batalha de merda; então se eu cair de bêbado num quarto de quatro dólares: você já ferrou com sua história – deixe que eu me vire com a minha”.
“E tendo observado meu pai, aquele monstro brutal que abastardou minha experiência sobre esta triste terra, percebi que um homem podia trabalhar a vida inteira e ainda assim continuar pobre; seus vencimentos se consumiam na compra de coisas que ele precisava, pequenas coisas, como automóveis e camas e rádios e comida e roupas, pelas quais, como as mulheres, pediam mais do que valiam e o mantinham pobre, e até mesmo seu caixão foi um ultraje final à decência: toda aquela bela e lustrosa madeira para os cegos vermes do inferno”.
“Estamos cercados pelos mortos que ocupam posições de poder porque, de maneira a obter esse poder, é necessário que morram. Os mortos são fáceis de encontrar – estão por toda a parte a nossa volta; a dificuldade está em achar os que estão vivos”.
“E tendo observado meu pai, aquele monstro brutal que abastardou minha experiência sobre esta triste terra, percebi que um homem podia trabalhar a vida inteira e ainda assim continuar pobre; seus vencimentos se consumiam na compra de coisas que ele precisava, pequenas coisas, como automóveis e camas e rádios e comida e roupas, pelas quais, como as mulheres, pediam mais do que valiam e o mantinham pobre, e até mesmo seu caixão foi um ultraje final à decência: toda aquela bela e lustrosa madeira para os cegos vermes do inferno”.
“Estamos cercados pelos mortos que ocupam posições de poder porque, de maneira a obter esse poder, é necessário que morram. Os mortos são fáceis de encontrar – estão por toda a parte a nossa volta; a dificuldade está em achar os que estão vivos”.
"seu amor é Cuba com uma barba,
uma multidão de dez centavos respirando rum;
seu amor é beisebol de gravata-borboleta
tocando bandolim para Bhahms;
seu amor são gatos agitados em minha mente;
seu amor é um bêbado de gim
e loucos santarrões vendendo panfletos na East First;
seu amor é um traje sob medida numa cela solitária;
seu amor é o naufrágio dos navios,
o torpedo da dúvida;
seu amor é vinho e pintura
e a pintura de Picasso;
seu amor é um urso hibernando no porão de Moulin Rouge;
seu amor é uma torre em ruínas,
destruída pelo raio de Eiffel;
seu amor percorre as colinas
e escala as montanhas
e dispara russos para a lua.
por que
você se
afasta?"
terça-feira, 7 de fevereiro de 2017
Vinte e quatro horas
Passa da meia noite
e você continua com sede
então olha para o céu
mistura lua e estrelas.
Solitário
vê o firmamento
e não desconfia
que é privilegiado.
Saída de escape
da morte
disposta a salvar-te
por punhados de reais
a loja de bebidas funciona
das vinte e quatro às vinte e quatro.
Antes que decida
entre cerveja e vinho
no caminho
o cão acorrentado
esbraveja num beco
joga-se na grade.
Quer libertar-te.
Carros rebaixados
vidros escuros
pancadas de funk.
O rostinho da lua minguante
despede-se na reta final
do horizonte.
À tarde você passou pela mesma rua e viu, lado a lado, uma
igreja e um bailão da terceira idade, bombando. Numa casa humilde um casal de
velhinhos. Olhar fendido no horizonte a senhora, picada pelo AVC, move com
fragilidade uma bola de basquetebol. O que lhe resta nessa altura da vida é a
fisioterapia. Você viu o sujeito bombado músculos braços peitos salientes pernas finas fazendo força para equilibrar vaidades e desejos numa face
preocupada e triste.
Meia noite e a rua está deserta.
Descansemos, irmãos.
Amanhã haverá muito trabalho
e nenhum tempo pra sentir.
(Diário de B. B. Palermo)
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017
Doutor, quem matou o Donga?
Fui aos botecos da periferia respirar uma vida mais pulsante. Algo me dizia que a inspiração se refugiou nesses lugares. Meus sentidos eram antenas que captavam todo e qualquer movimento. Doutor, busquei coragem para ouvir de um homem qualquer uma história que sacudisse a vida. Ao entardecer pousei no Tocha Branca. Alguns pretos amarelos brancos e de outras cores bebiam e jogavam o tempo com suas solitárias companhias. Havia um preto enrolando seu cigarro de palha e notei que era simpático e bom de papo, com seus gestos largos que buscavam o horizonte. Paguei-lhe uma cachaça como aproximação e convite para que me contasse algo interessante em sua vida. De preferência algo épico. O filho da mãe não me disse o nome, apenas que era conhecido por Justileia. E não titubeou, Doutor. Falou isso e aquilo, trabalhou com muitos patrões em diversas fazendas, era bem querido nos vilarejos por onde passou.
Pedi para que narrasse o acontecimento mais marcante de sua
história. Ele então relatou o seu ato mais heroico: matou, com dezenove golpes
de faca, um dos bandidos mais temidos da cidade. Não descreverei os detalhes,
Doutor. Disse que o Donga parecia ter o corpo fechado, isso mesmo, não morria
mesmo depois de retalhado por tantas estocadas. Diante da resistência do
bandido em não partir dessa, meu herói do Tocha Branca decidiu por um golpe mais
incisivo: degolou-o.
Doutor, se por um lado Justileia permitiu que a cidade
repousasse mais sossegada, por outro lado, após cometer o crime, seu sofrimento
triplicou. Teve que sumir por uns tempos. Fugir dos parentes do Donga, que o
juraram de morte, e também da polícia, para não ser preso. Tinha dois filhos,
um casal de crianças de três e cinco anos. Elas foram adotadas e com o passar
dos anos e perambulando de um lugar para o outro ele perdeu o contato.
Solitário, hoje ele afoga a saudade com martelos e martelos de cachaça.
Sim, Doutor, o Senhor tem razão. O fato de sair pelas ruas e
becos em busca de histórias e personagens, e anotá-las bem ou mal num possível
livro, isso tem a ver com o desejo de permanecer (de ser lembrado), depois que
eu me for.
Mas tem outra coisa que preciso contar pro Senhor. Durante
uma semana, em diferentes dias, percorri vários botecos em busca de relatos
épicos. Caramba, ouvi outros bêbados, amarelos pretos brancos e de outras
cores, e não é que pelo menos uns cinco disseram que esfaquearam e degolaram o
Donga, e todos com dezenove facadas? Pobrezinho. E que bom. Na cidade o que não
faltam são heróis. Pelas minhas contas, o animalzinho foi abatido por quase
duzentas facadas.
Parece que a vida se resume nisso, Doutor: avançar de golpe
em golpe, inventando ou improvisando (de acordo com a plateia) nossos atos
grandiosos, talvez convencendo menos aos outros que nos ouvem e mais a nós
mesmos, de que em nossas vidas realizamos belas epopeias. Hem, Doutor, quantas
vezes potencializamos (ou reinventamos?) nosso passado, nossos feitos, como
algo grandioso, mesmo que as outras pessoas deem a mínima pra isso?
(Diário de B. B. Palermo)
terça-feira, 31 de janeiro de 2017
Pergunte ao grilo
Você que cultiva e compartilha crenças no trabalho escola ou
igreja. Que todo mês faz as contas como num ritual que serve de portal para acessar o Hades. Que sai de fininho se a expectativa no amor foi frustrada. Você
que sabe de cor, após o repouso dopado, como deve ser a política e a economia. Permita-me arriscar: você pouco sabe dos mistérios e da beleza da vida. É que
você esqueceu de perguntar ao grilo, que apenas cricri. A noite os sonhos os pesadelos,
o grilo não tem teorias verdadeiras, não diz se é do bem ou do mal, não diz quem
é homofóbico ou racista, machista ou não. O grilo apenas apenas cricri. Você que
reclama de boca cheia e cospe na cara dos outros, você que se transforma em
bandido ou mocinho na intensidade do porre. Você precisa aprender com o grilo, que
nada professa, que não reivindica aos quatro ventos sua liberdade de expressão. O grilo apenas apenas cricri.
(Diário de B. B. Palermo)
terça-feira, 10 de janeiro de 2017
Hilda Hilst - O místico e o filosófico de ser escritora e se inconformar com a morte
Hilda Hilst é uma figura de extremos que ultimamente tem se tornado cada vez mais famosa. Um de seus maiores desejos em vida era justamente “ser lida”, algo que ela teve a certeza de que iria acontecer pouco antes de sua morte, quando uma grande editora, a Globo Livros, se comprometeu em editar sua obra completa a partir de 2001. Hilda morreu em 2004, morando em Campinas, o seu refúgio da vida badalada que teve em São Paulo na juventude.
Além da obra completa de Hilda Hilst que engloba textos em prosa, poesia e teatrais, a Editora Globo também publicou o livro “Fico besta quando me entendem” que compila diversas entrevistas concedidas por Hilda Hilst durante sua vida. Assim como em seus livros, os temas existenciais, místicos e filosóficos são constantes e se misturam com o cotidiano, a política e o ser escritora.
“As pessoas perguntam sempre por que a gente escreve e eu fico pensado em todos os motivos que levam de repente uma pessoa a escrever e penso que a raiz disso em mim está na vontade de ser amada, numa avidez pela vida. Quem sabe também se não é uma necessidade de viver o transitório com intensidade, uma força oculta que nos impele a descobrir o segredo das coisas. Uma necessidade imperiosa de ir ao âmago de nós mesmos, um estado passional diante da existência, uma compaixão pelos seres humanos, pelos animais, pelas plantas.”
Quase premonitória, Hilda Hilst também fala de como a necessidade de se rebelar contra a morte também acompanha o ofício de escritora.
“A verdade é que, diante da morte, a gente nunca está realmente conformada. É por isso que penso que o que me leva a escrever é uma vontade de ultrapassar-me, ir além da mesquinha condição de finitude.”
Os motivos psicológicos e existenciais para se escrever são mais ou menos claros para Hilst, porém há o conteúdo e a relação dele com a própria vida. Ela que se isolou em seu sítio em Campinas para escrever é talvez um dos exemplos mais importantes da relação entre a vida e a literatura, de como andam juntas:
“É bem verdade que o escritor está sempre falando de si mesmo, porque é somente através de nós mesmos que podemos nos aproximar dos outros. Desnudando-nos, procuramos fazer com que os outros se incorporem ao nosso espaço de sedução. Estendemos as teias e desejamos que o outro faça parte delas, não para devorá-lo, mas para que sinta perplexidade e faça a pergunta, para que tome conhecimento da possível qualidade do nosso fio-sedução; caminhe conosco, num veículo que pode ser afetivo-odioso.” […] “Samuel Beckett na sua peça Dias Felizes escreve: “Eu não posso dizer mais; diz-se o que se pode”. Prefiro dizer: Quero falar tudo nos meus textos e posso dizer ainda mais. Faço perguntas possíveis a mim mesma: se eu falasse com a voz do mundo, como falaria? Se eu falasse com a voz dos ancestrais (que representa o sangue e o sêmen dentro de mim) haveria refulgência de uma nova voz? É preciso tentar tudo, experimentar tudo. Talvez assim a verdade, a resposta, seja encontrada.”
Consciente das complicações intelectuais e dos limites do escritor em desbravar com profundidade e domínio todos os temas, Hilda Hilst, assim como Bioy Casares ecoa ao redimir-se de um prefácio infeliz, mostra que a humildade e a disposição a se corrigir também são essenciais para se fazer literatura:
“Temos todos nós, escritores, os nossos textos infelizes, mas sempre sobra algum deles tatuado de sagrado e de magia.”
Repleto desse conhecimento visceral que Hilda Hilst cultivou durante toda sua vida, “Fico besta quando me entendem” é leitura obrigatória para quem quiser entender uma das maiores escritoras brasileiras.
Veja também um trecho da peça “Osmo” baseada nos textos de Hilda Hilst e o que Jorge Luís Borges também tem a dizer sobre ser um grande escritor.
http://www.pantagruelista.com/blog/hilda-hilst-escritora
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Uma luz colorida baixou. pensei: é hoje! Um sinal, talvez, de que pertenço a um mundo melhor, onde ninguém morre antes da hora, as criança...
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