sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Havia uma bruxa em meu caminho



Toda a vez que a bruxa se queixa de que sua vida eterna terrena é monótona, eu sinto inveja.



Invejo-a quando ela diz que nada de novo se passa sob o sol, e logo embarca em sua vassoura Ford ka para mais um passeio panorâmico.


Ela tem o dia todo para fazer o que quer, enquanto os casais de minha cidade dispõem apenas do domingo à tarde para passear de carro em torno da praça, com seus cachorrinhos e o chimarrão.


Ela não sente a falta que sentimos, das noites de sábado e domingo, do tédio das lanchonetes e dos xis-burgueres gigantes, nem dos litros e litros de refri, e nem dos programas de auditório repetitivos, dos canais de TV.


Diferente de mim e de meus semelhantes, a bruxa não se preocupa com espelho, maquiagens... Nunca vai desejar vencer um concurso de beleza.

Invejo-a com franca admiração, por ela me passar a impressão de tranqüilidade e indiferença com relação às nóias diárias.


Quando fez seu contato de segundo grau eu quase pirei, porque falou que só ligou para minha voz – que era bela, clara, com uma boa dicção. Eu queria que ela captasse minha energia, o meu cheiro...


Morro de inveja porque a bruxa não é uma simples e previsível mulher: é magia, sedução e confusão.


Ela mentiu quando disse ao menino que estava fazendo regime e, depois, quando cuspiu nos pratos sugerido pela nutricionista.


A séculos ela come e não engorda. Se todos fossem como ela, a indústria dos produtos lights iria à falência.


Passou-me a perna quando fingiu se parecer comigo, um guri preocupado com os contornos avantajados da silhueta.


Agora eu sei. Apesar de tudo ela não é diferente de nós, humanos, também se faz valer de estratégias para angariar simpatia.


Feminina ao extremo, não me deixa decifrar seu olhar, adivinhar suas intenções.


Tive certeza, após ler a crônica do Luis Fernando Veríssimo, de que a bruxa é, no mínimo, uma “come e não engorda” - mais cômica do que trágica.






O come e não engorda


Ninguém é mais admirado ou invejado do que o come e não engorda. Você o conhece. É o que come o dobro do que nós comemos e tem a metade da circunferência e ainda se queixa:


— Não adianta. Não consigo engordar.


O come e não engorda é meu ídolo. Só não lhe peço autógrafo por inibição. Meu sonho é emagrecer e depois nunca mais engordar, por mais que tente. Quando eu diminuir, quero ser um come e não engorda.


Não se deve confundir o come e não engorda com o enfastiado. Este pertence a outra espécie. Não é humano. Pode até ser melhor do que nós, um aperfeiçoamento, mas não é humano. Afinal, o que une a humanidade é o seu apetite comum. Não é por nada que partilhar da comida com o próximo tem sido um símbolo de concórdia desde as primeiras cavernas.


Até hoje as conferências de paz se fazem em volta de uma mesa onde a comida, se não está presente, está implícita. Desconfie do enfastiado. Ele será um agente de outra galáxia ou um poço de perversões, ou as duas coisas. De qualquer maneira, mantenha-o longe das crianças.


Quando encontrar alguém na frente de um prato cheio só emparelhando as ervilhas com a ponta da faca, notifique os órgãos de segurança. É um enfastiado e pode ser perigoso. Sempre achei que as pessoas que comem como um passarinho deviam ser caçadas a bodoque. O seu fastio, inclusive, é um escárnio aos que querem comer e não podem.


Já o come e não engorda compartilha do nosso apetite, só não compartilha das consequências. Ele repete a massa e não tem remorso. Pede mais chantilly e sua voz não treme. Molha o pão no café com leite! E ainda se queixa:


— Há 15 anos tenho o mesmo peso.


O come e não engorda só parou de mamar no peito porque proibiram sua mãe de ficar junto no quartel.


Quando o come e não engorda nasceu, uma estrela misteriosa apareceu no Guide Michelin de restaurantes para aquele ano. O come e não engorda caminha sobre a sauce bernaise e não afunda. Multiplica os filés de peixe à meunière e os pães de queijo. Por onde o come e não engorda passa, as ovelhas se atiram para trás e pedem "me assa!". O come e não engorda tem o segredo da Vida e da Morte e, suspeita-se, o telefone da Bruna Lombardi. E ainda se queixa:


— Tenho que tomar quatro milk-shakes entre as refeições. Dieta. Dieta! E você ali, de olho arregalado.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Passei o dia com uma bruxa (II)




Durante esses dias todos fiz várias cobranças ao menino, para que contasse o segundo capítulo de sua história (que eu sugerira que inventasse). Encontrei-o no intervalo da aula de hoje e nem precisei insistir, para que ele desembuchasse.



“Uma semana após ter começado a dieta, a bruxa desistiu. Não tinha mais idade para tamanho sacrifício. Não seriam as verduras e os legumes que a fariam viver mil anos! Disse que se deixou enfeitiçar pela história de que devemos combater os radicais livres. A partir de agora taparia seus ouvidos e iria radicalizar: se dedicaria à meditação, ioga e academia.


Nascera carnívora. Ser vegetariano é faceirice de momento. De quem não tem outra conversa nas rodinhas de bate-papo. Ou dor na consciência, porque quer se redimir de seus antigos erros.


A primeira palavra que pronunciou, quando bebê, não foi ‘mama’ ou ‘papa’, mas sim ‘carne!’. Gosta de carne mal passada, o animal esfolado, sangue escorrendo.


Foi então que a bruxa deixou transparecer a sua face mais cruel: disse que também os animais, quando fazem algo errado, ficam vermelhos de vergonha, como nós, os humanos.


Para ela, os animais se equivocam, quando imitam as pessoas. Por isso devora-os. Se engalfinham e mordem o próprio rabo, só por causa dos conflitos entre eles. De acordo com a bruxa, alguns animais querem ser mais espertos, como se tivessem poderes sobrenaturais, e isso ela não tolera. ‘Esperteza se cura com maldade’, vociferou.


Então eu ponderei que os bichos não são maus, apenas são fiéis ao seu instinto de sobrevivência. E que são domesticados pelos homens - e acabam imitando as virtudes e defeitos desses.


A bruxa desconversou, e lembrou de uma fábula cuja moral é de que ‘Burro não entra no céu’.


Foi aí que eu comecei a questionar a história que diz que o melhor amigo do homem é o cachorro. Por que não o burro ou o cavalo? Todos são importantes, se formos pesquisar, desde os tempos mais antigos, sua relação e serviços prestados aos humanos.


Acho que a bruxa perdeu sua imaginação (coisas da idade?). Sugeri que ela fosse ler os clássicos de literatura para crianças, e como os animais aparecem aí, semelhantes ou parecidos com os personagens ‘homo sapiens’.

Ou, talvez, as idéias da bruxa têm fundamento, e os animais não são tão ingênuos quanto pensamos”.






O menino fez uma pequena pausa e eu lembrei que algumas semanas atrás eu havia contado, para sua turma de aula, a anedota do Millôr Fernandes, “O cavalo e o cavaleiro”. Antes que eu recontasse a anedota o menino arrematou, dizendo assim: “Dia desses fui até a casa da bruxa, para uma visitinha, e me surpreendi: recebeu-me cordialmente um casal de poodles adultos”.


Não entendi onde ele quis chegar, mas fiquei na minha. Vai a seguir a fábula do Millôr:





O CAVALO E O CAVALEIRO






Diz que, quando o homem chegou às portas do céu, São Pedro disse: “Não pode entrar!” “Como não posso entrar? Tenho folha corrida de bons antecedentes e tenho bons antecedentes mesmo”. “Sei” – respondeu São Pedro -, “mas no céu ninguém entra sem cavalo”.


E o homem voltou com o rabo entre as pernas. No caminho encontrou um velho amigo e perguntou a ele aonde ia. Disse o amigo que ia para o céu. Ele lhe explicou então que, sem cavalo, neca de céu. O amigo então sugeriu: “Olha aqui, São Pedro já está velho. Você fica de quatro, eu monto em você. Ele não percebe nada porque já está velho e míope e nós entramos no céu”. E assim fizeram.


Na porta, o Santo olhou o nosso herói: “Opa, você de novo? Ah, conseguiu cavalo, hem? Muito bem, amarre o cavalo aí fora e pode entrar”.

Moral: Burro não entra no céu.


sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Mirinho e o disco - Sérgio Porto

Fomos juntando os telegramas sobre novos apa­recimentos de discos-voadores. Aqui está um de Lima, Peru: "Um disco-voador e seu tripulante, um anão de cor esverdeada, pele enrugada e 90 centímetros de altura fo­ram vistos, ontem à noite, no terraço de uma casa pelo estudante Alberto San Roman Nuñez". 

Este outro de As­sunção, Paraguai: "Diversas pessoas tiveram oportunida­de de ver nos céus desta capital um estranho objeto voa­dor, que durante 20 minutos evoluiu sobre suas cabeças, desaparecendo depois em grande velocidade". 

Já de San­tiago, Chile, o telegrama conta diferente: "Novas notícias de aparecimento de objetos voadores não identificados nos céus reacenderam controvérsias desencadeadas com visões nas bases científicas da Antártida, no mês passado. Na Vila de Beluco, pequena localidade chilena, os habi­tantes viram um disco pousar durante cinco minutos e logo levantar vôo para desaparecer no horizonte". A

gora noutro continente: "Em Oklahoma City a Polícia informou que, na base de Tinker, perto desta cidade, o radar regis­trou a presença de quatro objetos não identificados, que evoluíam a cerca de 7 mil metros de altura". Na Europa e na Austrália também houve disco-Voador assombrando populações. De Portugal, por exemplo, chegou telegra­ma contando que foi visto objeto estranho "que parecia um esférico de plástico". 

E no Brasil, ainda no domingo passado, em Paquetá, uma porção de gente viu disco-voador, o que prova que eles andam pela aí de novo.

Mas deixemos os discos-voadores momentaneamen­te de lado e passemos a Primo Altamirando. No prédio onde Mirinho mora tem uma mocinha que eu vou te con­tar. Vai ser engraçadinha assim lá em casa! O primo vinha cantando a vizinha há bem uns seis meses, sem conseguir nem pegar na mão. 

Anteontem, porém, depois de muita insistência, ela amoleceu e andou dando sopa para o nefando parente: combinou com ele um encontro noturno no terraço do prédio. E, de fato, na hora marcada, apare­ceu assim meio medrosa. Mirinho começou a amaciar a bonitinha, fazendo festinha, dizendo pissilone no ouvido, dando mordidinha na ponta da orelha. E quando já tava quase, ela deu um grito:

— Que foi??? — assustou-se Mirinho.

— Olha lá no céu. Um disco-voador — apontou ela, nervosa.

Com medo de perder a oportunidade, Mirinho aper­tou-a contra si e lascou: 

— Deixa pra lá. Finge que não vê. Finge que não vê!

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Chove no silêncio...




Eu me aconchego em tuas pernas
e o dilúvio troveja lá fora.
O raio corta o céu diz  a que veio
e eu gozo e busco um recomeço.

A chuva imita o panelão em fogo brando
e eu medito sem dar ouvidos
ao coração ensanguentado.

"Ele é uma fraude", cochicham os sapos
e eu quero ouvir todas as músicas
que já ouvi,
e me olham os pesadelos
com suas máscaras
de branco vidro.

Sou  uma fraude em brasa ao vivo
penso nisso e me desenrosco
das suas pernas
e me recolho e adormeço.

É um tempo tão mixuruca
que até os sonhos são miudinhos!

É que a noite em seu leito
é um resíduo de um velho dia
é que os retratos quase despertam
seu desamparo.

Chove
no silêncio
da sexta-feira.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Faces no travesseiro



Faces bordadas no travesseiro
mascam chicletes e riem da minha cara
o tempo inteiro.

São miragens e me decifram
como ultrassom
então descubro que a razão
nada aprendeu com o amor.

Luzes e sombras ofuscam
a mais tenra cor
eu lembro do princípio
quando havia  a escuridão
o dia cansou e me ensinou
a guardar as cinzas dos livros
beijar punhados de flores
pra não entediar meu amor...

Amores são safras impossíveis
- agora descubro -
toda  vez que a noite
doira o sol!

terça-feira, 26 de julho de 2011

O que é importante?




Na roda de bar, ela falou:
- O que você escreve não é importante.
Considerei que agora, sim, eu tinha um bom assunto para um texto. Foi a partir daí que me pus a perguntar:
- O que é melhor, exibir sobre a mesa uma fruteira com frutas de plástico, ou frutas de verdade?
Segundo ela, algumas frutas de verdade poderão apodrecer, serão deixadas em segundo plano, já que gostamos de produtos industrializados.
- O que é melhor, considerar Amy Winehouse pelo aspecto particular, censurar sua dependência do álcool e drogas, ou se ater nos aspectos de sua genialidade musical? Ainda mais no atual contexto de invasão, na mídia, de bandos de artistas medíocres que iludem as massas...
Querida, as frutas de plástico trazem beleza aparente, mas não têm sabor, cheiro, odor... Não provocam nosso paladar. Permanecem no tempo, duram, e ao mesmo tempo não deixam lembranças, nem memória, não semeiam rastros em sua passagem.
- O importante é ideológico. Uma escolha, portanto.
Ela retruca: “Tudo é ideológico?”
Nos inquietamos. E concordamos: “Não sobra nada para a individualidade...” “Nunca mais vai ser possível sonhar com o original...”
“Tudo está perdido”, ela pondera. “Acho que não, eu digo”. Mesmo que o paradigma atual pareça ser o do Ctrlc/Ctrlv. Por todo lado, copiar, imitar, repetir...
Muita coisa cheira mal. Quantos de nós percebe? Quantos se importam? Não falo apenas da corrupção política, que os meios de comunicação denunciam. Refiro-me às ações diárias, em cada palmo de terra mais discreto onde nos movimentamos. Nossas intenções, implícitas, latentes, que incluem também ganhar dinheiro, comprar, acumular...
As frutas de plástico são lindas e não têm sabor. Não se transformam em matéria orgânica. São recicláveis, sem significar nada. Enfeites, práticas e inúteis.
- E as pessoas, também?
No limite, este texto também.
Me consola saber que nenhuma árvore foi derrubada. O texto nasceu e morreu no espaço virtual.
E a moça tem razão. Nada do que escrevo é importante.



quarta-feira, 13 de julho de 2011

Lolo Barnabé - Eva Furnari

No tempo em que as pessoas moravam em cavernas existiu um homem muito criativo e inteligente chamado Lolo Barnabé.

Aos vinte anos, lolo casou-se com Brisa. Ela também era como ele, criativa e inteligente. Casaram-se por amor. Muito amor.
Depois da lua-de-mel, escolheram a melhor caverna da região para morar e, logo no primeiro ano de casamento, tiveram um filho, o Finfo Barnabé, também criativo e inteligente.

Todos ao dias, Lolo saía para caçar e colhe frutas. A noite, sentavam-se todos em volta da fogueira, assavam a carne, cantavam canções e agradeciam a Deus pela beleza da vida.

Eram muito felizes... mas nem tanto

A caverna era úmida.
Por essa razão, Lolo e Brisa acharam melhor construir uma casa no alto do moro.
Teriam mais conforto e poderiam viver melhor.
Lolo, que era muito habilidoso, fez uma casa linda, e a família, animada, mudou-se para lá. Brisa queria que a casa fosse amarela e lolo, que amava a esposa e lhe fazia todas as vontades, pintou a casa de amarelo.
O tempo passou e eles estavam felizes... mas nem tanto.
Brisa não gostava de vestir aquela pele de animal. Sentia frio.
Então eles tiveram a idéia de fazer roupas mais adequadas. E, como ela também era habilidosa, inventou o vestido.Ficou animada e, em seguida, inventou o sutiã, a calcinha, a cueca, a camisa, a calça, a bermuda e o pijama. E Lolo inventou sapatos que combinassem.

Todos ficaram felizes... mas nem tanto.

Brisa achou que faltava uma coisa e falou para Lolo:
- Amor, não podemos deixar nossas belas roupas pelo chão. Você não acha que poderíamos fazer assim uma especie de móvel para guardar a roupa?
Lolo achou que era uma excelente idéia, tudo ia ficar mais limpo, e inventou o guarda-roupa. Como era muito habilidoso, fez um grande armário de cerejeira, cheio de gavetas, portas e puxadores cromados.
Finfo adorou, já tinha um lugar para se esconder quando brincasse de esconde-esconde com o pai.

Todos ficaram felizes... mas nem tanto.

Lolo tinha feito uam bagunça danada para construir o armário e Brisa ficou irritada.
Lolo, então, para acalmar a mulher, inventou a vassoura e achou que era melhor já fazer uma oficina longe de casa para não atrapalhar a felicidade do lar. E fez.

Todos ficaram felizes... mas nem tanto.

No lar havia problemas. Finfo acordava sempre com o pijama sujo depois de dormir no chão.
Brisa discutiu a questão com o Lolo e eles acharam que podiam construir uam espécie de coisa assim, de madeira, com quatro pés, macia por cima. Ia ser muito mais confortável e a vida deles ia melhorar.

Lolo pensou bastante, trabalhou muito e inventou a cama. Como todos sabem, Lolo era caprichoso, e já inventou a cama com colchão, cobertor e travesseiro.
Brisa ficou encantada, principalmente com o travesseiro, que era a coisa mais macia do mundo.

Todos ficaram felizes... mas nem tanto.

Como eles almoçavam e jantavam em cima da coisa macia, a cama, estavam sujando muito os lençóis.
Lolo, então, inventou a mesa.

Todos ficaram felizes... mas nem tanto.

Acharam muito desconfortável comer de pé.Lolo trabalhou bastante e inventou a cadeira. Muito confortável, muito confortável mesmo, bem melhor que comer em pé. Aproveitou para ficar sentado por mais de uam hora, pois ele estava cansado de tanto inventar e construir coisas, além decaçar e colher frutas é claro.
Todos ficaram felizes... mas nem tanto.Lolo e Brisa estavam achando que cozinhar na fogueira dava muito trabalho e eles não queriam trabalhar tanto. Se inventassem algo mais prático, teriam mais tempo para ficar juntos, se divertir e descansar. Inventaram, então, o fogão a gás.

Todos ficaram felizes... mas nem tanto.

Lavar a roupa lá no rio também era coisa dura. Brisa e Lolo queriam facilitar essa tarefa. Pensaram muito e inventaram a água encanada e o tanque. E, já que tinham inventado a água encanda, inventaram logo o banheiro para não ter que ir no mato, a noite, no frio.
Deu trabalho, Lolo já trabalhava oito horas por dia, inventando e construindo coisas e, apesar do cansaço, o resultado compensava.
O banheiro ficou maravilhoso.
Fizeram uma festa com o sabonete, o xampu, o condicionador, o creme hidratante, a esponja de banho, o talco, o papel higiênico, o perfume, o mercurocromo, o algodão, a gaze, o esparadrapo, o cotonete, etc...
Lolo adorou o creme, a lamina de barbear, a loção pós-braba, o barbeador elétrico, o desodorante, etc...
Ficaram encantados com a escova de dentes, o creme dental, o protetor solar, o colírio, etc....
Divertiram-se muito com o pente, a escova, o grampo, o secador de cabelo, etc....
E enlouqueceram de alegria com o espelho.

Todos ficaram felizes... mas nem tanto.

Lolo tinha tanto trabalho e passava tantas horas por dia fora de casa, inventando coisas para dar conforto e facilitar a vida, que ficava estressado e com saudades do filho, que sempre estava dormindo quando ele chegava. Então Lolo inventou o tlefone, para que lês pudessem se falar diversas vezes por dia.
Todos ficaram felizes.... mas nem tanto.Pelo telefone não dava para abraçar, nem beijar. Então tiveram a idéia de Brisa ajuadá-lo na oficina, assim Lolo poderia chegar mais cedo do trabalho para abraçar e beijar o filho.

Todos ficaram felizes... mas nem tanto.

Brisa e Lolo, a noite, quando chegaram do trabalho, depois de abraçar e beijar o filho Finfo, ainda tinham que lavar a louça, a roupa, fazer o jantar, passar pano no chão e ficavam cansados, irritados, briguentos e enjoados de fazer todos os dias aquilo tudo. Naquele tempo ainda não tinham inventado a pizza delivery.

Acharam que a solução era facilitar as tarefas. Pensaram tanto que quase fritaram o cérebro quando inventaram, de uam so vez: o liquidificador, a batedeira a centyrifuga, a cafeteira, o espremedor, a garrafa térmica, etc...
O microondas, a torradeira, a sanduicheira, etc...
A maquina de lavar roupa, o sabão em pó, o detergente, o amaciante, o alvejante, o desinfetante, etc...

A geladeira, o freezer, a despensa, etc...
A maquina de lavar louça, a secadora, o balde, o esfregão, a lata de lixo, etc...
O carpete, o aspirador de pó, o tira-manchas, etc...
E, finalmente, inventaram o fim de semana, que ninguém é de ferro.

Todos ficaram felizes.... mas nem tanto.

Sempre tinha algum aparelho que encrencava e isso era dor de cabeça danada.
Eles tinham que levar para a oficina para consertar e, como já estavam acostumados com o conforto, ficavam extremamente irritados e impacientes de fazer as coisas na mão. Coisinhas como lavar a louça, a roupa, bater ovos....

Além do mais, a família Barnabé, agora era chique.
Lolo, Brisa e Finfo passaram a achar importante estarem sempre bonitos e elegantes. Não queriam mais andar de qualquer jeito, com a roupa amarrotada.
Não ficava bem.
Lolo inventou, então, o ferro de passar.

Todos ficaram felizes... mas nem tanto.

Dava um trabalho danado passar a roupa. E Brisa não tinha mais tempo, afinal ela trabalhava fora.
E Lolo, dessa vez, não se sabe por que, não conseguiu inventar uma máquina de passar roupa. Deve ter dado um tilt nas idéias dele.
Mas é compreensível, porque, afinal, ele também era humano e as vezes falhava.
Lolo ficou muito depremido e pensativo, mas a mulher foi compreensiva e arranjou uma solução: chamou sua prima para vir todos os dias passar a roupa.
Era uma ótima idéia, porque ela poderia fazer também as outras coisas na oficina.
A prima queria alguma recompensa por trabalhar na casa e então inventaram o dinheiro e deram para ela um salário. Como era pouquinho, chamaram de salário mínimo.

Todos ficaram felizes... mas nem tanto.

Finfo ficava sozinho o dia inteiro sem mãe nem o pai por perto. Sentia-se infeliz, não tinha com quem brincar, já que a prima de brisa também so ficava cuidando da casa.Então lolo e brisa inventaram a televisão, o sofá e o controle remoto.

Todos ficaram felizes... mas nem tanto.

Eles chegavam a noite tão cansados do trabalho e o Finfo querendo brincar e eles querendo descansar que acabavam brigando. Depois, também, cansados de brigar, sentavam-se todos na frente da televisão e ficavam hipnotizados e mudos como sacos de batata.
A família Barnabé sentia que aquilo não estavam bom.

Havia alguma coisa errada naquela historia, mas era difícil, entender o que é que estava errado.
A situação parecia um grande nó.
Lolo e Brisa pensaram logo em inventar mais alguma coisa, mas pela primeira vez não sabiam o que fazer. E, na verdade, pela primeira vez também perceberam que não era o caso de inventar mais nada.
Então eles foram para o quintal, acenderam uma fogueira e sentaram-se em volta dela, muito tristes buscando uma saída.
Olhando para o fogo, entenderam que eles mesmos tinham criado aquela situação.

E ficaram muito infelizes... mas nem tanto.

Lolo contou uma historia e Finfo contou outra. Brisa entoou uma canção e lembrou-se de fazer algo
que havia muito tempo não fazia: agradecer a Deus pela beleza da vida.Finalmente entenderam que, se eles mesmos tinham feito aquela armadilha, eles mesmospoderiam desfaze-la. Eles eram bem criativos e inteligentes.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Encontrei um oásis

Estava no ônibus, numa viagem de dia e meio. Cansado de ler, ouvir música, dormir, pensei anotar algo que me chamasse a atenção. Podia ser um gesto, uma paisagem, uma frase pronunciada por alguém.
Eis que uma jovem garota com seu filho de 2, 3 anos, sentados próximo ao meu banco, inventaram brinquedo novo para enganar o tempo. Assopravam bolhas de sabão, que subiam, umas pequenas, outras maiores, e beijavam, suavemente, o teto do ônibus.
Quando o menino assoprava, ele via, fascinado, nascerem novos palnetas. Lembrei de um fato dias atrás, após ler uma história para alunos de oitava série. Uma aluna afirmou que não sabia o que era uma metáfora. Disse-lhe que significava dizer uma coisa com outra coisa. Não busquei a resposta no dicionário, mas de uma fala de Pablo Neruda ao Carteiro, no filme O carteiro e o poeta.
As vivências e a consequente amizade entre o poeta e o carteiro são fascinantes. Ainda mais quando o segundo descobre que a poesia pode ajudá-lo a conquistar a mulher por quem se apaixonara.
As cenas desse filme italiando, bem como a brincadeira da mãe com o menino, no ônibus, mostraram-me o que pode ser a poesia e o poeta. Algo simples, e que ao mesmo tempo não pode ser explicada.Ocorre naquele justo instante em que captamos (capturamos?) a beleza, de um fato, imagem, etc.
Em meio a uma viagem que parecia interminável, ganhei o meu dia, pois descobri um oásis: vi com meus olhos o nascimento da poesia.

terça-feira, 5 de julho de 2011

O rato Roque - Sergio Capparelli


O rato Roque
roque, roque
Rói o queijo
roque, roque
Rói a cama
roque, roque
O pé da mesa
roque, roque
Rói o pão
roque, roque
O coração
roque, roque
De Tereza
roque, roque
Rói o tempo
roque, roque
Rói a hora
roque, roque
E o vestido
roque, roque
De Maria
roque, roque
Rói a rua
roque, roque
Rói o beijo
roque, roque
Rói a lua
roque, roque.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Dona Santa Eduvirgens - Cezar Dias


Minha namorada, cujos olhos têm propriedade para ver o que é do mundo (flor, estrela, muro), também sabe – e muito bem – contar histórias. E, contando, ela ensina. Outro dia, à hora do almoço, aprendi que às vezes ignorar é melhor que saber, e que, ao contrário do ditado, há benefícios que vêm para o mal.
A avó dela, que teve quinze filhos, enquanto pariu, nunca visitou um consultório médico. Um tio-avô que ela tinha como pai era quem trazia à luz os pequenos Mancini. Contrariando as estatísticas é que seus rebentos nasceram e cresceram saudáveis. E assim ela também ia se mantendo.
Um dia, o útero, sempre tão solícito, cansou. Aproveitando-se desse descuido, um pequeno tumor começou a trabalhar no seu ardiloso intento. Primeiro, uma dorzinha surgiu aqui, depois ali, até que a matrona, preocupada, decidiu ir consultar.
Dona Santa Eduvirgens, cujo nome nada tinha a ver com o número de filhos que tivera, foi, pela primeira vez, à ginecologista. A doutora, formada na capital e especializada no exterior, depois de alguns exames e da melhor maneira possível, deu-lhe a notícia: “a senhora tem um câncer em estágio avançado, Dona Santa”, falou com uma voz trêmula. Depois continuou: “Sinto muito, não há o que fazer”.
“Em casa, minha avó viveu mais duas semanas”, disse minha namorada, “e, de acordo com ela mesma, tudo porque tinha ido ao médico”.

do livro Tubarão com a faca nas costas. Ministério da Educação, Coleção Literatura para todos, 2006. 

domingo, 26 de junho de 2011

Ela não é daqui



As atenções se voltam, como parabólicas bem comportadas, para julho que se atrasou.
Ela virá no inverno para trazer seu calor. Vem de incríveis conjunções dos astros, surpreendendo os mais céticos, que insistem e duelar com verdades em batalhas para ambos perdidas.
Para ela, garra vital não depende da juventude. Amor não se agarra à força bruta.
Procuro segredos nas cores e na tintura dos seus cabelos, no esmalte das unhas bem feitas, nos traçados do batom em sua boca.
Mais do que os desenhos do tempo, que molduram seu olhar, o que me surpreende é seu querer.
Ela sabe o que quer, e ri de minhas dúvidas maduras. Ela sabe onde chegar, e confia nas coordenadas de minha vida. Não importa se eu não sei. "Precisas perder o medo de amar", ela me diz.
Eu brinco com meus vacilos, nas horas mais sérias do dia.
Ela sabe que pousou no meu mundo para ficar, como as melhores músicas que foram temas de novela.
Ela trouxe tanta luz, o sol mudou sua rotina, o dia deixou de temer  a noite.
Muitas folhas em branco aguardam para que eu diga o que sinto. Folhas que se despedem no inverno, que se despem para que volte a primavera, como  livros abertos, páginas marcadas com frases que contornam nossa vida - todos vão me acompanhar pelas manhãs, porque um  sonhador foi pego de surpresa pelas delicias do seu amor.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Rio




Rio de mim
dos meus conflitos
por estar sem roupa
e por falar esquisito.
Rio quando estou só
falo alto e me tomo de assalto
então me assusto pois recordo
a água indiferente a passar
sob a ponte.
Rio do mundo:
mundo novo
velho mundo.
Rio de tudo e até mesmo
das lembranças.
Me visito:
não tenho idéias
nem platéia
além das velhas.
Rio das crenças
e mentiras verdadeiras.
Rio dos filmes que vi
e dos que deixei passar.
Rio sem graça quando penso
que posso perder o rumo sem o rumor
de uma aventura que não vivi.
Rio da vida minha arte.
Rio do dinheiro e felicidade.
Rio o tempo inteiro
só pela metade.
Rio por alimentar
o meu mundo artificial.
Rio por ser escravo conquistador.
Rio do ciúme e do amor.
Rio dos vermes
rio das traças
rio das agendas
rio das desgraças.
rio dos pobres
rio das causas
rio das canções
rio das falas
rio espontâneo
rio sem valor
rio, meu rio,
sem teu riso
nada sou!

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Contação de histórias




Na sexta-feira, 17, esteve presente no Colégio Comendador Soares de Barros em Ajuricaba, o escritor Américo Piovesan, autor de livros infanto-juvenis, criador do personagem “Teco, o poeta sonhador”.


O escritor realizou contação de histórias para alunos do 4º ano a 8ª série e Ensino Médio, falou sobre a importância da leitura e autografou livros adquiridos pelos alunos.


O encontro faz parte do projeto de leitura desenvolvido na escola e visa aproximar escritores e alunos, no intuito de incentivar a formação de novos leitores e a difusão da literatura.































quinta-feira, 16 de junho de 2011

FOME


Mendigo 1:

- Eu tive dor de estômago a noite toda.

Mendigo 2:

- Eu também. Será que foi alguma coisa que a gente não comeu?

terça-feira, 14 de junho de 2011

Para descontrair


Um repórter entrevistando um pirata:
- Por que o senhor usa perna de pau?
- Ah... a gente estava atacando um navio e, de repente, um tiro de canhão cortou fora  a minha perna!
- E esse gancho na sua mão direita?
- Ah... a gente estava atacando um navio e, de repente, alguém com uma espada cortou fora o meu braço!
- E esse olho de vidro?
- Ah... a gente estava descansando em uma praia e entrou um cisco no meu olho e deu nisso.
- Mas... um cisco não cega ninguém!!
- Não foi o cisco. É que era o primeiro dia que eu usava o gancho no lugar da mão.

sábado, 11 de junho de 2011

Quero te amar...



Quero te amar sempre que sentir tua falta
porque o amor precisa ser desejado.
Quero te amar sem estar culpado
se passei o dia pensando em mim.
Quero ser sozinho de vez em quando
porque eu gosto da solidão.
Quero ficar sozinho de um jeito brando
pra despertar o amor no meu coração.
Não quero o amor pasteurizado
amor a vácuo empacotado num cruzeiro
com centenas de fotos e book
pra exibir aos amigos e companheiros.
Não quero amor com segurança
e vigilante o dia inteiro.
Não quero o amor raquítico, esquálido
prefiro o suave, que serve de calmante
amor com açúcar mascavo
no lugar do adoçante.
Não quero amor paparicado
amor com hora marcada
amor badalado, amor da moda.
Meu amor quer música suave
e um pouco de silêncio, mais nada.

***

Teu silêncio me desconcerta
tua tristeza me destempera
teus suspiros me alertam
tua boca me acelera
teu sorriso me pondera
teu calor acorda as feras.
À noite eu liberto minhas quimeras
e a tristeza então é primavera!

quinta-feira, 9 de junho de 2011

O preço da paixão


É muito relativo sabermos o preço que pagamos, no convívio social, ao manifestarmos nossas paixões.



Um amigo meu fez comentários a respeito do dono do bar que ele frequenta, quando vai assistir os jogos da dupla grenal. O dono desse bar é torcedor apaixonado, e manifesta sua paixão como se estivesse assistindo o jogo na geral do estádio. Xinga o técnico pelas escolhas que este faz ao escalar determinado jogador, e xinga também algum torcedor mais exaltado (seu cliente), se este o contrariar.


Ele não se preocupa com o linguajar da economia, com equações do tipo “custo-benefício”. Não está nem aí para o fato de que, no cotidiano dos negócios, implicitamente, “operam” equações econômicas.


Porém, desconfio que os clientes observam a sua performance. E se suas manifestações apaixonadas conflituam com as manifestações de seus clientes, então ele pode estar conduzindo mal os negócios.


Temos curiosidade a respeito da vida dos outros. Observamos tudo o que acontece por aí. Prestamos atenção na maneira como os outros jogam e, se nos decepcionam, nos afastamos.


Com tantas novidades, mudamos de lugares e de pessoas que frequentamos. Acho que nunca como agora fomos tão ciganos. É que triplicam os convites, tanta gente colocando-se na vitrine.


Quando falo do cuidado que precisamos ter ao externarmos nossa paixão, não me refiro apenas aos negócios, mas a todas as esferas onde se dão as relações humanas.


Admiro as pessoas que conseguem se manter equilibradas na sociedade, e que passam aos outros uma imagem positiva, e assim servem de modelo para as gerações mais jovens.


Foi o que senti ao ver pela TV a despedida, do futebol, de Ronaldo Nazário.


Senti inveja. Uma inveja boa. Aquela inveja que me permitiu a seguinte pergunta: como estou conduzindo minha vida no contexto social, onde influencio e sou influenciado pelos outros?


domingo, 5 de junho de 2011

Felicidade clandestina - Clarice Lispector



Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme, enquanto nós todas éramos achatadas. Como se não bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuia o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria.

Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para o aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima pslsvras como "data natalícia" e "saudade".

Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia.



Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim uma tortura chinesa. Como casualmente, informou-me que possuía As reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato.
Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria.

Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança da alegria: eu não vivia, eu nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam.


No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez.


Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono de livraria era tranquilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do "dia seguinte" com ela ia se repetir com meu coração batendo.


E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra.


Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados.


Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler!


E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: "E você fica com o livro por quanto tempo quiser." Entendem? Valia mais do que me dar o livro: "pelo tempo que eu quisesse" é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer.


Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo.


Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar… Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.


Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.


Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.


Felicidade clandestina. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1981.


sexta-feira, 3 de junho de 2011

Minha imaginação


Dou rédeas à imaginação e ela, no seu tropel delirante, traça planos pouco honestos. Doida para obter vantagens, corrompe e atropela os outros, quer ganhar dinheiro, estátus, granjear respeito.
Promete que, se ganhar sozinha a bolada da mega-sena, vai doar metade às instituições de caridade. Mas basta me distrair, e ela foge com todo o dinheiro, abandona e ri dos amigos e familiares. Nenhum remorço, ao contrário, a imaginação deleita-se de prazer por levar vantagem.
Acordo e meu sentimento de culpa recupera o fôlego, tenta manter o controle da realidade. Tenho tarefas a cumprir, pai, trabalhador, vizinho, amigo. Educação, boas maneiras, otimismo, bom humor...
Não é por acaso, minha formatação deu-se com o passar de vários séculos, para que eu pudesse me sustentar nos trilhos.
Deveres, obrigações. A razão se desdobra para se convencer de que haverá recompensa no final.
A imaginação é cúmplice dos sete pecados capitais. Se depender dela, os pecados serão muitos mais! Proliferarão, mesmo que corrompam de vez todo mundo.
Se ela me traz deleite no início  e no meio do caminho, me abandona no final. Sofro na hora da colheita. Tento convencer a mim mesmo de que a imaginação precisa de rédea curta. Devo inventar prazeres que a substituam. Prazeres que não são bem prazeres. Não exatamente como eu queria. São meros quebra-galhos.
Tapo o sol com a peneira, deixo a vida me levar, um dia de cada vez.
Mas eu sei. O tempo me ensinou. Algo no meu ser o comprova. Basta um descuido, e a imaginação corrompe a tudo e todos.
Mas, paradoxalmente, sem ela tudo se torna tão chato e previsível!

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Picoletes - Apparicio Silva Rillo


Ao Coscós, para burro completo, só faltava as guampas. Como burro não tem guampas...

Numa de suas idas a São Luiz Gonzaga o Coscós conheceu o picolé, ainda raro por aquelas bandas na época deste causo. Experimentou, gostou, comeu uns quinze.

Chegou na estância, de volta, e contou a novidade do  tal de "picoletes". Uma beleza! Gostoso! Friozinho! Pena que tinha um defeito...

-  Que defeito, Coscós?

- Mais molengão do que pica de véio. Comprei uma dúzia, botei no bolso da bombacha, montei a cavalo e me mandei. Comecei  a sentir um friozito nas bolas mas não dei atenção. Quando cheguei na estância me assustei. Havia desaparecido os picoletes. Só me sobraram os pauzinhos dos vivente...


Do livro Rapa de tacho 3. Porto Alegre, Tchê, 1984.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Amador



Amador
Lindomar
           cansou
de tanto amor
             sem sal.
Como é o Tal
agora vai cuidar
do seu quintal
(de alguns sabores
                  e cheiros).

Amador
Narciso
perdeu de vez
                   o juízo
vai descolar o mundo
        com seu meio guizo.

Amador Joãozinho
de tanto amar
a meia boca
desembocou sozinho.

Original

Aniversário, dois dias reunindo amigos, churrasco, bebida, muitos planos com meu amor, debates sobre o que fazer para salvar a humanidade. ...