segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Não sei de onde ela veio


Minha alergia atravessou a rua
e se instalou por toda a pele
foi a surpresa de janeiro
igual calor e Big Brother.
Será que as férias me deixaram estressado,
coçando as bolas e cheio de ansiedade?
Eu fui à procura dela
mas não sabia que era sarna pra coçar
agora todo mundo sabe
que eu estou viciado em farmácia!
Diga, espelho meu:
há na cidade um lazarento como eu?!
Não sei de onde veio essa alergia: bicho, planta ou mordida de inseto... Só sei que coço as dobras dos braços e joelhos, e desconfio de toda a vida que passa perto. O pó dos móveis, o clima seco, o desfile frequente das baratas pelos cantos. Todo mundo ri, feliz, nas melhores praias, em viagens de fazer sonhar. E eu aqui, sem intuição e imaginação, passo o dia todo a me coçar!

(Tiradas do Teco, o poeta sonhador)

domingo, 24 de janeiro de 2016

Rádio Batuta


Vai o link de um site com literatura em voz alta. Ouvir poesia, crônica e outros textos em voz alta é uma experiência gratificante. Vale a pena experimentar...

http://www.radiobatuta.com.br/Episodes/view/210

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Xantipa me adotou


Quando ela me adotou, estava desanimado, gordo e sem autoestima. Não vislumbrava qualquer perspectiva a respeito do futuro. Viciado em smartphone, facebook e watshapp, demorei para descobrir que a serventia destas ferramentas digitais era nos distrair daquelas coisas que realmente são interessantes.
Se na primeira vez que ela veio senti algo estranho, por ela ser magricela, descuidada e sozinha, já no dia seguinte invadiu-me um sentimento de culpa por não lhe servir ao menos um prato de comida.
Com o passar dos dias mapeei seus pontos fracos. Bastou acariciar seu pescoço e seios. Tinha no olhar e no jeito de se comportar a súplica por um carinho. Vacilei... Mas o que pode fazer um poeta diante de uma gata tri-liberal?
Mão-de-vaca, comecei a fazer cálculos, relutante em sustentar a gatinha com cama, mesa e banho, remédios e vacinas. Até duvidei de sua fidelidade, pois tinha hábitos noturnos, como outras gatas por aí. Porém, embora capitalista insensível, à noite matutei sobre o nome que lhe daria.
Sim! A batizaria de Xantipa. Era como se chamava a esposa do filósofo grego Sócrates, o qual preferia estar no meio de jovens, discípulos e amigos, em vez de cuidar da mulher e dos filhos. É compreensível, pois ele tinha lá sua missão...
Lembro de um tio que era apaixonado por uma loira de olhos azuis. Toda noite ela o procurava. Cúmplice, ele deixava aberta a basculante do banheiro, e ela adentrava pra lhe fazer companhia e alegrar o seu lar, bebericando uma taça de leite. Filósofo, meu tio homenageou sua loira com o nome da esposa de Sócrates. Histórias sempre se repetem e também acabam no final. Xantipa, companheira de meu tio, da mesma maneira que o filósofo Sócrates, morreu por causa do veneno.
Um acontecimento me deixou espantado, e fez com que mudasse meu conceito a seu respeito. Certo dia servi-lhe iscas de tilápia. Tive a intuição de que ela adorava peixe. Para minha surpresa, ela não comeu. Mas bastou uma distração e ela recolheu a comida e se deslocou para um lugar qualquer. Matutei: será que tinha filhos? Até desconfiava, pois suas tetinhas andavam meio caídas. Três criaturas brotaram do escuro da noite. Observei, de longe, para não espantar a novidade que surgia diante dos olhos.

Eu não conquistara apenas uma gata. Era ela e três filhotes. Mas eis que, agora que todos fomos apresentados, surge o primeiro drama. Durante o ano planejei uma viagem. Mochila às costas, pouca grana, vontade de conhecer uma aldeia qualquer. Adiando o sonho maior de juntar grana suficiente para conhecer Atenas, a cidade onde o grande filósofo fez história... E agora, enquanto eu viajar, quem vai alimentar e matar a sede de Xantipa e suas crias?

(Tiradas do Teco, o poeta sonhador)

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

De marca do


não sou ninguém homem marca parte de um todo nenhuma parte todos os gêneros estranho número amarrado à teia enlaço estranhos nós de marca do por todo lado me sinto só

(Tiradas do Teco, o poeta sonhador)
* Imagem do site http://www.equilibrioemvida.com/2015/12/16-ilustracoes-que-retratam-o-pior-lado-da-sociedade/

domingo, 10 de janeiro de 2016

Todo mundo sabe


Todo mundo sabe que sou louco. Pais, amigos, até o padre da província. Louco, quando não estranho as minorias saírem da caverna em busca do sol. Quando não me zango com casais homo e hétero passeando numa boa, falando da disparada do dólar, da nova cor do cabelo ou do pôr-do-sol.
Todo mundo sabe que sou louco, quando olho com desdém àquilo que é normal, e medito guiado pelos cavalos alados que conduzem minha carruagem, numa cruzada pelo espaço sideral. O ar que vagarosamente sai e entra de meus pulmões é uma luta corporal pela escolha entre a razão e a sabedoria, ou a preguiça e os vícios, atento a tudo o que disse o filósofo.
Todo mundo sabe que sou louco, quando fico paralisado a observar, no meio da balada, a máscara por trás de um rosto.
Louco, em vez de fake ou ghost, pateta que conversa com os postes da avenida. Louco, como a lâmpada preguiçosa no alto do poste, com pouca vontade de luz.
Louco, digo que todas as coisas são fingidas, como a lua que, nesta altura da noite, escala o prédio em frente e se aproxima para dividir comigo suas manias.
Não sou ghost nem fake. Apenas trituro meu tempo no vídeo-game e no face, devorando páginas de humor que desdenham da seriedade dos mortais.
Louco, que não tem tempo para pirar de vez. Para o desconsolo das autoridades e das forças débeis da cidade.

(Tiradas do Teco, o poeta sonhador)

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Grave

Começa janeiro e as cigarras estão graves. Sua voz, sua ânsia e som. Grávidos, como outros janeiros e a gestação do ano novo. Cigarras vêm e passam, são e deixam de ser, enquanto vivo por aqui com esse medo louco de morrer. 
Chegou janeiro e as cigarras estão grávidas. Elas devem morrer pra vida continuar...
Amigo, pensas que hoje o poeta anda melancólico. Mas não. Ele apenas observa a realidade. Com toda a gravidade que ela nos dá.

(Tiradas do Teco, o poeta sonhador)

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Anônimos, sejam menos explosivos


Graças a Deus estou vivo, tanto que ouço fogos alucinados dos anônimos da cidade nesta virada de ano. Não se perguntam " o que é o tempo?". Apenas seguem a troca do calendário. Vivem a rotina do despertador, que os escraviza  a cada manhã na corrida em busca do possível. Abrem mão de velhos desejos, fazem tamanho sacrifício para que sobre uns trocos, investidos na explosão do novo ano. 
Aonde estamos? Cada rojão deve custar um livro. Que bem podia ser dado de presente. Ou doado. 
Anônimos fazem tanto barulho, e ninguém sabe quem são. Endereçam pedidos a Deus, num céu estrelado de indiferença e silêncio. Fogos de artifício talvez sejam artifício,  talvez joguem umas tintas na insensibilidade cotidiana. 
Sobras e migalhas, cara cheia do barato espumante, e o porre que passa na mesma velocidade do entusiasmo e da promessa de que este ano será de fato um novo ano. 
Minutos depois que a convenção marcou a troca de ano, tudo se acalma, anônimos esquecem os fogos e se empanturram de lentilhas, porcos e frangos. Sorrisos, vivas, cumprimentos e arrotos entusiasmados. 
Ah, o dia da virada marca a superioridade do bicho-humano sobre o bicho-bicho. A guerra não se dá apenas entre sapiens e sapiens. Inventamos a pólvora também para bombardear um dos pontos fracos dos animais: seus ouvidos. 
Em vez de explodir a frustração e os desejos reprimidos com o espocar de fogos, anônimos bem que podiam investir em outras coisas, como coçar as bolas ou enfiar os artefatos bem no meio... (Aqui, fica por conta da tua imaginação...).

Não solte fogos, meu irmão. Bichos também sofrem pelos ouvidos, e as explosões não curam tuas angústias, ódios e medos.
Tanto barulho passageiro não vai te libertar do inevitável silêncio... E do compromisso de estar durante os próximos 365 dias frente a frente com o outro, seja vizinho, rival ou patrão, e de tantos outros bichos - domesticados como você, ou não.
No final de 2016 não solte mais fogos meu irmão!

(Teco, o poeta sonhador, em: De bichos & gentes)
* Fotografia de Ângela Tamara Nunes Doebber, incansável na luta pela proteção e amor aos animais.

sábado, 26 de dezembro de 2015

Ser brotinho em Ijuí


TECO - Cara, aqueles olhos me deixam tonto. Mas diante dela fico nervoso. Não vem assunto. 
ET - Tive uma ideia: pede pra ela contar umas histórias sobre os seus olhos.
TECO - Acho que não. Faz lembrar um ditado que diz: "Quem vê olhos não vê coração".
ET - Tenho a impressão de que este ditado está errado...
TECO - Aiaiaiai... Sempre soube que tem certas coisas que vocês, Ets, não conseguem entender.
ET - Sabe o que você pode fazer quando a encontrar? Pergunta se ela é brotinho por causa dos olhos, ou se os olhos são um presente dos deuses por ela ser brotinho...
TECO - Ótima ideia! Me fez lembrar de uma crônica do Paulo Mendes Campos, "Ser brotinho".
ET - e o que diz a crônica?
TECO - vou ler pra você umas passagens:

"Ser brotinho é não usar pintura alguma, às vezes, e ficar de cara lambida, os cabelos desarrumados como se ventasse forte, o corpo todo apagado dentro de um vestido tão de propósito sem graça, mas lançando fogo pelos olhos. Ser brotinho é lançar fogo pelos olhos.
"Ser brotinho é poder usar óculos como se fosse enfeite, como um adjetivo para o rosto e para o espírito. É esvaziar o sentido das coisas que transbordam de sentido, mas é também dar sentido de repente ao vácuo absoluto. É aguardar com paciência e frieza o momento exato de vingar-se da má amiga. É ter a bolsa cheia de pedacinhos de papel, recados que os anacolutos tornam misteriosos, anotações criptográficas sobre o tributo da natureza feminina, uma cédula de dois cruzeiros com uma sentença hermética escrita a batom, toda uma biografia esparsa que pode ser atirada de súbito ao vento que passa. Ser brotinho é a inclinação do momento.
"Ser brotinho é atravessar de ponta a ponta o salão da festa com uma indiferença mortal pelas mulheres presentes e ausentes.
"Ser brotinho é adorar. Adorar o impossível. Ser brotinho é detestar. Detestar o possível. É acordar ao meio-dia com uma cara horrível, comer somente e lentamente uma fruta meio verde, e ficar de pijama telefonando até a hora do jantar, e não jantar, e ir devorar um sanduíche americano na esquina, tão estranha é a vida sobre a Terra".

ET - UAU!!

(Da série: A garota de Ijuí)

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Andar sozinho

A moto anda sozinha. A diarista anda sozinha. O gari anda sozinho. Isabel andou com seu vizinho. Seu marido adora comprimidos. A auto-ajuda diz que posso andar sobre as águas como fez Jesus Cristinho. Mas eu quero andar fora dos trilhos. Levitar quando for me apaixonar. Abduzir todo meu bairro e seus gostos levianinhos. O bebê dorme sozinho. Vovô ronca bem sozinho. Só não ronca o robô que nunca dorme e não toma comprimidos. Como eu não sou robô vou tomar uns comprimidos e esquecer que ando sozinho.

(Tiradas do Teco, o poeta sonhador)
* Imagem do artista espanhol Luis Quiles.

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Doce vida


TECO - Tem gente que se esquece de viver, que até emagrece!
ET - Não entendi...
TECO - Tem gente que se esquece de viver, que engorda, engorda...
ET - Viajando, cara?
TECO - Deixa pra lá... Quando perguntaram à Dercy Gonçalves se a vida não era amarga, sabe o que ela respondeu?
ET - Não.
TECO - "Que amarga? Vocês é que botam amargura em tudo. Pois botem açúcar!"

(Da série: Coisas que os ETs não entenderiam)

domingo, 20 de dezembro de 2015

Tititi

As gatinhas ficam de tititi, bará bará bará, boró boró boró. Meu vacilo tererê botou a água pra ferver. De tão magras minhas vacas só deitam no presépio. De tanto ser mané deixei de ser Pinóquio. Se as gatinhas adoram um tititi, do outro lado do mundo eu danço um pocotó.

(Tiradas do Teco, o poeta sonhador) 

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Me perdoe pelo vacilo

Imagem do site http://incrivel.club/notag/a-ex-mulher-dele-o-deixou-sem-nada-alem-de-um-cao-veja-o-que-ele-fez-9055/


TECO - Cara, reatei com a gatinha fake. Estamos numa boa. Só conversamos pelo watshapp. Pra tudo o que digo, pergunto ou provoco, ela quase sempre responde, digitando:
- Hummmmm...
ET - Como assim?
TECO - Sei lá... Deve estar debochando, ou quem sabe confirmando o que disse Sascha Guitry: "A coisa mais profunda em certas mulheres é o sono".
ET - Você é louco! Com esta tirada todo mundo vai te acusar de "porco machista"!
TECO - Humm... Me perdoe pelo vacilo.

(Tiradas do Teco, o poeta sonhador)

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

A culpa é do sistema

Fotografia retirada do site http://incrivel.club/admiracao-fotografia/30-fotografias-tiradas-na-iminencia-do-ato-18505/


TECO - Aquele cara é promíscuo.
ET - O que isso significa?
TECO - Diz o dicionário que "promíscua" é  a "pessoa que se entrega sexualmente com facilidade".
ET - Por que você faz essa ideia dele?
TECO - É que ele diz que o sistema, com o objetivo de vender suas mercadorias, faz elas na forma de órgãos sexuais, seduzindo assim os consumidores. Por exemplo, o formato do detergente... E por isso todo mundo adora lavar a louça...
ET - Hãn??
TECO - Isso me fez lembrar de uma frase do Aldoux Huxley: "O homem é uma inteligência a serviço de seus órgãos".
ET - Como é que é?? 

(Da série: Coisas que os ETs não entenderiam)

sábado, 12 de dezembro de 2015

Série: Frases que os Ets não entenderiam


TECO - Hoje ela passou por mim. Parou, vacilou, parecia que ia dizer alguma coisa... Como não disse nada, eu me adiantei e falei:
- Ah-há! Cuspindo no prato que te comeu?*
ET - Hãn??

(Tiradas do Teco, o poeta sonhador)

*Frase de Rubem Braga.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Notícias do fake


ET - Teu amor fake deu notícias?
TECO - Sim. Recebi uns vídeos que ela enviou pelo celular.
ET - Sobre o quê?
TECO - Tá louco! Não abri... Podiam ser vírus! Horas depois, como ela não mandou mais nada, perguntei pelo whatts que vídeos eram aqueles...
ET - E ela?
TECO - Disse que o celular estava louco. Que era um programa que enviava mensagens automaticamente...
ET - Meu, mas que planetinha é esse, hem? Além dos humanos, as máquinas também estão pirando!

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Pérolas


Tudo está relacionado. O sol despedindo-se com um beijo na vidraça do prédio, próximo ao cantinho onde deliro. O indivíduo com a bicicleta e as garotas que passeiam com escassas roupas, carinhosamente adquiridas. Dizem que há grande probabilidade de isto ter a ver com os tornados do verão. Ninguém percebe abismo e caos por todos os cantos - a não ser este manco escrevinhador. As necessidades do corpo e da alma são meros dilemas subnutridos. Pensar nisso é como tergiversar num túnel infinito. A necessidade disparou em linha reta, para antecipar a apoteose, ao vibrarem ondas elásticas. As coisas miúdas e barulhentas que tomam conta de tudo precisam ser depuradas, parece que todos sabem. Observemos o que se passa. A crente de cabeça ereta, convicta do caminho a percorrer. O boy, o pedreiro, presos ao trabalho que, acreditam, liberta, porque se cercam de coisas que vão transbordar aterros sanitários. Convictos, usamos com impulso delirante roupas e cosméticos. São presentes e lembranças que brindam nossa autoestima. E no final, sem ter nada a ver com o bem e o mal, o complicado é narrar tanta pérola, sem que isso pareça banal. 

domingo, 6 de dezembro de 2015

Passarinho engaiolado - Rubem Alves



Eis o belo texto do Rubem Alves, copiado do blog http://atorremagica.blogspot.com.br/2015/12/passarinho-engaiolado.html

Dentro de uma linda gaiola vivia um passarinho. De sua vida o mínimo que se poderia dizer era que era segura e tranquila como seguras e tranquilas são as vidas das pessoas bem casadas e dos funcionários públicos.

Era monótona, é verdade. Mas a monotonia é o preço que se paga pela segurança. Não há muito o que fazer dentro dos limites de uma gaiola, seja ela feita com arames de ferro ou de deveres. Os sonhos aparecem, mas logo morrem, por não haver espaço para baterem suas asas. Só fica um grande buraco na alma, que cada um enche como pode. Assim, restava ao passarinho ficar pulando de um poleiro para outro, comer, beber, dormir e cantar. O seu canto era o aluguel que pagava ao seu dono pelo gozo da segurança da gaiola.

Bem se lembrava do dia em que, enganado pelo alpiste, entrou no alçapão. Alçapões são assim; têm sempre uma coisa apetitosa dentro. Do alçapão para a gaiola o caminho foi curto, através da Ponte dos Suspiros.

Há aquele famoso poema do Guerra Junqueiro, sobre o melro, o pássaro das risadas de cristal. O velho cura, rancoroso, encontrara seu ninho e prendera os seus filhotes na gaiola. A mãe, desesperada com o destino dos filhos, e incapaz de abrir a portinha de ferro, lhes traz no bico um galho de veneno. Meus filhos, a existência é boa só quando é livre. A liberdade é a lei. Prende-se a asa, mas a alma voa… Ó filhos, voemos pelo azul!… Comei!

É certo que a mãe do passarinho nunca lera o poeta, pois o que ela disse ao seu filho foi: Finalmente minhas orações foram respondidas. Você esta seguro, pelo resto de sua vida. Nada há a temer. Não é preciso se preocupar. Acostuma-se. Cante bonito. Agora posso morrer em paz!

Do seu pequeno espaço ele olhava os outros passarinhos. Os bem-te-vis, atrás dos bichinhos; os sanhaços, entrando mamões adentro; os beija-flores, com seu mágico bater de asas; os urubus, nos seus vôos tranquilos da fundura do céu; as rolinhas, arrulhando, fazendo amor; as pombas, voando como flechas. Ah! Os prudentes conselhos maternos não o tranquilizavam Ele queria ser como os outros pássaros, livres… Ah! Se aquela maldita porta se abrisse.

Pois não é que, para surpresa sua, um dia o seu dono a esqueceu aberta? Ele poderia agora realizar todos os seus sonhos. Estava livre, livre, livre!

Saiu. Voou para o galho mais próximo. Olhou para baixo. Puxa! Como era alto. Sentiu um pouco de tontura. Estava acostumado com o chão da gaiola, bem pertinho. Teve medo de cair. Agachou-se no galho, para ter mais firmeza. Viu uma outra árvore mais distante. Teve vontade de ir até lá. Perguntou-se se suas asas aguentariam. Elas não estavam acostumadas.

O melhor seria não abusar, logo no primeiro dia. Agarrou-se mais firmemente ainda. Neste momento um insetinho passou voando bem na frente do seu bico. Chegara a hora. Esticou o pescoço o mais que pôde, mas o insetinho não era bobo. Sumiu mostrando a língua.

— Ei, você! – era uma passarinha. – Vamos voar juntos até o quintal do vizinho. Há uma linda pimenteira, carregadinha de pimentas vermelhas. Deliciosas. Apenas é preciso prestar atenção no gato, que anda por lá… Só o nome gato lhe deu um arrepio. Disse para a passarinha que não gostava de pimentas. A passarinha procurou outro companheiro. Ele preferiu ficar com fome. Chegou o fim da tarde e, com ele a tristeza do crepúsculo. A noite se aproximava. Onde iria dormir? Lembrou-se do prego amigo, na parede da cozinha, onde a sua gaiola ficava dependurada. Teve saudades dele. Teria de dormir num galho de árvore, sem proteção. Gatos sobem em árvores? Eles enxergam no escuro? E era preciso não esquecer os gambás. E tinha de pensar nos meninos com seus estilingues, no dia seguinte.

Tremeu de medo. Nunca imaginara que a liberdade fosse tão complicada. Somente podem gozar a liberdade aqueles que têm coragem. Ele não tinha. Teve saudades da gaiola. Voltou. Felizmente a porta ainda estava aberta.

Neste momento chegou o dono. Vendo a porta aberta disse:

— Passarinho bobo. Não viu que a porta estava aberta. Deve estar meio cego. Pois passarinho de verdade não fica em gaiola. Gosta mesmo é de voar…

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Ele se apaixonou por um fake


ET – Quando ela te mandou convite no facebook você se esbaldou na lábia. Testou poemas, canções de amor, papos-cabeça, só pra deixá-la impressionada. Com o passar dos dias você criou tamanha expectativa que até comprou um celular mais moderninho pra ter um chip da operadora dela. E você devaneava quando ouvia a sua voz. E cada vez mais ansiava pela sua ligação. Enquanto isso você esnobou aquela garota que sempre esteve do teu lado quando você precisava. Um mês depois, quando finalmente vocês iam marcar o primeiro encontro, longe do mundo virtual, para se ver “olhos nos olhos”, ela jogou um balde de água fria na tua paixão. Não mais ligou no início da manhã pra desejar “tenha um ótimo dia, meu anjo!”, não ligou à noite pra ficar uma hora contando a epopeia que foi o seu dia, da escola para casa, de casa para a academia, e do amor incondicional pelo seu poodle, enquanto você se coçava, louco para retomar o jogo no vídeo-game. Daí, no fim de semana ela deu um chá de sumiço, enquanto postava umas coisas esquisitas na sua time line. E se você puxava conversa no face, ela desdenhava, não respondia, sumia... Cara, você não desconfiou que essa garota pode ser um fake?
TECO – Pior que não...
ET – E ela pediu pra você prometer amá-la e protege-la pelo resto dos teus dias? Você contou a todos os teus amigos e amigas que, finalmente, encontrou a menina que encarnava o amor verdadeiro? Caramba! Sem nunca tê-la visto pessoalmente?
TECO – Isso...
ET – Você é muito mais do que um poeta sonhador: você é uma catástrofe no amor! Mas... Críticas à parte, você é um menino em extinção. É puro, ingênuo que (pasmem!) ainda acredita no amor!


segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Vá pro jogo!


TECO - Nunca vi uma garota vacilar tanto.
ET - Bah, deve ter seus motivos...
TECO - Sei lá. O medo dela me fez lembrar deste poema do Alberto Martins:

Xadrez no centro
indecisa
entre a banca de jornais
e o garoto que vende bilhetes de metrô
a moça para um segundo
no meio-fio

depois
levanta a cabeça
e avança pela calçada de pedras pretas & brancas
pisando o mosaico torto

ela sabe que cada passo é um erro cada passo
é um logro - mas quem não joga
perde a vez e nunca mais
volta pro jogo

EM TRÂNSITO - poemas, de Alberto Martins (Cia. da Letras, 2010).

domingo, 29 de novembro de 2015

Foco


Pessoas fazem pose. Close. Piscam olhos. Tremem fotos. A imagem vira pó no apagar das luzes. Fogo. Foco. Cinza. Nuvem. Que bom que hoje não fiz merda, digo à pedra.

(Tiradas do Teco, o poeta sonhador) 

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Aula de geografia


TECO - Poesia não se faz só com as mãos. Garotas adoram ouvir tua voz do outro lado da linha.
ET - Como se fosse gravação de telemarketink?
TECO - Nãoooo... Como se fosse música!
(...)
ET - Eu ouvi você dizer nude??
TECO - Cara, para com essa obsessão pelo corpo! Você só fala em peito, perna e bunda! Pare de nos imitar. É tanta ideia fixa pelo corpo que até parece que é a geografia dos humanos que determina sua história!

(Tiradas do Teco, o poeta sonhador)

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Menos realismo, mais poesia


ET - Então ela não quer namorar com piá que fala merda...
TECO - Será que tenho alguma chance?
ET - Depende do quanto você falar kkk.
TECO - Junto dela deve ser como nós: quase não rola assunto rsrs.
"Ela me faz tão bem, ela me faz tão bem..."
ET - "Só se você disser tudo o que ela quiser" rsrs.
TECO - Devo poetizar minhas palavras??
ET - Ela vai fazer picadinho das tuas palavras!!
TECO - Tchê, tu vive abafando a minha voz!
Era só o que me faltava... O poeta sonhador é amigo de um reles etzinho realista!

(Tiradas do Teco, o poeta sonhador)

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Vai...


Desligue os aparelhos
abra olhos e ouvidos
que o teu coração
capture os sinais.
Com braçadas de humildade
e pedaladas de coragem
invente anomalias.
E se as novidades 
parecem ser normais
comece  a ser visita
embaixador em novos lares
navegante em outros mares.

(Tiradas do Teco, o poeta sonhador)

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Poeteiros


ET - Você sabia que poeteiros são os que fazem poesia com as mãos?
TECO - Você não quis dizer "grafiteiros"?
ET - Não falei dos pichadores de muros. Falo dos adolescentes que poetam trancados no banheiro ou no quarto.
TECO - Hum... Acho que entendi. Deve ser um sofrimento fazer arte assim. 

(Tiradas do Teco, o poeta sonhador)

domingo, 15 de novembro de 2015

Cinismo


TECO - Para nós, humanos, cinismo pode também significar "mentir com sinceridade".
ET - Por falar nisso, ela acreditou na história que você inventou?
TECO - Ela fingiu que acreditou.
ET - Meu Deus!

Ilustração do site 
http://www.taringa.net/post/humor/19043688/Memes-que-solo-los-inteligentes-entienden.html


sábado, 14 de novembro de 2015

Amor não correspondido



A maneira obsessiva com que nos relacionamos com a natureza, usando-a com o propósito de apenas lucrar, é a mostra de como estamos perdidos. Como diz o poema de Roseana Murray:

Amor não correspondido
 vai virando tudo em deserto,
 vai calando a voz do mundo,
 vai tirando da água a sua nascente.
 Amor não correspondido
 vai tornando em folha seca
 tudo o que toca com os dedos,
 até perder seus espinhos
 e se deixar morrer nos vãos
 de uma tarde qualquer.


(Do livro A bailarina e outros poemas).

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Amor líquido


ET - Por que se estressar com teu amor, se vai durar pouco mesmo?!
TECO - Porque... Que seja explosivo enquanto dure!

(Tiradas do Teco, o poeta sonhador)

domingo, 8 de novembro de 2015

Tragedia humana e ambiental em Mariana - MG


Quando me deparo com tragédias como a de Mariana, conforme notícia abaixo, lembro do seguinte poema de José Paulo Paes:

COMO ARMAR UM PRESÉPIO

pegar uma paisagem qualquer 
 
cortar todas as árvores e transformá-las em papel de im-
prensa
 
enviar para o matadouro mais próximo todos os animais
 
retirar da terra o petróleo ferro urânio que possa eventual-
mente conter e fabricar carros tanques aviões mísseis nu-
cleares cujos morticínios hão de ser noticiados com destaque
 
despejar os detritos industriais nos rios e lagos
 
exterminar com herbicida ou napalm os últimos traços de
vegetação
 
evacuar a população sobrevivente para as fábricas e cortiços
da cidade
 
depois de reduzir assim a paisagem à medida do homem
 
erguer um estábulo com restos de madeira cobri-lo de cha-
pas enferrujadas e esperar
 
esperar que algum boi doente algum burro fugido algum
carneiro sem dono venha nele esconder-se
 
esperar que venha ajoelhar-se diante dele algum velho pas-
tor que ainda acredite no milagre
 
esperar esperar
 
quem sabe um dia não nasce ali uma criança e a vida reco-
meça?


Na quinta-feira, 5 de novembro, na linda cidade histórica de Mariana-MG, no distrito de Bento Rodrigues, romperam-se duas barragens de rejeitos de mineração da mineradora Samarco, causando uma enxurrada de lama que inundou casas e levou tragédia aos moradores da região.
As causas do acidente ainda não foram esclarecidas e a Secretaria de Estado do Meio Ambiente e de Desenvolvimento Sustentável de Minas Gerais (Semad) criou um comitê para averiguação e avaliação da situação. Um inquérito civil também será instaurado para responsabilizar os culpados pelo acidente.
(...) s danos ao ambiente poderão ser percebidos mais cedo ou mais tarde. Existe o medo de que a lama seja muito tóxica, pois teria como componente os reagentes químicos normalmente usados na mineração. (...) Exploram nossas riquezas públicas em busca de enriquecimento privado e na hora de um acidente, os moradores inocentes da região se veem na situação de desabrigados de suas casas. Enquanto não se verificam as causas, as culpas, os danos, etc, estas pessoas precisam de ajuda.
 (Do site http://www.greenme.com.br/informar-se/ambiente/2479-tragedia-humana-e-ambiental em-mariana-mg).



sábado, 7 de novembro de 2015

Poeta anarquista



ET - Todos buscam alguma coisa. Enquanto muitos andam de skate ou aprendem a dançar, outros querem ficar milionários. E você, Teco, o que quer fazer?
TECO - Eu só observo, e me espanto ao ver todo mundo preocupado em ser útil!

ET - Bah, a humanidade precisa conhecer este poeta anarquista!

(Tiradas do Teco, o poeta sonhador)

terça-feira, 3 de novembro de 2015

O peso do amor. Ou: fazendo uma lipo no amor!


A prefeitura de Paris deu início aos trabalhos de retirada dos tão simbólicos "cadeados do amor" presos às grades da Pont Des Art. O peso dos milhares de cadeados estaria ameaçando a estrutura da ponte, construída no século 19.

Essa moda começou em 2008. Casais apaixonados selavam o amor com os cadeados nas grades da ponte e depois jogavam a chave no rio Sena. A Pont des Arts foi o primeiro alvo dessa moda que se espalhou não somente por outras pontes de Paris, mas também por toda a Europa.

Em junho de 2014, um dos primeiros painéis caiu e tinha uma sobrecarga de 500 quilos, quatro vezes a carga máxima permitida de acordo com a prefeitura. Imagine só o peso da ponte depois de quase 1 ano?

Para solucionar o problema a prefeitura vai substituir as grades por painéis de acrílico. Cerca de 1 milhão de cadeados pesando 45 toneladas serão removidos!



ET - Cara, por que o amor anda tão pesado??
TECO - Amor preso, pessoas presas... O amor devia era libertar!


sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Retórica etílica


Respeitosa, a platéia faz vários sins com o movimento da cabeça, diante da leitura solene do especialista num filósofo europeu. 
Meu corpo se coça na cadeira, enquanto a alma se perde nas ruas limpíssimas de Toledo.
O ser e o ente, cravados no mundo fático, empurram pra longe a brisa que vem da janela, dando lugar ao bafo morno da sala de aula.
Procuro compreender esses rituais acadêmicos e seu potencial para tocar nos problemas do mundo. Algumas pontadas pelos lados dos rins e do fígado, e sinto a verdadeira realidade.
Esta tarde aprendi uma lição muito clara: se você quer sobreviver pro dia de amanhã, em meio a tanta retórica etílica, corra logo atrás de algum sonho!

domingo, 25 de outubro de 2015

Acenda uma luz


TECO - O mundo vai mal... Poucas pessoas se importam com a cultura e os valores éticos. O que tem de sobra é guerra, violência e fome.
ET - O que é pior: não ter água na torneira ou a falta de sede? A falta de luz pelos caminhos do mundo, ou o escuro dentro do teu coração? Vamos, vamos iluminar um pouco este mundo!

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Soltando os cachorros



TECO - Cara, como tem maluco comentando nas redes sociais. O que eles dizem em sites e blogs revela mentes totalmente desequilibradas.
ET - Meu, não liga pra isso. Melhor assim do que conviver na real com babacas de pensamento limitado. Imagina um desses retardados na rua, na fila do banco ou no ônibus, berrando "volta ditadura!" ou "odeio negros, índios e gays"...

(Tiradinha inspirada no texto abaixo, de marcos Piangers. Zero Hora de 23/10/2015)

SOLICITAÇÕES DE AMIZADE

Já deve ter acontecido com você. Aquela pessoa legal que você conhece há algum tempo, aquele amigo do tempo de faculdade de quem você gostava, ou um colega de trabalho, pessoas agradáveis no convívio diário ou eventual, são bichos desagradáveis no Facebook. O cidadão é pacato no dia a dia, mas debaixo do avatar da rede social solta os cachorros em todo mundo. Parece outra pessoa.
Alguns amigos meus não suportam essa atitude, bloqueiam o sujeito nervosinho na hora. Eu olho aquele destempero com mais calma. Acredito que são fenômenos da falta de intimidade que as pessoas têm com ambiente virtual. Talvez seja o deslumbre de gritar pra todo mundo ouvir. Talvez seja falta de intimidade com o uso do CAPS LOCK. Mas a verdade é que, no Facebook, todo mundo tem um amigo alucinado.
Melhor assim do que ao contrário. Imagine a figura perfeitamente civilizada na sua timeline, mas completamente desequilibrado na vida real. Seria pior. “Odeio gente pobre!”, gritaria o cidadão no ônibus. “Volta ditadura!”, berraria na padaria. Seria como um Tourette político, sempre gritando coisas constrangedoras no meio da rua.
Melhor que os lunáticos fiquem restritos às redes sociais. E aos comentários dos sites de notícias. Aquilo também parece um encontro manicomial. No ambiente virtual, pelo menos, você pode evitar malucos, deixar de seguir, bloquear, simplesmente não ler. Na vida real, ainda não inventaram uma forma de escapar de lunáticos, a não ser ficando em casa. E, como pra muita gente ficar em casa é sinônimo de ficar na internet, desejo a todos apenas paciência e sabedoria pra diferenciar o que é delírio e o que é vida real.

Original

Aniversário, dois dias reunindo amigos, churrasco, bebida, muitos planos com meu amor, debates sobre o que fazer para salvar a humanidade. ...