quarta-feira, 13 de julho de 2011

Lolo Barnabé - Eva Furnari

No tempo em que as pessoas moravam em cavernas existiu um homem muito criativo e inteligente chamado Lolo Barnabé.

Aos vinte anos, lolo casou-se com Brisa. Ela também era como ele, criativa e inteligente. Casaram-se por amor. Muito amor.
Depois da lua-de-mel, escolheram a melhor caverna da região para morar e, logo no primeiro ano de casamento, tiveram um filho, o Finfo Barnabé, também criativo e inteligente.

Todos ao dias, Lolo saía para caçar e colhe frutas. A noite, sentavam-se todos em volta da fogueira, assavam a carne, cantavam canções e agradeciam a Deus pela beleza da vida.

Eram muito felizes... mas nem tanto

A caverna era úmida.
Por essa razão, Lolo e Brisa acharam melhor construir uma casa no alto do moro.
Teriam mais conforto e poderiam viver melhor.
Lolo, que era muito habilidoso, fez uma casa linda, e a família, animada, mudou-se para lá. Brisa queria que a casa fosse amarela e lolo, que amava a esposa e lhe fazia todas as vontades, pintou a casa de amarelo.
O tempo passou e eles estavam felizes... mas nem tanto.
Brisa não gostava de vestir aquela pele de animal. Sentia frio.
Então eles tiveram a idéia de fazer roupas mais adequadas. E, como ela também era habilidosa, inventou o vestido.Ficou animada e, em seguida, inventou o sutiã, a calcinha, a cueca, a camisa, a calça, a bermuda e o pijama. E Lolo inventou sapatos que combinassem.

Todos ficaram felizes... mas nem tanto.

Brisa achou que faltava uma coisa e falou para Lolo:
- Amor, não podemos deixar nossas belas roupas pelo chão. Você não acha que poderíamos fazer assim uma especie de móvel para guardar a roupa?
Lolo achou que era uma excelente idéia, tudo ia ficar mais limpo, e inventou o guarda-roupa. Como era muito habilidoso, fez um grande armário de cerejeira, cheio de gavetas, portas e puxadores cromados.
Finfo adorou, já tinha um lugar para se esconder quando brincasse de esconde-esconde com o pai.

Todos ficaram felizes... mas nem tanto.

Lolo tinha feito uam bagunça danada para construir o armário e Brisa ficou irritada.
Lolo, então, para acalmar a mulher, inventou a vassoura e achou que era melhor já fazer uma oficina longe de casa para não atrapalhar a felicidade do lar. E fez.

Todos ficaram felizes... mas nem tanto.

No lar havia problemas. Finfo acordava sempre com o pijama sujo depois de dormir no chão.
Brisa discutiu a questão com o Lolo e eles acharam que podiam construir uam espécie de coisa assim, de madeira, com quatro pés, macia por cima. Ia ser muito mais confortável e a vida deles ia melhorar.

Lolo pensou bastante, trabalhou muito e inventou a cama. Como todos sabem, Lolo era caprichoso, e já inventou a cama com colchão, cobertor e travesseiro.
Brisa ficou encantada, principalmente com o travesseiro, que era a coisa mais macia do mundo.

Todos ficaram felizes... mas nem tanto.

Como eles almoçavam e jantavam em cima da coisa macia, a cama, estavam sujando muito os lençóis.
Lolo, então, inventou a mesa.

Todos ficaram felizes... mas nem tanto.

Acharam muito desconfortável comer de pé.Lolo trabalhou bastante e inventou a cadeira. Muito confortável, muito confortável mesmo, bem melhor que comer em pé. Aproveitou para ficar sentado por mais de uam hora, pois ele estava cansado de tanto inventar e construir coisas, além decaçar e colher frutas é claro.
Todos ficaram felizes... mas nem tanto.Lolo e Brisa estavam achando que cozinhar na fogueira dava muito trabalho e eles não queriam trabalhar tanto. Se inventassem algo mais prático, teriam mais tempo para ficar juntos, se divertir e descansar. Inventaram, então, o fogão a gás.

Todos ficaram felizes... mas nem tanto.

Lavar a roupa lá no rio também era coisa dura. Brisa e Lolo queriam facilitar essa tarefa. Pensaram muito e inventaram a água encanada e o tanque. E, já que tinham inventado a água encanda, inventaram logo o banheiro para não ter que ir no mato, a noite, no frio.
Deu trabalho, Lolo já trabalhava oito horas por dia, inventando e construindo coisas e, apesar do cansaço, o resultado compensava.
O banheiro ficou maravilhoso.
Fizeram uma festa com o sabonete, o xampu, o condicionador, o creme hidratante, a esponja de banho, o talco, o papel higiênico, o perfume, o mercurocromo, o algodão, a gaze, o esparadrapo, o cotonete, etc...
Lolo adorou o creme, a lamina de barbear, a loção pós-braba, o barbeador elétrico, o desodorante, etc...
Ficaram encantados com a escova de dentes, o creme dental, o protetor solar, o colírio, etc....
Divertiram-se muito com o pente, a escova, o grampo, o secador de cabelo, etc....
E enlouqueceram de alegria com o espelho.

Todos ficaram felizes... mas nem tanto.

Lolo tinha tanto trabalho e passava tantas horas por dia fora de casa, inventando coisas para dar conforto e facilitar a vida, que ficava estressado e com saudades do filho, que sempre estava dormindo quando ele chegava. Então Lolo inventou o tlefone, para que lês pudessem se falar diversas vezes por dia.
Todos ficaram felizes.... mas nem tanto.Pelo telefone não dava para abraçar, nem beijar. Então tiveram a idéia de Brisa ajuadá-lo na oficina, assim Lolo poderia chegar mais cedo do trabalho para abraçar e beijar o filho.

Todos ficaram felizes... mas nem tanto.

Brisa e Lolo, a noite, quando chegaram do trabalho, depois de abraçar e beijar o filho Finfo, ainda tinham que lavar a louça, a roupa, fazer o jantar, passar pano no chão e ficavam cansados, irritados, briguentos e enjoados de fazer todos os dias aquilo tudo. Naquele tempo ainda não tinham inventado a pizza delivery.

Acharam que a solução era facilitar as tarefas. Pensaram tanto que quase fritaram o cérebro quando inventaram, de uam so vez: o liquidificador, a batedeira a centyrifuga, a cafeteira, o espremedor, a garrafa térmica, etc...
O microondas, a torradeira, a sanduicheira, etc...
A maquina de lavar roupa, o sabão em pó, o detergente, o amaciante, o alvejante, o desinfetante, etc...

A geladeira, o freezer, a despensa, etc...
A maquina de lavar louça, a secadora, o balde, o esfregão, a lata de lixo, etc...
O carpete, o aspirador de pó, o tira-manchas, etc...
E, finalmente, inventaram o fim de semana, que ninguém é de ferro.

Todos ficaram felizes.... mas nem tanto.

Sempre tinha algum aparelho que encrencava e isso era dor de cabeça danada.
Eles tinham que levar para a oficina para consertar e, como já estavam acostumados com o conforto, ficavam extremamente irritados e impacientes de fazer as coisas na mão. Coisinhas como lavar a louça, a roupa, bater ovos....

Além do mais, a família Barnabé, agora era chique.
Lolo, Brisa e Finfo passaram a achar importante estarem sempre bonitos e elegantes. Não queriam mais andar de qualquer jeito, com a roupa amarrotada.
Não ficava bem.
Lolo inventou, então, o ferro de passar.

Todos ficaram felizes... mas nem tanto.

Dava um trabalho danado passar a roupa. E Brisa não tinha mais tempo, afinal ela trabalhava fora.
E Lolo, dessa vez, não se sabe por que, não conseguiu inventar uma máquina de passar roupa. Deve ter dado um tilt nas idéias dele.
Mas é compreensível, porque, afinal, ele também era humano e as vezes falhava.
Lolo ficou muito depremido e pensativo, mas a mulher foi compreensiva e arranjou uma solução: chamou sua prima para vir todos os dias passar a roupa.
Era uma ótima idéia, porque ela poderia fazer também as outras coisas na oficina.
A prima queria alguma recompensa por trabalhar na casa e então inventaram o dinheiro e deram para ela um salário. Como era pouquinho, chamaram de salário mínimo.

Todos ficaram felizes... mas nem tanto.

Finfo ficava sozinho o dia inteiro sem mãe nem o pai por perto. Sentia-se infeliz, não tinha com quem brincar, já que a prima de brisa também so ficava cuidando da casa.Então lolo e brisa inventaram a televisão, o sofá e o controle remoto.

Todos ficaram felizes... mas nem tanto.

Eles chegavam a noite tão cansados do trabalho e o Finfo querendo brincar e eles querendo descansar que acabavam brigando. Depois, também, cansados de brigar, sentavam-se todos na frente da televisão e ficavam hipnotizados e mudos como sacos de batata.
A família Barnabé sentia que aquilo não estavam bom.

Havia alguma coisa errada naquela historia, mas era difícil, entender o que é que estava errado.
A situação parecia um grande nó.
Lolo e Brisa pensaram logo em inventar mais alguma coisa, mas pela primeira vez não sabiam o que fazer. E, na verdade, pela primeira vez também perceberam que não era o caso de inventar mais nada.
Então eles foram para o quintal, acenderam uma fogueira e sentaram-se em volta dela, muito tristes buscando uma saída.
Olhando para o fogo, entenderam que eles mesmos tinham criado aquela situação.

E ficaram muito infelizes... mas nem tanto.

Lolo contou uma historia e Finfo contou outra. Brisa entoou uma canção e lembrou-se de fazer algo
que havia muito tempo não fazia: agradecer a Deus pela beleza da vida.Finalmente entenderam que, se eles mesmos tinham feito aquela armadilha, eles mesmospoderiam desfaze-la. Eles eram bem criativos e inteligentes.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Encontrei um oásis

Estava no ônibus, numa viagem de dia e meio. Cansado de ler, ouvir música, dormir, pensei anotar algo que me chamasse a atenção. Podia ser um gesto, uma paisagem, uma frase pronunciada por alguém.
Eis que uma jovem garota com seu filho de 2, 3 anos, sentados próximo ao meu banco, inventaram brinquedo novo para enganar o tempo. Assopravam bolhas de sabão, que subiam, umas pequenas, outras maiores, e beijavam, suavemente, o teto do ônibus.
Quando o menino assoprava, ele via, fascinado, nascerem novos palnetas. Lembrei de um fato dias atrás, após ler uma história para alunos de oitava série. Uma aluna afirmou que não sabia o que era uma metáfora. Disse-lhe que significava dizer uma coisa com outra coisa. Não busquei a resposta no dicionário, mas de uma fala de Pablo Neruda ao Carteiro, no filme O carteiro e o poeta.
As vivências e a consequente amizade entre o poeta e o carteiro são fascinantes. Ainda mais quando o segundo descobre que a poesia pode ajudá-lo a conquistar a mulher por quem se apaixonara.
As cenas desse filme italiando, bem como a brincadeira da mãe com o menino, no ônibus, mostraram-me o que pode ser a poesia e o poeta. Algo simples, e que ao mesmo tempo não pode ser explicada.Ocorre naquele justo instante em que captamos (capturamos?) a beleza, de um fato, imagem, etc.
Em meio a uma viagem que parecia interminável, ganhei o meu dia, pois descobri um oásis: vi com meus olhos o nascimento da poesia.

terça-feira, 5 de julho de 2011

O rato Roque - Sergio Capparelli


O rato Roque
roque, roque
Rói o queijo
roque, roque
Rói a cama
roque, roque
O pé da mesa
roque, roque
Rói o pão
roque, roque
O coração
roque, roque
De Tereza
roque, roque
Rói o tempo
roque, roque
Rói a hora
roque, roque
E o vestido
roque, roque
De Maria
roque, roque
Rói a rua
roque, roque
Rói o beijo
roque, roque
Rói a lua
roque, roque.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Dona Santa Eduvirgens - Cezar Dias


Minha namorada, cujos olhos têm propriedade para ver o que é do mundo (flor, estrela, muro), também sabe – e muito bem – contar histórias. E, contando, ela ensina. Outro dia, à hora do almoço, aprendi que às vezes ignorar é melhor que saber, e que, ao contrário do ditado, há benefícios que vêm para o mal.
A avó dela, que teve quinze filhos, enquanto pariu, nunca visitou um consultório médico. Um tio-avô que ela tinha como pai era quem trazia à luz os pequenos Mancini. Contrariando as estatísticas é que seus rebentos nasceram e cresceram saudáveis. E assim ela também ia se mantendo.
Um dia, o útero, sempre tão solícito, cansou. Aproveitando-se desse descuido, um pequeno tumor começou a trabalhar no seu ardiloso intento. Primeiro, uma dorzinha surgiu aqui, depois ali, até que a matrona, preocupada, decidiu ir consultar.
Dona Santa Eduvirgens, cujo nome nada tinha a ver com o número de filhos que tivera, foi, pela primeira vez, à ginecologista. A doutora, formada na capital e especializada no exterior, depois de alguns exames e da melhor maneira possível, deu-lhe a notícia: “a senhora tem um câncer em estágio avançado, Dona Santa”, falou com uma voz trêmula. Depois continuou: “Sinto muito, não há o que fazer”.
“Em casa, minha avó viveu mais duas semanas”, disse minha namorada, “e, de acordo com ela mesma, tudo porque tinha ido ao médico”.

do livro Tubarão com a faca nas costas. Ministério da Educação, Coleção Literatura para todos, 2006. 

domingo, 26 de junho de 2011

Ela não é daqui



As atenções se voltam, como parabólicas bem comportadas, para julho que se atrasou.
Ela virá no inverno para trazer seu calor. Vem de incríveis conjunções dos astros, surpreendendo os mais céticos, que insistem e duelar com verdades em batalhas para ambos perdidas.
Para ela, garra vital não depende da juventude. Amor não se agarra à força bruta.
Procuro segredos nas cores e na tintura dos seus cabelos, no esmalte das unhas bem feitas, nos traçados do batom em sua boca.
Mais do que os desenhos do tempo, que molduram seu olhar, o que me surpreende é seu querer.
Ela sabe o que quer, e ri de minhas dúvidas maduras. Ela sabe onde chegar, e confia nas coordenadas de minha vida. Não importa se eu não sei. "Precisas perder o medo de amar", ela me diz.
Eu brinco com meus vacilos, nas horas mais sérias do dia.
Ela sabe que pousou no meu mundo para ficar, como as melhores músicas que foram temas de novela.
Ela trouxe tanta luz, o sol mudou sua rotina, o dia deixou de temer  a noite.
Muitas folhas em branco aguardam para que eu diga o que sinto. Folhas que se despedem no inverno, que se despem para que volte a primavera, como  livros abertos, páginas marcadas com frases que contornam nossa vida - todos vão me acompanhar pelas manhãs, porque um  sonhador foi pego de surpresa pelas delicias do seu amor.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Rio




Rio de mim
dos meus conflitos
por estar sem roupa
e por falar esquisito.
Rio quando estou só
falo alto e me tomo de assalto
então me assusto pois recordo
a água indiferente a passar
sob a ponte.
Rio do mundo:
mundo novo
velho mundo.
Rio de tudo e até mesmo
das lembranças.
Me visito:
não tenho idéias
nem platéia
além das velhas.
Rio das crenças
e mentiras verdadeiras.
Rio dos filmes que vi
e dos que deixei passar.
Rio sem graça quando penso
que posso perder o rumo sem o rumor
de uma aventura que não vivi.
Rio da vida minha arte.
Rio do dinheiro e felicidade.
Rio o tempo inteiro
só pela metade.
Rio por alimentar
o meu mundo artificial.
Rio por ser escravo conquistador.
Rio do ciúme e do amor.
Rio dos vermes
rio das traças
rio das agendas
rio das desgraças.
rio dos pobres
rio das causas
rio das canções
rio das falas
rio espontâneo
rio sem valor
rio, meu rio,
sem teu riso
nada sou!

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Contação de histórias




Na sexta-feira, 17, esteve presente no Colégio Comendador Soares de Barros em Ajuricaba, o escritor Américo Piovesan, autor de livros infanto-juvenis, criador do personagem “Teco, o poeta sonhador”.


O escritor realizou contação de histórias para alunos do 4º ano a 8ª série e Ensino Médio, falou sobre a importância da leitura e autografou livros adquiridos pelos alunos.


O encontro faz parte do projeto de leitura desenvolvido na escola e visa aproximar escritores e alunos, no intuito de incentivar a formação de novos leitores e a difusão da literatura.































quinta-feira, 16 de junho de 2011

FOME


Mendigo 1:

- Eu tive dor de estômago a noite toda.

Mendigo 2:

- Eu também. Será que foi alguma coisa que a gente não comeu?

terça-feira, 14 de junho de 2011

Para descontrair


Um repórter entrevistando um pirata:
- Por que o senhor usa perna de pau?
- Ah... a gente estava atacando um navio e, de repente, um tiro de canhão cortou fora  a minha perna!
- E esse gancho na sua mão direita?
- Ah... a gente estava atacando um navio e, de repente, alguém com uma espada cortou fora o meu braço!
- E esse olho de vidro?
- Ah... a gente estava descansando em uma praia e entrou um cisco no meu olho e deu nisso.
- Mas... um cisco não cega ninguém!!
- Não foi o cisco. É que era o primeiro dia que eu usava o gancho no lugar da mão.

sábado, 11 de junho de 2011

Quero te amar...



Quero te amar sempre que sentir tua falta
porque o amor precisa ser desejado.
Quero te amar sem estar culpado
se passei o dia pensando em mim.
Quero ser sozinho de vez em quando
porque eu gosto da solidão.
Quero ficar sozinho de um jeito brando
pra despertar o amor no meu coração.
Não quero o amor pasteurizado
amor a vácuo empacotado num cruzeiro
com centenas de fotos e book
pra exibir aos amigos e companheiros.
Não quero amor com segurança
e vigilante o dia inteiro.
Não quero o amor raquítico, esquálido
prefiro o suave, que serve de calmante
amor com açúcar mascavo
no lugar do adoçante.
Não quero amor paparicado
amor com hora marcada
amor badalado, amor da moda.
Meu amor quer música suave
e um pouco de silêncio, mais nada.

***

Teu silêncio me desconcerta
tua tristeza me destempera
teus suspiros me alertam
tua boca me acelera
teu sorriso me pondera
teu calor acorda as feras.
À noite eu liberto minhas quimeras
e a tristeza então é primavera!

quinta-feira, 9 de junho de 2011

O preço da paixão


É muito relativo sabermos o preço que pagamos, no convívio social, ao manifestarmos nossas paixões.



Um amigo meu fez comentários a respeito do dono do bar que ele frequenta, quando vai assistir os jogos da dupla grenal. O dono desse bar é torcedor apaixonado, e manifesta sua paixão como se estivesse assistindo o jogo na geral do estádio. Xinga o técnico pelas escolhas que este faz ao escalar determinado jogador, e xinga também algum torcedor mais exaltado (seu cliente), se este o contrariar.


Ele não se preocupa com o linguajar da economia, com equações do tipo “custo-benefício”. Não está nem aí para o fato de que, no cotidiano dos negócios, implicitamente, “operam” equações econômicas.


Porém, desconfio que os clientes observam a sua performance. E se suas manifestações apaixonadas conflituam com as manifestações de seus clientes, então ele pode estar conduzindo mal os negócios.


Temos curiosidade a respeito da vida dos outros. Observamos tudo o que acontece por aí. Prestamos atenção na maneira como os outros jogam e, se nos decepcionam, nos afastamos.


Com tantas novidades, mudamos de lugares e de pessoas que frequentamos. Acho que nunca como agora fomos tão ciganos. É que triplicam os convites, tanta gente colocando-se na vitrine.


Quando falo do cuidado que precisamos ter ao externarmos nossa paixão, não me refiro apenas aos negócios, mas a todas as esferas onde se dão as relações humanas.


Admiro as pessoas que conseguem se manter equilibradas na sociedade, e que passam aos outros uma imagem positiva, e assim servem de modelo para as gerações mais jovens.


Foi o que senti ao ver pela TV a despedida, do futebol, de Ronaldo Nazário.


Senti inveja. Uma inveja boa. Aquela inveja que me permitiu a seguinte pergunta: como estou conduzindo minha vida no contexto social, onde influencio e sou influenciado pelos outros?


domingo, 5 de junho de 2011

Felicidade clandestina - Clarice Lispector



Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme, enquanto nós todas éramos achatadas. Como se não bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuia o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria.

Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para o aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima pslsvras como "data natalícia" e "saudade".

Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia.



Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim uma tortura chinesa. Como casualmente, informou-me que possuía As reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato.
Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria.

Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança da alegria: eu não vivia, eu nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam.


No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez.


Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono de livraria era tranquilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do "dia seguinte" com ela ia se repetir com meu coração batendo.


E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra.


Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados.


Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler!


E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: "E você fica com o livro por quanto tempo quiser." Entendem? Valia mais do que me dar o livro: "pelo tempo que eu quisesse" é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer.


Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo.


Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar… Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.


Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.


Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.


Felicidade clandestina. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1981.


sexta-feira, 3 de junho de 2011

Minha imaginação


Dou rédeas à imaginação e ela, no seu tropel delirante, traça planos pouco honestos. Doida para obter vantagens, corrompe e atropela os outros, quer ganhar dinheiro, estátus, granjear respeito.
Promete que, se ganhar sozinha a bolada da mega-sena, vai doar metade às instituições de caridade. Mas basta me distrair, e ela foge com todo o dinheiro, abandona e ri dos amigos e familiares. Nenhum remorço, ao contrário, a imaginação deleita-se de prazer por levar vantagem.
Acordo e meu sentimento de culpa recupera o fôlego, tenta manter o controle da realidade. Tenho tarefas a cumprir, pai, trabalhador, vizinho, amigo. Educação, boas maneiras, otimismo, bom humor...
Não é por acaso, minha formatação deu-se com o passar de vários séculos, para que eu pudesse me sustentar nos trilhos.
Deveres, obrigações. A razão se desdobra para se convencer de que haverá recompensa no final.
A imaginação é cúmplice dos sete pecados capitais. Se depender dela, os pecados serão muitos mais! Proliferarão, mesmo que corrompam de vez todo mundo.
Se ela me traz deleite no início  e no meio do caminho, me abandona no final. Sofro na hora da colheita. Tento convencer a mim mesmo de que a imaginação precisa de rédea curta. Devo inventar prazeres que a substituam. Prazeres que não são bem prazeres. Não exatamente como eu queria. São meros quebra-galhos.
Tapo o sol com a peneira, deixo a vida me levar, um dia de cada vez.
Mas eu sei. O tempo me ensinou. Algo no meu ser o comprova. Basta um descuido, e a imaginação corrompe a tudo e todos.
Mas, paradoxalmente, sem ela tudo se torna tão chato e previsível!

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Picoletes - Apparicio Silva Rillo


Ao Coscós, para burro completo, só faltava as guampas. Como burro não tem guampas...

Numa de suas idas a São Luiz Gonzaga o Coscós conheceu o picolé, ainda raro por aquelas bandas na época deste causo. Experimentou, gostou, comeu uns quinze.

Chegou na estância, de volta, e contou a novidade do  tal de "picoletes". Uma beleza! Gostoso! Friozinho! Pena que tinha um defeito...

-  Que defeito, Coscós?

- Mais molengão do que pica de véio. Comprei uma dúzia, botei no bolso da bombacha, montei a cavalo e me mandei. Comecei  a sentir um friozito nas bolas mas não dei atenção. Quando cheguei na estância me assustei. Havia desaparecido os picoletes. Só me sobraram os pauzinhos dos vivente...


Do livro Rapa de tacho 3. Porto Alegre, Tchê, 1984.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Amador



Amador
Lindomar
           cansou
de tanto amor
             sem sal.
Como é o Tal
agora vai cuidar
do seu quintal
(de alguns sabores
                  e cheiros).

Amador
Narciso
perdeu de vez
                   o juízo
vai descolar o mundo
        com seu meio guizo.

Amador Joãozinho
de tanto amar
a meia boca
desembocou sozinho.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

A traça de A a Z - Nani


Bala

- Eu sou a bala. Boa para chupar se sou 
doce. Mas, se sou bala de revólver, eu 
posso matar. Prefiro ser bala doce e ficar 
na sua boca adoçando sua vida, 
adoçando o seu beijo. 
Se faço uma criança feliz, 
de tanta alegria me derreto toda.

Cabrito

Tranquilo, nada aflito.
E que vive a comer capim
e só se irrita
quando alguma criança bobona
diz que o seu cocô parece uma azeitona.

Nariz

- Eu sou a palavra nariz
e estou muito infeliz.
Quando o dicionário está 
fechado
eu fico sem respirar
e quase morro sufocado.
Mas se abrem o dicionário
na página que estou é pior,
pois pego uma friagem
e fico logo resfriado.
A minha vida é mesmo assim:
entre o sufoco e o atchim!

quarta-feira, 18 de maio de 2011

No berço e no troninho - Flavio de Souza



Meu pai que se chama Cláudio de Souza, adora livros. Não foi à toa que ele trabalhou com livros, revistas e jornais a vida toda, começando antes mesmo de se formar em Advocacia. Na verdade, ele ainda trabalha com letras, palavras parágrafos, capítulos, etecétera.
Minha mãe que se chama Therezinha Oliveira de Souza , foi professora de 1º grau e pré – escola. Ela também adora livros. Eu não preciso pensar muito no que dar de presente no dia das mães e dos pais, aniversário e Natal .
Minha mãe adora livros. Mas meu pai é fanático. Sempre foi. As casas e o apartamento onde passei minha infância e adolescência sempre foram cheios de livros e revistas. E o seu Cláudio usou um método bem maluco para despertar o gosto por livros em seus quatro filhos. Ele colocava livros infantis, alguns importados, todos muito bonitos, em nossos berços. Antes mesmo de aprender a andar , eu já tinha páginas com letras e ilustrações ao alcance de minhas mãozinhas, E, antes mesmo de aprender a falar, eu já picava e mastigava livros. A dona Therezinha ficava com os cabelos em pé ao ver os livros lindos, que deviam não ter sido comprados a preço de banana, sendo destruídos. Mas o seu Cláudio ria. Ele sabia o que estava fazendo.
Muita gente tem costume, para não dizer a mania, de ir ao banheiro com uma "leitura" ". Eu sou uma dessas pessoas. Eu não consigo me "concentrar" se não estiver lendo alguma coisa. Esse deve ser um costume da minha família, porque desde muito pequeno eu me sentava no " troninho" com um livro ilustrado ou um gibi, que era como as pessoas chamavam as revistas de histórias em quadrinhos".
Um dia desses, eu já estava sentado no troninho e me dei conta de que estava sem leitura. Berrei para minha mãe ou uma das minhas irmãs ouvirem:
Alguém traz um livro pra eu ler?
Eu não sabia ler, eu era bem pequeno. Ler para mim, nessa época era olhar as figuras. Alguém muito paciente me levou um livro sem figuras e saiu do banheiro. Não demorou muito para eu berrar de novo, reclamando:
Mas esse livro é em inglês!

segunda-feira, 16 de maio de 2011

História da janela empenada - Lygia Bojunga Nunes


Ela gostava de ser importante, ela adorava coisa de luxo, ela queria se exibir: ela era uma árvore bonita mesmo. Dava uma flor vermelha, todo o mundo dizia que beleza! e ela estendia os galhos pra se exibir ainda mais.

Mas botaram ala abaixo. Foi pra uma serraria, suja, poeirenta. Virou táboa, ficou jogada num canto, ninguém mais prestava atenção nela, caiu na fossa. Empilharam um monte de táboas em cima dela, que fossa! Uma bela manhã resolveram: Vamos fazer porta com essas táboas. Porta grã-fina. De apartamento de luxo. No Rio de Janeiro, com vista pro mar.

 
Quando ela ouviu falar que ia morar em apartamento grã-fino saiu da fossa.


Gostou de ser porta, achou que porta tinha mais status do que janela, prateleira, taco pro chão - esse pessoalzinho. Esperou. Esperou. mas era a última da pilha. Esperou tanto que deu bicho nela: cupim. Onde o cupim mordia ela ia virando pó. Virou tanto pó que não serviu mais pra porta. Caiu na fossa.


Uma bela tarde cortaram ela toda, ela virou janela. Resolveram que ela ia ser janela na casa de uma rua bem movimentada. Um bocado de gente ia passar na rua, ia olhar para ela. E quando ela soube que ia ser muito olhada saiu da fossa.


Mas chegou um helicóptero na serraria com um recado da madrinha: precisava quatro janelas pra casa que estava fazendo: tinha pressa.


E lá se foi com mais três janelas que também já estavam prontas. Achou genial andar de helicóptero. Mas quando viu a casa da madrinha caiu na fossa: era um lugar sossegado demais. Amarrou a cara. Um tromba desse tamanho! E resolveu que queria ser janela dando pra frente: pelo menos, quem chegava na casa olhava logo pra ela; ou então dando pro mar: era bonito de olhar; ou então dando pra mata: quem sabe ela descobria no meio de tanta árvore alguma amiga de antigamente? Quando o carpinteiro viu aquela janela tão trombuda, nem pensou duas vezes: botou ela pra trás - não dando pra nada. Aí ela emburrou pra valer. Emburrou com tanta força que empenou. E nunca mais se abriu. E daí pra frente virou uma chata: a única coisa que ela curtia era a chateação dos outros.

sábado, 14 de maio de 2011

Quebrado



Quebrado. Pela enésima vez.
como bumerangue viciado,
pássaro ejaulado, que não sabe
como escapar. Quebrado
sem outra alternativa senão
visualizar uma alternativa
para superar o brete.
É o momento para pensar
como escavamos, dia após dia,
nosso buraco, e depois sofremos
para sair.
Talvez não seja possível escapar
pois nossos movimentos são circulares
no sentido anti-horário...

sexta-feira, 13 de maio de 2011

CUCA e o feitiço da encucação - Heloisa Prieto





Você já reparou que quando uma pessoa  está triste, calada, sem esperanças e vontade, todo mundo diz que ela está "encucada"? Pois é isso mesmo!
É o feitiço da CUCA, outra criadora de confusão.
Cuca tem corpo de jacaré, com uma barriga enorme e uma espessa cabeleira cor de abóbora. Antigamente viva só nas matas. Mas, como muitas florestas foram derrubadas, Cuca resolveu morar nas cidades também.
Só que, quando chega na cidade, Cuca se sente confusa. Entra na cabeça das pessoas em busca de proteção.
O "encucado" perde completamente o sentido de orientação, fica andando de um lado para o outro sem saber o que fazer nem o que dizer.
Mas, na verdade, a solução não é difícil. Basta sair da cidade, procurar árvores, águas frescas e ar puro. Sentar na sombra e deixar o corpo descansar.
Cuca adora a mata e, na floresta, ela não confunde a cabeça de ninguém. Pelo contrário, protege a fauna e a flora. Se você deixar, ela logo vai embora, feliz em voltar para o seu lar verdadeiro.
A Cuca é originária do Brasil.

Do livro Magos, Fadas e Bruxas. Companhia das letrinhas, 1994.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Não se pode amar e ser feliz ao mesmo tempo - Nelson Rodrigues


Myrna, pseudônimo de Nelson Rodrigues, tinha uma coluna no jornal Diário da noite (1949) que servia de consultório sentimental para mulheres. Recebia cartas das leitoras e lhes dava conselhos, que variavam de ‘conquiste seu marido todos os dias’, ‘fuja de homem bonito’ a ‘a mulher perdoa sempre’. No texto brilhante do autor da ‘vida como ela é’, as mulheres liam algo diferente do que se via publicado por aí. Uma realidade que até hoje não se está acostumado a lidar.


No amor, Myrna acha que devemos ser "escravos espontâneos", a ponto de, se necessário, perder a personalidade, pois "a personalidade serve para várias coisas, até para se anular" (do site deniseescreve.wordpress.com).

"No princípio do mundo, o homem e a mulher eram um só. Portanto, cada criatura bastava-se a si mesma, cada criatura significava um casal. Depois, houve uma catástrofe qualquer. E se separaram e perderam a metade masculina e a metade feminina. E o destino de cada homem ou de cada mulher passou a ser o de procurar sua outra metade, para completar-se". É dessa forma, usando o mito da "unidade primitiva do homem", uma parte deliciosamente cômica do Banquete de Platão, que Nelson responde a carta de uma leitora (Patrícia Melo, comentário no livro Não se pode amar e ser feliz ao mesmo tempo).




Infelizmente todo mundo busca uma solução pronta e produzida em série, que se pode comprar no mercado da esquina. Porcarias reproduzidas por comédias românticas, personagens de novelas e reforçada pelas revistas femininas. Falta um tanto de Myrna nas publicações hoje em dia. Um olhar masculino, menos fantasioso, mais ‘pé no chão’ e realista possível. Um bom relacionamento não se faz da noite pro dia e construir leva tempo e paciência. Ah, quanta paciência. E do feminino, o que devia se destacar, na minha opinião, devia ser a intuição. Só ela, tão sincera e tão pessoal, que pode nos ajudar nas questões do amor e da vida a dois.
ps: O título do livro é fantástico, embora eu acredite, de verdade, que dá pra amar e ser feliz ao mesmo tempo. hehe". (deniseescreve.wordpress.com).


O homem brilha pela ausência
 
 
Creio que, das cartas que tenho recebido, a de Jandira é uma das mais interessantes. Ela explica, às primeiras palavras, a natureza do seu drama: 'Acontece comigo uma coisa interessante. Brigo muito com Adalberto. E só acho, verdadeiramente, graça nele na sua ausência.' Aparentemente, o caso de Jandira é extraordinário. Uma mulher que prefere o bem-amado longe! Uma mulher que não deseja vê-lo! E, no entanto, este é um caso bastante comum. Direi mais: - a maioria das mulheres acha mais encanto no ausência que na presença do seu namorado, noivo ou esposo. Absurdo? Paradoxo? Não nada disso. Pura e simples evidência de todos os dias. E o fenômeno me parece lógico e natural. Senão, vejamos. Nós sabemos que todos os homens amam, inclusive os esquimáus. Portanto, milhões e milhões de homens. Dentro dessa quantidade tremenda - quantos homens cultos, inteligentes, interessantes? Uma minoria ínfima, irrisória. No caso da população brasileira, por exemplo. Digamos que tenhamos, no Brasil, vinte milhões de homens. Seria pedir muito querer vinte milhões de galãs de fitas de cinema. Impossível, absolutamente impossível. Se todo mundo fosse interessante, haveria uma valorização súbita e irresistível do homem desinteressante. E, por um motivo muito simples: é que ele se tornaria raro, excepcional, ultracotado. Mas, por enquanto, o que existe, multiplicado por não sei quanto, é o namorado ou noivo ou esposo desinteressante. Chegamos, então, a um ponto crucial: que deve fazer a mulher de um cidadão nessas condições? Antes de mais nada, não nos cabe nem mesmo direito de desejar que o chamado homem desinteressante desapareça. Porque assistiríamos a um espetáculo tenebroso; ou seja: o súbito despovoamento do mundo. Logo, ele deve sobreviver. E as mulheres são obrigadas a apelar para esse tipo de homem, porque o outro quase não existe. Conheço mulheres que nascem, criam-se, envelhecem e morrem, sem, jamais, terem visto um indivíduo que, do ponto de vista amoroso, seja ótimo. Muito bem. Digamos que eu me apaixone por um cidadão assim. Não posso achar a mínima graça na sua presença, porque ele é desinteressante. Tenho dois caminhos: ou deixar as coisas como estão, ou romper com ele. Mas romper não resolve nada. Porque deixo um cidadão sem encanto, e vou achar outro, nas mesmas condições (salvo a hipótese, improvável, de uma descoberta sensacional). Que faço eu? Se a presença do meu amado não me empolga, nem nada, apelo para a sua ausência. Recurso infalível! Sob a sua presença, eu o vejo como ele é, na realidade. Quero dizer, limitado, sem espírito, sem inteligência e, às vezes, feiísssimo. Já na ausência, tudo muda. Vejo-o não como ele é, mas como eu o quero, pois o que funciona é a minha livre criadora imaginação. Componho, para mim mesma, para meu regalo especial, a imagem de um homem fabuloso, que nada tem a ver com o meu amado; ou por outra, é o meu amado, mas exaltado, transfigurado, superaperfeiçoado. Eis por quê, na maioria dos casos, os homens ganham tanto com a ausência. O caso de Jandira pode se enquadrar perfeitamente nesses termos. Ela gosta de um homem que, de corpo presente, não a consegue impressionar, não consegue lhe transmitir nenhuma sensação de deslumbramento. Já que ela não deseja acabar com o romance, deve ver o menos possível o seu namorado e procurar valorizá-lo, durante a ausência. É a única solução para o caso."

 
Do livro Não se pode amar e ser feliz ao mesmo tempo. São Paulo, Companhia das letras, 2002.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

ONDE VOCÊ PAROU?


Onde você parou?
Foste pego de surpresa
tua linha de defesa cochilou
e agora você não sabe
se está sonhando ou acordado.

Não sabias, ou esquecestes,
que o amor que buscamos
não coincide com o encontrado.
O amor que vem a nós
tem seus sonhos misteriosos,
vontades impacientes se chocam
de cá e de lá, e não é estranho
que o circo, às vezes, pega fogo.

Fugimos de nossa sombra, o passado,
e chegamos a acreditar
que o desamparo da infância
foi ultrapassado.

Foges da felicidade?
Tens medo de amar?

Ouvistes tantas e tantas vezes a sentença
e te sentes culpado
achando-te diferente de todos
ser estranho, complicado...

Tanto pensei falar
mas o vazio instalou-se
(um vazio meio mortal)...
O que me vem nesse momento
é um ridículo ponto final.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Minhas férias - Luis Fernando Veríssimo


Eu, minha mãe, meu pai, minha irmã (Su) e meu cachorro (Dogman) fomos fazer camping. Meu pai decidiu fazer camping este ano porque disse que estava na hora de a gente conhecer a natureza de perto, já que eu, a minha irmã (Su) e o meu cachorro (Dogman) nascemos em apartamento, e, até os 5 anos de idade, sempre que via um passarinho numa árvore, eu gritava "aquele fugiu!" e corria para avisar um guarda; mas eu acho que meu pai decidiu fazer camping depois que viu o preço dos hotéis, apesar de a minha mãe avisar que, na primeira vez que aparecesse uma cobra, ela voltaria para casa correndo, e a minha irmã (Su) insistir em levar o toca- discos e toda a coleção de discos dela, mesmo o meu pai dizendo que aonde nós íamos não teria corrente elétrica, o que deixou minha irmã (Su) muito irritada, porque, se não tinha corrente elétrica, como ela ia usar o secador de cabelo? Mas eu e o meu cachorro (Dogman) gostamos porque o meu pai disse que nós íamos pescar, e cozinhar nós mesmos o peixe pescado no fogo, e comer o peixe com as mãos, e se há uma coisa que eu gosto é confusão. Foi muito engraçado o dia em que minha mãe abriu a porta do carro bem devagar, espiando embaixo do banco com cuidado e perguntando "será que não tem cobra?", e o meu pai perdeu a paciência e disse "entra no carro e vamos embora", porque nós ainda nem tínhamos saído da garagem do edifício. Na estrada tinha tanto buraco que o carro quase quebrou, e nós atrasamos, e quando chegamos ao local do camping já era noite, e o meu pai disse "este parece ser um bom lugar, com bastante grama e perto da água", e decidimos deixar para armar a barraca no dia seguinte e dormir dentro do carro mesmo; só que não conseguimos dormir porque o meu cachorro (Dogman) passou a noite inteira querendo sair do carro, mas a minha mãe não deixava abrirem a porta, com medo de cobra; e no dia seguinte tinha a cara feia de um homem nos espiando pela janela, porque nós tínhamos estacionado o carro no quintal da casa dele, e a água que o meu pai viu era a piscina dele e tivemos que sair correndo. No fim conseguimos um bom lugar para armar a barraca, perto de um rio. Levamos dois dias para armar a barraca, porque a minha mãe tinha usado o manual de instruções para limpar umas porcarias que o meu cachorro (Dogman) fez dentro do carro, mas ficou bem legal, mesmo que o zíper da porta não funcionasse e para entrar ou sair da barraca a gente tivesse que desmanchar tudo e depois armar de novo. O rio tinha um cheiro ruim, e o primeiro peixe que nós pescamos já saiu da água cozinhado, mas não deu para comer, e o melhor de tudo é que choveu muito, e a água do rio subiu, e nós voltamos pra casa flutuando, o que foi muito melhor que voltar pela estrada esburacada; quer dizer que no fim tudo deu certo.

Original

Aniversário, dois dias reunindo amigos, churrasco, bebida, muitos planos com meu amor, debates sobre o que fazer para salvar a humanidade. ...