segunda-feira, 23 de maio de 2011

A traça de A a Z - Nani


Bala

- Eu sou a bala. Boa para chupar se sou 
doce. Mas, se sou bala de revólver, eu 
posso matar. Prefiro ser bala doce e ficar 
na sua boca adoçando sua vida, 
adoçando o seu beijo. 
Se faço uma criança feliz, 
de tanta alegria me derreto toda.

Cabrito

Tranquilo, nada aflito.
E que vive a comer capim
e só se irrita
quando alguma criança bobona
diz que o seu cocô parece uma azeitona.

Nariz

- Eu sou a palavra nariz
e estou muito infeliz.
Quando o dicionário está 
fechado
eu fico sem respirar
e quase morro sufocado.
Mas se abrem o dicionário
na página que estou é pior,
pois pego uma friagem
e fico logo resfriado.
A minha vida é mesmo assim:
entre o sufoco e o atchim!

quarta-feira, 18 de maio de 2011

No berço e no troninho - Flavio de Souza



Meu pai que se chama Cláudio de Souza, adora livros. Não foi à toa que ele trabalhou com livros, revistas e jornais a vida toda, começando antes mesmo de se formar em Advocacia. Na verdade, ele ainda trabalha com letras, palavras parágrafos, capítulos, etecétera.
Minha mãe que se chama Therezinha Oliveira de Souza , foi professora de 1º grau e pré – escola. Ela também adora livros. Eu não preciso pensar muito no que dar de presente no dia das mães e dos pais, aniversário e Natal .
Minha mãe adora livros. Mas meu pai é fanático. Sempre foi. As casas e o apartamento onde passei minha infância e adolescência sempre foram cheios de livros e revistas. E o seu Cláudio usou um método bem maluco para despertar o gosto por livros em seus quatro filhos. Ele colocava livros infantis, alguns importados, todos muito bonitos, em nossos berços. Antes mesmo de aprender a andar , eu já tinha páginas com letras e ilustrações ao alcance de minhas mãozinhas, E, antes mesmo de aprender a falar, eu já picava e mastigava livros. A dona Therezinha ficava com os cabelos em pé ao ver os livros lindos, que deviam não ter sido comprados a preço de banana, sendo destruídos. Mas o seu Cláudio ria. Ele sabia o que estava fazendo.
Muita gente tem costume, para não dizer a mania, de ir ao banheiro com uma "leitura" ". Eu sou uma dessas pessoas. Eu não consigo me "concentrar" se não estiver lendo alguma coisa. Esse deve ser um costume da minha família, porque desde muito pequeno eu me sentava no " troninho" com um livro ilustrado ou um gibi, que era como as pessoas chamavam as revistas de histórias em quadrinhos".
Um dia desses, eu já estava sentado no troninho e me dei conta de que estava sem leitura. Berrei para minha mãe ou uma das minhas irmãs ouvirem:
Alguém traz um livro pra eu ler?
Eu não sabia ler, eu era bem pequeno. Ler para mim, nessa época era olhar as figuras. Alguém muito paciente me levou um livro sem figuras e saiu do banheiro. Não demorou muito para eu berrar de novo, reclamando:
Mas esse livro é em inglês!

segunda-feira, 16 de maio de 2011

História da janela empenada - Lygia Bojunga Nunes


Ela gostava de ser importante, ela adorava coisa de luxo, ela queria se exibir: ela era uma árvore bonita mesmo. Dava uma flor vermelha, todo o mundo dizia que beleza! e ela estendia os galhos pra se exibir ainda mais.

Mas botaram ala abaixo. Foi pra uma serraria, suja, poeirenta. Virou táboa, ficou jogada num canto, ninguém mais prestava atenção nela, caiu na fossa. Empilharam um monte de táboas em cima dela, que fossa! Uma bela manhã resolveram: Vamos fazer porta com essas táboas. Porta grã-fina. De apartamento de luxo. No Rio de Janeiro, com vista pro mar.

 
Quando ela ouviu falar que ia morar em apartamento grã-fino saiu da fossa.


Gostou de ser porta, achou que porta tinha mais status do que janela, prateleira, taco pro chão - esse pessoalzinho. Esperou. Esperou. mas era a última da pilha. Esperou tanto que deu bicho nela: cupim. Onde o cupim mordia ela ia virando pó. Virou tanto pó que não serviu mais pra porta. Caiu na fossa.


Uma bela tarde cortaram ela toda, ela virou janela. Resolveram que ela ia ser janela na casa de uma rua bem movimentada. Um bocado de gente ia passar na rua, ia olhar para ela. E quando ela soube que ia ser muito olhada saiu da fossa.


Mas chegou um helicóptero na serraria com um recado da madrinha: precisava quatro janelas pra casa que estava fazendo: tinha pressa.


E lá se foi com mais três janelas que também já estavam prontas. Achou genial andar de helicóptero. Mas quando viu a casa da madrinha caiu na fossa: era um lugar sossegado demais. Amarrou a cara. Um tromba desse tamanho! E resolveu que queria ser janela dando pra frente: pelo menos, quem chegava na casa olhava logo pra ela; ou então dando pro mar: era bonito de olhar; ou então dando pra mata: quem sabe ela descobria no meio de tanta árvore alguma amiga de antigamente? Quando o carpinteiro viu aquela janela tão trombuda, nem pensou duas vezes: botou ela pra trás - não dando pra nada. Aí ela emburrou pra valer. Emburrou com tanta força que empenou. E nunca mais se abriu. E daí pra frente virou uma chata: a única coisa que ela curtia era a chateação dos outros.

sábado, 14 de maio de 2011

Quebrado



Quebrado. Pela enésima vez.
como bumerangue viciado,
pássaro ejaulado, que não sabe
como escapar. Quebrado
sem outra alternativa senão
visualizar uma alternativa
para superar o brete.
É o momento para pensar
como escavamos, dia após dia,
nosso buraco, e depois sofremos
para sair.
Talvez não seja possível escapar
pois nossos movimentos são circulares
no sentido anti-horário...

sexta-feira, 13 de maio de 2011

CUCA e o feitiço da encucação - Heloisa Prieto





Você já reparou que quando uma pessoa  está triste, calada, sem esperanças e vontade, todo mundo diz que ela está "encucada"? Pois é isso mesmo!
É o feitiço da CUCA, outra criadora de confusão.
Cuca tem corpo de jacaré, com uma barriga enorme e uma espessa cabeleira cor de abóbora. Antigamente viva só nas matas. Mas, como muitas florestas foram derrubadas, Cuca resolveu morar nas cidades também.
Só que, quando chega na cidade, Cuca se sente confusa. Entra na cabeça das pessoas em busca de proteção.
O "encucado" perde completamente o sentido de orientação, fica andando de um lado para o outro sem saber o que fazer nem o que dizer.
Mas, na verdade, a solução não é difícil. Basta sair da cidade, procurar árvores, águas frescas e ar puro. Sentar na sombra e deixar o corpo descansar.
Cuca adora a mata e, na floresta, ela não confunde a cabeça de ninguém. Pelo contrário, protege a fauna e a flora. Se você deixar, ela logo vai embora, feliz em voltar para o seu lar verdadeiro.
A Cuca é originária do Brasil.

Do livro Magos, Fadas e Bruxas. Companhia das letrinhas, 1994.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Não se pode amar e ser feliz ao mesmo tempo - Nelson Rodrigues


Myrna, pseudônimo de Nelson Rodrigues, tinha uma coluna no jornal Diário da noite (1949) que servia de consultório sentimental para mulheres. Recebia cartas das leitoras e lhes dava conselhos, que variavam de ‘conquiste seu marido todos os dias’, ‘fuja de homem bonito’ a ‘a mulher perdoa sempre’. No texto brilhante do autor da ‘vida como ela é’, as mulheres liam algo diferente do que se via publicado por aí. Uma realidade que até hoje não se está acostumado a lidar.


No amor, Myrna acha que devemos ser "escravos espontâneos", a ponto de, se necessário, perder a personalidade, pois "a personalidade serve para várias coisas, até para se anular" (do site deniseescreve.wordpress.com).

"No princípio do mundo, o homem e a mulher eram um só. Portanto, cada criatura bastava-se a si mesma, cada criatura significava um casal. Depois, houve uma catástrofe qualquer. E se separaram e perderam a metade masculina e a metade feminina. E o destino de cada homem ou de cada mulher passou a ser o de procurar sua outra metade, para completar-se". É dessa forma, usando o mito da "unidade primitiva do homem", uma parte deliciosamente cômica do Banquete de Platão, que Nelson responde a carta de uma leitora (Patrícia Melo, comentário no livro Não se pode amar e ser feliz ao mesmo tempo).




Infelizmente todo mundo busca uma solução pronta e produzida em série, que se pode comprar no mercado da esquina. Porcarias reproduzidas por comédias românticas, personagens de novelas e reforçada pelas revistas femininas. Falta um tanto de Myrna nas publicações hoje em dia. Um olhar masculino, menos fantasioso, mais ‘pé no chão’ e realista possível. Um bom relacionamento não se faz da noite pro dia e construir leva tempo e paciência. Ah, quanta paciência. E do feminino, o que devia se destacar, na minha opinião, devia ser a intuição. Só ela, tão sincera e tão pessoal, que pode nos ajudar nas questões do amor e da vida a dois.
ps: O título do livro é fantástico, embora eu acredite, de verdade, que dá pra amar e ser feliz ao mesmo tempo. hehe". (deniseescreve.wordpress.com).


O homem brilha pela ausência
 
 
Creio que, das cartas que tenho recebido, a de Jandira é uma das mais interessantes. Ela explica, às primeiras palavras, a natureza do seu drama: 'Acontece comigo uma coisa interessante. Brigo muito com Adalberto. E só acho, verdadeiramente, graça nele na sua ausência.' Aparentemente, o caso de Jandira é extraordinário. Uma mulher que prefere o bem-amado longe! Uma mulher que não deseja vê-lo! E, no entanto, este é um caso bastante comum. Direi mais: - a maioria das mulheres acha mais encanto no ausência que na presença do seu namorado, noivo ou esposo. Absurdo? Paradoxo? Não nada disso. Pura e simples evidência de todos os dias. E o fenômeno me parece lógico e natural. Senão, vejamos. Nós sabemos que todos os homens amam, inclusive os esquimáus. Portanto, milhões e milhões de homens. Dentro dessa quantidade tremenda - quantos homens cultos, inteligentes, interessantes? Uma minoria ínfima, irrisória. No caso da população brasileira, por exemplo. Digamos que tenhamos, no Brasil, vinte milhões de homens. Seria pedir muito querer vinte milhões de galãs de fitas de cinema. Impossível, absolutamente impossível. Se todo mundo fosse interessante, haveria uma valorização súbita e irresistível do homem desinteressante. E, por um motivo muito simples: é que ele se tornaria raro, excepcional, ultracotado. Mas, por enquanto, o que existe, multiplicado por não sei quanto, é o namorado ou noivo ou esposo desinteressante. Chegamos, então, a um ponto crucial: que deve fazer a mulher de um cidadão nessas condições? Antes de mais nada, não nos cabe nem mesmo direito de desejar que o chamado homem desinteressante desapareça. Porque assistiríamos a um espetáculo tenebroso; ou seja: o súbito despovoamento do mundo. Logo, ele deve sobreviver. E as mulheres são obrigadas a apelar para esse tipo de homem, porque o outro quase não existe. Conheço mulheres que nascem, criam-se, envelhecem e morrem, sem, jamais, terem visto um indivíduo que, do ponto de vista amoroso, seja ótimo. Muito bem. Digamos que eu me apaixone por um cidadão assim. Não posso achar a mínima graça na sua presença, porque ele é desinteressante. Tenho dois caminhos: ou deixar as coisas como estão, ou romper com ele. Mas romper não resolve nada. Porque deixo um cidadão sem encanto, e vou achar outro, nas mesmas condições (salvo a hipótese, improvável, de uma descoberta sensacional). Que faço eu? Se a presença do meu amado não me empolga, nem nada, apelo para a sua ausência. Recurso infalível! Sob a sua presença, eu o vejo como ele é, na realidade. Quero dizer, limitado, sem espírito, sem inteligência e, às vezes, feiísssimo. Já na ausência, tudo muda. Vejo-o não como ele é, mas como eu o quero, pois o que funciona é a minha livre criadora imaginação. Componho, para mim mesma, para meu regalo especial, a imagem de um homem fabuloso, que nada tem a ver com o meu amado; ou por outra, é o meu amado, mas exaltado, transfigurado, superaperfeiçoado. Eis por quê, na maioria dos casos, os homens ganham tanto com a ausência. O caso de Jandira pode se enquadrar perfeitamente nesses termos. Ela gosta de um homem que, de corpo presente, não a consegue impressionar, não consegue lhe transmitir nenhuma sensação de deslumbramento. Já que ela não deseja acabar com o romance, deve ver o menos possível o seu namorado e procurar valorizá-lo, durante a ausência. É a única solução para o caso."

 
Do livro Não se pode amar e ser feliz ao mesmo tempo. São Paulo, Companhia das letras, 2002.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

ONDE VOCÊ PAROU?


Onde você parou?
Foste pego de surpresa
tua linha de defesa cochilou
e agora você não sabe
se está sonhando ou acordado.

Não sabias, ou esquecestes,
que o amor que buscamos
não coincide com o encontrado.
O amor que vem a nós
tem seus sonhos misteriosos,
vontades impacientes se chocam
de cá e de lá, e não é estranho
que o circo, às vezes, pega fogo.

Fugimos de nossa sombra, o passado,
e chegamos a acreditar
que o desamparo da infância
foi ultrapassado.

Foges da felicidade?
Tens medo de amar?

Ouvistes tantas e tantas vezes a sentença
e te sentes culpado
achando-te diferente de todos
ser estranho, complicado...

Tanto pensei falar
mas o vazio instalou-se
(um vazio meio mortal)...
O que me vem nesse momento
é um ridículo ponto final.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Minhas férias - Luis Fernando Veríssimo


Eu, minha mãe, meu pai, minha irmã (Su) e meu cachorro (Dogman) fomos fazer camping. Meu pai decidiu fazer camping este ano porque disse que estava na hora de a gente conhecer a natureza de perto, já que eu, a minha irmã (Su) e o meu cachorro (Dogman) nascemos em apartamento, e, até os 5 anos de idade, sempre que via um passarinho numa árvore, eu gritava "aquele fugiu!" e corria para avisar um guarda; mas eu acho que meu pai decidiu fazer camping depois que viu o preço dos hotéis, apesar de a minha mãe avisar que, na primeira vez que aparecesse uma cobra, ela voltaria para casa correndo, e a minha irmã (Su) insistir em levar o toca- discos e toda a coleção de discos dela, mesmo o meu pai dizendo que aonde nós íamos não teria corrente elétrica, o que deixou minha irmã (Su) muito irritada, porque, se não tinha corrente elétrica, como ela ia usar o secador de cabelo? Mas eu e o meu cachorro (Dogman) gostamos porque o meu pai disse que nós íamos pescar, e cozinhar nós mesmos o peixe pescado no fogo, e comer o peixe com as mãos, e se há uma coisa que eu gosto é confusão. Foi muito engraçado o dia em que minha mãe abriu a porta do carro bem devagar, espiando embaixo do banco com cuidado e perguntando "será que não tem cobra?", e o meu pai perdeu a paciência e disse "entra no carro e vamos embora", porque nós ainda nem tínhamos saído da garagem do edifício. Na estrada tinha tanto buraco que o carro quase quebrou, e nós atrasamos, e quando chegamos ao local do camping já era noite, e o meu pai disse "este parece ser um bom lugar, com bastante grama e perto da água", e decidimos deixar para armar a barraca no dia seguinte e dormir dentro do carro mesmo; só que não conseguimos dormir porque o meu cachorro (Dogman) passou a noite inteira querendo sair do carro, mas a minha mãe não deixava abrirem a porta, com medo de cobra; e no dia seguinte tinha a cara feia de um homem nos espiando pela janela, porque nós tínhamos estacionado o carro no quintal da casa dele, e a água que o meu pai viu era a piscina dele e tivemos que sair correndo. No fim conseguimos um bom lugar para armar a barraca, perto de um rio. Levamos dois dias para armar a barraca, porque a minha mãe tinha usado o manual de instruções para limpar umas porcarias que o meu cachorro (Dogman) fez dentro do carro, mas ficou bem legal, mesmo que o zíper da porta não funcionasse e para entrar ou sair da barraca a gente tivesse que desmanchar tudo e depois armar de novo. O rio tinha um cheiro ruim, e o primeiro peixe que nós pescamos já saiu da água cozinhado, mas não deu para comer, e o melhor de tudo é que choveu muito, e a água do rio subiu, e nós voltamos pra casa flutuando, o que foi muito melhor que voltar pela estrada esburacada; quer dizer que no fim tudo deu certo.

sábado, 30 de abril de 2011

Mês do livro - Instituto Federal Farroupilha





Mês do livro recheado de atividades



 
O Mês de abril é considerado o mês do livro porque neste mês no dia 02 é comemorado o dia Internacional do Livro Infantil, em homenagem ao escritor dinamarquês Hans Christian Andersen, no dia 18 é comemorado o Dia Nacional do Livro Infantil, em homenagem ao escritor Monteiro Lobato, e no dia 23 é comemorado o Dia Mundial do Livro, data criada em 1926 na Espanha em homenagem ao dramaturgo inglês William Shakespeare e o romancista espanhol Miguel de Cervantes.
Em função de todas essa datas alusivas ao Livro, o Instituto Federal Farroupilha - Campus Santo Augusto, por iniciativa da Bibliotecária Daniela Paulo D'acampora, está promovendo algumas atividades. Dentre elas, está o Projeto chamado a "Leitura do Outro", o qual consiste numa estante instalada no corredor em frente a Biblioteca onde alunos e servidores podem depositar revistas, livros e gibis para serem lidos por outras pessoas, sendo que a pessoa que depositar alguma publicação poderá levar outra para casa.
Os alunos também estão sendo convidados a fazerem uma atividade diferente, que consiste na montagem de um livro da história dos que passaram pelo Campus em 2011. A garotada poderá contribuir com poemas, contos, histórias, relatos, desenhos, fotos, enfim o que quiserem. O material será reunido e transformado em um livro. A idéia é de que todos os anos no mês de abril, se a idéia for bem aceita, seja lançada uma nova edição.
O resultado ficará no acervo da Biblioteca, para que daqui a alguns anos, os alunos retornem e relembrem dos acontecimentos, ou quando os filhos destes alunos vierem estudar na escola, vejam o que seus pais deixaram registrado. Todos estão convidados a deixar suas marca, com a manifestação que lhe for conveniente.
Culminando as atividades do mês, nesta sexta-feira, dia 29, está sendo realizada uma programação especial alusiva ao Dia do Livro. Trata-se de sessões de contação de histórias, com o professor Américo Piovesan. Ao longo de todo o dia, os alunos de todos os cursos, divididos em grupos, poderão participar das sessões de 30 minutos cada, realizadas no auditório.
Segunda a bibliotecária Daniela, tanto os livros para o troca-troca quanto as páginas para montar o livro podem ser entregues na biblioteca em qualquer turno. Também todos os servidores do campus estão convidados a participar das Sessões de contação de histórias a serem realizadas até às 21h de hoje.


Carla Maron
Jornalista do IF Farroupilha - Campus Santo Augusto/R.S



A aventura do cotidiano - Fernando Sabino




Todo dia ele ia para o botequim encher a cara e, quando chegava em casa, por qualquer coisinha descompunha a mulher, baixava o braço nos filhos mais velhos. Até que um dia avançou também para o menorzinho, mas a mulher o conteve, interpondo-se com decisão:
- Neste você não bate, que esse não é seu.

Do livro A falta que ela me faz. Rio de janeiro, Record, 1980.

domingo, 24 de abril de 2011

ANALOGIA






Estou comprimido
entre o bem e o mar
loucura e ilusão do sol.
Alegria e beleza
criação e tristeza.
Estou descuidado
como senhor e escravo
passaporte e juízo final.
Iludido como águia
que pousou no meu quintal
aturdido, como vôo inaugural.
Estou esquecido
como bom profissional
nos trilhos, como trem
             ao "Deus dará".
Estou endividado
como santo aposentado
ressabiado, como quem acorda
e não é manhã de sábado
como quem passeia e lava o cão
num domingo ensolarado.
Estou indignado
como futuro com alzeimer
como passado esquizofrênico
como fanático abstêmio.
Estou encurralado
como quem ficou sozinho
e percebeu, neste triste dia,
    que não passa de analogia
                                      analogia
                                           analogia...

quinta-feira, 21 de abril de 2011

A barata e o rato - Millôr Fernandes



Era uma dessas baratinhas brancas e nojentas, acostumadas só a imundície e ao monturo, comendo calmamente sua refeição composta de um pedaço de batata podre e um pedaço de tomate podre (1). Chegou junto dela um Rato transmissor de peste bubônica e lhe disse: "Comadre, ontem tive uma aventura extraordinária. Estive num lugar realmente impressionante, como você, comadre, certo jamais encontrará em toda sua vida." Barata comendo. "O lugar era uma coisa que realmente me deixou de boca aberta", - prosseguiu o Rato - "tão espantoso tão diferente é de tudo que tenho visto em minha vida roedora" (2). Barata comendo. "Imagina você" - prosseguiu o Rato - "que descobri o lugar por acaso. Vou indo numa das cavidades subterrâneas por onde passeio sempre, entrando aqui e ali numa casa e noutra, quando, de repente, percebo uma galeria que não conheço. Meto-me nela, um pouco amedrontado por não saber onde vai dar e de repente saio numa cozinha inacreditável. O chão, limpo, que nem espelho! Os espelhos, de um brilho de cegar! As panelas, polidas como você não pode imaginar! O fogão, que nem um brinco! As paredes sem uma mancha. O teto claro e branco como se tivesse sido acabado de pintar! Os armários, tão arrumados e cuidados que estavam até perfumados! Poeira em nenhuma parte, umidade inexistente, no chão, nem um palito de fósforo...


E foi aí que a Barata não se conteve. Levou a mão à boca num espasmo e protestou: "Que mania! Que horror! Sempre vem contar essas histórias exatamente no momento em que a gente está comendo!"



Moral: Para o vírus a penicilina é uma doença.
Submoral: A ecologia é muito relativa.


(1) Causando inveja a muita gente.
(2) O rato rói. É a sua sina.



domingo, 17 de abril de 2011

COTIDIANO



Concentrados no cotidiano
os homens avançam.

Amanhã
o mundo vai acabar.

Muito pode ser feito:
trabalhar, comer, dormir, acordar...
Como fazem os pássaros:
arrumar o ninho, por ovos, chocar...

A vida parece ordenar:
Depressa, depressa, vamos
transformar o entardecer!

Observo a rotina
protegido pela janela
e sua cortina.

Choca-me o incondicional:
sou racional,
mas não tenho asas para voar!

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Jeito de correr - Sérgio Capparelli


Inventei um jeito
de correr veloz,
de correr voraz,
tão rápido, tão rápido
que às vezes me ultrapasso
e me deixo para trás.

111 poemas para crianças. Porto Alegre, L@PM, 2007.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

A estranha passageira - Stanislaw Ponte Preta


- O senhor sabe? É a primeira vez que eu viajo de avião. Estou com zero hora de vôo - e riu nervosinha, coitada.


Depois me pediu que eu me sentasse ao seu lado, pois me achava muito calmo e isto iria fazer-lhe bem. Lá se ia a oportunidade de ler o romance policial que eu comprara no aeroporto, para me distrair na viagem. Suspirei e fiz o bacano respondendo que estava às suas ordens.


Madama entrou no avião sobraçando um monte de embrulhos, que segurava desajeitadamente.


Gorda como era, custou a se encaixar na poltrona e arrumar todos aqueles pacotes. Depois não sabia como amarrar o cinto e eu tive que realizar essa operação em sua farta cintura.


Afinal estava ali pronta para viajar. Os outros passageiros estavam já se divertindo às minhas custas, a zombar do meu embaraço ante as perguntas que aquela senhora me fazia aos berros, como se estivesse em sua casa, entre pessoas íntimas. A coisa foi ficando ridícula:


- Para que esse saquinho aí? - foi a pergunta que fez, num tom de voz que parecia que ela estava no Rio e eu em São Paulo.


- É para a senhora usar em caso de necessidade - respondi baixinho.


Tenho certeza de que ninguém ouviu minha resposta, mas todos adivinharam qual foi, porque ela arregalou os olhos e exclamou:


- Uai... as necessidades neste saquinho? No avião não tem banheiro?


Alguns passageiros riram, outros - por fineza - fingiram ignorar o lamentável equívoco da incômoda passageira de primeira viagem. Mas ela era um azougue (1) (embora com tantas carnes parecesse mais um açougue) e não parava de badalar. Olhava para trás, olhava para cima, mexia na poltrona e quase levou um tombo, quando puxou a alavanca e empurrou o encosto com força, caindo para trás e esparramando embrulhos para todos os lados.


O comandante já esquentara os motores e a aeronave estava parada, esperando ordens para ganhar a pista de decolagem. Percebi que minha vizinha de banco apertava os olhos e lia qualquer coisa. Logo veio a pergunta:


- Quem é essa tal de emergência que tem uma porta só pra ela?


Expliquei que emergência não era ninguém, a porta é que era de emergência, isto é, em caso de necessidade, saía-se por ela.


Madama sossegou e os outros passageiros já estavam conformados com o término do "show".


Mesmo os que mais de divertiam com ele resolveram abrir os jornais, revistas ou se acomodarem para tirar uma pestana durante a viagem.


Foi quando madama deu o último vexame. Olhou pela janela (ela pedira para ficar do lado da janela para ver a paisagem) e gritou:


- Puxa vida!!!


Todos olharam para ela, inclusive eu. Madama apontou para a janela e disse:


- Olha lá embaixo.


Eu olhei. E ela acrescentou: - Como nós estamos voando alto, moço. Olha só... o pessoal lá embaixo até parece formiga.


Suspirei e lasquei:


- Minha senhora, aquilo são formigas mesmo. O avião ainda não levantou vôo.




terça-feira, 12 de abril de 2011

ECO - José de Nicola



Com certeza
não foi o marreco
quem descobriu o ECO.

Foi o Macaco
que, ao passar pela caverna,
chamou o amigo:
- Ô Marreco!
E, para surpresa geral,
a caverna respondeu:
- ECO, ECO.

O Macaco gostou
e ficava horas
conversando com a caverna:
- O homem diz que ama a Natureza,
                                      antigamente...
- MENTE... MENTE... - respondia a caverna.

Até que num dia sem sol
(depois de uma noite sem estrelas)
apareceu um homem
de fundos olhos cor de cinza
                  e queimou a mata
                     matou o macaco
                   comeu o marreco
              e quebrou a caverna
       (e calou o ECO,
                                  lógico!)


Do livro Entre ecos e outros trecos. São Paulo, Moderna, 1995.

domingo, 10 de abril de 2011

Dona Necessidade





Dona Necessidade
finalmente me acordou
para fazer minha obra de arte.

Frases em outdoors
sussuravam assim:
"Nunca se esqueçam de mim!".

Desesperado
comecei meu livro
de memórias avulsas
parecia um quadro
com imagens atrevidas
que às vezes rimavam
outras vezes riam.

Para não desistir
no começo do caminho
não devo imaginar
que minha obra vai descansar
abandonada em algum porão.

Caminhar e criar
é acreditar que alguém
algum dia será acordado
por um momento breve
- que seja - por minha obra
ou tocha lanterna lâmpada
ou mero piscar de um
vaga-lume solitário...

- Ande, crie, pare de perguntar
se somos filhos do acaso
ou da gratuidade das coisas.
Vamos, vamos - diz Necessidade -
façamos filhos e outras pequenas
obras (de arte) se desejamos
eternidade!

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Qual destes é o seu pai? - Moacyr Scliar



 
Lamento dizer, meu filho, mas não sou nenhum desses.
Não sou, por exemplo, o Superman. Não consigo sair por aí voando, embora muitas vezes tenha vontade de fazê-lo; tenho de me mover no atrapalhado trânsito desta cidade num modesto Gol, com a esperança de não chamar a atenção dos assaltantes nem de ficar na rua com o pneu furado. Também não tenho, como o Superman, a visão de Raio-X; mal consigo ler, com muita dificuldade e incredulidade, as notícias que aparecem diariamente nos jornais e que nos falam de um mundo convulsionado e de um país perplexo.

Não sou o Homem Invisível. Não consigo passar despercebido; tenho que ocupar o meu lugar na sociedade, goste dele ou não.

Não sou o He-Man. Não tenho a Força; pelo menos não aquela força. Tenho uma pequena força, o suficiente para garantir o pão nosso de cada dia, e mesmo alguma manteiga, o que não é pouco, neste país em que muita gente morre de fome.

Não sou o Rambo; não tenho aquela formidável musculatura, nem as armas incríveis, nem o feroz ódio contra os inimigos (aliás, quem são os inimigos?). Não sou o Tio Patinhas, não sou um Transformer, não sou o Príncipe Valente. Não sou o Rei Arthur, nem Nem Merlin, o Mago, nem Fred Astaire. O que sou então?

Sou o que são todos os pais. Homens absolutamente comuns, a quem um filho transforma de repente (porque os pais são criados pelos filhos, assim como os filhos são criados pelos pais: a criança é o pai do homem). Homens comuns que levantam de manhã e vão trabalhar. Homens que se angustiam com as prestações a pagar, com os preços do supermercado, com as coisas que estão sempre estragando em casa. Homens que de vez em quando jogam futebol, que às vezes fazem churrasco, que ocasionalmente vão a um teatro ou a um concerto. Destes homens é que são feitos os pais.

Quando os filhos precisam, estes homens se transformam. Se o filho está doente, se o filho está com fome, se o filho precisa de roupa - estes homens adquirem a força do He-Man, a velocidade do Superman, os poderes mágicos de Merlin. Mas a verdade é que isto não dura sempre, e também nem sempre resolve. A inflação, por exemplo, nocauteia qualquer pai.

Não, filhos, não somos os seres poderosos que vocês gostariam que fôssemos. Mas somos os pais de vocês, que um dia serão pais como nós. Os heróis são eternos. os pais não. E é nisso que está a sua força.



terça-feira, 5 de abril de 2011

Confuso - Luis Fernando Veríssimo




O Consumidor acordou confuso. Saíam torradas do seu rádio-despertador. De onde saía então - quis descobrir - uma voz do locutor? Saía do fogão elétrico, na cozinha, onde a empregada, apavorada, recuara até a parede e, sem querer, ligara o interruptor da luz, fazendo funcionar o gravador na sala. O Consumidor confuso sacudiu a cabeça, desligou o fogão e o interruptor, saiu da cozinha, entrou no banheiro e ligou seu barbeador elétrico. Nada aconteceu. Investigou e descobriu que a sua Mulher, na cama, é que estava ligada e zunia como um barbeador. Abriu uma torneira do banheiro para lavar o sono do rosto. Talvez aquilo tudo fosse só o resto de um pesadelo. Pela torneira jorrou um café instantâneo.


Confuso, o Consumidor escovou os dentes com o novo desodorante e sentou na tampa da privada - fazendo soar a campainha da porta - para pensar. Acendeu um batom Roxo Purple, nova sensação, da Mulher. O que estaria acontecendo? Resolveu telefonar para o Amigo. Saiu do banheiro e foi para a sala.


Quando girou o disco do telefone a televisão a cores começou a funcionar. Pensou com rapidez. Foi até o televisor e, no selecionador de canais, discou o número do amigo. Saiu laranjada do telefone. Apagou o batom num cinzeiro e voltou para o quarto. A Mulher acabava de acordar e, sonolenta, caminhava na direção do banheiro. Viu a Mulher fechar a porta do banheiro e dali a pouco ouviu a campainha da porta tocar de novo. Esperou.


Quando a mulher abriu a porta do banheiro e, confusa, lhe disse, "Querido..." ele antecipou:


- Já sei. Saiu café da torneira da pia.


- Não. Liguei o chuveiro e uma voz disse "Alô?"


Era o Amigo.


- Deixe que eu falo com ele.


Foi até o chuveiro falar com o Amigo. Contou tudo que estava acontecendo. O Amigo disse que na sua casa era a mesma coisa, saía música do condicionador de ar e a televisão corria atrás das crianças dizendo bandalheira; era o fim do mundo.


Foi quando o Consumidor, confuso, viu que o novo secador de cabelo descia sozinho da sua prateleira, atravessava o chão do banheiro como um pequeno mas decidido tanque e saía pela porta. Disse para o Amigo que o chamaria de volta, desligou o chuveiro e saiu correndo. O secador encaminhava-se lentamente para a cozinha, onde a Mulher e a Empregada, assustadas, testavam todas as utilidades domésticas. A janela da máquina de lavar roupa trasmitia o padrão do Canal 10, e o fogão, agora, dava o noticiário das oito. O Consumidor chegou a tempo de evitar que o secador atacasse sua Mulher por trás. Atirou o secador com força contra a parede. Ouviu-se um berro de dor e fúria partindo dos alto-falantes do estéreo, na sala, e ao mesmo tempo a geladeira começou a movimentar-se pesadamente na direção do Consumidor, da Mulher e da Empregada.


- A chave! - gritou o consumidor.


Saíram todos correndo pela porta da cozinha. Chegaram até a chave geral. O Consumidor abriu a portinhola, puxou a alavanca e ouviu nitidamente que se ligava o motor do Dodge Dart na garagem. O melhor era fugir!


Correram para a garagem, entraram no carro, o Consumidor botou em primeira, apertou o acelerador e um Boeing caiu em cima da casa.

domingo, 3 de abril de 2011

Millor Fernandes



Rapazinho
estuda depressa
pois burro aos trinta
é burro à beça.


Poemas. Porto Alegre. L&Pm, 1984.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Ficção científica - José Paulo Paes

 

UM PLANETA DOS MAIS RAROS:
O SEU OURO ERA DE GRAÇA,
O LIXO CUSTAVA CARO.

O ASTRONAUTA NÃO GOSTOU
E FOI-SE EMBORA. QUANDO
PENSOU ESTAR MUITO LONGE,
VIU-SE OUTRA VEZ CHEGANDO

NUM PLANETA ONDE, ALIÁS,
O EM-BAIXO FICAVA EM-CIMA
E A FRENTE ESTAVA POR TRÁS...

DEPOIS DE UMA VIAGEM
PELO ESPAÇO SIDERAL,
O ASTRONAUTA CHEGOU
AO SEU DESTINO FINAL:

UM PLANETA DIFERENTE
CUJO EM-CIMA ESTAVA EM-BAIXO
E O ATRÁS FICAVA NA FRENTE.

UM PLANETA TÃO ESTRANHO
QUE A SUJEIRA ERA LIMPA
E A ÁGUA TOMAVA BANHO.

UM PLANETA MESMO LOUCO,
ONDE O MUITO ERA NADA
E O TUDO, MUITO POUCO.

JOSÉ PAULO PAES. É ISSO ALI. RIO DE JANEIRO: SALAMANDRA, 1984.

terça-feira, 29 de março de 2011

Os olhos, preguiçosos



Olhos preguiçosos
demoram para dizer
qual será a cor
do seu olhar.

Eles precisam seguir
lentamente
ser avançar crescer.
Novatos, tornam-se
indecisos e medrosos
e super-dimensionam
e se distraem
com as cores exteriores.


Penso nisso tudo
enquanto olho nos olhos da flor
amparada pelo leito do copo
em minha sala.

Sem nenhum medo 
decidiu ir em frente
para eu poder admirá-la
eternamente.


A flor tem consciência
de que sua existência
depende do meu olhar...

segunda-feira, 28 de março de 2011

Nadamos todos contra a corrente





Nadamos todos
contra a corrente
atrás da piracema da vida.

Depositamos
sonhos semente
que buscam
fecundar
as estrelas.

Somos areia água
mato chuva e vento
somos terra ar oceanos
fogo rio e tempo

o que eu sou é que não sei...
não aprendi a olhar-me por dentro.

domingo, 27 de março de 2011

A porta fechada - Carlos Queiroz Telles


A porta fechada.
A cara no espelho.
A torneira aberta.
A cara no espelho.
A água escorrendo.
A cara no espelho.
A espuma espumando.
A cara no espelho.
A mão emocionada.
A cara no espelho.

A primeira faz tcham!
A segunda faz... Ai!

Sonhos, grilos e paixões. Ed. Moderna, 1990.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Da difícil arte de redigir um telegrama


Há uma história famosa de uns parentes que tinham que comunicar por telegrama, a uma senhora que estava viajando, o falecimento de uma irmã. Reuniram-se em volta de uma mesa e toca a escrever. Primeiro foi o primo quem redigiu a nota. Depois de alguns minutos mostrou o resultado do seu trabalho: "INTERROMPA VIAGEM E VOLTE CORRENDO. TUA IRMÃ MORREU". Todos leram e um dos tios fez o seguinte comentário:

-Eu acho que não está bom. Afinal de contas, vocês sabem que ela é cardíaca, está viajando e um telegrama assim pode ser um choque. -Todos concordaram, inclusive um outro primo afastado que era sovina e achou o telegrama muito longo:

-Depois, com o preço que se paga por palavra, isso não é mais um telegrama, é um telegrana.

Ninguém riu do infame trocadilho, mesmo porque, velório não é lugar para gargalhadas. Foi a vez do cunhado tentar redigir uma forma mais amena que não assustasse a senhora em passeio. Sentou-se e escreveu: "INTERROMPA VIAGEM E VOLTE CORRENDO. TUA IRMÃ PASSANDO MUITO MAL". Novamente o telegrama não foi aprovado. Um irmão psicólogo observou:

-Não sejamos infantis. Se ela está viajando pela Europa e recebe esta notícia, não vai acreditar na história de "passando muito mal". Sobretudo com o "volte correndo" no meio.

-Também concordo - falou o primo afastado sempre pensando no custo. Então o genro aproximou-se:

-Acho que tenho a forma ideal. - Pegou no bloco e rabiscou rapidamente: "INTERROMPA VIAGEM E VOLTE DEVAGAR. TUA IRMÃ PASSANDO MAIS OU MENOS". Todos examinaram atentamente o telegrama. A filha reclamou:

-Vocês acham que mamãe é boba? Se a gente escrever que a tia está pasando mais ou menos e que ela pode voltar devagar, ela já vai adivinhar que todas estas precauções são pelo fato de ela ser cardíaca e que na realidade a irmã dela morreu!

-Concordo plenamente - disse o facultativo da família que era também sobrinho da senhora em questão. Resolveu, como médico, escrever o telegrama: "PACIENTE FORA DE PERIGO. VOLTE ASSIM QUE PUDER. PACIENTE TUA IRMÃ".

De todas as fórmulas até então apresentadas, esta foi a que causou mais revolta.

-Que troço imbecil - gritou o netinho que passeava pela sala no momento em que a mensagem era lida. Puseram o menino para fora da sala, mas no íntimo a família toda concordava com ele.

-Não, isso não. Se a gente mandar dizer que ela está fora de perigo, para que vamos pedir que ela interrompa a viagem? - argumentou o tio.

-Também acho - responderam todos num coro de aprovação. O filho mais velho resolveu tentar. Pensou bem, ponderou, sentou-se, molhou a ponta do lápis na língua e caprichou: "SE POSSÍVEL VOLTE. TUA IRMÃ SAUDOSA. PASSANDO QUASE MAL. POR FAVOR ACREDITE. CUIDADO CORAÇÃO. VENHA LOGO. SAUDADES SURPRESA".

-Realmente, esse bate todos os recordes! - disse uma nora professora. - Em primerio lugar não é "se possível", ela tem que voltar mesmo. Em segundo lugar, "saudosa" tem duplo sentido. Em terceiro lugar, ninguém passa "quase mal". Ou passa mal ou bem. "Quase mal" e "quase bem" é a mesma coisa. "Por favor acredite" é um insulto à família toda. Ninguém aqui é mentiroso. Depois "cuidado coração" não fica claro. Como telegrama não tem vírgula, ela pode pensar que a gente está dizendo "cuidado, coração",  já que a palavra coração também é usada como uma forma carinhosa de chamar os outros. Por exemplo: "Oi, coração, tudo bem?" E finalmente a palavra "surpresa" no telegrama chega a ser um requinte de crueldade. Qual é a surpresa que ela pode esperar?

- Ela pode pensar que a tia está tendo neném - falou um sobrinho.

- Aos noventa anos de idade?

Abandonaram a idéia rapidamente. Seguiu-se um longo período de silêncio em que a família andava de lá pra cá, pensando numa solução. Pela primeira vez estavam se dando conta de que não era tão fácil assim mandar um telegrama. Serviu-se o costumeiro cafezinho, enquanto cada qual do seu lado procurava uma maneira de escrever para a senhora em viagem sem que isso tivesse consequências desastrosas. De repente o irmão psicólogo explodiu num grito eurekiano de descoberta:

-Achei!

Escreveu febrilmente no papel. O telegrama passou de mão em mão e foi finalmente aprovado por todo mundo. Seu texto dizia: "SIGA VIAGEM DIVIRTA-SE. TUA IRMÃ ESTÁ ÓTIMA".


Soares, Jô. Da difícil arte de redigir um telegrama. O Globo, 26 Out, 1973.


Original

Aniversário, dois dias reunindo amigos, churrasco, bebida, muitos planos com meu amor, debates sobre o que fazer para salvar a humanidade. ...