quarta-feira, 15 de julho de 2009

CARTUM






O cartum abaixo mostra os conflitos que surgem quando as regras são questionadas. As regras (que são convenções) são o que menos importa. O que interessa, sim, é sua aceitação pelos envolvidos. O “ideal”, numa comunidade do diálogo, é que todas pessoas tenham condições de argumentar e decidir racionalmente sobre uma questão. Aqui não, já que estão em conflito a mãe seu filho, que é uma criança. O personagem ensina uma importante lição, para nós, adultos: é contestador, e força sua mãe a apresentar argumentos sobre as regras estabelecidas. Por seu lado, a mãe
está conformada com a marcha do mundo e, além disso, acredita que provocar (questionando, que seja bem entendido) uma certa desordem na sociedade vai tornar a pessoa infeliz.


A MAMÃE ESTÁ
ME ENSINANDO A
SOLETRAR, MAS
EU NÃO ENTENDIA,
E ELA DISSE QUE
ERA MUITO SIMPLES:
JOEL, G-A-T-O
QUER DIZER
GATO, E EU
DISSE:
POR QUÊ?

E ELA DISSE POR
QUE É ASSIM,
E EU PERGUNTEI
POR QUE ERA
ASSIM, E ELA
DISSE QUE DEUS
QUERIA QUE
FOSSE ASSIM
E EU PERGUNTEI:
POR QUE
W-X-Y-Z
NÃO QUER
DIZER GATO?

E ELA DISSE QUE É POR-
QUE NÃO É ASSIM
E EU DISSE POR QUE NÃO
SE EU QUERO QUE
SEJA ASSIM E ELA
QUE É POR
CAUSA DAS
REGRAS...

EU DISSE QUE AS
REGRAS SÃO BOBAS
E G-A-T-O QUER
DIZER GATO É UMA
REGRA ESTÚPIDA E
ULTRAPASSADA, E
W-X-Y-Z QUER DIZER
GATO É MELHOR E
MAIS MODERNO E ELA
DISSE: NÃO TENTE RE-
FORMAR O MUNDO,
JOEL, OU VOCÊ SERÁ
MUITO INFELIZ!

E EU PERGUNTEI POR QUE
AS REGRAS ANTIGAS
ESTÃO SEMPRE CERTAS
E POR QUE AS REGRAS
NOVAS ESTÃO SEMPRE
ERRADAS, E ELA DISSE:
JÁ FUI PACIENTE DEMAIS
COM VOCÊ, RAPAZINHO,
E AGORA SOLETRE GATO
DE MODO CERTO OU IRÁ
PARA A CAMA UMA SEMANA
SEM VER TV...

E EU DISSE QUEM PRECISA
VER TV, E ELA DISSE: DEIXE
DE SER MALCRIADO, VOCÊ
PRECISA DE TV, E EU DISSE:
NÃO PODEMOS CONVERSAR
COMO DUAS PESSOAS
CIVILIZADAS, E ELA DISSE
QUE EU ARRANJEI ESSAS
IDÉIAS ENGRAÇADAS NA
RUA; FICAREI SEM TV
DURANTE UM MÊS...

E EU
DISSE
QUE
W-X-Y-Z
QUER
DIZER
GATO.

E NINGUÉM
ME
FARÁ
MUDAR
DE
IDÉIA.

A-B-C-D
E-F-G
QUER
DIZER
SOCORRO.

(Feiffer. Entre sensos e pensos. Gráfica Bahiense, 1976).

sábado, 11 de julho de 2009




Não dou conta
dos sussurros
à minha volta.

Os sentidos
de cada ato
se diluem no ar
sem pensamentos
pra apanhar.

Tantas opiniões
bem ditas
sobre novela,
futebol e política
são compartilhadas
pelos sujeitos
diante dos jornais
rádio e TV.

Tudo se anuncia
e escapa
em cada gesto
ou num piscar
de olhos.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

MEDOS







Na hora exata
descobrimos
que não verte sangue
cortar as unhas.

Mais que depressa
outros medos
dizem sim.

Um deles
é a teimosia
de que um dia
vamos adivinhar
- e antecipar -
nosso fim.



quinta-feira, 9 de julho de 2009

RECOMPENSA



Ansiamos
pela notícia
bombástica
que vai nos alegrar.

Sustos fogem
num tropel de asas

investimentos
tantos
em sonhos

que um dia vão escalar
outros caminhos.

O menino encontrou
uma moedinha
de dez centavos

estava tão alegre
que nem ligou
se era noite
ou se era dia

abriu um sorriso imenso
pois ganhou na loteria!

terça-feira, 7 de julho de 2009

FUGA



O menino aceitou

dividir a mesa,

e como prova de amizade

ofereceu uma bolinha de gude.


Nesse dia jogava na defesa.


Logo a bolinha rolou

escada abaixo

e desapareceu

na sargeta.

domingo, 5 de julho de 2009

VÊ É UMA CAIXA - Valéria Belém

Alguns séculos antes de Cristo os filósofos afirmavam que era fundamental, dentre outras coisas, a busca pelo conhecimento de si próprio. Tanto naquela época, quanto hoje, pergunta-se, também, sobre a sociedade e o universo, a origem e fim, o todo e o nada. Mas isso pouco vale, se não se consegue saber quem somos – Michael Jackson aí está para mostrar o quanto o homem é complexo, e pode se perder nos labirintos de sua alma.


O que fazer para nos conhecermos melhor? Nos últimos séculos as ciências desbravaram imensos territórios, na busca pelo conhecimento. Um dos territórios investigado foi o da subjetividade, cabendo às psicologias e à psicanálise essa tarefa.




Costuma-se dizer que os outros auxiliam na compreensão de nós mesmos. Seus comentários podem iluminar nossos auto-julgamentos. Bem, desde que tenhamos coragem de nos voltarmos para nós mesmos!



No livro de Valéria Belém, Vê é uma caixa, algumas crianças resolvem fazer uma brincadeira: comparar seus colegas e amigos com objetos. “Vê é uma caixa, Mauro é puro livro, pois está sempre cheio de histórias, e Diná é como um chiclete”. Como reagiu cada um, ao ser comparado com TAL objeto? Vê, passado o susto, decidiu assumir “seu jeitinho caixa de ser”. Foi além: começou a fazer caixas, para dá-las de presente.




Essa atitude desencadeou uma série de eventos afetivos nas pessoas que eram de seu convívio. “Todos a-ma-vam” os presentes que recebiam, inclusive uma mulher mal-humorada, que morava na rua da escola e que tinha um jardim. “Tanto azedume não combinava com flores perfumadas!” (p. 18). Bastou ela receber de presente uma caixa, do formato e do tamanho de uma chave, que seu coração se abriu.




Essa história nos permite questionar a respeito de quantos sentimentos e emoções trancamos na nossa caixa interior, o nosso coração, e que deixamos de dividir, perdendo a oportunidade de fazer novas amigos, seja no trabalho, nas escola ou até nossos vizinhos.




Os livros também são caixas que, ao serem lidos, nos presenteiam com aventuras, dramas, suspense, comédias, tragédias... São “caixinhas de surpresa” que vão abrir, não apenas nosso coração, mas também a nossa mente. “Caixinhas de surpresa” podem ser também as pessoas, pois suas atitudes deixarão de lado a indiferença, alterando a ordem dos acontecimentos, como fez VÊ, na história de Valéria Belém.

Original

Aniversário, dois dias reunindo amigos, churrasco, bebida, muitos planos com meu amor, debates sobre o que fazer para salvar a humanidade. ...