terça-feira, 10 de março de 2026

O Poeta que escutava

 

Havia um homem chamado Zé que carregava nos ombros o peso silencioso das estrelas. Não era comum: enxergava o mundo com olhos de quem já visitou outros planetas e voltou para contar - não histórias, mas silêncios.

Os terráqueos o chamavam de poeta, embora ele raramente escrevesse versos. Sua poesia morava no espaço entre uma pergunta e uma resposta, na curva atenta do pescoço quando alguém falava.

Numa noite qualquer, encontrou uma mulher pequena - não de estatura, mas de ânimo. Ela carregava dentro de si um oceano negro, bebia para afogar baleias invisíveis.

Zé não pregou. Não aconselhou. Simplesmente sentou-se ao lado, ofereceu sua bebida e tornou-se ombro. Tornou-se ouvido.

E naquele ato humilde - escutar sem esperar sua vez de falar - aconteceu o milagre que não tem nome religioso: as tristezas da mulher começaram a sair. Primeiro em gotas, depois em rios, até que o oceano diminuiu.

Foi nesse momento que a visão me arrebatou. Imaginei: e se todos fizéssemos assim? Se ao invés de armas, déssemos atenção? Se ao invés de gritar, perguntássemos? Quantas guerras não seriam evitadas - nos lares, nas mesas de escritório, nas fronteiras - se apenas nos escutássemos? O diálogo como ponte, a escuta como terra fértil onde o outro pode plantar seu sofrimento sem medo de ser ceifado.

Sinto-me, confesso, pequeno diante dessa verdade. Meus ouvidos estão cansados de tanto barulho inútil. Mas sei que posso fazer algo. Posso ser, como o Zé, aquele que arranca uma dorzinha que seja da humanidade. E talvez, aos poucos, nos tornemos virgens novamente - não de corpo, mas de espírito. Inocentes como poetas que não semeiam versos, mas flores. Que não conquistam territórios, mas cuidam de jardins. E enquanto o mundo apodrece em seus gritos, nós, silenciosos, cultivaremos o que há de mais revolucionário: a ternura de quem sabe ouvir.

 

(Pensamentos & poemas espirituosos)


quarta-feira, 4 de março de 2026

O Cão da triste figura


 Na esquina, onde o ônibus cospe seus passageiros, um vira-latas escolheu-me. Não como quem pede - como quem decreta. Seus olhos de soberano disseram: eu divido tua casa, não tua cadeia. E assim entrou Arthur, trazendo nas patas o pó das ruas que chama de lar.

Eu, prisioneiro de telas que brilham no escuro, de corpos que nunca tocarei, de vidas que não vivo. Ele, embaixador dos esquecidos - velhinhos que cambaleiam até o posto de saúde, mendigos que o asfalto engole, almas que a cidade descartou. Arthur os acompanha. Eu apenas consumo.
Quando sumiu por dois dias, bebi como quem tenta encher um balde com água de poça. Liguei para dezenas de números que não lembravam meu nome. E ele voltou, preto e sério, cara de quem viu demais deste mundo de ferro e pressa. Meu "cão da triste figura". Minha aula de humildade pelada.
Os cães não perdem tempo com espelhos. Não sabem que sou feio, que sou pequeno, que minhas virtudes cabem numa mão enquanto meus vícios precisam de caminhão. Simplesmente se enroscam nos meus pés quando o carma pesa. Simplesmente amam - essa palavra que nós humanos estragamos com condições, com cálculos, com medo.
Arthur vai às ruas e eu fico angustiado. Ele encontra amigos; eu encontro garotas de pixels. Ele se alimenta do fluxo; eu deixo que o fluxo me afogue. E quando estou venenoso, quando não mereço nem meu próprio olhar no espelho, ele deita sobre meus pés. Nossas energias trocam de endereço. Minha sensibilidade, que eu tinha perdido entre notificações e motel barato, retorna como cachoeira.
Não sou bom como ele. Jamais serei. Mas quando o vejo guiando os abandonados pelas avenidas de sangue, entendo: existe uma escala de valores onde os cães são anjos de quatro patas e nós, humanos, ainda tentamos aprender a ser gente.
(Pensamentos & poemas espirituosos)

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Doutor Ranço


 

Tem dias que me dá na veneta, sinto o mundo todo errado,
fico louco pra consertá-lo mas não sei como.
Aí, sobra pro meu amor.
Reclamo que ela abraça mil tarefas e não me enxerga e se afasta,
e logo me transformo num poço de carência.
Uma “entidade” sacana buzina em meu ouvido:
- Volta a ser solteiro! Vida de casado é isso, Cadelão,
muito custo e pouco benefício!
O filho da mãe dá as caras também quando estamos numa roda de amigos,
reunião ou festa.
- Cadelão, como tu suporta essas conversas?
Tu podia fazer coisas mais interessantes nessa hora.
Corre pra casa! Abre uma cerveja, retome aquela leitura,
escreva algo que preste!
O jaguara me pega de jeito e não me resta senão correr pro bar,
e disso resulta uma ressaca das brabas.
Me vi pensando esses dias...
Sinto tédio quando uso como desculpa esse fato de receber a influência da “entidade”,
que se diverte em me “noiar”.
Esse papo dizendo que há alguma coisa (que não sou eu)
me põe pra baixo, com mais tédio ainda.
No fundo, sei que é o desejo de “dobrar” ou “domar” o meu amor,
submetê-la aos meus caprichos – o louco desejo do macho
que não quer se encantar e “obedecer” ao olhar e à voz de uma deusa alfa.
Fiquei chocado quando vi no dicionário o significado pra “ranço”:
sujeito desagradável, chato, antipático.
Discordo da visão da IA. Que se danem!
O amor de minha vida dá um tempo, espera a fervura baixar,
depois de desligar a panela de pressão.
Sábia, ela reflete:
- O rançoso pensou bastante, já posso chegar perto dele
e dar o bote: baixar a chinela no seu lombo!
E é assim que a querosene de nossa paixão muda as cores do dia:
- Já te disse, doutor Ranço, tu é meu, e não tem volta!
Beijos, abraços, uma tarde de chuva e de folga e
o fogo de nossa paixão triplica, amor e sexo
transpiram pelos ares, meu coraçãozinho
a 160 por hora.
(B. B. Palermo)

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Cachorrona


 

Quem me conhece, sabe que não sirvo de modelo.
Aos 20 e poucos anos disse pra uma garotinha, por quem me apaixonei,
que fora convidado pra ser modelo.
Viram em mim (hehehe) um olhar singular
e um porte atlético que indicava personalidade forte...
O papinho funcionou por umas 2 semanas,
depois a guria sacou que eu era só mais um,
propaganda enganosa.
Li “Dona flor e seus dois maridos”, do Jorge Amado,
no finalzinho da adolescência, e fiquei impressionado
com o personagem Vadinho, um boêmio e conquistador incorrigível.
Por essas e outras influências, corri atrás de muitas garotas,
e boa parte delas “de programa”, e muitas vezes sem tomar
as devidas precauções com relação às DSTs.
Mas surgem oportunidades pra se amadurecer
e cá estou, meio aos trancos, me esforçando pra amar
com mais plenitude e menos medo.
Vestir-se de mulher pra brincar neste carnaval?
Ora bolas...
Pensando bem, pra quem encarou teste de HIV,
depois de muitos anos se ca**ndo de medo -
por conta duma vida amorosa confusa que teve - isso é fichinha.
Ainda mais no carnaval do A. Texas, onde a alegria e a brincadeira
empurram pra longe qualquer preconceito.
E tem mais: não pude dizer não ao pedido do meu bem:
- Dessa vez tu não escapa... É o nosso primeiro carnaval
e eu amo esta praia desde a infância! Tu vai comigo
vestido de cachorrona!
(B. B. Palermo)

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Adorável

 

Flocos de aveia

e uma chuva de pedras

derretem meu cérebro,

litros de gasolina

psicótica

incendeiam

meu sexo.

Meu lar é governado

por gatos alienígenas

que galopam

montados em seus cavalos

no quintal.

Eu levo uma vida um tanto

adorável

basta ela vir toda lindinha

num entardecer chuvoso 

depois da academia.

Aí eu salto poças d’água

pelas ruas indefesas

como quem ganhou

na loteria.

 

Tudo seria perfeito

e motivo de euforia

se ela acordasse em minha cama

e me amasse como a primeira vez

antes do meio dia.

 

(B. B. Palermo)


quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Desapega, menino

 


Não tenho alegria nem tesão
ao pisotear as flores das árvores
cochilando na calçada.
Tenho boas emoções ao contemplar
a bola de fogo dum sol que projeta
cores no horizonte
no final do dia.
Não devo estar preparado para bater de frente
com a semana que avança e o exame médico,
os defeitos no cafofo e os ouvidos zumbizando
enquanto se alternam as alegrias e
a falta de tempo e a ansiedade
do meu amorzinho.
Sem tesão para ouvir rock,
blues ou até música clássica ou para meditar.
Eis-me aqui.
O dia está quente e desisti de colocar máscaras
e de me maquiar.
Estacionei tempo demais nesse lugar.
Hora de desapegar e juntar umas coisas e seguir.
Rodeado de amigos, porém solitário,
sinto que não me preparei para isso.
Se houver um grande amor, que me decifre os sinais.
Antes de qualquer milagre, parece que é hora de virar a página.
E tudo se repete, e não é uma questão de idade ou experiência.
E é assim que estou me convencendo a jogar na fogueira
toneladas de versos bem intencionados.
Mas, no final das contas, Palermo,
o aconselhável é você se conter
e enfrentar o medo.
Esteja à vontade... e, se puder,
desapega, menino.

(B. B. Palermo)

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Sapo com H

 

Príncipes e princesas
acasalam,
bebem,
brigam,
gozam,
engravidam,
divorciam.

Eu ainda me sinto um sapo,
boiando em dilemas,
e às vezes me escondo por dias
num retiro improvisado:
celular desligado,
antenas plugadas no silêncio,
na penumbra, no mistério.

Não tenho medo
dos vossos olhares espertos.
Tenho a coragem que juram
que não tenho.

Príncipes e princesas
sonham,
desejam,
gritam pro mundo
seus amores felizes
e escondem os amores
contrariados.

Sapo, sei bem:
os amores mais doloridos
são os que empurram
o universo.

 

(B. B. Palermo)

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Amor, me adote!


Adote um poeta
mesmo que seja para guiar pela mão
como bicho de estimação.
Poodle, shitzu, pequinês, vira-latas,
asseado, perfumado, o reizinho das calçadas.
Poeta galanteador, você sabe minha pouca intimidade
com coleira, focinheira e roupinha do time do coração,
mas, um pouco tarde, descobri que me adapto,
até estou convicto de que amanhã exibiremos
"anéis de compromisso" em nossos dedos.
Juro que não sei o que fazer com a aliança
quando cortarmos a grama do pátio
e assarmos o nosso churrasco.
Ma, depois de comermos um pé de moleque barato
numa lancheria de beira de estrada
e trocarmos aquele beijo doce,
olhos nos olhos (e todos os 4 brilhando),
tenho certeza de que alimentarás
a minha coragem pra entender
as maluquices do mundo
em suas viagens.
Adote um poeta, meu mundo feito algodão-doce,
e me conduza pela mão,
como se Don Juan fosse!

(B. B. Palermo)

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Meu tristinho Don Juan

  

Não tenha medo de amar, garoto,
vai - seja furacão, abrace, coma, espanque
essas ninfas errantes,
infelizes como você,
sempre à procura
de outro, e mais outro,
um cara dos sonhos.

Vai, Don Juan,
tua Sharon Stone te espera
num silêncio malicioso
pra dançar com tuas fantasias
impublicáveis.

Todos sabem dos teus discursos
do crepúsculo ao frescor da manhã.
acelere tua motona, corra atrás 

de façanhas sentimentais,
solte o freio do coração.

Dizem que o amor vive da falta,
que todo Don Juan sossega
quando faz o bem.

Mas você insiste em ser canalha,
um chinelo errante,
mesmo citando santos,
tipo Agostinho, que um dia disse
que viemos pra melhorar o mundo.

Juan, você quer dinheiro,
pagar (e pegar) todos os amores
e depois jogá-los fora.

Do que você foge?
O que você procura?

Pergunte à mamãe, ao pastor,
ao Buda, ao psiquiatra  

e à terapeuta lindinha.

Sei o que todos vão dizer:
- Você é incorrigível,

e tudo isso não deixa de ser

um mistério.

 

(B. B. Palermo)


domingo, 18 de janeiro de 2026

As vozes do cachorrinho e da madame eram iguais

 

Inquieto e solitário, sinto-me como as roupas expostas nos cestões das lojas quase vazias. Olhos azuis avermelhados pedem atenção enquanto criaturas passam. Tudo momentâneo, outras imagens e cenas me ocupam: comi a magrela (ou será que fui comido por ela?) que tem uma loja de lingeries e perfumes importados ali, na outra esquina. Alguns anos atrás eu era um carinha disputado pelas garotas. Xotas havia até demais. Eu esnobava. Hoje a empresária finge, ou nem sabe que ainda estou vivo.
Tudo é parte do processo.
Tomara que a decadência não me tenha como alvo, ela e sua pressa.
Logo que cheguei no bar e sugava a primeira long neck tentando esquecer a garota da loja de perfumes e a última ressaca, estacionou diante destes olhos uma madame com seu cachorrinho no colo, com cara de guaxinim, um Spitz Alemão anão. O pet latiu, madame xingou e... suas vozes eram iguais. Tudo se encaixava.
Velhos resmungam no espaço vazio do bar. Deve ser algo parecido ao que repetem pros médicos nos consultórios e pras enfermeiras e cuidadoras e caixas de supermercado e atendentes de farmácias. longevidade é o que se vê. Caixas e caixas de remédio + qualidade de vida, ainda mais nos bairros de classe média e alta da cidade. Preciso espiar o que rola nas periferias.
Não sei por que alguns velhos me deixam ansioso.
Sei que exagero quando avisto todo tipo de velhos: os mansos, os agressivos, os saudosistas, os desmemoriados. Contam as horas para que chegue a noite e finalmente dormir. Amanhã tudo se repete. Tédio. Às vezes, parecem autômatos. Se chegar vivo a uma certa idade, vou dar um jeito pra que alguém me faça uma eutanásia, sem culpas a esse camarada, é claro.
Aqui no bar, observo a tia que brinca com o bebê de um casal de jovens, seus amigos.
- Quem vai fazer um aninho? Quem? Quem? Parabéns a você!...
Ninguém liga pra ela, deve ter pisado fundo num copo. Ainda é jovem, mas a necessidade de repetir aqueles papos que todos estão por aqui a tornam uma tia chata.
Sei que sou preconceituoso.
Lembranças aleatórias.
Minha última foda consumou-se rápida, rápida, não durou mais de três minutos e decepcionou as estatísticas, passou longe de trezentas estocadas e o meu coração saiu pela boca. Era como uma canção adolescente que não suporto ouvir agora. Melosa demais, entorpecedora de rebanhos, como diria Nietzsche. Pena vocês não terem vivido na época dele. O jaguara saiu-se bem demais.
Merda. Já me desgarrei do rebanho? Talvez. Sou agora uma ovelha bebum e mal-humorada.
Outro cara que admiro é o Beethoven. Viver depois dele, desfrutar da Quinta Sinfonia em Dó Menor, é estar no lucro. Sua criação é potente, como uma pimenta que encontrei dia desses no supermercado. Chama-se Naga Morich, a pimenta.
Pra finalizar, estou relendo anotações que fiz por aí, nos bares. Leio e, pra maioria delas, faço um X com caneta tinta vermelha e escrevo HORRÍVEL! Foi o jeito que criei pra ter mais disciplina e reacender o amor próprio.
(B. B. Palermo)

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Amar não é como comprar uma geladeira



Depois de certa idade, não confio no plano A
e garanto que simpatizo com o plano B.
Plano C, por que não?
Depois de certa idade, o que vier vem bem.
Alguma experiência diz que todas as alternativas
podem estar corretas, ou nenhuma está.
Deixo de lado a visão calculista de que em tudo na vida
há causas e consequências.
Você simplesmente vai lá, se apaixona e aprende a boiar.
Queria estar sossegado no meu canto inventando histórias,
rindo das apostas ridículas que fiz e dos tombos que caí.
Então ela surgiu em meu caminho.
Nem foi um beijo, apenas o primeiro selinho
e abriu-se a caixa de Pandora e desde então
vislumbramos um mundo de apego e gozo.
Saquei que conquistar um amor não é o mesmo que ir às compras,
buscar um eletrodoméstico ou o carro dos sonhos.
Isso ficou claro, quando ela fez algumas perguntas ao poeta:
- Quais as tuas fraquezas?
- O que é o amor?
Vieram outras perguntas, mas soube depois que perguntava a si mesma - pensava em voz alta.
Sim ela não é apenas um nome, um corpo físico,
é também sua alma e consciência.
Acho que estou aprendendo a amar, como quem anda de bicicleta pela primeira vez, boca nas orelhas, dando e chamando sua atenção
e dos que estão por perto.
Ah, como é bom desejar estar bonito, ainda mais depois que ela me mostrou o bronzeado nas costas e... mais, descendo, descendo...
Me vi diante de continentes que minha boca e lábios vão percorrer a cada novo dia.
(B. B. Palermo)

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

A última saideira


Sou mais um desses inocentes funcionalmente culpados,
parte da gloriosa turma dos fundos da sala, especialistas em gazear
aquilo que realmente prestava.
A gente nunca detonou bomba nenhuma, no máximo explodimos oportunidades, relacionamentos e algum neurônio.
Chegamos a brincar com ideias grandiosas de destruir o mundo
“em nome de Deus” ou de qualquer moda existencial do momento
- mas nem isso levamos tão a sério.
Nunca paramos para escolher um sonho grande,
mergulhamos em águas rasas, acreditando que dava pé
- e dava mesmo, o problema é que nunca passava da canela.
Os monstrinhos que nos cercavam, esses que a gente chamava de amigos,
referências, inspirações, também não sabiam muito bem
o que estavam fazendo.
E eu ria com eles, porque rir sempre saiu mais barato do que pensar.
Até que um dia descobri que os monstrinhos mais perigosos não estavam lá fora,
eram os inquilinos (definitivos) que moravam dentro de mim.
Os sacanas não pagam aluguel e ainda dão palpite.
Então, pra fechar essa conta meio mal resolvida com a vida,
eu fico com a minha última saideira: meu canto, meu papel,
minha caneta, minha cerveja gelada.
Tudo isso me acaricia, me provoca, me dá um certo tesão existencial barato,
como quem promete sentido em troca de gorjeta.
E eu acredito, porque acreditar também é humano.
Aí eu rumino, imagino, fantasio minha brilhante ascensão… e minha queda ainda mais espetacular.
Tudo isso pra chegar, com estilo, no mais elegante dos destinos:
o lugar nenhum. Mas chego sorrindo - porque, convenhamos,
sempre foi esse o roteiro.
(B. B. Palermo)

sábado, 3 de janeiro de 2026

Que o amor seja eterno enquanto duro

 

O amor foi criando raízes,
cravando-se mais fundo
quando ela me submeteu
a situações nunca antes experimentadas:
mergulhar a cabeça do Júnior
numa taça enorme de cerveja.
O garoto despertou na sucção,
dobrou de tamanho,
se engraçou todo e quis agir,
bebum como o papai.
O amor, ah, o amor.
Primeiro, a escova de dentes.
Depois o creme pro cabelo,
a toalha esquecida após a praia.
Vieram os prendedores,
brincos e pulseiras largados na mesa,
o celular dormindo atrás do sofá.
A geladeira nunca esteve tão cheia.
Chocolate, até os de 70% cacau
- deve ter algum papel
no nosso tesão.
Ontem, ela trouxe uma sacola
de roupinhas
“pra fazer amor”.
Dezenas de calcinhas e sutiãs,
cores e estilos variados.
Foi aí que entendi:
não há caminho de volta.
Vamos ter que cuidar
e aguentar um ao outro
até o fim dos dias.
Que o amor seja eterno
enquanto duro.
(B. B. Palermo)

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Roncando no sofá às 3 da manhã

 

Esqueci de levar o Coiote pra passear, o pobre anda com o intestino preso
mesmo se fartando com ração importada.
Ontem escolhi um filme louco, a minha cara, bebi todo o estoque
e dormi pesado no sofá.
Filmes de sexo e violência, como os de Tarantino,
andam no meu ritmo, com seres fracassados, decadentes,
irmãos de lutas e tombos, mas não nos entregamos.
Em condições normais de sede e de culpas, não me interesso por filmes.
Mas vem a bebedeira, corro pro Youtube e aí é a repetição dos velhos enredos.
Em horas normais ouço música clássica e (ainda) não vi Céu de cara feia,
metendo pau no meu gosto musical, algo do tipo:
- Nossa, como você suporta essas músicas?
Se um dia isso acontecer, acho que nossa história danou-se.
Se ela faz comentários sobre os excessos da madrugada, desconverso.
- Você reparou na quantidade de buracos pelas ruas da cidade?
E as rótulas, meu Deus!
A gente nunca sabe o comportamento dos motoristas retardados!
Merda, esqueci de trocar o óleo do carro
e pedir pro mecânico averiguar as pastilhas de freio.
A mesada corre perigo.
Céu quer ser vegana. Encontrem-me nas gôndolas das lojas de produtos naturais,
me esgueirando por entre senhoras bem informadas por nutricionistas,
à procura de brotos e grãos e cereais e nozes e frutas secas.
Está fissurada nas proteínas vegetais, quer se afastar das malditas carnes
que entopem artérias e abrem as portas ao câncer.
Jesus Cristinho, como é difícil garantir a vida a dois e o ócio indispensável à criação,
a chopeira transbordando e não perder de vista o jogo do bicho e de sinuca e a proximidade de alguns amigos ordinários.
Como o trânsito nas rodovias, eu preciso de áreas de escape,
senão o sapato fica três números a menos no meu pé.
E os malditos copos sujos. De nada vale a ótima cerveja se os copos estão sujos.
Céu não quer estragar as unhas postiças, e quando lavo a louça
dá-se uma guerra na pia, é enorme o risco de algum prato ou copo espatifar.
Meus livros manchados de cerveja e de vinho,
os marcadores de página são recibos de jogos feitos
ou bilhetes rasurados com números que sonhei e que pretendo apostar.
Eis a síntese de minhas peripécias, ou falta de sorte, que seja.
Jesus, parece impossível alcançar a sonhada emancipação financeira
sem fazer parte do mercado de trabalho.
Para que a dialética do casamento funcione alguém deve ser ludibriado de vez em quando: deixo espalhadas sobre a mesa anotações dentro de livros
e dezenas de folhas rasuradas, que chamo de inspirações para poemas e histórias.
Proibi Céu de botar as mãos nessas preciosidades...
Não invada minha privacidade nem espante a diva criação!
Enquanto assisto o jogo de futebol pela TV e remoo essas coisas,
Ceuzinho faz seu tricô e me observa com olhos afetuosos.
Do nada, um pensamento me invade e entristece,
coisas de quem está informado sobre as loucuras do mundo:
muitas tartarugas se alimentam do plástico espalhado pelos oceanos
e então elas morrem antes de completarem 50 anos.
(B. B. Palermo)

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Ainda não éramos zumbis


 

Rapaz, lembra que em 1996 você comprou um 3 em 1
e começou a se interessar por blues,
ouvia CDs do Eric Clapton
e sentia que aquelas músicas
despertavam uma melancolia,
uma angústia boa.

Você não havia casado, nunca fora pai,
nem rabiscara um poema
pra algum hipotético filho
nascido de transas casuais
sem uso de preservativo.

O 3 em 1 rodava Clapton, Santana, Celso Blues Boy
e tantos outros,
e você amava ouvir aquilo
enquanto uma tristeza,
de um jeito estranho,
te ofertava mais e mais vida.

Décadas depois você se sente encurralado,
ou se retrai,
como o atleta que envelhece,
abandona os músculos
e passa a precisar de ajuda
até pra sentar no vaso
e puxar a descarga.

Hoje você pisa fundo no pessimismo
e convence a si e aos outros
de que tudo está perdido,
ainda mais quando alguns bostas perguntam:
“A arte vale mais do que a vida,
mais do que a comida,
mais do que a justiça?”.

Caralho,
como se uma coisa excluísse a outra.

Carros passam.
Pessoas passam.
“Essa vida é inútil, Palermão”.

Criaturas barulhentas,
olhares faiscando como fuzis.
Tudo são quedas-d’água
raivosas
correndo dentro da gente.

Existe algo que nos arrebate
e nos faça ir além
do obscurantismo,
do ódio,
das intrigas
e dos planos frustrados pro amanhã?

Existe, sim.
Mas não vem em forma de luz,
nem de manifesto,
nem de guru com dente branco.

Vem quando, por cinco minutos,
o mundo cala
e um blues antigo escapa
de um rádio ruim,

ou de um 3 em 1 imaginário.

Vem quando você percebe
que ainda sente alguma coisa,
mesmo cansado,
mesmo puto,
mesmo repetindo
que tudo acabou.

Não salva o mundo.
Não paga as contas.
Não ressuscita o garoto de 96.

Mas impede o zumbi.

E, convenhamos,
num planeta de mortos ambulantes,
isso já é quase um milagre.

 

(B. B. Palermo)


sábado, 13 de dezembro de 2025

Um velho cão também precisa de cuidados


 

O convite pra missa de sétimo dia era de um boêmio qualquer,
catado num jornal de quinta, de uma década
que ninguém mais sabe localizar.
Os pestinhas dos meus amigos acharam aquilo uma pérola.
Um deles assobiou, com aquele riso de quem tá prestes a te foder:
- Manda essa pro Palermo.
Caiu na mesa como sentença.
Vieram gargalhadas, tapas nas costas.
- Ele deve estar por esse caminho, kkkkk.
A mesa inteira virou um curral de hienas.
Aí um terceiro, um pilantrinha graduado, se aproximou
com aquele meio-sorriso que nunca anuncia coisa boa:
- Olha o juízo que fazem de ti, Cadelão.
Respirei. Procurei uma saída digna, ou pelo menos apresentável.
- Gurizada, nasce aqui um novo homem.
Falei como quem tenta convencer os deuses e a si mesmo.
Tenho uma namorada que me arrasta pra academia todo santo dia;
minha pança já desinflou uns sete quilos.
Ela tem braços e coxas que parecem treinados pra derrubar
qualquer desgraçado que respire errado ao lado dela.
Agora só bebo nos finais de semana…
O amor transforma, meus queridos. Inspira. Aleluia.
Foi então que os desgraçados mandaram o golpe final,
aquele chute no focinho já machucado:
- Um velho cão também precisa de cuidados, kkkkk.
E, juro, nesse momento ouvi uma voz rouca,
um cheiro de cigarro barato e uísque ordinário.
Bukowski, o velho safado, sussurrou no meu ouvido:
- Palermo, reage. Contra-ataca.
Não deixa que mijem na tua cabeça.
Vai. Pega pesado.
Tu ainda é o representante oficial dos fodidos -
os que tropeçam, caem, mas seguem escrevendo
como se a vida dependesse disso.
(B. B. Palermo)

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

A saudade está sempre por perto

 


Você esbanjou coragem e audácia,

correu atrás de atividades esportivas

e alimentação saudável, está envelhecendo

e percebe que é hora de se cuidar.

Isso vale, dizem, para o amor, os negócios,

planos e desejos.

O poeta Zé levantou voo e transcendeu.

Não sabemos até que ponto desejava partir.

Deixou entre nós um punhado de cinzas:

delicadas, dóceis, embaladas e disponíveis para amigos e familiares,

e punhados de poemas com palavras cheias de reticências

e frases pela metade, que continuam gritando:

- Recolham e publiquem minhas alegrias e lamentos

rabiscados em guardanapos nesses bares da vida.

Eles não podem virar cinzas!

 

O lugar pra onde se mudou deve ser menos sofrido

e, daqui, aguardo suas novidades.

Meio esquisito, cruzo pelo Sabiá, o João-de-barro

e o cachorrinho, na rua, e eles me perguntam:

 

- Por que você anda tão triste?

 

Nenhuma filosofia ou manual do luto - com ou sem prazo de validade -  

vai acalmar as repetidas ondas cósmicas que arrebentam

nas areias do A. Texas, indagando:

 

- Por quê? Por quê?

 

A saudade me acompanha.

Passo diante da casa do poeta e constato: ela também virou pó.

Retiraram janelas, portas, telhado, paredes...  e uma enorme retroescavadeira

e caminhões limparam tudo, deixando apenas um terreno

à espera de um novo lar.

 

Tudo passa, tudo se renova e se transforma, até o esquecimento?

Deixarão de pensar em nós, logo depois que partirmos?

Meu consolo é acreditar que agora o Zé vai ditar seus poemas

para algum pequeno príncipe embriagado, de um planeta qualquer.

“Se a única coisa que levamos é aquilo que vivemos,

vou me esforçar para viver aquilo que quero levar”

(Gabriel Garcia Márques).

 

(Pensamentos & poemas espirituosos)


O Poeta que escutava

  Havia um homem chamado Zé que carregava nos ombros o peso silencioso das estrelas. Não era comum: enxergava o mundo com olhos de quem já...