terça-feira, 23 de dezembro de 2025
Roncando no sofá às 3 da manhã
quarta-feira, 17 de dezembro de 2025
Ainda não éramos zumbis
Rapaz, lembra que em 1996 você comprou um 3 em 1
e começou a se interessar por blues,
ouvia CDs do Eric Clapton
e sentia que aquelas músicas
despertavam uma melancolia,
uma angústia boa.
Você não havia casado, nunca fora pai,
nem rabiscara um poema
pra algum hipotético filho
nascido de transas casuais
sem uso de preservativo.
O 3 em 1 rodava Clapton, Santana, Celso Blues Boy
e tantos outros,
e você amava ouvir aquilo
enquanto uma tristeza,
de um jeito estranho,
te ofertava mais e mais vida.
Décadas depois você se sente encurralado,
ou se retrai,
como o atleta que envelhece,
abandona os músculos
e passa a precisar de ajuda
até pra sentar no vaso
e puxar a descarga.
Hoje você pisa fundo no pessimismo
e convence a si e aos outros
de que tudo está perdido,
ainda mais quando alguns bostas perguntam:
“A arte vale mais do que a vida,
mais do que a comida,
mais do que a justiça?”.
Caralho,
como se uma coisa excluísse a outra.
Carros passam.
Pessoas passam.
“Essa vida é inútil, Palermão”.
Criaturas barulhentas,
olhares faiscando como fuzis.
Tudo são quedas-d’água
raivosas
correndo dentro da gente.
Existe algo que nos arrebate
e nos faça ir além
do obscurantismo,
do ódio,
das intrigas
e dos planos frustrados pro amanhã?
Existe, sim.
Mas não vem em forma de luz,
nem de manifesto,
nem de guru com dente branco.
Vem quando, por cinco minutos,
o mundo cala
e um blues antigo escapa
de um rádio ruim,
ou de um 3 em 1 imaginário.
Vem quando você percebe
que ainda sente alguma coisa,
mesmo cansado,
mesmo puto,
mesmo repetindo
que tudo acabou.
Não salva o mundo.
Não paga as contas.
Não ressuscita o garoto de 96.
Mas impede o zumbi.
E, convenhamos,
num planeta de mortos ambulantes,
isso já é quase um milagre.
(B.
B. Palermo)
sábado, 13 de dezembro de 2025
Um velho cão também precisa de cuidados
quarta-feira, 10 de dezembro de 2025
A saudade está sempre por perto
Você esbanjou coragem e audácia,
correu atrás de atividades esportivas
e alimentação saudável, está
envelhecendo
e percebe que é hora de se cuidar.
Isso vale, dizem, para o amor, os
negócios,
planos e desejos.
O poeta Zé levantou voo e
transcendeu.
Não sabemos até que ponto desejava
partir.
Deixou entre nós um punhado de cinzas:
delicadas, dóceis, embaladas e
disponíveis para amigos e familiares,
e punhados de poemas com palavras cheias
de reticências
e frases pela metade, que continuam
gritando:
- Recolham e publiquem minhas alegrias e lamentos
rabiscados em guardanapos nesses bares da vida.
Eles não podem virar cinzas!
O lugar pra onde se mudou deve ser
menos sofrido
e, daqui, aguardo suas novidades.
Meio esquisito, cruzo pelo Sabiá, o João-de-barro
e o cachorrinho, na rua, e eles me
perguntam:
- Por que você anda tão triste?
Nenhuma filosofia ou manual do luto -
com ou sem prazo de validade -
vai acalmar as repetidas ondas cósmicas
que arrebentam
nas areias do A. Texas, indagando:
- Por quê? Por quê?
A saudade me acompanha.
Passo diante da casa do poeta e
constato: ela também virou pó.
Retiraram janelas, portas, telhado,
paredes... e uma enorme retroescavadeira
e caminhões limparam tudo, deixando
apenas um terreno
à espera de um novo lar.
Tudo passa, tudo se renova e se
transforma, até o esquecimento?
Deixarão de pensar em nós, logo
depois que partirmos?
Meu consolo é acreditar que agora o
Zé vai ditar seus poemas
para algum pequeno príncipe
embriagado, de um planeta qualquer.
“Se a única coisa
que levamos é aquilo que vivemos,
vou me esforçar
para viver aquilo que quero levar”
(Gabriel Garcia Márques).
(Pensamentos & poemas espirituosos)
segunda-feira, 1 de dezembro de 2025
Quem espera sempre alcança
segunda-feira, 17 de novembro de 2025
Dois pra lá, dois pra cá
terça-feira, 11 de novembro de 2025
Ainda tem salvação
domingo, 2 de novembro de 2025
Nosso amor é feito mel
quarta-feira, 29 de outubro de 2025
Um dia normal
terça-feira, 28 de outubro de 2025
A dona me ajuda a atravessar o rio
Hoje me preparou um incrível café da manhã
servido na cama.
Cheia de disfarces, talvez vista roupa de enfermeira, cuidadora,
professora de meditação - ou, quem sabe,
seja analgésico, antialérgico, antibiótico ou anti-inflamatório
me bombardeando até afugentar vírus e bactérias que me atacam
nesses becos enredados por boates e bares ferventes.
É necessária e oferece sobrevida a quem for esperto
ao cruzar o seu caminho -
mas com ela nunca se é esperto.
Não no seu tamanho.
Ainda não pirei, apenas saí de mim algumas vezes.
Mas a maturidade penosa
e certas mulheres bem-intencionadas
pedem que eu abandone os maus hábitos.
Fujo das garotinhas dos traficantes,
e a cada manhã juro pra mim mesmo
que vou encarar novas rotinas -,
mas um ciclone desaba em minha alma
quando tele-entregas voam pelas ruas,
e estômagos ansiosos aguardam o xis-bacon e a pizza,
e farmácias de pernas abertas invadem madrugadas,
e ambulâncias chegam rápido,
e tudo o que preciso é manter o controle,
mas tudo o que faço é perdê-lo.
O medo ronda e espreita.
Eis que é chegada a hora:
Dona - aquela que vai apanhar minha mão
e me conduzir até o misterioso barquinho
para atravessar o último rio -
se aproxima cada vez mais,
e já escuto os seus sinais.
Chama-me com labaredas poéticas:
- Deve ser terrível, Palermo,
percorrer as romarias desse teu mundinho,
e teus olhos enxergarem apenas retângulos,
esferas e quadrados, num horizonte povoado por edifícios,
rodas de carros e motos...
Garoto, teu planetinha anda sofrível -
parece um aquário cheio de anúncios!
Vem... Vem comigo!
Dona veste minissaia e, num salto alto,
é a criatura mais linda da cidade.
Metamorfoseia-se do jeito que quiser:
loira, morena, jovem, meia-idade,
bruxa, feiticeira, musa, vilã...
Apresenta-se como se fosse da casa -
e é da casa, como os loucos amores
de outros tempos.
Se é morte ou se é vida,
não sei.
Só sei que me chama pelo nome.
Eis o derradeiro desafio:
decifrá-la, antes que me devore.
Ela ri do meu drama
e pede um último gole.
- Relaxa, Palermo,
ninguém controla nada mesmo.
E eu - meio tonto, meio lúcido -
penso que, se for pra atravessar o rio,
que seja dançando.
(B. B. Palermo)
sexta-feira, 24 de outubro de 2025
Viagem ao fim da noite
Que o amor seja eterno enquanto duro
O amor foi criando raízes, cravando-se mais fundo quando ela me submeteu a situações nunca antes experimentadas: mergulhar a cabeça do Jún...
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Nada a ver, menino! Baratas, sobreviventes neste planeta há 6 milhões de anos, passeiam pela sala cantarolando um samba do “Demô...
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