terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Roncando no sofá às 3 da manhã

 

Esqueci de levar o Coiote pra passear, o pobre anda com o intestino preso
mesmo se fartando com ração importada.
Ontem escolhi um filme louco, a minha cara, bebi todo o estoque
e dormi pesado no sofá.
Filmes de sexo e violência, como os de Tarantino,
andam no meu ritmo, com seres fracassados, decadentes,
irmãos de lutas e tombos, mas não nos entregamos.
Em condições normais de sede e de culpas, não me interesso por filmes.
Mas vem a bebedeira, corro pro Youtube e aí é a repetição dos velhos enredos.
Em horas normais ouço música clássica e (ainda) não vi Céu de cara feia,
metendo pau no meu gosto musical, algo do tipo:
- Nossa, como você suporta essas músicas?
Se um dia isso acontecer, acho que nossa história danou-se.
Se ela faz comentários sobre os excessos da madrugada, desconverso.
- Você reparou na quantidade de buracos pelas ruas da cidade?
E as rótulas, meu Deus!
A gente nunca sabe o comportamento dos motoristas retardados!
Merda, esqueci de trocar o óleo do carro
e pedir pro mecânico averiguar as pastilhas de freio.
A mesada corre perigo.
Céu quer ser vegana. Encontrem-me nas gôndolas das lojas de produtos naturais,
me esgueirando por entre senhoras bem informadas por nutricionistas,
à procura de brotos e grãos e cereais e nozes e frutas secas.
Está fissurada nas proteínas vegetais, quer se afastar das malditas carnes
que entopem artérias e abrem as portas ao câncer.
Jesus Cristinho, como é difícil garantir a vida a dois e o ócio indispensável à criação,
a chopeira transbordando e não perder de vista o jogo do bicho e de sinuca e a proximidade de alguns amigos ordinários.
Como o trânsito nas rodovias, eu preciso de áreas de escape,
senão o sapato fica três números a menos no meu pé.
E os malditos copos sujos. De nada vale a ótima cerveja se os copos estão sujos.
Céu não quer estragar as unhas postiças, e quando lavo a louça
dá-se uma guerra na pia, é enorme o risco de algum prato ou copo espatifar.
Meus livros manchados de cerveja e de vinho,
os marcadores de página são recibos de jogos feitos
ou bilhetes rasurados com números que sonhei e que pretendo apostar.
Eis a síntese de minhas peripécias, ou falta de sorte, que seja.
Jesus, parece impossível alcançar a sonhada emancipação financeira
sem fazer parte do mercado de trabalho.
Para que a dialética do casamento funcione alguém deve ser ludibriado de vez em quando: deixo espalhadas sobre a mesa anotações dentro de livros
e dezenas de folhas rasuradas, que chamo de inspirações para poemas e histórias.
Proibi Céu de botar as mãos nessas preciosidades...
Não invada minha privacidade nem espante a diva criação!
Enquanto assisto o jogo de futebol pela TV e remoo essas coisas,
Ceuzinho faz seu tricô e me observa com olhos afetuosos.
Do nada, um pensamento me invade e entristece,
coisas de quem está informado sobre as loucuras do mundo:
muitas tartarugas se alimentam do plástico espalhado pelos oceanos
e então elas morrem antes de completarem 50 anos.
(B. B. Palermo)

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Ainda não éramos zumbis


 

Rapaz, lembra que em 1996 você comprou um 3 em 1
e começou a se interessar por blues,
ouvia CDs do Eric Clapton
e sentia que aquelas músicas
despertavam uma melancolia,
uma angústia boa.

Você não havia casado, nunca fora pai,
nem rabiscara um poema
pra algum hipotético filho
nascido de transas casuais
sem uso de preservativo.

O 3 em 1 rodava Clapton, Santana, Celso Blues Boy
e tantos outros,
e você amava ouvir aquilo
enquanto uma tristeza,
de um jeito estranho,
te ofertava mais e mais vida.

Décadas depois você se sente encurralado,
ou se retrai,
como o atleta que envelhece,
abandona os músculos
e passa a precisar de ajuda
até pra sentar no vaso
e puxar a descarga.

Hoje você pisa fundo no pessimismo
e convence a si e aos outros
de que tudo está perdido,
ainda mais quando alguns bostas perguntam:
“A arte vale mais do que a vida,
mais do que a comida,
mais do que a justiça?”.

Caralho,
como se uma coisa excluísse a outra.

Carros passam.
Pessoas passam.
“Essa vida é inútil, Palermão”.

Criaturas barulhentas,
olhares faiscando como fuzis.
Tudo são quedas-d’água
raivosas
correndo dentro da gente.

Existe algo que nos arrebate
e nos faça ir além
do obscurantismo,
do ódio,
das intrigas
e dos planos frustrados pro amanhã?

Existe, sim.
Mas não vem em forma de luz,
nem de manifesto,
nem de guru com dente branco.

Vem quando, por cinco minutos,
o mundo cala
e um blues antigo escapa
de um rádio ruim,

ou de um 3 em 1 imaginário.

Vem quando você percebe
que ainda sente alguma coisa,
mesmo cansado,
mesmo puto,
mesmo repetindo
que tudo acabou.

Não salva o mundo.
Não paga as contas.
Não ressuscita o garoto de 96.

Mas impede o zumbi.

E, convenhamos,
num planeta de mortos ambulantes,
isso já é quase um milagre.

 

(B. B. Palermo)


sábado, 13 de dezembro de 2025

Um velho cão também precisa de cuidados


 

O convite pra missa de sétimo dia era de um boêmio qualquer,
catado num jornal de quinta, de uma década
que ninguém mais sabe localizar.
Os pestinhas dos meus amigos acharam aquilo uma pérola.
Um deles assobiou, com aquele riso de quem tá prestes a te foder:
- Manda essa pro Palermo.
Caiu na mesa como sentença.
Vieram gargalhadas, tapas nas costas.
- Ele deve estar por esse caminho, kkkkk.
A mesa inteira virou um curral de hienas.
Aí um terceiro, um pilantrinha graduado, se aproximou
com aquele meio-sorriso que nunca anuncia coisa boa:
- Olha o juízo que fazem de ti, Cadelão.
Respirei. Procurei uma saída digna, ou pelo menos apresentável.
- Gurizada, nasce aqui um novo homem.
Falei como quem tenta convencer os deuses e a si mesmo.
Tenho uma namorada que me arrasta pra academia todo santo dia;
minha pança já desinflou uns sete quilos.
Ela tem braços e coxas que parecem treinados pra derrubar
qualquer desgraçado que respire errado ao lado dela.
Agora só bebo nos finais de semana…
O amor transforma, meus queridos. Inspira. Aleluia.
Foi então que os desgraçados mandaram o golpe final,
aquele chute no focinho já machucado:
- Um velho cão também precisa de cuidados, kkkkk.
E, juro, nesse momento ouvi uma voz rouca,
um cheiro de cigarro barato e uísque ordinário.
Bukowski, o velho safado, sussurrou no meu ouvido:
- Palermo, reage. Contra-ataca.
Não deixa que mijem na tua cabeça.
Vai. Pega pesado.
Tu ainda é o representante oficial dos fodidos -
os que tropeçam, caem, mas seguem escrevendo
como se a vida dependesse disso.
(B. B. Palermo)

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

A saudade está sempre por perto

 


Você esbanjou coragem e audácia,

correu atrás de atividades esportivas

e alimentação saudável, está envelhecendo

e percebe que é hora de se cuidar.

Isso vale, dizem, para o amor, os negócios,

planos e desejos.

O poeta Zé levantou voo e transcendeu.

Não sabemos até que ponto desejava partir.

Deixou entre nós um punhado de cinzas:

delicadas, dóceis, embaladas e disponíveis para amigos e familiares,

e punhados de poemas com palavras cheias de reticências

e frases pela metade, que continuam gritando:

- Recolham e publiquem minhas alegrias e lamentos

rabiscados em guardanapos nesses bares da vida.

Eles não podem virar cinzas!

 

O lugar pra onde se mudou deve ser menos sofrido

e, daqui, aguardo suas novidades.

Meio esquisito, cruzo pelo Sabiá, o João-de-barro

e o cachorrinho, na rua, e eles me perguntam:

 

- Por que você anda tão triste?

 

Nenhuma filosofia ou manual do luto - com ou sem prazo de validade -  

vai acalmar as repetidas ondas cósmicas que arrebentam

nas areias do A. Texas, indagando:

 

- Por quê? Por quê?

 

A saudade me acompanha.

Passo diante da casa do poeta e constato: ela também virou pó.

Retiraram janelas, portas, telhado, paredes...  e uma enorme retroescavadeira

e caminhões limparam tudo, deixando apenas um terreno

à espera de um novo lar.

 

Tudo passa, tudo se renova e se transforma, até o esquecimento?

Deixarão de pensar em nós, logo depois que partirmos?

Meu consolo é acreditar que agora o Zé vai ditar seus poemas

para algum pequeno príncipe embriagado, de um planeta qualquer.

“Se a única coisa que levamos é aquilo que vivemos,

vou me esforçar para viver aquilo que quero levar”

(Gabriel Garcia Márques).

 

(Pensamentos & poemas espirituosos)


segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Quem espera sempre alcança


Sem ninguém para compartilhar um papo decente, meu outro eu (cada vez mais sacana e implicante, o Cara!) chamou o velho Bukowski pra tomar umas no bar.
Buk não suporta falar de literatura.
Sempre manteve distância de escritores e críticos literários.
Disse-me, numa voz rouca e pausada:
- Palermo, eu sempre quis ser outsider na literatura. Vá por mim, não te preocupe com um possível fracasso. Trabalhe doido, solto e macio... Não ligue para as multidões, elas são dependentes umas das outras. Tua única dependência é ter mais papel, mais cerveja, mais sorte, uma trepada de vez em quando e tempo bom.
Algumas semanas depois, não foi a imaginação nem a poesia, mas sim a vida real que, espertinha ou solidária, botou a Serena no meu caminho.
Rápido, reuni talento não sei de onde e, embora meio fora de forma, consegui penetrar - feito água lenta e persistente – pelas frestinhas do seu mundo, pra lá de misterioso.
Em duas semanas a paixão nos atropelou.
Fora de forma, meu tesão doido desobedeceu o processo da conquista.
A ansiedade para surpreendê-la nos momentos íntimos expulsou minhas prodigiosas ereções.
Mas o que é de um homem sem o pau duro?
Eis uma questão filosófica para desmembrar. Só que eu não queria filosofar, eu queria era sexo!
Pelos olhos e boca da Serena, a filosofia veio mansa e tomou conta do sofá aberto, almofadas espalhadas. E veio com o filósofo grego Sócrates, dizendo num certo diálogo platônico que o conhecimento não é uma criação humana, mas ele já existe, basta sermos conduzidos por um bom mestre, que assopre nossas lembranças e nos faça rememorar ou relembrar aquilo que já sabíamos e que herdamos não sei de onde.
No embalo, Serena tirou da cartola todos os livros do Kardec, e fez uma baita palestra sobre as novidades do espiritismo.
Agarro a palavra de volta, Serena me escuta (ufa!), e digo que Platão e Sócrates viajaram pra caramba nas ideias, a ponto de inspirar algumas religiões, tipo o cristianismo – colocando nosso corpo e tesão em segundo plano, como se fossem a porta de entrada para o pecado.
Não paro de falar, enquanto mordo de leve os seus lábios, contornando sua boca como quem faz uma rotatória no centro da cidade, a língua patrolando tudo o que vem pela frente e os dedos da mão direita percorrem com força os contornos de sua calcinha preta sob o short...
Mãos de polvo sobem e descem pelas suas costas, ajeitam e agarram sua cabeleira nuns beijos selvagens, minha língua driblando a dela e indo mais e mais fundo, e é o bastante para o meu pau se libertar de sua hibernação.
Eis então que o sacana do Platão me sacode e esbofeteia, dizendo que as paixões são apena sombras, passam bem longe da verdade – esta mora no reino intelectual.
Outra vez minhas ereções e nossos sonhados orgasmos ficaram pra depois. Quem espera sempre alcança. Amém.
(B. B. Palermo)

Amar não é como comprar uma geladeira

Depois de certa idade, não confio no plano A e garanto que simpatizo com o plano B. Plano C, por que não? Depois de certa idade, o que vier ...