sexta-feira, 21 de maio de 2010

LABIRINTO - Hermínio Bello de Carvalho


Acho bonito falar alemão.
Por isso, talvez, eu não queira aprender a falar alemão.
Se eu falasse alemão
as pessoas iriam dizer, simplesmente, "ele fala alemão"
e aí perderia toda a graça.
A graça está em achar bonito falar alemão.

Por isso, às vezes,
eu deixo de fazer algumas coisas.
Deixo de dizer que te amo
porque dizer que te amo soaria como uma banalidade
  a mais
nesse mundo cheio de banalidades.
E simplesmente me calo, deixo a barba crescer,
escrevo poemas para depois apagá-los de minha lembrança
e esqueço coisas que seriam inesquecíveis
simplesmente porque perdi a capacidade
de reter as coisas boas em minha memória.


Do livro Trem de Alagoas e Outros Poemas.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

SEMAFORO

Ficar ou ir em frente.
Eis a dúvida.

Ela sorri
mas seus lábios
não se movem.

Parecem dizer:

- Até quando você
vai ficar aí parado?

terça-feira, 18 de maio de 2010

HISTÓRIA TRISTE DE TUIM - Rubem Braga

João-de-barro é um bicho bobo que ninguém pega, embora goste de ficar perto da gente, mas de dentro daquela casa de João-de-barro vinha uma espécie de choro, um chorinho fazendo tuim, tuim, tuim....
A casa estava num galho alto, mas um menino subiu até perto, depois com uma vara de bambu conseguiu tirar a casa sem quebrar e veio baixando até o outro menino apanhar. Dentro, naquele quartinho que fica bem escondido depois do corredor de entrada para o vento não incomodar, havia três filhotes, não de João-de-barro, mas de tuim.
Você conhece, não? De todos esses periquitinhos que tem no Brasil, tuim é capaz de ser menor. Tem bico redondo e rabo curto e é todo verde, mas o macho tem umas penas azuis para enfeitar. Três filhotes, um mais feio que o outro, ainda sem penas, os três chorando.
O menino levou-os para casa, inventou comidinhas para eles, um morreu, outro morreu, ficou um. Geralmente se cria em casa é casal de tuim, especialmente para se apreciar o namorinho deles.
Mas aquele tuim macho foi criado sozinho e, como se diz na roça, criado no dedo. Passava o dia solto, esvoaçando em volta da casa da fazenda, comendo sementinhas de imbaúba. Se aperecia uma visita fazia-se aquela demonstração: era o menino chegar na varanda e gritar para o arvoredo: tuim, tuim, tuim! Às vezes demorava, então a visita achava que aquilo era brincadeira do menino, de repente surgia a ave, vinha certinho pousar no dedo do garoto.
Mas o pai disse: "menino, você está criando muito amor a esse bicho, quero avisar: tuim é acostumado a viver em bando. Esse bichinho se acostuma assim, toda tarde vem procurar sua gaiola para dormir, mas no dia que passar pela fazenda um bando de tuins, adeus. Ou você prende o tuim ou ele vai embora com os outros, mesmo ele estando preso e ouvindo o bando passar, esta arriscado ele morrer de tristeza".
E o menino vivia de ouvido no ar com medo de ouvir bando de tuim.


Foi de manhã, ele estava cantando minhoca para pescar quando viu o bando chegar, não tinha engano: era tuim, tuim, tuim... Todos desceram ali mesmo em mangueiras, mamonas e num bambuzal, dividido em partes. E o seu? Já tinha sumido, estava no meio deles, logo depois todos sumiram para uma roça de arroz, o menino gritava com o dedinho esticado para o tuim voltar, mas nada dele vir.
Só parou de chorar quando o pai chegou a cavalo, soube da coisa e disse: " venha cá". E disse: " o senhor é um homem, estava avisado do que ia acontecer, portanto, não chore mais".
O menino parou de chorar, pois seu pai o havia consolado, mas como doía seu coração! De repente, olhe o tuim na varanda! Foi uma alegria na casa que foi uma beleza, até o pai confessou que ele também estivera muito infeliz com o sumiço do tuim.
Houve quase um conselho de família, quando acabaram as férias: deixar o tuim, levar o tuim para São Paulo? Voltaram para a cidade com o tuim, o menino toda hora dando comidinha a ele na viagem. O pai avisou: "aqui na cidade ele não pode andar solto, é um bicho da roça e se perde, o senhor está avisado".
Aquilo encheu de medo o coração do menino. Fechava as janelas para soltar o tuim dentro de casa, andava com ele no dedo, ele voava pela sala, a mãe e a irmã não aprovavam, o tuim sujava dentro de casa.


Soltar um pouquinho no quintal não devia ser perigo, desde que ficasse perto, se ele quisesse voar para longe era só chamar, que voltava, mas uma vez não voltou.
De casa em casa, o menino foi indagando pelo tuim: "que é tuim?" perguntavam pessoas ignorantes. "Tuim?" Que raiva! Pedia licença para olhar no quintal de cada casa, perdeu a hora de almoçar e ir para a escola, foi para outra rua, para outra.
Teve uma idéia, foi ao armazém de "seu" Perrota: "tem gaiola para vender?" Disseram que tinha. " Venderam alguma gaiola hoje?" Tinham vendido uma para uma casa ali perto.
Foi lá, chorando, disse ao dono da casa: "se não prenderam o meu tuim então por que o senhor comprou gaiola hoje?"
O homem acabou confessando que tinha aparecido um periquitinho verde sim, de rabo curto, não sabia que chamava tuim. Ofereceu comprar, o filho dele gostara tanto, ia ficar desapontado quando voltasse da escola e não achasse mais o bichinho. "Não senhor, o tuim é meu, foi criado por mim".
Voltou para casa com o tuim no dedo.


Pegou uma tesoura: era triste, era uma judiação, mas era preciso, cortou as asinhas, assim o bichinho poderia andar solto no quintal, e nunca mais fugiria.
Depois foi dentro de casa para fazer uma coisa que estava precisando fazer, e, quando voltou para dar comida a seu tuim, viu só algumas penas verdes e as manchas de sangue no cimento. Subiu num caixote para olhar por cima do muro, e ainda viu o vulto de um gato ruivo que sumia.


Acabou-se a triste história do tuim.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

A vingança das abelhas


A notícia foi publicada há uma semana, mas só me deparei agora porque o jornal foi colocado no banheiro, no lugar de um tapete que estava secando no varal. Abelha vai fazer falta, diz seu título. Os americanos estão preocupados com o desaparecimento das abelhas. Está diminuindo a polinização de lavouras nos EUA. No Brasil, estudos indicam que a produtividade é muito maior em áreas próximas à fauna e flora preservadas.

 Mesmo encarcerado à intimidade do banheiro, onde posso me desligar do mundo exterior, a colisão com a notícia mexeu comigo, e esse contato com a sina das abelhas deixou-me pensativo e com um certo sentimento de culpa.



É que eu tenho um quintal enorme, com árvores enormes, quase uma micro-floresta. Meu vizinho dos fundos, não sei se por convicção ou se para competir comigo, deixa também seu quintal florescer. Na minha ingenuidade de cidadão preso aos direitos e deveres, perco o sono só de pensar que um enxame de abelhas “sem floresta” invada e tome posse de meu quintal. Se isso acontecer, será que a justiça vai me conceder reintegração de posse?


Mas a constatação de que ao ler o jornal muita coisa passa despercebida também me deixou intrigado: com tanta informação diária, não tem como filtrar e guardar tudo. Só que essa notícia (ínfima) sobre a realidade das abelhas e sua importância para o futuro da humanidade é de tirar o sono. Por outro lado, não posso transformar o santuário que é o banheiro em mais um lugar de estresse. Nele, fomos educados para evacuar, de maneira prazerosa se possível, tudo que recolhemos no percurso do dia, mas que não nos serve mais.


Só que a notícia sobre as abelhas veio mostrar que muitas notícias de jornal não são descartáveis só porque amanhã virá outra edição mais atualizada no seu lugar.


É por isso que me dá arrepios só de pensar que, mesmo dispondo de toda a parafernália atual de informática, nem por isso terei garantida a inspiração e criatividade suficientes para escrever algo significativo. Aliás, é a velha angústia de ter que enfrentar uma folha em branco, impassível e indiferente.


Enquanto centenas de folhas impressas de jornal diariamente vêm chamar minha atenção, não há nenhum rastro de abelhas por aqui (graças a Deus!). Mas isso poderá significar o meu/nosso fim e de todo o planeta.

domingo, 16 de maio de 2010

MEU IDEAL SERIA ESCREVER... Rubem Braga


Busquei no Google a crônica do velho Braga História triste de Tuim, que vou ler para os alunos de quinta a oitava séries do Ensino Fundamental do IMEAB/Ijuí-RS na próxima semana, e tive a grata surpresa de encontrar esta crônica.

Meu ideal seria escrever uma história tão engraçada que aquela moça que está doente naquela casa cinzenta quando lesse minha história no jornal risse, risse tanto que chegasse a chorar e dissesse -- "ai meu Deus, que história mais engraçada!". E então a contasse para a cozinheira e telefonasse para duas ou três amigas para contar a história; e todos a quem ela contasse rissem muito e ficassem alegremente espantados de vê-la tão alegre. Ah, que minha história fosse como um raio de sol, irresistivelmente louro, quente, vivo, em sua vida de moça reclusa, enlutada, doente. Que ela mesma ficasse admirada ouvindo o próprio riso, e depois repetisse para si própria -- "mas essa história é mesmo muito engraçada!".

Que um casal que estivesse em casa mal-humorado, o marido bastante aborrecido com a mulher, a mulher bastante irritada com o marido, que esse casal também fosse atingido pela minha história. O marido a leria e começaria a rir, o que aumentaria a irritação da mulher. Mas depois que esta, apesar de sua má vontade, tomasse conhecimento da história, ela também risse muito, e ficassem os dois rindo sem poder olhar um para o outro sem rir mais; e que um, ouvindo aquele riso do outro, se lembrasse do alegre tempo de namoro, e reencontrassem os dois a alegria perdida de estarem juntos.


Que nas cadeias, nos hospitais, em todas as salas de espera a minha história chegasse - e tão fascinante de graça, tão irresistível, tão colorida e tão pura que todos limpassem seu coração com lágrimas de alegria; que o comissário do distrito, depois de ler minha história, mandasse soltar aqueles bêbados e também aqueles pobres mulheres colhidas na calçada e lhes dissesse - "por favor, se comportem, que diabo! Eu não gosto de prender ninguém!" . E que assim todos tratassem melhor seus empregados, seus dependentes e seus semelhantes em alegre e espontânea homenagem à minha história.


E que ela aos poucos se espalhasse pelo mundo e fosse contada de mil maneiras, e fosse atribuída a um persa, na Nigéria, a um australiano, em Dublin, a um japonês, em Chicago - mas que em todas as línguas ela guardasse a sua frescura, a sua pureza, o seu encanto surpreendente; e que no fundo de uma aldeia da China, um chinês muito pobre, muito sábio e muito velho dissesse: "Nunca ouvi uma história assim tão engraçada e tão boa em toda a minha vida; valeu a pena ter vivido até hoje para ouvi-la; essa história não pode ter sido inventada por nenhum homem, foi com certeza algum anjo tagarela que a contou aos ouvidos de um santo que dormia, e que ele pensou que já estivesse morto; sim, deve ser uma história do céu que se filtrou por acaso até nosso conhecimento; é divina".

E quando todos me perguntassem - "mas de onde é que você tirou essa história?" - eu responderia que ela não é minha, que eu a ouvi por acaso na rua, de um desconhecido que a contava a outro desconhecido, e que por sinal começara a contar assim: "Ontem ouvi um sujeito contar uma história...".

E eu esconderia completamente a humilde verdade: que eu inventei toda a minha história em um só segundo, quando pensei na tristeza daquela moça que está doente, que sempre está doente e sempre está de luto e sozinha naquela pequena casa cinzenta de meu bairro.




A crônica acima foi extraída do livro "A traição das elegantes", Editora Sabiá - Rio de Janeiro, 1967, pág. 91.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

FÁBULA - Adão Ventura

Engolir sapo seco
ou vestir a camisa
dos camaleões.

Engolir sapo seco
por qualquer traste
ou migalha.

Engolir sapo seco
ao sabor do esterco
e da farsa.

Engolir sapo seco
ou mijar
pelas pernas abaixo.

Engolir sapo seco
ao invés
de sangrar os porcos.


Do livro Costura de nuvens.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

AS ESTAÇÕES ENVELHECEM

O velhinho passou vagarosamente. Esforçava-se para amenizar os vacilos que o distraiam de ir em frente.

Na hora emergiu a máxima de Heráclito, do Ser e do Vir a Ser. A constante mudança, nossa e das águas do rio. Não somos os mesmos de ontem, e as águas que agora passam não serão as mesmas que amanhã vão passar.

É inevitável. A máquina complexa do organismo envelhece, e não esconde seu declínio.

Nessas alturas falam-nos de viver com sabedoria. E acho que para isso necessitamos ter consciência de que essa máquina não pode tudo. Os órgãos envelhecem, mesmo que células que morrem dêem lugar a células que nascem, e tudo se renova, como as estações do ano.

Dizem que viver sabiamente é nos resignarmos com a perda da potência que desfrutávamos quando éramos mais jovens. De uma hora para outra diminui a energia e o ritmo.

Saltava aos olhos o esforço daquela criatura ao tentar vencer a força gravitacional. Mas a lei é objetiva, formal e universal. Não se atreva, meu velho, quando "tudo é da lei".

É grave termos esquecido da passagem inexorável do tempo, e as mudanças que ele traz.

Partes de um todo, se envelhecemos, as estações envelhecem. Vamos nos despedir no crepúsculo, antes que a Coruja de Minerva assuma o céu. Estamos a toda hora nos despedindo. mas a cada despedida torcemos para que ela nos guarde o infinito.

O certo, o que nos é permitido fazer, é pedir-lhe para que reserve um lugar para que possamos depositar nossa memória.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

O GATO E A BARATA - Millôr Fernandes


A baratinha velha subiu pelo pé do copo que, ainda com um pouco de vinho, tinha sido largado a um canto da cozinha, desceu pela parte de dentro e começou a lambiscar o vinho. Dada a pequena distância que nas baratas vai da boca ao cérebro, o álcool lhe subiu logo a este. Bêbada, a baratinha caiu dentro do copo. Debateu-se, bebeu mais vinho, ficou mais tonta, debateu-se mais, bebeu mais, tonteou mais e já quase morria quando deparou com o carão do gato doméstico que sorria de sua aflição, do alto do copo.

- Gatinho, meu gatinho - pediu ela - me salva, me salva. Me salva que assim que eu sair daqui eu deixo você me engolir inteirinha, como você gosta. Me salva.

- Você deixa mesmo eu engolir você? - Disse o gato.

- Me saaalva! - implorou a baratinha - Eu prometo.

O gato então virou o copo com uma pata, o líquido escorreu e com ele a baratinha que, assim que se viu no chão, saiu correndo para o buraco mais perto, onde caiu na gargalhada.

- Que é isso - perguntou o gato - Você não vai sair daí e cumprir sua promessa? Você disse que deixaria eu comer você inteira.

- Ah, ah, ah, - riu então a barata, sem poder se conter - E você é tão  imbecil a ponto de acreditar na promessa de uma barata velha e bêbada?  

quarta-feira, 5 de maio de 2010

AS CONVERSAS DE MANÉ BOCÓ

Mané Bocó era o rapaz mais acanhado deste mundo.

Sua mãe fazia muito gosto que ele se casasse com sua prima, moça rica e bonita, no que estavam de acordo os pais dela.

Trataram de aproximar os jovens, e para isto os pais da moça deram um baile.

A mãe de Mané Bocó, ao sair de casa com o filho, disse-lhe:

- Você, rapaz, precisa perder esse acanhamento, e conversar com a sua noiva. Mas não diga tolices. Pense bem no que terá que dizer.

Mané Bocó, em chegando, e apresentado à noiva, sentou-se ao pé dela, sem dizer uma palavra, mas a pensar no que havia de dizer.

A moça encarava-o, sorrindo. E, vai então, apontando os dedos para os olhos dela, exclamou, envergonhado:

- Eu te furo os olhos!...

A moça levantou-se e foi contar à futura sogra o que se havia passado.

A velha chamou o filho de lado e o repreendeu, aconselhando:

- Não é assim, Mané, você precisa dizer para ela palavras delicadas, coisas doces...

Então o rapaz aproximou-se de novo da namorada e, depois de muito pensar, suspirou:

- Açúcar, melado, rapadura...

A moça começou a rir e foi contar à velha o que havia acontecido.

A mãe de Mané Bocó chamou-o outra vez, de lado:

- Você nunca vai deixar de ser tolo! O que você disse à sua noiva são coisas que se dizem?!

- Pois a senhora não mandou que eu falasse em coisas doces!?... Ué!

- Nada. Vá procurá-la de novo e converse com ela em coisas do céu... em estrelas, luar, por exemplo.

Mané Bocó foi ter com a moça e, depois de muito pensar, disse-lhe:

- Raio, corisco, trovão, tempestade!!...

Tinha-lhe dito coisas do céu, pensava ele, conforme sua mãe lhe havia recomendado, estava muito contente. Mas a moça soltou uma gargalhada... E ficou desfeito o projeto de casamento.

Por isso não fui à festa do casório e assim não pude trazer para vocês um isto de doces. E acabou-se a história.

Do livro Contos populares brasileiros, de Lindolfo Gomes.

sábado, 1 de maio de 2010

ENCONTROS


As unhas do vento na janela
são carruagens que trazem
lembranças do amor.


Ecos distantes
ensaiam encontros
com tardes gloriosas.


Acreditei nas palavras da cartomante.
Nos bilhetes escritos
em guardanapos
da mesa do bar.


Os deuses esqueceram
de incendiar nossa alma
e desejar nossos desejos...


Os deuses nos abandonaram
quando viemos ao mundo.

terça-feira, 27 de abril de 2010

O REFORMADOR DO MUNDO - Monteiro Lobato




Américo Pisca-pisca tinha o hábito de por defeito em todas as coisas.

O mundo para ele estava errado e a natureza só fazia asneiras.

- Asneiras, Américo?

- Pois então?!... Aqui mesmo, neste pomar, você tem a prova disso. Ali está uma jabuticabeira enorme sustentando frutas pequeninas, e lá adiante vejo uma colossal abóbora presa ao caule duma planta rasteira. Não era lógico que fosse justamente o contrário? Se as coisas tivessem de ser reorganizadas por mim, eu trocaria as bolas, passando as jabuticabas para a aboboreira e as abóboras para a jabuticabeira. Não tenho razão?

Assim discorrendo, Américo provou que tudo estava errado e só ele era capaz de dispor com inteligência o mundo.

- Mas o melhor - concluiu - é não pensar nisto e tirar uma soneca à sombra destas árvores, não acha? E Pisca-pisca, pisca-piscando que não acabava mais, estirou-se de papo para cima à sombra da jabuticabeira.

Dormiu. Dormiu e sonhou. Sonhou com o mundo novo, reformado inteirinho pelas suas mãos. Uma beleza!

De repente, no melhor da festa, plaf! uma jabuticaba cai do galho e lhe acerta em cheio no nariz.

Américo desperta de um pulo; pisca, pisca; medita sobre o caso e reconhece, afinal, que o mundo não era tão mal feito assim.

E segue para casa refletindo:

- Que espiga!... Pois não é que se o mundo fosse arrumado por mim a primeira vítima teria sido eu? Eu, Américo Pisca-pisca, morto pela abóbora por mim posta no lugar da jabuticaba? Hum! Deixemo-nos de reformas. Fique tudo como está, que está tudo muito bem.

E Pisca-pisca continuou a piscar pela vida em fora, mas já sem a cisma de corrigir a natureza. 

sexta-feira, 23 de abril de 2010

AULA DE LITERATURA - Charles Kiefer

- O romance epistolar de Goethe, Os sofrimentos do jovem Werther, criou, na Europa, uma impressionante onda de suicídios: centenas de rapazes, depois de sua leitura, seguiram os passos do herói romântico - explicou o professor de literatura, que ilustrava as suas aulas com exemplos semelhantes, para que se tornassem menos enfadonhas.
- O livro era tão ruim assim? - perguntou a aluna.

do livro de crônicas O guardião da floresta.

terça-feira, 20 de abril de 2010

COPA DO MUNDO



Está chegando a Copa do Mundo e não resisto aos convites do meu vício. Adquiro o álbum da Copa para me acompanhar por onde eu for. São figuras repetidas e trocadas com meus amigos, e me envolvo de tal forma no negócio que até pareço “figura”.

Mas não deixei de notar o ridículo dos jogadores quando pousam pra foto. Os franceses, ah os franceses, parecem os mais exibidos. Basta observar como ajeitaram o que lhes serve de pano de fundo do cenário.

Como aeroporto interditado, a Copa retém a minha vida, não importa se a TV mostra os jogos às três da madrugada.

Montei meu altar na sala pra saudar cada Nação que entrar em campo.

Meu coração vai sobrevoar o mapa-múndi, e vai demarcar Capital por Capital com pontos coloridos. Meus sentidos vão tocar cada invenção de meus irmãos que dividem comigo este mundo.

Para não perder a hora terei à mão despertadores e celulares.

Vai ser uma força-tarefa como os trabalhos voluntários em períodos de tragédia.

A memória vai estar afiada para que os craques e heróis jamais sejam esquecidos. Vou lembrar tintim por tintim no bar e corrigir o primeiro mentiroso, não importa se for meu amigo.

Vai começar o jogo, quero todo mundo por perto. Vou ser igual a Jesus, vou dividir e brindar emoções como na Santa Ceia.

INTERVALO

Sou o intervalo



entre um plano


e outro.


Marcador de página


abandonado


no meio


do livro.



Frase sublinhada


num livro qualquer


há muitos anos.



Sou o intervalo


entre um amor que quase veio


e outro que poderia


ter sido.


Intervalo


que não foi combinado


antes de começar o jogo.

domingo, 18 de abril de 2010

desamparados do mundo, uni-vos - Abrão Slavutzky

Alguns artigos que, repentinamente, se oferecem ao nosso olhar e coração, nos depertam de um "sono dogmático" que pode durar dias, meses ou até anos. Foi o que aconteceu comigo ao ler o texto que segue. Por isso, me faço valer do "copiar" + "colar" para reproduzi-lo neste espaço.


Se tivesse que definir os tempos atuais, diria que são tempos de desamparo. Tempos em que crescem a solidão, o vazio, a depressão e diminuem os ideais sociais. É verdade que o desamparo do Homo sapiens, gerado diante das forças de natureza e de enigmas como a morte, foi o motor da construção da civilização. No indivíduo, os desamparos constituem a realidade psíquica, e cada um aprende a enfrentá-los, pois só assim se transforma. Entretanto, tudo indica que nesta modernidade líquida atual, o desamparo cresceu. Diminuiu a solidez das instituições e aumentou a desconfiança e a insegurança. E, ainda, não se pode esquecer do desamparo assustador vivido pela população que está abaixo da linha de pobreza.

O desamparo gera angústia que pode ser traumática. Estar desamparado é se sentir assustado, perdido, é perder o norte. Várias são as situações que geram desamparo: a morte, a separação amorosa, o sentimento de fracasso, a doença, a velhice, a violência. O desamparado, quando não sabe o que fazer de sua vida, pode desenvolver a síndrome do pânico; ou seguir o caminho das drogas, dos vícios em geral, que surgem como salvação ao desamparo. Há também os que buscam a segurança nos diferentes fanatismos, bem como os sofredores crônicos, que suportam a dependência, para não enfrentar o desamparo da liberdade. Os sintomas psíquicos seriam, portanto, uma reação e uma proteção ao desamparo.

Mas o que fazer para aliviar o desamparo? Desconfie das respostas fáceis, mas primeiro é preciso buscar algum tipo de ajuda, de apoio, e esta decisão é, com certeza, meio caminho andado. A criança, por exemplo, enfrenta seu desamparo brincando, pois ao brincar ela reproduz suas experiências aflitivas para, então, dominá-las; as crianças passam, portanto, de situações passivas de sofrimento para sentimentos ativos de domínio. Em minha infância, numa fase difícil de desamparo, tive a felicidade de conhecer Charles Chaplin, que vinha todos os domingos ao bairro Bom Fim. Lembro como ficava espantado e feliz ao ver o incrível Vagabundo, pobre e pequeno, vencendo todos os desafios contra os poderosos. Saía do cinema animado e sabia que voltaria a vê-lo. A arte não cura o desamparo, porque nada cura na verdade, mas alivia, e muito. O mesmo ocorre com o bom humor, que, sendo um sorriso entre lágrimas, diminui o drama da existência trágica do ser.
 Quando um castelo de areia desaba, muitos choram, mas outros juntam a areia para construir outro castelo. Fiz parte do sonho de um mundo com igualdade e sem guerras, guiado pelo famoso lema: “Trabalhadores do mundo inteiro, uni-vos”, que desconhecia a face sombria da humanidade, como a crueldade e a vaidade do poder. O castelo do paraíso ruiu, e outros são erguidos, lentamente, das mais variadas formas, na busca de reinventar o cotidiano junto aos demais. A propósito, há um provérbio em zulu: Umuntu ngumuntu ngabantu – Uma pessoa é uma pessoa por meio das outras pessoas.

* Psicanalista (Zero Hora, 17/04/2010)

terça-feira, 13 de abril de 2010

PEQUENA MISS SUNSHINE

Este filme é surpreendente. Se analisarmos cada personagem em separado, vamos perceber a excentricidade de cada um. Os personagens pertencem a uma família que, visto pelo seu conjunto, é comicamente maluca.

O pai, Richard, esforça-se para vender seu programa motivacional (ironia para com o discurso da auto-ajuda?) para atingir o sucesso. Mas ele fracassa.

Sheryl, a mãe, procura "entrosar" a família. Nesse sentido, acolhe seu irmão junto à casa, um gay deprimido.

Olive, com sete anos de idade, deseja ser rainha de um concurso de beleza para crianças.

Dwayne é um adolescente que gosta de ler Nietzsche, e que fez voto de silêncio até atingir 18 anos e conseguir ingressar na aeronáutica, para ser piloto.

Finalmente, temos o avô, outro maluco que foi expulso de um asilo para idosos, que decide, já na velhice, usar drogas.

A ação do filme se desencadeia quando Olive, a menina, é convidada a participar de um concurso de beleza "Litttle Miss Sunshine" na Califórnia, e toda família embarca numa velha kombi para torcer por ela.

No embalo do mote da auto-ajuda: "O verdadeiro fracassado não é alguém que não vence. O verdadeiro fracassado é aquele que tem tanto medo de não vencer que não chega a tentar", o filme não é previsível nem linear. Mostra os limites do discurso que tanto enfeitiça as pessoas: "Você pode, você consegue!".

É que a auto-ajuda não pode esquecer o contexto onde cada um de nós está inserido, sua cultura, hábitos, medos, desejos, etc., etc.

O sucesso não depende só de nós. Talvez o problema maior sejam os outros, que também desejam vencer.

Nesse sentido, a vida, de um modo geral, não passa de um concurso de beleza, ou de uma grande competição. O problema é que cada um tem que se adaptar às regras desse concurso. E nem sempre elas são justas.

Eis um dos problemas que tornam frágeis as relações. Por isso, é necessária a compreensão e cooperação de cada um de nós, para facilitar e possibilitar o "existir" coletivo.

De qualquer maneira o filme, vencedor do Oscar em 2007, é daqueles que faz rir e pensar. Ou melhor: seu riso é filosófico porque é irônico.

domingo, 11 de abril de 2010

REENCONTRO

Seu olhar
foi suficiente
para o pára-quedas
abrir

e abrandar
a queda livre

bastou seu olhar
para que o pouso
- e o reencontro -
fosse perfeito.

terça-feira, 6 de abril de 2010

O suicídio do amor


A cerca limitava-se a tudo



e o sol espreitava


com a cabeça nas nuvens.






Era final de expediente


e o caminho da tarde


embriagou-se


de chuva.






Apressado


o amor avançava


a cada dois


lances de escada


mas quando chegava no topo


ruía ao chão






ninguém duvidava:


era o suicídio do amor.

domingo, 4 de abril de 2010

Sala de tortura

vamos ter em casa
coleções de mata-moscas.


Nas lojas de zero vírgula noventa e nove
centenas aguardam trabalho.


Os golpes altos e baixos
nos vão purificar
a cada inseto decepado.


Enfim teremos
uma sala
de tortura
em nosso lar.


Torturaremos ex-maridos, ex-mulheres,
ex-isso e aquilo, vizinhas fofoqueiras,
cães, gatos e os funcionários
da prefeitura.


Bateremos sem pudor
tristeza
alegria
ou vergonha


e ficaremos horas a fio
de tocaia em tocaia
atrás dos cantos escuros.


No verão a cidade
vai abrir suas comportas
a procissões de baratas


e ninguém vai querer perder
a novíssima
literatura.


Os Insetos
serão maestros
de todas nossas nóias.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

HAI-KAIS - de Alice Ruiz



Pensar letras
sentir palavras
a alma cheia de dedos

O menino me ensina
como um velho sábio
o quanto sou menina

O avião
apenas vai
quem voa sou eu

O relógio marca
48 horas sem te ver
sei lá quantas para te esquecer

Lembra aquele beijo
corpo alma e mente?
Pois eu esqueci completamente

Sem luto
pelo absoluto

   ab
      so
         luto

Hai-kai:
tomara que caia
o raio

Ia sendo
não fosse entre nós
o extintor de incêndio

Janela que se abre
o gato não sabe
se vai ou voa

Dia que termina
nenhuma pressa
ano que começa

segunda-feira, 29 de março de 2010

Indiferença

Lábios e maxilares
amam a indiferença.

Os degraus da segunda-feira
culpam a terça-feira,
e atalham
o fim-de-semana.

Sou adolescente
refugiado no diário.

Papel de embrulhar presente
peixe enfeitando
o aquário.

A ilusão maquiou
rosto e olhos:
o beijo, o toque,
a presença
incandescente
quando chamar
e enfeitar os cílios.

Desisti de sonhar.
A utopia coça
o meu nariz
e me diz
que todos estão
muitiguais.

sábado, 27 de março de 2010

A INVENÇÃO MÁGICA



Certa vez, um sábio chinês e um gambá ficaram amigos. De tão amigos, um começou a imitar o outro.

Para eles, o que um amigo fazia, o outro também devia fazer.

O gambá queria quebrar seus próprios recordes. E adivinhem só: o recorde mais importante do gambá era ficar muitos, muuuuitos dias sem tomar banho.

Ele era muito preguiçoso. Só não era preguiçoso na hora de jogar bola. E ele usava uma boa desculpa para não tomar banho: economizar água e energia elétrica.


O Sábio Chinês começou a admirar a preguiça do Gambá. Ele pensou:
- também vou economizar água e energia elétrica. Não vou perder meu tempo debaixo do chuveiro. Mamãe Sábia vai elogiar a economia que o seu filho vai fazer!
Assim, decidiu também enforcar o banho. Mas, então, por onde eles passavam, todos reclamavam:


Uma coisa foi pro ar
não é pipa nem avião.
Alguém responda, por favor,
de onde vem este fedor?


O Gambá e o Sábio Chinês precisavam achar uma saída para não ficarem catinguentos e ouvirem piadinhas. Tiveram uma idéia: inventar um perfume que os deixasse beeeem cheirosos!
Aí, o gambá perguntou:
- Mas quem vai inventar o perfume para nós?

A tartaruga, que era amiga deles, deu a seguinte idéia:
- Existe um príncipe, que virou sapo, que conhece a fórmula de uma poção mágica de um perfume... Quem passa o perfume fica cheiroso! Dizem que o príncipe mora numa lagoa perto daqui.

O gambá e o sábio chinês ficaram entusiasmados...
- Vamos aprender com o sapo a fórmula do perfume!
- O perfume vai atrair muitas gamboas e sábias...
- Huuuummmm!... Nunca mais tomaremos banho!... Nunca mais soltaremos fedor!...
- Nunca mais ouviremos piadas!

Eles precisavam encontrar o tal sapo que um dia foi um príncipe.
Bem... sapos gostam de lagoas. E ao norte da cidade havia uma grande lagoa.

O gambá e o sábio embarcaram no táxi do camelo e foram para lá. Para sua surpresa, ao chegarem na lagoa não encontraram apenas um sapo. Havia dezenas de sapos. Centenas. Milhares. Havia três mil sapos!
Era uma lagoa enorme, super-habitada e, ali no meio, apenas um sapo que um dia foi um príncipe...
O gambá perguntou:
- Como saber qual destes sapos é o príncipe, que conhece a poção mágica do perfume?
E o sábio chinês respondeu:
- Ora! Vamos descobrir a frase mágica, dizê-la para o sapo certo, que vai então se transformar num príncipe, e que vai nos ensinar a fazer o perfume.


Os dois amigos foram conversar com os sapos. Todos estavam espreguiçados, tomando banho de sol. Olhavam pra água, olhavam pro sol, e coaxavam:
- Aaaaiiiiii, que sono!... Rooonnnkkkk... Raaaakkkk!... Aiaaaiiii, que sono!... rooonnnkkk, raaaakkkk...

Aí o gambá disse:
- Faremos um teste. Vamos inventar uma frase mágica, e dizer para este sapão, que parece ser o chefe da sapaiada!
- Eu concordo - disse o sábio Chinês - Que tal esta frase:


Fale logo sem demora,
que eu não sou de muito papo...
O que você era, antes de virar sapo?


O sapo - que estava de rooonnnkkk, raaakkk, rooonnnkkk, raaak - continuou do mesmo jeito. Foi uma decepção para os dois amigos, ver aquele bicho preguiçoso não fazer outra coisa senão roncar!

Se aquele sapo não era um príncipe, eles precisavam dizer a frase mágica para cada um dos outros sapos. Faltava perguntar para 2.999 sapos!

Ficaram dois dias dizendo a frase mágica, e nada de sapo virar príncipe! -Rooonnnnkkk, raaaakkk... rooonnnkkk, raaakkk - era só o que ouviam.

Decepcionados, perceberam que, naquela lagoa, não havia príncipe coisa nenhuma!

Cansados, e com aquela roncadeira martelando na cabeça, decidiram voltar para casa.

Ao se distanciarem da lagoa, no meio do bosque, eis que surge, detrás do tronco de uma árvore, alguém fazendo um barulho estranho. Não coaxava como um sapo. Mas ERA um sapo!


Descobriram, então, que aquele bicho fora expulso da lagoa porque cantava de um jeito diferente dos outros sapos!

O sábio chinês e o gambá resolveram, então, testar a frase mágica:


Fale logo, sem demora,
que eu não sou de muito papo...
O que você foi antes de virar sapo?


Houve um clarão e um estouro! Depois que baixou a poeira, surgiu diante de seus olhos um JOVEM CIENTISTA! Que não sabia a fórmula do perfume!... Mas tinha uma coisa muito melhor para oferecer ao gambá e ao sábio chinês: o modelo de um aquecedor solar que servia para esquentar a água e que, em vez de usar a energia elétrica, usava os raios do sol.


E eles podiam fazer o aquecedor em casa, usando materiais recicláveis, como tubos de plástico, garrafas pet e caixas de leite tetra pak.
Depois que fizeram o aquecedor, e a água ficou bem gostosa, o sábio chinês e o gambá não enforcaram mais o banho, nem nos dias de geada!

Não ouviram mais as piadinhas...
E para onde iam as gamboas e as sábias iam atrás, apaixonadas pela sombra deles...

sexta-feira, 26 de março de 2010

quarta-feira, 24 de março de 2010

Areia e espuma - de Gibran Khalil Gibran

Um pensamento deste autor traz luz para encontrarmos alguns possíveis motivos que levam alguém a se submeter a um processo de "bombardeio" ao seu corpo, visando entrar no livro dos recordes. Diz o pensamento:

Não há luta entre o corpo e a alma, a não ser nas mentes daqueles cujas almas estão adormecidas e cujos corpos estão desajustados.

para ajudar a repensar nossas ambições, Gibran nos presenteia com a seguinte parábola:

"Havia num bosque isolado uma bonita violeta que vivia satisfeita com suas companheiras. Certa manhã, ergueu a cabeça, e viu uma rosa que se balançava acima dela, radiante e orgulhosa.

 Gemeu a violeta, dizendo: "Pouca sorte tenho eu entre as flores! Humilde é meu destino! Vivo colada à terra, e não posso erguer a face para o sol, como fazem as rosas..."

A Natureza ouviu e disse: "Que te aconteceu, filhinha? As vãs ambições apoderaram-se de ti?"

"Suplico-te, ó mãe poderosa, disse  a violeta, transforma-me numa rosa, por um dia só que seja."

"Não sabes o que estás pedindo, respondeu a Natureza. Ignoras o que se esconde de infortúnios atrás das aparentes grandezas."

"Transforma-me em rosa, insistiu a violeta, e aceitarei todas as consequências de minhas aspirações e desejos."

A Natureza estendeu sua mão mágica, e a violeta tornou-se uma rosa suntuosa. Na tarde daquele mesmo dia, o céu escureceu, e o vento e a chuva devastaram o bosque. As árvores e as roseiras foram abatidas. Só as humildes violetas escaparam ao massacre. E uma delas, olhando à sua volta, gritou às companheiras: "Olhem e vejam o que a tempestade fez das grandes plantas que se elevam com orgulho e impertinência!"

Disse uma outra: "Vivemos coladas à terra, mas escapamos à fúria dos furacões."

Uma terceira disse: "Somos pequenas e humildes; mas as tempestades nada podem contra nós."

A rainha das violetas viu também a rosa que tinha sido violeta, estendida por terra como morta. E disse: "Vejam e meditem, minhas filhas, sobre o destino da violeta que as ambições embriagaram. Que sua infelicidade lhes sirva de exemplo."

Ouvindo estas palavras, a rosa agonizante agitou-se, e disse, com voz entrecortada:

"Escutai, antes, vós, ignorantes, medíocres, covardes. Ontem, eu era como vós, humilde e satisfeita. Mas a satisfação que me protegia, também me limitava. Podia continuar a viver como vós, colada à terra, até que o inverno me envolvesse na sua neve e me levasse ao silêncio eterno, sem que conhecesse dos segredos e glórias desta vida mais do que as inúmeras gerações de violetas, desde que existem violetas.

Mas escutei no silêncio da noite, e ouvi o mundo superior dizer a este mundo: O alvo da vida é alcançar o que há além da vida. Pedi, então, à Natureza - que nada é senão a materialização de nossos sonhos invisíveis - que me transformasse em rosa. E a Natureza atendeu ao meu desejo.

Vivi uma hora como rosa. Vivi uma hora como rainha. Vi o mundo com os olhos das rosas. Ouvi a melodia de éter com os ouvidos das rosas. Acariciei a luz com as pétalas das rosas. Pode alguma de vós gabar-se desta honra?

Morro, agora, levando na alma o que nenhuma violeta jamais experimentara. Morro, sabendo o que há por trás dos horizontes estreitos onde nasci. É este o alvo da vida."

terça-feira, 23 de março de 2010

MUNDO REAL



Uma neblina
escondeu
o mundo real.

Mulher submete o corpo
a um bombardeio diário
de seis mil e quinhentas calorias
para engordar e engordar
até quebrar recordes.

Quer agarrar a história
ao ser conhecida
como a mulher
mais gorda do mundo.

Seu corpo
é um titanic
que vai naufragar.

O livro do Guiness
vai perpetuar ela no tempo
e lembrar o quanto um ser humano
pode apropriar-se do espaço.

Onde foi parar
a vergonha na cara
do mundo real?

O PATIFE tá enrolando de novo

Quando fui acertar a conta no bar, pendurada nos últimos dias, o bolicheiro não encontrou, no caderno, o meu nome. Ao repassar a longa l...