Mosca de bar


Sou mosca de bar atrás de restos, migalhas e doces companhias. Não suporto ouvir solitárias paredes. Meu alimento são os burburinhos, um copo e outro que se aproxima da boca. Tremem asas quando a bituca do cigarro voa em direção ao limite entre a calçada e o asfalto. Deliro quando acaricio as marcas de batom no copo sobre a mesa. Fico embriagado com os pigarros e a coceira no nariz do cheirador.
Adoro ser mosca de bar. Percebo, mais do que todo mundo, amigos meio altos prometendo além dos limites, desafiando casamentos. Ouço as mais variadas promessas: “Iremos lá em casa comer umas pizzas, tomar umas cevas e tocar violão”. Mosca de bar, além de lamber as gotas de refrigerante e de cerveja derramadas sobre as mesas, adoro ouvir palavrão. “Cu de cachorro” emociona meus ouvidos. Apenas uma mosca de bar se alegra com estas declarações: “Eu era rico. Fui à falência por causa da ex.”. “Amanhã estou solteiro”. Apenas mosca de bar não se ruboriza quando amigos bêbados se abraçam e beijam testas suadas. Mosca de bar não estranha quando um dos amigos do grupo some por alguns minutos e recupera o fôlego depois de uma hipercheirada. Excitado, o maluco quer enfrentar todos os dilemas do mundo.
Ninguém mais percebe as promessas, tentativas e recuos dos carinhas cinquentões cansados do trabalho repetitivo, e nada criativo, e dizem e dizem “Ano que vem largarei tudo, vou dar uma guinada...”. Mas ano que vem já era, e continuam continuam porque logo logo virá o prêmio de consolação, a tão sonhada aposentadoria.
Confesso que muitas vezes não consigo ouvir tudo, dada a imensa quantidade de papos sinceros que vertem lágrimas dos olhos. Adoro Nietzsche e Dostoiévski, minha moradia é o subsolo, como o fazem as baratas, as mais verdadeiras quando iniciam sua noturna missão.


(Diário de B. B. Palermo)

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