Doutor, conheci o Cara!


Algumas vezes, Doutor, quando estou mais pra lá do que pra cá, quer dizer, mais pra loucura do que pra razão, parece que surge uma outra pessoa pra me zoar. Aí, já não sei se estou falando sozinho e em alto e bom som, quando caminho pelas ruas. Não sei se falo para dentro ou para fora. Esse outro prega umas peças, tem linguagem própria. Dia desses ele falou: Estou a dois banhos sem tomar dias. O senhor acha que nessas horas estou delirando? Ele parece que quer confundir a linguagem cotidiana, aquela em que todos estão de acordo. A primeira vez que o Cara! apareceu foi quando me apaixonei por uma garota fake, isso, alguém que não conheci pessoalmente, só pelas redes sociais e watshapp. Quando a história com essa garota começou a desmoronar fiquei muito mal, minha cabeça mergulhou num pântano de irrealidade, então o Cara! começou a falar comigo, debochando, tirando sarro. Me confunde, a ponto de trocar o dia pela noite, o amanhecer pelo anoitecer.
Sabe, Doutor, o que me veio agora é uma relação dessas nóias com alguma poesia e alguns poetas dos anos sessenta e setenta do século XX aqui no Brasil e no mundo. Fizeram o que pode ser chamada de “literatura do lixo”, onde o palavrão foi revalorizado e as relações eróticas foram descritas com natural realismo, sem se preocuparem com o que a sociedade ia dizer. Fazem parte de um movimento chamado de “poesia marginal”, que valoriza o sujo, o lixo, e os poetas eram chamados de “poetas sórdidos”. Já em 1948 Manuel Bandeira vai chamar isso de “Nova poética”:
Vou lançar a teoria do poeta sórdido.
Poeta sórdido:
Aquele em cuja poesia há a marca suja da vida.
Vai um sujeito,
Saí um sujeito de casa com a roupa de brim branco muito bem engomada, e na primeira esquina passa um caminhão, salpica-lhe o paletó ou a calça de uma nódoa de lama:
É a vida.
O poema deve ser como a nódoa no brim:
Fazer o leitor satisfeito de si dar o desespero.
Sei que a poesia é também orvalho.
Mas este fica para as menininhas, as estrelas alfas, as virgens cem por cento e as amadas que envelheceram sem maldade.
Pois é, Doutor, tudo começou ao ler este poema e tomar contato com a poesia marginal. Essa visão sobre a poesia e a vida me impressionou a tal ponto que procuro, além de escrever assim, viver assim.
Os momentos de aparição do Cara! são equivalentes aos momentos do dia que se afastam daquilo que a sociedade considera “normal”. Um exemplo? O sujeito trabalha o dia todo, tem esposa e filhos, vida social ok, reconhecimento público ok, participa das atividades da escola dos filhos ok, compra todas as rifas que puder de entidades beneficentes ok. Mas quando chega a noite ele necessita sair dessa normalidade pois não suporta o peso das convenções sociais, e então, como o vampiro que busca seu alimento vital esgueirando-se pelas ruelas escuras e estreitas, vai ao barzinho da periferia onde terá acesso às buchinhas de pó, à atenção das putas, é paparicado e chamado de “doutor” pelos bêbados e traficantes. Nesse momento sua vida, seu corpo, a respiração, os batimentos, o pulsar do sangue nas veias, tudo tudo ganha novo ritmo, e o sujeito colhe o dia como a planta que precisa do sol. É quando ele sente a necessidade de abraçar árvores, salvar todos os bichos abandonados da cidade, amparar todos os mendigos e velhos depositados nos asilos. O que é paradoxal, Doutor, é que ao mesmo tempo age com um cafajeste, trai a esposa, mente para os filhos, engana os clientes etc. etc. O sujeito de que falo, e o Cara!, Doutor, são paradoxais, nem do bem nem do mal, são apenas caldo (eu quis dizer rescaldo, Doutor?), ou colagem de tantas coisas que vivemos nesse mundo louco. Como diz a música Al Capone, de Raul seixas.


 (Diário de B. B. Palermo)

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