PAUSA - Mário Quintana


Armando Romanelli, Dom Quixote. 1994

No texto abaixo, Mário Quintana nos leva a refletir sobre a poesia. Ler e escrever poesia não é uma perda de tempo? Qual a sua utilidade?
Conhecendo a grandeza da obra do poeta, toda a sua vida dedicada à poesia, sabemos que ela (e todas as artes) não é inútil.
Claro que a poesia hoje, mergulhada numa cultura unidimensional e utilitarista, acaba sendo amada por poucos.
Mas não vamos esquecer, desde a mitologia antiga, que o homem é complexo, e não unilateral (enquanto esfera racional - o Homo Sapiens).
Nós somos, ao mesmo tempo, sábios e loucos (sapiens e demens); faber e ludens (trabalhador e lúdico); economicus e consumans (econômico e consumista); prosaicus e poeticus (prosaico e poético).
Nietzche, no século XIX, retomou dois mitos gregos, o deus Apolo e o deus Dioniso, para enfatizar essa totalidade da dimensão humana. Apolo é o deus da razão. Dioniso é o "outro" (ou contraponto) da razão, e representa a alegria, a espontaneidade, enfim, a poesia. Um complementa o outro.
Nos últimos séculos, com o grande salto da ciência e da técnica, o homem ganhou em racionalidade, mas parece que perdeu em afetividade.
Por isso que lutamos para aumentar o espaço da leitura e da escrita, seja nas escolas, seja nos lares, sejam crianças, jovens e velhos.
Acreditamos que com a poesia, a literatura e a arte como um todo, ganharemos em amizade, solidariedade, imaginação e fantasia.
Assim, avançaremos na direção da harmonia e da paz, e não em direção da guerra.


PAUSA - MÁRIO QUINTANA


Quando pouso os óculos sobre a mesa para uma pausa na leitura de coisas feitas, ou na feitura de minhas próprias coisas, surprendo-me a indagar com que se parecem os óculos sobre a mesa.
Com algum inseto de grandes olhos e negras e longas pernas ou antenas?
Com algum ciclista tombado?
Não, nada disso me contenta ainda. Com que se parecem mesmo?
E sinto que, enquanto eu não puder captar a sua implícita imagem-poema, a inquietação perdurará.
E, enquanto o meu Sancho Pança, cheio de si e de senso comum, declara ao meu Dom Quixote que uns óculos sobre a mesa, além de parecerem apenas uns óculos sobre a mesa, são, de fato, um par de óculos sobre a mesa, fico a pensar qual dos dois - Dom Quixote ou Sancho - vive uma vida mais intensa e portanto mais verdadeira...
E paira no ar o eterno mistério dessa necessidade da recriação das coisas em imagens, para terem mais vida, e da vida em poesia, para ser mais vivida.
Esse enigma, eu o passo a ti, pobre leitor.
E agora?
Por enquanto, ante a atual insolubilidade da coisa, só me resta citar o terrível dilema de Stechetti:
"Io sonno un poeta o sonno un imbecile?"
Alternativa, aliás, extensiva ao leitor de poesia...
A verdade é que a minha atroz função não é resolver e sim propor enigmas, fazer o leitor pensar, e não pensar por ele.
E daí?
- Mas o melhor - pondera-me, com a sua voz pausada, o meu Sancho Pança -, o melhor é repor depressa os óculos no nariz.

Do livro A vaca e o hipogrifo.

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